Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 22 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 21

 

Os lençóis têm mais histórias para contar que as páginas de um livro.

COITO

Chegou o momento em que os convidados se foram, o burburinho das conversas silenciou.

Fui para o quarto, troquei-me, pus uma camisola que minha mãe deixou sobre a cadeira e deitei-me em silêncio. Eu desconfiava, mas naquele dia não sabia de fato como aquilo seria devastador para minha alma e perturbador para o resto de minha vida.

Não demorou muito para que Augusto entrasse. A principio tive a ingênua ideia de pensar no Matias. Logo entendi que pensar no homem que eu amava não cabia em um momento tão angustiante. Ainda de pé tirou o cinto, arriou a calça, levantou minha camisola, puxou a calçola que eu usava e me invadiu como um touro. A dor era tamanha, tive vontade de gritar. Ele abafou minha boca com uma de suas mãos e por alguns instantes pensei que iria morrer. A dor física não era menor que a dor que sentia por dentro. Tentei me debater para que ele saísse, mas foi em vão, sua força em nada se comparava com a minha. Augusto empurrava seu membro violentamente sem se importar com o que eu sentia naquela situação humilhante. Até que senti jorrar lá dentro um jato quente. Só então ele parou e deitou de costas. Senti ânsias de vômito, puxei rapidamente o urinol que ficava debaixo da cama e vomitei. Solucei durante toda a noite enquanto sentia o sangue que escorria entre minhas coxas. Desde aquele dia nunca mais me senti limpa. Fui inúmeras vezes estuprada pelo monstro. Por mais que me esfregasse no banho, a sujeira do porco em mim parecia não sair. Ainda hoje tenho pesadelos com os estupros que sofri pelo verme covarde.

Quando o dia clareou minha mãe foi ao quarto. [17]Ao ver o sangue no lençol deu um sorriso mostrando sua satisfação. Recolheu-o e levou-o para o meu pai. Eu nunca consegui entender como aquilo poderia ser chamado de puro, de imaculado.

Sentamo-nos à mesa para o almoço, meus pais estavam com um ar alegre. Acredito que o lençol manchado de sangue tenha tirado um peso de seus ombros.

— Nós iremos morar em São Paulo.

Anunciou Augusto para nossa surpresa.

— Ora, pois! Mas como morar em São Paulo se a compra da casa aqui já está em fase final?

Meu pai não gostou muito da ideia, muito menos eu. E agora? Como faria para ter notícias de Matias? Quando ele saísse da cadeia como me encontraria? Eram tantos questionamentos, eu tentava descobrir uma saída, mas nada vinha à mente.

— O Facto é que em São Paulo tenho mais contatos de negócios, Sr. Ulisses.

Na verdade o que fez Augusto querer ir para longe havia sido o bilhete que ele leu do Matias. Ele queria tirar-me totalmente seu alcance.

— Bem, se este é o motivo terei de concordar.

Meu pai enrolava o bigode como quem estava pensando no assunto.

— Ontem na festa tratei com o Sr. João Tenório de comprar uma casa que ele tinha à venda. Ele irá enviar-me a papelada para assinar na próxima semana.

— Ora, pois! Como compraste uma casa sem ver antes?

Augusto ficou sem resposta, fez apenas um gesto com a cabeça. Ele era um homem de negócios, jamais faria nada no escuro como a compra dessa casa, mas a pressa de tirar-me de perto de Matias fez com que ele quebrasse suas próprias regras.

— Não quero ficar longe de meus pais! — gritei no desespero da hora.

— Não tens escolha querida, quem sabe o que é melhor para ti agora, sou eu, seu esposo.

Na delegacia D. Matilde chega para visitar Matias.

— Então, pensou na minha proposta? — pergunta Xavier.

— Vim visitar meu filho, apenas isso. Hoje é domingo, dia de visita, não é?

— Sabe que posso barrar sua visita senhora, não sabe?

— Mas o senhor falou que domingo é dia de visitas.

— Sabe como é cadeia, muita gente, às vezes não conseguimos evitar as brigas.

— Aconteceu alguma coisa com meu filho, delegado?

— A senhora sabe madame, quanto mais tempo seu filho passar aqui, mais complicado fica, o risco aumenta.

— Eu quero ver meu filho, me deixa ver meu filho, delegado!

— Calma senhora, calma! A senhora pode não suportar o que vai ver.

— O senhor está me deixando nervosa, delegado. Eu quero ver meu filho! Deixa eu ver o Matias!

— Está bem, mas não vai dizer que não avisei.

Na cela húmida, fedorenta e superlotada, o carcereiro pega Matias e leva para uma sala a fim de receber a visita da mãe.

D. Matilde abraça Matias que reclama de dores ao ser abraçado.

— O que fizeram com você meu filho?

— Nada mãe, é a vida na cadeia.

— Está todo machucado, o que aconteceu?

— Já disse mãe, avida na cadeia é dura, é assim mesmo, tenho sorte de estar vivo.

— Tenho que tirar você daqui meu filho!

— Entregou a carta a Glorinha, mãe?

— Entreguei.

— E então, ela vem me visitar?

— Não filho, ela não pode.

— Dê ajuda a Glorinha, mãe.

— Não posso filho, ela se casou.

— Eu sei, mas o maldito não fica em casa o dia inteiro.

— Eles vão se mudar, filho.

— Vão sair de Ipanema?

— Vão.

— O maldito quer tirar Glorinha do bairro.

— Eles vão para São Paulo, Matias.

— São Paulo? Ele deve ter achado o bilhete.

— Esquece essa menina, Matias. Ela agora está casada.

— Não posso mãe.

— Vou dar um jeito de te tirar daqui filho, você vai conhecer outra moça.

— Eu não quero outra moça, a senhora não entende, eu amo a Glorinha, ela é a mulher da minha vida.

****

Mais tarde na delegacia, Xavier conversa com Augusto:

— Então delegado, está colocando o negrinho no lugar dele?

— Todos os dias nós damos uns corretivos para pensar na burrada que fez.

— Ótimo delegado! Seus belos serviços estão sendo apreciados com muito gosto.

— O senhor é muito generoso doutor.

— Como sei que tu és muito dedicado quero entregar-lhe essas chaves.

— Que chaves são essas, doutor?

— Chaves da sua nova casa, delegado.

— Como assim?

— Chega de subúrbio, delegado! De agora em diante o senhor vai morar em Copacabana.

— Mas doutor, o que vou ter que fazer para merecer um presente desses? Quer que eu mate o negrinho?

— Quem está a dizer que tens que fazer alguma coisa para ganhar um presente de um amigo? Jamais desejei a morte desse jovem.

— Então, qual o favor que o senhor quer?

Augusto se aproxima de Xavier e fala baixo ao pé do ouvido:

— Quero que marque-lhe a cara, o quero deformado. Que fique de um jeito que minha senhora vomite ao ver a cara do mentecapto.

— Mas doutor…

— Que mas? Que mas é esse, Xavier? Encarcere algum desses pederastas que tu conheces. Esses que andam com navalhas e marque a cara desse crioulo. Porém deixe-me ir para São Paulo primeiro.

— Se vai para tão longe, porque quer marcá-lo?

— Posso ter que vir visitar meus sogros, Glorinha pode cruzar com esse mequetrefe, e além do mais essa gente tem que ser marcada, só entendem seu verdadeiro lugar ao serem tratados como gado.