Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 18 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 17

 

Meu corpo ancorado ao porto desejou segurar-se ao vento.

IDA AO PORTO

Acordei com a Bá no quarto abrindo as cortinas, minha cabeça estourava de dor, mal tinha dormido.

—Feche a cortina Bá, minha cabeça está doendo demais.

— D. Eva pediu pra acordar vosmecê, o Sr. Augusto chega hoje, ela e Dotô Ulisses vão buscar ele e disseram que a menina vai também.

— Era só o que me faltava, quando penso que já sofri de tudo a coisa consegue piorar.

— Não demora Glorinha, o Dotô Ulisses já tá de mal humor.

— E quando ele não está Bá? Quando é que ele não está?

Falei e repeti já me levantando e me metendo em um vestido. Ajeitei os cabelos e desci.

— Aonde a senhorita pensa que vai desse jeito?

Minha mãe falou quando me viu aparecer no alto da escada.

— Desse jeito como?

— Você está horrível, não se arrumou, não colocou uma cor nessas bochechas, colocou esse vestido velho que eu já disse pra jogar fora. É a primeira vez que seu noivo vai te ver depois de adulta. Você não vai aparecer assim. Ah! Não vai mesmo!

Minha mãe parecia irritada.

—Ele tem que me conhecer do jeito que sou não quero ficar me emperiquitando.

—Glória Almeida Feitosa, volta agora para o seu quarto e se arrume, não vou repetir e não se demore.

Ela não estava pra brincadeira, a chegada de Augusto havia mexido com os nervos de minha mãe.

Voltei para o quarto, com a ajuda da Bá coloquei um espartilho, um vestido rosa que minha mãe gostava, soltei algumas mechas de cabelos que estavam presos em um coque, passei um pouco de rouge nas maçãs do rosto e coloquei um chapéu de passeio.

— Pronto! Assim estou bem pra venda?

Falei em tom debochado descendo as escadas.

— Só não meto a mão na tua cara porque o Augusto Noronha está a esperar-nos.

Meu pai falou já dando as costas pra sair, entramos no carro e fomos para o porto.

O Navio atrasou trinta minutos, meus pais já não se aguentavam de ansiedade. Por fim, atracou. Ficamos a aguardar no porto. Todos desciam do navio, mas nada do Augusto. Eu já estava ficando com alguma esperança quando um homem alto, cabelos pretos com alguns fios branco e barba farta apareceu na rampa do navio. Estava muito bem vestido usando um terno azul marinho. Veio aproximando-se de nós.

— Bom dia! É um imenso prazer revê-los.

Augusto Noronha cumprimentou-nos retirando o chapéu e fazendo uma reverência.

— Bom dia, Sr. Augusto! Fizeste boa viagem?

Meu pai foi tão cordial, quase esboçou um sorriso, isso era uma raridade.

— Sim! Sim, na medida do possível. Viagens distantes assim são sempre bastante cansativas por mais conforto que venhamos a ter.

— O Senhor será muito bem vindo a nossa casa.

Mamãe falou animada empurrando-me discretamente para cumprimenta-lo.

— Pois agradeço, mas não sei se seria de bom tom abrigar-me debaixo do mesmo teto de minha noiva.

— Podes ter razão Sr. Augusto, é bom fugirmos da má aparência, minha filha Glória é moça de família.

Meu pai falou como se evitar as más línguas fosse à coisa mais importante do mundo, aquela conversa já estava me causando náusea.

— Como tem passado, Glória? Tu estás muito formosa, minha noiva.

Augusto beijou-me a mão demonstrando gentileza, talvez apenas por bons costumes.

— Bem.

Foi a única palavra que falei. Meus pais me olharam em reprovação.

— Isso é apenas timidez, após as duas semanas que o senhor fizer-lhe a corte a nossa Glorinha estará mais falante.

Meu pai tentou justificar-me diante de Augusto.

Fomos para nossa casa, o Augusto era o convidado de honra. Pela primeira vez vi um almoço animado em nossa casa, a única que permanecia em silêncio era eu. Foi falado de tudo um pouco, dos negócios, da viagem, da vida em Portugal, política, enfim, de tudo um pouco.

— Como anda o movimento das Sufragistas na Europa, meu caro Sr. Augusto? [14] Estive a ler que elas apanham, são presas, mas continuam a insistir nessa insanidade.

— Em nossa terra o movimento foi impedido pelo regime republicano, contudo no restante da Europa anda a fortalecer-se. Juntaram-se ao movimento operário. Onde já se viu mulher ter direito a voto?!

— As mulheres já são muito bem representadas por seus pais, irmãos e maridos. Não deviam estar a querer envolver-se em questões que não são para elas. Concorda querida?

Meu pai virou-se e dirigiu a pergunta a minha mãe.

— Sim! Claro!

Ela respondeu sorrindo. Não sei se eu era a louca, ou a única sensata ali naquela mesa. Acho que só eu enxergava a tristeza estampada em seu sorriso.

— O meu sogro que é um homem feliz. Tens uma esposa sensata.

— Pois tens razão, fui abençoado. Estou a esperar que essa moda não chegue a cá. Seria uma desgraça para o desenvolvimento.

— Não só o desenvolvimento. Uma vez concedido o voto, será impossível pará-las.

— Ora, pois!

— Caso venhamos a ceder, irão querer participar até mesmo do parlamento. Meu sogro já imaginou uma mulher juíza, ou ministra? Será a perda da estrutura social.

— Tens razão Sr. Augusto. Será constrangedor para um homem chegar a seu lar e não ser recebido por sua esposa, elas hão de sentir-se nos mesmos direitos que nós.

— Pensa, uma mulher a tirar a vaga de um homem. É inconcebível! Mas, deixemos um pouco de falar dessas coisas, vamos a algo mais importante.

Augusto enfiou a mão no bolso e tirou um anel.

— Gostaria de agora oficializar nosso noivado. Sr. Ulisses Feitosa, o senhor me concede a mão de sua filha?

Ele segurou minha mão e olhou para o meu pai para fazer o pedido.

— Com muito gosto, Sr. Augusto.

Meu pai respondeu cheio de formalidades. O Augusto então colocou o anel em meu dedo. Eu nem consegui olhar, virei o rosto.

— Com a autorização dos senhores gostaria de vir visitá-los nos fins de tarde para fazer a corte à minha noiva.

— Será um prazer recebê-lo.[15]

Meu pai respondeu-lhe e minha mãe fez que sim com a cabeça e um meio sorriso.

— Minha noiva está tão calada. Dê sua opinião, minha querida!

— Opinião? Eu? Eu nunca tive direito a dizer o que penso. Não tenho nem direito a voto. Ninguém me perguntou o que acho de me casar com um homem que não conheço. Aceitar foi a única opção que me deram. Quer mesmo que fale agora? Você sabia que amo outro? Sabe que está preso injustamente só para me impedir de fugir com ele?

Eu fiquei de pé e falei essas coisas olhando nos olhos de Augusto e com os dois punhos sobre a mesa. Foi um transbordamento de tudo que estava me sufocando. Percebi então que eu estava me transformando em uma mulher mais forte.

Meu pai parecia que ia explodir a qualquer momento, seu rosto ficou da cor de um morango prestes a apodrecer, minha mãe começou a se abanar e colocou a mão no coração como se fosse enfartar a qualquer momento, já o Augusto permaneceu frio, ainda esboçou um sorriso.

— Glória, suba agora!

Meu pai falou em um tom firme, mas não chegou a gritar, a presença da visita o fez engolir seu destempero.

— Com licença.

Fiz um gesto de cabeça em um cumprimento formal e retirei-me da mesa.

— Não se preocupem, são os arroubos da juventude, com o tempo há de passar, uns corretivos hão de acertar as arestas da menina. Ela é como uma potranca chucra, precisa ser domada por um marido de pulso firme.

Augusto permaneceu frio, aquela atitude me fez ficar mais intrigada ainda. Quem em uma situação daquela ficaria tão calmo? Quem ao ouvir que a noiva ama outro permaneceria com o mesmo semblante sem expressar reação?

Faltavam quase dois meses para o casamento, fui para o meu quarto pensar em uma maneira de trilhar meu próprio caminho, ser senhora de minha própria história, mas nada vinha à cabeça.

Será que existia destino e aquele era o meu? Eu queria estar ao lado de Matias, ao seu lado a liberdade me prendia sem correntes. Eu estava cansada, minhas asas já não suportavam tanto peso.