Fundamentos de patologia
Capítulo 7 | Distúrbios Hemodinâmicos
Distúrbios Hemodinâmicos
Sumário do Capítulo
Circulação Normal
Distúrbios de Perfusão
Hiperemia
Hemorragia
Trombose
Trombose no Sistema Arterial
Trombose no Coração
Trombose no Sistema Venoso
Embolia
Tromboembolia Arterial Pulmonar
Tromboembolia Sistêmica
Infarto
Patogenia
Patologia
Edema
Edema da Insuficiência Cardíaca Congestiva
Edema Pulmonar
Edema na Cirrose do Fígado
Edema e a Síndrome Nefrótica
Edema Cerebral
Acúmulo de Líquido nas Cavidades Corporais
Perda e Sobrecarga de Líquido
Choque
Patogenia
Tipos de Choque
Choque Séptico e Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica
Síndrome da Disfunção Múltipla de Órgãos como Estágio Terminal do
Choque
Circulação Normal
O sistema circulatório tem dois componentes funcionais, o sistema vascular
sangüíneo e o sistema linfático. O sistema vascular sangüíneo é um circuito
composto de uma bomba muscular (o coração) ligada a vasos que, ou liberam
sangue para os órgãos e tecidos do corpo ou retornam o sangue ao coração
para completar o circuito. Por outro lado, o sistema linfático é um sistema de
drenagem passiva para o retorno de líquido extravascular (linfa) em excesso
para o sistema vascular sangüíneo.
Distúrbios de Perfusão
Hiperemia
A hiperemia é o excesso de sangue nos capilares e pequenos vasos de um
órgão.
Hiperemia Ativa A hiperemia ativa decorre de aumento do suprimento de sangue a partir do
sistema arterial, causado por dilatação arteriolar e recrutamento de mais
capilares. Pode ser causada por aumento da demanda funcional do coração e
dos músculos durante exercícios físicos, ou pode ocorrer associada a
inflamação, acompanhada por aumento da permeabilidade capilar e edema.
Hiperemia Passiva
Essa congestão decorre de um impedimento à saída de sangue através das vias
venosas. Pode ser aguda ou crônica. A congestão passiva aguda resulta em
ingurgitamento venoso levando ao acúmulo de transudato nos tecidos (edema
intersticial). A hiperemia passiva crônica, que quase sempre deve-se a
insuficiência cardíaca esquerda ou a estenose mitral, resulta em fluxo
sangüíneo mais lento para diversos órgãos, como pulmões, fígado e baço. A
hiperemia passiva crônica manifesta-se das seguintes maneiras:
• Pulmões: O aumento da pressão nos capilares alveolares pode causar três
alterações possíveis: (a) microemorragias nos alvéolos, que liberam
hemácias que são então fagocitadas pelas “células da insuficiência
cardíaca” (macrófagos repletos de produtos de degradação da
hemoglobina); (b) edema pulmonar decorrente de acúmulo de transudato
nos alvéolos; (c) fibroses contendo restos de macrófagos no interstício
pulmonar (induração parda).
• Fígado: As veias hepáticas desembocam na veia cava inferior, tornando o
fígado particularmente vulnerável a congestão passiva; a congestão resulta
em dilatação de veias hepáticas centrais e sinusóides e atrofia de hepatócitos
centrolobulares; devido a essas alterações, um corte do fígado revelará um
aspecto sarapintado (fígado em noz moscada).
• Baço: A pressão elevada da veia esplênica pode acarretar congestão e
aumento do baço com fibroses difusas e focos calcificados de hemorragia
anterior.
Hemorragia
Hemorragia é o escape de sangue da circulação para os tecidos circunvizinhos
ou para o exterior do corpo. Pode ser causada por traumatismo acidental
procedimentos cirúrgicos, aterosclerose, ruptura de aneurisma, infecção, ou
erosão de paredes de vasos por uma neoplasia. Os tipos de hemorragia
incluem:
• Hematoma; a hemorragia para o interior de tecido mole pode ser de pouca
importância (como em uma contusão muscular) ou fatal (se localizada no
cérebro)
• Hemotórax; hemorragia para o interior da cavidade pleural
• Hemopericárdio; hemorragia para o interior do espaço pericárdico
• Hemoperitônio; hemorragia para o interior da cavidade peritoneal
• Hemartrose; sangramento para o interior de um espaço articular
• Púrpura; hemorragia superficial difusa na pele, até 1 cm de diâmetro
• Equimose; hemorragia superficial maior (> 1-2 cm) na pele; pode gerar uma
marca “preto-azulada”, refletindo alteração da cor da pele pelos produtos da
degradação do heme, decorrente da liberação de hemoglobina das hemácias
• Petéquias; hemorragias puntiformes, em geral na pele ou na conjuntiva
representam o rompimento de capilares ou arteríolas e podem ocorre
associadas a coagulopatias ou vasculite
Trombose
A trombose refere-se à formação de um trombo — um agregado de sangue
coagulado com plaquetas, fibrina e elementos celulares aprisionados no
interior da luz de um vaso sangüíneo. As diferenças entre trombo, coágulo
sangüíneo e hematoma são:
• Trombo: Adere-se ao endotélio vascular
• Coágulo sangüíneo: Reflete o resultado da ativação da cascata da
coagulação; pode se formar in vitro ou in situ no estado pós-mortem
• Hematoma: Decorre de hemorragia e subseqüente coagulação fora do
sistema vascular
A formação de trombo e a cascata de coagulação são discutidas com mais
detalhes nos Caps. 10 e 20. Esta seção apresenta as causas e conseqüências da
trombose em diferentes localizações.
Trombose no Sistema Arterial
No sistema arterial, em geral a trombose deve-se a aterosclerose. Os vasos
mais freqüentemente envolvidos são as artérias coronárias, cerebrais
mesentéricas e renais, além das artérias nos membros inferiores.
Patogenia A patogenia envolve três fatores, conhecidos como Tríade de Virchow:
1.Lesão do endotélio com agregação plaquetária e formação de fibrina
2.Alterações no fluxo sangüíneo devido a turbulência ou em pontos de
ramificação dos vasos
3.Aumento da coagulabilidade do sangue, como na policitemia vera ou
associada a alguns cânceres
Patologia
Inicialmente, o trombo arterial é macio, friável e vermelho-escuro com estrias
de coloração mais clara formadas por plaquetas, leucócitos e fibrina (linhas de
Zahn). Quando um trombo se forma, pode ter diversos desfechos. Pode sofre
lise por atividade fibrinolítica, pode aumentar de tamanho, pode ser invadido
por tecido conjuntivo e tornar-se mais firme ou pode se deslocar e alojar-se em
um vaso mais distante (embolização, discutida adiante). Ocasionalmente, as
células endoteliais que revestem a artéria proliferarão e penetrarão no trombo
formando canais minúsculos através dele (um processo denominado
canalização).
Manifestações Clínicas
A trombose arterial decorrente de aterosclerose é a causa mais comum de
morte em países ocidentais industrializados. Quando os trombos ocluem uma
artéria, com freqüência provocam necrose isquêmica do tecido alimentado por
tal artéria (ou seja, um infarto).
Trombose no Coração
O revestimento interno do coração, endocárdio, é análogo ao endotélio, o
revestimento interno das artérias; por conseguinte, como nos vasos
sangüíneos, uma lesão do revestimento e alterações no fluxo sangüíneo estão
associadas a trombose mural (um trombo aderido à parede subjacente do
coração).
Distúrbios como infarto do miocárdio, fibrilação atrial ou miocardiopatia
estão associados a trombos murais. A endocardite com infecção bacteriana das
valvas cardíacas pode causar o desenvolvimento de pequenos trombos
(vegetações). Nos pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES) ou com
doença debilitante crônica, podem-se formar vegetações valvares mesmo sem
infecção.
Trombose no Sistema Venoso
A manifestação mais comum da trombose venosa é a trombose das veias
profundas das pernas, denominada trombose venosa profunda.
Patogenia e Patologia
Os mesmos fatores que predispõem a trombose arterial e cardíaca provocam
trombose venosa profunda, a saber, estase, lesão e hipercoagulabilidade. Idade
avançada e doença falciforme também podem contribuir para o
desenvolvimento de trombose venosa profunda. Os desfechos potenciais de
trombos venosos são semelhantes aos dos trombos arteriais.
Manifestações Clínicas
A trombose oclusiva de veias ileofemorais pode causar edema e cianose do
membro inferior. A trombose de veias mesentéricas pode causar infarto
hemorrágico do intestino delgado. A trombose de veias cerebrais pode ser
fatal, enquanto a trombose de veias hepáticas (síndrome de Budd-Chiari) pode
destruir o fígado.
Embolia
Embolia é a passagem, através da circulação, de material capaz de se alojar em
um vaso sangüíneo e obstruir sua luz. A maior parte dos êmbolos tem origem
em um trombo formado em uma localização e que se desloca até um ponto
distante. Esse fenômeno é denominado tromboêmbolo.
Tromboembolia Arterial Pulmonar
A embolia pulmonar ocorre em 1 a 2% dos pacientes com mais de 40 anos de
idade no período pós-cirúrgico. A maioria das embolias pulmonares deriva de
veias profundas do membro inferior, enquanto a maioria das embolias fatais
tem origem nas veias ileofemorais. A embolia pulmonar aguda é dividida nas
seguintes síndromes:
• Pequenos êmbolos pulmonares assintomáticos
• Falta de ar (dispnéia) transitória e respiração rápida (taquipnéia) sem outros
sintomas
• Infarto pulmonar, com dor torácica pleurítica, tosse produzindo sangue
(hemoptise) e derrame pleural
• Colapso cardiovascular com morte súbita
Embolia Pulmonar Maciça
A embolia pulmonar maciça é a causa mais comum de morte após cirurgia
ortopédica grande. Também é comum em pacientes submetidos a imobilização
prolongada por qualquer razão. Um êmbolo pulmonar grande pode se alojar na
ramificação da artéria pulmonar principal, obstruindo o fluxo sangüíneo aos
dois pulmões e o fluxo de saída do ventrículo direito. Esse fenômeno pode
causar hipotensão grave e morte.
Embolia Pulmonar com e sem Infarto
O infarto pulmonar é uma consolidação hemorrágica em uma área do pulmão
Decorre do alojamento de pequenos êmbolos em ramos periféricos da artéria
pulmonar. O infarto é hemorrágico porque a artéria brônquica não obstruída
bombeia sangue para a área. Com o decorrer do tempo, o sangue no infarto
pode ser reabsorvido, tecido de granulação pode se formar nas margens e uma
cicatriz fibrosa será formada.
Como o pulmão tem dupla circulação, alimentado tanto pela artéria
pulmonar quanto pela artéria brônquica, 75% dos êmbolos pequenos não
produzem infartos devido ao desenvolvimento de circulação colateral. Em
casos raros, êmbolos pulmonares recorrentes produzem hipertensão pulmonar
devido a vasoconstrição e constrição brônquica decorrente da liberação de
substâncias vasoativas próximo ao local dos êmbolos. Pequenos êmbolos
pulmonares podem sofrer cura completa, ou podem se tornar organizados e
deixar estrias de tecido fibroso aderidas à parede interna de ramos da artéria
pulmonar.
Tromboembolia Sistêmica
O coração é a fonte mais comum de tromboêmbolos arteriais, que geralmente
originam-se em trombos murais ou valvas doentes. Os tromboêmbolos podem
se transformar em uma obstrução mais grave, ou podem sofrer fragmentação e
lise. Os órgãos que sofrem a maioria dos tromboêmbolos arteriais são:
• Cérebro: Êmbolos provocam necrose isquêmica do tecido cerebra
(derrames ou AVCs).
• Intestino: Êmbolos mesentéricos provocam infarto intestinal; o abdome
agudo subseqüente deve ser operado imediatamente.
• de pulsos e membro frio. Membro inferior: A embolia de uma artéria da perna provoca dor, ausência
• Rim: Embolia da artéria renal pode provocar infarto de todo o rim.
Embolia Gasosa
O ar pode ser introduzido nas veias por feridas no pescoço ou em decorrência
de procedimentos invasivos. Bolhas de ar de 100 ml ou mais podem obstruir o
fluxo sangüíneo e provocar isquemia.
• Doença da descompressão (mal dos mergulhadores): Quando os
mergulhadores descem até uma profundidade submarina significativa
grandes quantidades de nitrogênio dissolvem-se nos líquidos corporais; a
seguir o gás é expirado durante a ascensão. Entretanto, se a subida for muito
rápida, formar-se-ão bolhas de gás no sangue e nos tecidos, obstruindo o
fluxo sangüíneo e lesando células (embolia gasosa). O envolvimento de
vasos sangüíneos cerebrais pode ser grave o suficiente a ponto de provocar
coma ou morte.
• Doença do caixão: Essa complicação ocorria entre trabalhadores de
construção de pontes e túneis em sinos de mergulhador (caixões). A
enfermidade refere-se à doença da descompressão na qual a obstrução
vascular provoca múltiplos focos de necrose isquêmica, principalmente no
osso.
Embolia de Líquido Amniótico
Este tipo de embolia é uma complicação rara, porém séria, do parto e refere-se
à entrada na circulação materna de líquido amniótico contendo células e
resíduos fetais. O distúrbio pode causar êmbolos pulmonares na mãe, bem
como coagulopatia decorrente da alta atividade de tromboplastina do líquido
amniótico. As manifestações clínicas da embolia de líquido amniótico podem
ser catastróficas, com início súbito de cianose e choque, sucedidos por coma e
morte.
Embolia Gordurosa
A embolia gordurosa descreve a liberação de êmbolos de medula óssea
gordurosa no interior de vasos sangüíneos lesados após traumatismo grave em
tecido que contém gordura, particularmente fratura de ossos longos. Em sua
forma mais intensa, essa síndrome caracteriza-se por insuficiência respiratória alterações mentais, trombocitopenia e petéquias disseminadas. Alguns
aspectos da síndrome da embolia gordurosa ainda não são bem
compreendidos, e persistem as discussões sobre sua etiologia e fisiopatologia.
Infarto
Patogenia
O infarto é definido como o processo pelo qual desenvolve-se necrose de
coagulação na área distal à oclusão do suprimento arterial. Em geral, trombos
ou êmbolos são responsáveis pela oclusão. A zona necrótica isquêmica é
denominada infarto.
Patologia
O aspecto macroscópico e o microscópico de um infarto dependem de sua
localização e idade. Diversos tipos de infarto são distinguíveis a olho nu.
• Infartos pálidos: típicos no coração, nos rins e no baço. Nesses órgãos
artérias terminais alimentam áreas específicas com pouca ou nenhuma
sobreposição (ou seja, pouca circulação colateral). Um ou dois dias após a
hiperemia inicial, o infarto mostra-se bem delineado e amarelo-claro.
• Infartos vermelhos: podem decorrer de oclusão arterial ou de oclusão
venosa e são diferenciáveis por sangramento na área necrótica a partir de
artérias ou veias adjacentes. Esses infartos são típicos de órgãos com duplo
suprimento sangüíneo, ou com circulação colateral extensa, como o
intestino delgado e o cérebro.
Edema
Edema refere-se à presença de excesso de líquido nos espaços intersticiais do
corpo. Diversos termos definem o espaço corporal envolvido: hidrotórax
(cavidade pleural), ascite (cavidade peritoneal), hidropericárdio (pericárdio) e
anasarca (edema generalizado grave). O edema pode ser local ou generalizado
Ocorre edema local nas seguintes situações:
• Freqüente associação com inflamação (ver Cap. 2)
• Em um membro, decorrente de obstrução venosa ou linfática
• Em queimaduras, quando a permeabilidade de vasos locais é rompida
• Nas reações de hipersensibilidade do tipo I (p. ex., urticária)
O edema generalizado reflete um distúrbio global do metabolismo
hidroeletrolítico e pode ocorrer nas seguintes situações:
• Insuficiência cardíaca congestiva
• Doenças renais com perda de proteína sérica (p. ex., síndrome nefrótica)
• Cirrose hepática
As diversas causas de edema podem ser atribuídas a alterações na filtração e
na reabsorção por capilares, no metabolismo de sódio e água, na pressão
hidrostática e pressão oncótica e no fluxo linfático (ver Cap. 2). O Quadro 7.1
relaciona distúrbios associados a edema.
Quadro 7.1
Distúrbios Associados a Edema
Aumento da pressão hidrostática
Dilatação arteriolar Inflamação
Calor
Aumento da pressão Trombose venosa
venosa Insuficiência cardíaca congestiva
Cirrose (ascite)
Inatividade postural (p. ex., permanecer de pé
por tempo prolongado)
Hipervolemia Retenção de sódio
Diminuição da pressão oncótica
Hipoproteinemia Síndrome nefrótica
Cirrose
Gastroenteropatia com perda de proteína
Desnutrição
Aumento da Inflamação
permeabilidade capilar Queimaduras
Síndrome da angústia respiratória do adulto
Obstrução linfática Câncer
Linfedema pós-cirúrgico
Inflamação
De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 299.
Edema da Insuficiência Cardíaca Congestiva
Nos Estados Unidos, a insuficiência cardíaca congestiva está associada com
maior freqüência a cardiopatia isquêmica.
Patogenia
Tanto o débito cardíaco baixo quanto a congestão venosa contribuem para a
patogenia do edema da insuficiência cardíaca congestiva:
• Débito cardíaco baixo→diminuição da taxa de filtração glomerular
• Taxa de filtração glomerular diminuída→aumento da secreção de renina
• Renina→liberação de aldosterona; além disso, a redução do fluxo sangüíneo
ao fígado compromete o catabolismo de aldosterona
• Níveis altos de aldosterona→reabsorção de sódio e retenção de líquido
• Aumento da reabsorção de sódio e da retenção de líquido→aumento do
volume plasmático→aumento da pressão pulmonar e da pressão sistêmica
• Pressão pulmonar e pressão sistêmica aumentadas→aumento da pressão
capilar nos respectivos leitos capilares
• Aumento da pressão capilar→edema generalizado da insuficiência
cardíaca congestiva
Patologia
A insuficiência do ventrículo esquerdo está associada a congestão pulmonar e
edema pulmonar. Quando crônica, provoca insuficiência do ventrículo direito
caracterizada por edema subcutâneo generalizado e aumento do coração.
Manifestações Clínicas
Os pacientes com insuficiência cardíaca congestiva esquerda podem
apresentar falta de ar, veias jugulares distendidas e edema pulmonar. Os
pacientes com insuficiência direita podem apresentar edema com cacifo dos
membros inferiores e hepatomegalia.
Edema Pulmonar
Patogenia e Patologia O edema pulmonar reflete aumento de líquido nos espaços alveolares e no
interstício do pulmão. A causa mais comum desse distúrbio é a insuficiência
ventricular esquerda, que ajuda a aumentar a pressão de perfusão nos capilares
pulmonares e bloquear a drenagem linfática efetiva.
O edema da pleura visceral fibrosa e elástica e dos septos lobulares
representa a fase inicial do edema pulmonar; quando o líquido não consegue
mais ficar contido nos espaços intersticiais, extravasa para os alvéolos
levando ao estágio mais avançado do distúrbio (edema alveolar). O exame
microscópico do pulmão edematoso revela capilares congestos e alvéolos
lesados com películas de material proteináceo contendo fragmentos
(membranas hialinas).
Manifestações Clínicas
Podem ocorrer dispnéia e tosse; nos casos mais graves, grandes quantidades
de escarro rosado espumoso são expectoradas. A restrição da função pulmonar
resulta em hipoxia.
Edema na Cirrose do Fígado
Com freqüência, a cirrose do fígado vem acompanhada de ascite e edema
periférico. A cirrose é uma doença crônica na qual o parênquima hepático se
deteriora; os lóbulos tornam-se infiltrados por gordura e tecido conjuntivo
denso. Essa alteração tende a bloquear o fluxo sangüíneo pelo fígado, e, como
a veia porta supre 75% do fluxo sangüíneo total ao fígado, pode ocorre
hipertensão porta. A pressão hidrostática elevada acarreta edema periférico e
acúmulo de líquidos serosos na cavidade peritoneal (ascite). A coagulação do
sangue na veia hepática, principal veia que deixa o fígado, também pode
acarretar ascite. Este é um sintoma na síndrome de Budd-Chiari.
Edema e a Síndrome Nefrótica
A síndrome nefrótica decorre de lesão dos glomérulos renais e é marcada por
níveis altos de perda de proteína na urina. O resultante nível baixo de proteína
no sangue (pressão oncótica mais baixa) provoca edema, especialmente ao
redor dos olhos, nos pés e nas mãos.
Edema Cerebral
O edema do cérebro é perigoso porque o espaço craniano confinado permite
pouca expansão. O aumento da pressão intracraniana decorrente de edema compromete o suprimento sangüíneo, distorce a estrutura cerebral e interfere
na função do sistema nervoso central. O edema cerebral está dividido nas três
categorias a seguir:
• Vasogênico: excesso de líquido no espaço extracelular
• Citotóxico: tumefação celular em resposta a lesão celular
• Intersticial: acúmulo de líquido nos ventrículos cerebrais e substância
branca periventricular
Acúmulo de Líquido nas Cavidades Corporais
O acúmulo de líquido nas cavidades corporais representa extensões do espaço
intersticial e é expressão de uma tendência geral a formar edema. Pode se
colecionar no espaço pleural, no saco pericárdico ou, conforme discutido
anteriormente, na cavidade peritoneal sob a forma de ascite.
Perda e Sobrecarga de Líquido
A desidratação caracteriza-se por líquido inadequado para encher os
compartimentos hídricos corporais. Decorre de ingestão insuficiente de
líquido, perda excessiva de líquido ou de ambas. Quando os pacientes sofrem
queimaduras, vômitos, transpiração excessiva ou diarréia, não apenas perdem
líquido, mas também apresentam desequilíbrios eletrolíticos. A perda de
líquido intensa desvia água do interior das células para o espaço extracelular e
pode levar à queda dramática da pressão arterial e morte.
A hiper-hidratação é rara, mas pode decorrer de lesão renal ou da secreção
excessiva de hormônio antidiurético. Também pode ser causada pela
administração de quantidades excessivas de líquidos intravenosos.
Choque
O choque é uma condição de distúrbio hemodinâmico e metabólico profundo
caracterizado por falha do sistema circulatório em manter um suprimento
sangüíneo apropriado à microcirculação, com decorrente perfusão inadequada
de órgãos vitais.
Patogenia
O choque deve-se mais comumente a débito cardíaco diminuído provocado
por bombeamento cardíaco defeituoso ou volume sangüíneo reduzido devido a hemorragia. O choque também pode ser decorrente de vasodilatação
disseminada conseqüente a infecções microbianas, anafilaxia ou lesão
cerebral.
A diminuição da perfusão tissular acarreta hipoxia e lesão das seguintes
estruturas:
• Células endoteliais, acarretando aumento da permeabilidade vascular
• Rim e musculatura esquelética, levando à acidose metabólica que diminu
adicionalmente o débito cardíaco e a perfusão tissular
• Células miocárdicas, diminuindo sua habilidade de bombear e reduzindo
adicionalmente o débito cardíaco e a perfusão tissular
Tipos de Choque
A classificação do choque é mostrada na Fig. 7.1 e relacionada da seguinte
forma:
• O choque cardiogênico é causado por falência de bombeamento miocárdico
em geral decorrente de um grande infarto miocárdico.
• O choque hipovolêmico decorre de uma diminuição do volume sangüíneo
ou plasmático causada por hemorragia, perda de líquido devido a
queimaduras, diarréia, diurese e transpiração graves ou traumatismo severo.
• O choque séptico é causado por infecções microbianas sistêmicas graves
(discutido adiante).
• O choque anafilático ocorre em conseqüência de uma reação de
hipersensibilidade do tipo I sistêmica, que provoca vasodilatação
disseminada e aumento da permeabilidade vascular.
• O choque neurogênico está associado a lesão do cérebro ou da medula
espinhal. Compromete o controle neural do tono vasomotor e leva à
vasodilatação generalizada.
FIGURA 7.1
Classificação do choque. O choque decorre de (1) incapacidade do
coração de bombear adequadamente (choque cardiogênico); (2
diminuição do volume sangüíneo efetivo em decorrência de volume
sangüíneo ou plasmático intensamente reduzido (choque
hipovolêmico); ou (3) vasodilatação disseminada (choque séptico
anafilático ou neurogênico). O aumento da permeabilidade vascular
pode complicar a vasodilatação por contribuir para um volume
sangüíneo efetivo menor. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al
Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams &
Wilkins, 2005, p. 305.)
Choque Séptico e Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica
A síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SRIS) é uma manifestação
exagerada e generalizada de uma reação imunológica, ou inflamatória, local, e
freqüentemente é fatal. A septicemia por microrganismos Gram-negativos é a
causa mais comum de choque séptico. As bactérias invasoras são responsáveis
pela liberação de lipopolissacarídeo (LPS; endotoxina). A fisiopatologia
envolve as seguintes alterações:
• O LPS liga-se a uma molécula receptora, CD14, na superfície de
macrófagos. O receptor CD14 apresenta o LPS a um receptor de transdução
de sinais na membrana, o receptor toll-like.
• Essa ligação ativa o fator nuclear NF-κB, que desencadeia a liberação de
grandes quantidades de citocinas, como o fator de necrose tumoral (TNF)
interleucina-1 (IL-1), IL-6, IL-8, IL-12 e fator ativador de plaquetas (FAP).
• As citocinas estimulam a produção de mediadores inflamatórios como
prostaglandinas e leucotrienos, e também ativam a via do complemento e a
da coagulação.
• A ativação da coagulação pode acarretar coagulação intravascula
disseminada (CID).
• O TNF também aumenta a expressão de moléculas de adesão nas superfícies
endoteliais, desse modo promovendo a adesão de leucócitos e a leucostase
Os neutrófilos ativados na circulação pulmonar danificam alvéolos e atuam
na síndrome da angústia respiratória.
• Essa série de reações provoca o colapso cardiovascular impressionante que
caracteriza o choque séptico.
Síndrome da Disfunção Múltipla de Órgãos como Estágio
Terminal do Choque
A deterioração progressiva da função dos órgãos é uma conseqüência grave do
choque séptico. A síndrome da disfunção múltipla de órgãos (SDMO) é
encontrada em um terço dos casos de choque séptico. A falência de órgão é o
prognosticador mais forte de morte no paciente criticamente enfermo. O
choque está associado a alterações específicas em diversos órgãos.
• Coração: petéquias hemorrágicas no epicárdio e no endocárdio; focos
necróticos de tamanhos variáveis
• Rim: rim intumescido; necrose tubular; edema intersticial no córtex
• Pulmão: firme e congesto; edema intersticial; membranas hialinas nos
alvéolos
• Trato gastrointestinal: erosões da mucosa gástrica; necrose isquêmica
intestinal superficial
• Fígado: aumentado e salpicado; congestão centrolobular e necrose
• Pâncreas: lesão isquêmica provocando pancreatite aguda
• Cérebro: lesões raras; hemorragias microscópicas ocasionais
• Supra-renais: hemorragia no interior do córtex; síndrome de Waterhouse
Friderichsen, associada a septicemia meningocócica muito intensa, pode
causar necrose hemorrágica maciça de toda a glândula.
As complicações do choque envolvem muitos órgãos (Fig. 7.2).
FIGURA 7.2
Complicações do choque. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al
Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams &
Wilkins, 2005, p. 308.)
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