Flores de Chumbo
Capítulo 22
A dor não conhece os limites das fronteiras
SÃO PAULO
Tinha um mês que nós havíamos mudado para São Paulo, a vida com Augusto era fria e distante, éramos como dois estranhos, tudo que ele queria de mim era que eu lhe desse filhos, então nossa vida sexual era ativa, contudo jamais houve um gesto de carinho, nunca senti prazer, muito pelo contrário, sentia dor, nojo, era algo invasivo, eu me retraía instintivamente, então na maioria das vezes sentia dores insuportáveis.
Nossa casa era uma das mais luxuosas, até mais que a dos meus pais. Cresci no luxo, mas nunca quis ser parte dele. Para Augusto eu tinha menos valor que um de seus quadros ou tapetes importados. Sentia que até nossas mobílias tinham mais valor que eu.
Com pouco tempo de casada comecei a sentir enjoos matinais, tonturas e perceber alterações no corpo. O medo de uma possível gravidez era enorme. Eu não queria crescendo dentro de mim um filho do Augusto, cheguei a procurar uma mulher que vendia poções e ervas para aborto e comprar erva de cohosh negro. Fiz o chá, mas na hora não tive coragem de beber.
Ainda tinha esperança de que fosse engano, mas minha esperança não durou muito, eu realmente estava grávida. Ainda demorei uma semana para contar a Augusto.
Ele ficou numa alegria que eu não imaginava. Paramos de fazer sexo, segundo Augusto poderia machucar o bebê, concordei e fiquei muito feliz com a ideia de não ter aquele homem entrando em mim por um bom tempo.
— Glória, meus pais estão a chegar de Portugal dentro de uma semana. Mamãe vai cuidar para que passes bem e dês a luz a um filho saudável.
— Não há necessidade, sei me cuidar.
— Tu és inexperiente, mamãe há de dizer-te o que fazer.
A minha vida toda tive alguém para me dizer o que fazer, meu pai, minha mãe, marido e agora sogra. Eu não sabia se era possível piorar a situação. Fora que eu não queria ter um filho a não ser se fosse com o Matias, todavia fazia meses que não tinha qualquer notícia. Eu estava corroída, a saudade estava me matando, por diversas vezes pensei em fugir, mas ir para onde? Sobreviver de que? Eu nem sabia se ele ainda estava preso.