Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 28 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 27

 

Sobrevivo das memórias bebidas na fonte das lembranças.

ANO DE 1948 (35 anos depois)

— Então foi isso, Marta. Você não se cansa mesmo de ouvir essa história.

— Já disse que não, vó! Sua história é linda. Estou louca para saber o final.

Marta ouvia atentamente e de vez em quando fazia mais alguma anotação em seu caderno de capa de couro.

—Deixa eu ler isso aí?

Glorinha estendeu a mão para pegar os escritos de Marta, mas ela segurou-os junto ao peito.

— Nada disso! A senhora só vai ler depois de publicado.

— Marta, Marta! A quem será que você puxou?

Marta franziu a testa e fez gestos de ombro fingindo desconhecer suas habilidades com a pena herdadas da avó que já estava em seu sexto romance.

— Está nervosa?

— Nervosa, ansiosa e com medo de que Matias não sinta mais o mesmo por mim. Já estou velha, não sou mais a menininha que ele conheceu.

— Ah! Para de bobagem! A senhora ainda arranca muitos suspiros. Pensa que não vejo? É a viúva mais cobiçada de São Paulo.

— Hum! Pensando bem, acho que você tem razão.

Glorinha e a neta Marta caíram num riso de cumplicidade.

— Falta pouco mais de 1h para chegarmos à estação.

Glorinha falou ao olhar para um enorme relógio em uma das estações.

— Aproveita que ainda temos um tempo nesse trem e me conta mais.

— Mais o que? Você foi quem mais ouviu essa história.

— Conta de quando você fugiu do vô Augusto.

— Tá! Conto. O seu avô passou uma semana sem falar comigo depois que o Fernando, seu pai nasceu. Meu filho ficou sem registro no cartório até próximo ao casamento, quando seus avós o registraram, senão ele ficaria sem a benção do padre.

— Por isso ele não tem o sobrenome igual ao do meu tio, quando pequena eu não entendia isso.

— Augusto passou a beber, virar madrugada na jogatina, quase perdemos tudo, até nossos quadros e tapetes foram levados para pagar dívidas de jogo. Se não fosse papai nos salvar da falência, teríamos perdido tudo. Com um mês de resguardo levei a primeira surra, daí por diante foi quase que diário. Foi quando enviei a carta para Matias me pegar na Estação no Rio de Janeiro. Fugi com Fernando ainda bebê.

— Daí ele não apareceu e a senhora ficou esperando na estação.

— Fiquei desolada, não tinha para onde ir, se voltasse para a casa dos meus pais eles me enviariam de volta. Dormi àquela noite com meu bebê em um banco, estava muito frio. Pela manhã uma senhora me chamou para trabalhar em sua pensão em troca de comida e lugar para dormir.

— Quanto tempo ficou lá?

— Quase cinco meses. No primeiro mês descobri que estava grávida, escondi o máximo que pude. Quando a D. Miranda descobriu me pôs na rua.

— Foi quando a senhora voltou?

Marta de vez enquanto parava para anotar algum detalhe.

— Primeiro tentei me virar, mas não consegui nada. Quem empregaria uma mulher de barriga e ainda com um bebê de colo? Fui para a casa dos seus bisavós. Uma semana depois Augusto apareceu para me buscar, eles o avisaram. A única coisa boa foi que eles liberaram a Bá pra ir embora comigo. Tadinha sofria tanto quando me ouvia apanhar.

— Eu queria muito tê-la conhecido.

— Ela morreu dormindo, bem velhinha. Nessa época sua mãe estava grávida de você, ela ajudou em seu enxoval, não falava em outra coisa. Acordei em uma manhã, fui ao quarto, ela estava com o ar sereno feito um anjo. Aliás, ela foi o meu anjo.

— Que lindo!

Marta ficava encantada com aquela história, parecia sempre que era a primeira vez que ouvia.

— E aí nasceu seu tio, Augusto Jr. A vida dos dois lembrava a de Isaque e Esaú. O Júnior era o queridinho do Augusto. Fernando era o saco de pancadas e alvo de chacota dos dois. Eles se juntavam para atormentá-lo. Colocavam apelidos faziam brincadeiras sem graça. Augusto nunca conseguiu ser pai para o Fernando, via nele o espelho do Matias. Meu filho sofreu muito. Eu tentava defendê-lo, mas sempre pareceu em vão. Acho que por isso ele é um homem tão forte, diferente do Júnior.

Glorinha olhou para fora do trem e ficou com o olhar perdido, como quem buscava na memória lembranças antigas.

— Você ainda o ama, vó?

— Quem?

— Meu vô, Matias.

— O amo como em meus 15 anos. Fui fraca, deveria ter lutado mais pelo que acreditava.

— A senhora não foi fraca, vó! Sua situação era muito difícil.

Marta acarinhou a mão da avó com o rosto.

— Marta querida, a vida deve ser tomada a força, agarrada à unhas se for preciso. Ninguém, mas ninguém tem o direito de nos dizer o que fazer. Está entendendo?

Glorinha queria ter certeza que a neta não cairia no mesmo erro, então esperou até que a menina fez um gesto afirmativo com a cabeça.

— Acho que estamos chegando.

Marta se debruçou na janela admirando a paisagem do Rio de Janeiro.

— Sim, estamos chegando! Estou tremendo de ansiedade.

Glorinha abriu a bolsa, pegou um espelho, ajeitou o cabelo e passou a mão no rosto examinando os desenhos do tempo.

— Calma vó! A senhora causa inveja a muita menina.

— Ah Marta! Por isso que eu te trouxe, com você a viagem fica sempre mais divertida.

Glorinha falou apertando a bochecha da neta e sorrindo largamente. ****

A porta abriu e uma moça veio ao portão. Cabelos à altura da cintura com as pontas em grandes cachos, a pele cor de jambo que realçava-lhe os olhos de jabuticabas.

— Boa tarde! Chamo-me Glória e essa é minha neta, Marta. Há muitos anos morei nessa casa ao lado. Estou à procura de um amigo que morou aqui.

— Quem está aí?

Uma voz macia veio de dentro da casa, logo apareceu na varanda uma mulher de porte altivo, postura elegante, com uma beleza que parecia saída de uma gravura.

— É a senhora Glória com a neta Marta. Estão à procura de um amigo que morou aqui há anos.

Ao ver a mulher e a moça que as atendeu, Glorinha ficou sem chão, não deveria estar ali, Matias constituiu família, ela não tinha o direito de voltar como um fantasma do passado para assombrar sua linda família. Eram os pensamentos que permeavam sua mente.

— Desculpem! Eu não deveria ter vindo.

Glorinha pegou a mão da neta para irem embora e virou-se de costas numa tentativa de esconder as lágrimas que começavam a rolar.

— Esperem! Voltem! Vamos falar sobre o Matias!

Ao ouvir o nome os pés de Glorinha travaram, seu corpo imóvel como estátua permaneceu ali na calçada, estática. Momentos depois as quatro se encontravam sentadas à mesa. O chá era servido. Ouvia-se o som das colheres a mexer o açúcar no fundo nas xícaras, contudo as palavras permaneciam mudas.

— Por que nos chamou de volta?

Finalmente Glorinha teve coragem de perguntar.

— Antes de qualquer coisa deixe-me apresentar, sou a Madalena e essa é a minha filha, Becca. Se possível gostaria que as duas subissem em nos deixassem a sós por um momento.

Marta olhou para a avó que lhe fez um gesto afirmativo com a cabeça. As duas moças pediram licença e deixaram a mesa. Madalena ficou de pé, foi até a janela, abriu um pouco mais a cortina, caminhou de volta à mesa, mas não sentou, parecia que queria tomar coragem para dar início à conversa.

— Qual o motivo da sua vinda?

Madalena olhava fixamente nos olhos de Glorinha com ar inquisidor.

— Já falei, vim ver um velho amigo.

— Amigo? Eu sei muito bem quem é você. Pela descrição eu soube na hora a respeito de quem se tratava. Meu Matias sempre falou muito sobre você.

— Então, se sabe quem sou o porquê da pergunta?

Glorinha começava a irritar-se.

— Você desgraçou a vida do Matias, o trocou por sua vidinha de princesa.

— Vidinha de princesa? Você não sabe do que fala.

Num ímpeto Glorinha levantou-se e as duas ficaram cara a cara.

— A Bela viveu no palácio esses anos todos, só agora resolveu visitar a Fera.

Madalena riu com ar de deboche e raiva.

— Do que você está falando?

Só então Glorinha ficou sabendo das navalhadas no rosto de Matias, das oito cirurgias e que o mandante havia sido Augusto.

— Meu Deus! Eu não fazia ideia. Pensei que ele havia desistido de nós dois.

Glorinha sentiu tontura, Madalena a apoiou para que se sentasse.

— A princípio ele não quis que o visse, se sentia um monstro. Depois das oito cirurgias ele não te procurou por acreditar que você já havia estabelecido a vida. Agora peço que se vá, deixe-o em paz.

— Grata pelo chá.

Glorinha aproximou-se do chapeleiro, um móvel de madeira que estava próximo à entrada e arrumou-se enquanto aguardava Marta.

Deu uma última olhada para a casa que foi palco de seus dias felizes e saíram.