Flores de Chumbo

Aj Tolissano e Elis Barroso · Capítulo 16 de 30

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Flores de Chumbo

Capítulo 15

 

Os lanhos na carne cicatrizam, as feridas na alma podem durar toda uma vida.

PIOR QUE SURRA

Entrei em casa sendo puxada pelo braço pelas fortes mãos do meu pai. Ele puxou o cinto, dobrou e quando levantou o braço para me bater minha mãe segurou.

— Não, Ulisses! O casamento está próximo, ela não pode entrar na igreja todo marcada, já pensou o que as pessoas diriam? Vai fermentar ainda mais os boatos.

Minha mãe interveio não em minha defesa, mas a favor de manter a família fora de escândalos. Lentamente ele baixou o braço como quem analisava as palavras dela.

— Alguma coisa deve ser feita, essa sua filha não pode ficar sem corretivo.

Como se meu grande amor preso e estar prestes a casar com um estranho não fossem castigos suficientes para toda uma vida.

— Tire a pintura, e esse caderno de bobagens que é o que ela mais gosta de fazer.

Minha mãe sugeriu. Ela soube direitinho como me ferir, eu preferia mil vezes as dores do cinto me lanhando a pele.

Imediatamente ele subiu e lá de baixo eu podia ouvir o barulho dos meus adorados quadros sendo quebrados. A cada barulho de quadro quebrado uma rachadura era aberta aqui dentro.

Subi para ver o estrago, não sobrou nenhum dos quadros e os pinceis importados que Matias havia me dado de presente nos meus 15 anos estavam todos partidos. Não me contive, naquele dia desacreditei da raça humana e cheguei a duvidar do próprio Deus, não era possível que Ele não estivesse vendo toda aquela injustiça, o ódio vencendo o amor, o bem sendo pisado pelo mal.

Fiquei deitada ali mesmo no chão do quarto, acariciando uma de minhas telas rasgadas e com as lágrimas a escorrerem silenciosas. Senti uma mão a acariciar meus cabelos, era a Bá, a única que me entendia, que se importava com o que eu sentia, a única criatura daquela casa que não me condenava.

—Toma aqui! Bebe um pouco de água com açúcar, há de se sentir melhor. A gente colhe o que planta minha menina, essa maldade há de ser vista por nosso Senhor.

Sentei-me, peguei o copo de sua mão e bebi. Aquilo era mais do que água com açúcar, ela estava me dando a beber de seu amor. Naquele momento mais que em todos os outros desejei ter nascido de seu ventre. Quem sabe até morar em uma casinha numa vila qualquer aonde eu pudesse ser eu mesma.

— Bá, como eles descobriram?

— Hoje cedo ouvi a D. Eva dizer que ontem ligaram da estação. Seu pai deixou o Sr.João, o bilheteiro de avisado de que se o Matias ou você comprasse passagem que era pra avisar que receberia uma recompensa.

— Que velho desgraçado! Fofoqueiro. Tá vendo Bá, se a senhora não tivesse medo de falar no telefone, poderia ter atendido e agora eu não passaria por isso.

— Ah minha filha! Isso parece coisa do Demo. Nunca vou entender como esse negócio trás a voz da pessoa que tá tão longe. Não coloco a mão nisso não.

— Ah Bá! Só a senhora mesmo.

Esse foi o único momento do dia que consegui dar um sorriso, mesmo que entre lágrimas.