Fundamentos de patologia
Capítulo 6 | Doenças Genéticas e do Desenvolvimento
Doenças Genéticas e do
Desenvolvimento
Sumário do Capítulo
Teratologia
Erros de Morfogênese
Termos Usados para Descrever Anomalias do Desenvolvimento
Defeitos do Tubo Neural
Defeitos Causados pela Exposição Materna a Fármacos ou Álcool
Defeitos Causados por Infecções Fetais ou Neonatais
Características Cromossômicas
Cromossomos Normais
Técnicas para Identificação de Cromossomos e Genes
Anormalidades Cromossômicas
Anormalidades Cromossômicas Estruturais
Anormalidades Cromossômicas Numéricas
Anormalidades Monogênicas (Distúrbios Mendelianos)
Distúrbios Autossômicos Dominantes
Distúrbios Autossômicos Recessivos
Distúrbios Ligados ao X
Doenças Mitocondriais
Imprinting Genético
Herança Multifatorial
Triagem para Portadores de Distúrbios Genéticos
Diagnóstico Pré-natal de Distúrbios Genéticos
Prematuridade e Crescimento Intra-uterino Retardado
Índice de Apgar
Imaturidade de Órgão como Causa de Problemas Neonatais
Síndrome da Angústia Respiratória (SAR) do Neonato
Eritroblastose Fetal
Lesões do Parto
Síndrome da Morte Súbita Infantil (SMSI)
Neoplasias da Lactância e Infância
As doenças que têm origem durante o desenvolvimento pré-natal variam
desde distúrbios causados unicamente por fatores no ambiente fetal até
transtornos determinados exclusivamente por anormalidades genômicas. Os
distúrbios genéticos e do desenvolvimento são classificados da seguinte
forma:
• Erros de morfogênese
• Anormalidades cromossômicas
• Anomalias monogênicas
• Doenças poligênicas hereditárias
A cada ano, cerca de duzentos e cinqüenta mil lactentes nascem nos Estados
Unidos com um defeito congênito. Não mais do que 6% de todos os defeitos
congênitos podem ser atribuídos a fatores uterinos, distúrbios maternos e condições ambientais adversas. A maioria dos casos remanescentes é causada
por defeitos genômicos e anormalidades cromossômicas.
Teratologia
Teratologia é a disciplina envolvida com o estudo das anomalias de
desenvolvimento, e teratógenos são os agentes químicos, físicos e biológicos
que causam tais anomalias.
• A suscetibilidade a teratógenos é variada (p. ex., a síndrome alcoólica feta
afeta apenas algumas crianças nascidas de mães alcoólatras).
• A suscetibilidade a teratógenos é específica para cada estágio do
desenvolvimento (p. ex., a infecção materna de rubéola provoca
anormalidades fetais somente nos primeiros 3 meses de gestação).
• O mecanismo de teratogênese é específico para cada teratógeno.
• A teratogênese é dose-dependente.
• Os teratógenos causam a morte, atraso do desenvolvimento, malformação
ou comprometimento funcional.
Erros de Morfogênese
• A exposição a diversas influências nos estágios de desenvolvimento pré
implantação e logo após a implantação provoca, com maior freqüência, a
morte pré-natal. Esse estágio de morte embrionária precoce freqüentemente
passa despercebido ou é notado como sangramento menstrual atrasado e
intenso.
• A lesão durante os primeiros 8 a 10 dias após a fertilização pode resultar na
separação incompleta de blastômeros, que pode acarretar a formação de
gêmeos unidos.
• Os períodos de sensibilidade máxima a teratógenos são aqueles nos quais os
sistemas orgânicos primordiais encontram-se em desenvolvimento e variam
para os diferentes sistemas orgânicos, mas em média estão limitados às
primeiras 8 semanas de gestação.
• Após o terceiro mês de gestação, a exposição a influências teratogênicas
raramente tem como conseqüência erros importantes de morfogênese.
Termos Usados para Descrever Anomalias do Desenvolvimento
• Aplasia: ausência de um órgão, ou um órgão rudimentar não desenvolvido
• Hipoplasia: redução do tamanho de um órgão devido ao desenvolvimento incompleto de todo o órgão ou parte dele
• Anomalias distróficas: defeitos causados por falha de fusão (p. ex., espinha
bífida [canal espinhal e osso e pele circundantes não se fundem])
• Falhas de involução: persistência de estruturas embrionárias ou fetais
• Falhas de divisão: clivagem incompleta (p. ex., dedos separados de modo
incompleto)
• Atresia: formação incompleta de uma luz
• Displasia: organização anormal das células em um tecido
• Ectopia: um órgão que não se encontra em seu sítio anatômico normal
• Distopia: retenção de um órgão em seu local de desenvolvimento inicial (p
ex., falha dos testículos de descerem para o interior do escroto)
• Efeito politópico: um estímulo nocivo afeta diversos órgãos
• Efeito monotópico: uma única anomalia acarreta uma série de eventos
patogênicos
• Anomalia de seqüência de desenvolvimento: um padrão de defeitos
relacionado a uma única anomalia. Por exemplo, no complexo de Potter
diversas anomalias congênitas se manifestam (hiperplasia pulmonar
contraturas dos membros, obstrução do trato urinário). Todas essas
anomalias decorrem de uma quantidade bastante reduzida de líquido
amniótico (oligoidrâmnio), independentemente da causa da diminuição do
volume de líquido.
• Síndrome de desenvolvimento: refere-se a múltiplas anomalias com
patogenia relacionada
• Associação de desenvolvimento (sintropia): refere-se a múltiplas anomalias
associadas estatisticamente, mas que não compartilham necessariamente os
mesmos mecanismos patogênicos
• Deformação: anomalia da forma, aspecto ou posição de uma parte do corpo
A maioria dos defeitos anatômicos causados por influências adversas nos
dois últimos trimestres de gestação se enquadra nesta categoria.
Defeitos do Tubo Neural
A fusão incompleta do tubo neural e do osso, tecidos moles, ou pele
sobrejacentes, acarreta diversos defeitos, que variam desde anomalias leves (p
ex., espinha bífida oculta) até anomalias severas (p. ex., anencefalia). Os
defeitos do tubo neural são discutidos em detalhes no Cap. 28.
O ácido fólico fornecido no período periconcepcional diminui a incidência
de defeitos do tubo neural. Desde 1998, a FDA norte-americana obriga os
fabricantes a enriquecerem a farinha e o pão com folato, o que ocasionou uma
redução importante na incidência de defeitos do tubo neural.
Os tipos de defeitos do tubo neural incluem os seguintes:
• A anencefalia é um defeito do fechamento do tubo neural, e refere-se à
ausência congênita da abóbada craniana, com os hemisférios cerebrais
completamente ausentes ou reduzidos a pequenas massas aderidas à base do
crânio.
• A espinha bífida refere-se ao fechamento incompleto da medula espinhal ou
da coluna vertebral, ou de ambas, e representa a anormalidade mais branda
do sistema nervoso central.
• A craniorraquisquise consiste no fechamento defeituoso desde o crânio até
a medula espinhal.
• A meningocele consiste na protrusão hernial das meninges ao longo da
coluna vertebral.
• A mielomeningocele é a protrusão hernial da medula espinhal através da
coluna vertebral.
Defeitos Causados pela Exposição Materna a Fármacos ou
Álcool
Malformações Induzidas por Talidomida
A talidomida, um derivado do ácido glutâmico, é teratogênica entre o 28.º e o
50.º dias de gestação. Na década de 1960, muitas crianças nascidas de mães
que tomaram talidomida apresentaram deformidades esqueléticas, como
braços curtos e malformados. Embora o fármaco fosse retirado
subseqüentemente do mercado, estima-se que tenham nascido 3.000 crianças
malformadas.
Síndrome da Hidantoína Fetal
Dez por cento das crianças nascidas de mulheres com epilepsia, tratadas
durante a gestação com agentes antiepilépticos como a hidantoína, mostram
aspectos faciais característicos, como ponte nasal achatada, pregas epicânticas
lábio superior proeminente e cabeça pequena. Também exibem hipoplasia de
unhas e dígitos, e diversos defeitos cardíacos congênitos.
Síndrome Alcoólica Fetal
Esse complexo de anormalidades induzidas pelo uso abusivo de álcoo
materno inclui (a) atraso do crescimento; (b) possível retardo mental e
problemas com o desenvolvimento, aprendizagem e comportamento; e (c
dismorfologia facial característica, como lábio superior delgado, nariz curto
pequena abertura dos olhos e maçãs do rosto achatadas. O consumo intenso de
álcool durante o primeiro trimestre de gestação é particularmente perigoso. O
mecanismo pelo qual o álcool danifica o feto em desenvolvimento ainda não é
conhecido.
Defeitos Causados por Infecções Fetais ou Neonatais
Complexo TORCH
Esse acrônimo refere-se a um complexo de sintomas semelhantes produzidos
por infecção fetal ou neonatal por diversos microrganismos, a saber
toxoplasma, rubéola, citomegalovírus e herpesvírus simples. As infecções
pelos agentes do TORCH ocorrem em 1 a 5% de todos os lactentes nativivos
nos Estados Unidos, e estão entre as principais causas de morbidade e
mortalidade neonatais. Os microrganismos específicos do complexo TORCH
são discutidos em detalhes no Cap. 9. Apenas uma minoria de neonatos
apresenta todo o espectro de anormalidades, mas são comuns o atraso do
desenvolvimento e anormalidades relacionadas com cérebro, olhos, fígado
sistema hematopoiético e coração (Fig. 6.1).
FIGURA 6.1
Complexo da toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpesvírus
simples (TORCH). As crianças infectadas no útero por Toxoplasma
vírus da rubéola, citomegalovírus ou herpesvírus simples
demonstram efeitos bastante semelhantes. (De Rubin E, Gorstein F
Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott
Williams & Wilkins, 2005, p. 224.)
Sífilis Congênita
O Treponema pallidum, microrganismo que causa a sífilis, é transmitido ao
feto pela mãe infectada. Muitos lactentes são assintomáticos, mas
desenvolvem sintomas nos primeiros anos de vida. Sintomas tardios refletem
destruição tissular em evolução lenta e reparação, e incluem:
• Rinite com mucosa nasal edematosa e epistaxe Tipos de cromossomos. Cromossomos metacêntricos demonstram
• Exantema maculopapular, especialmente nas palmas das mãos e solas dos
pés
• Órgãos viscerais afetados: pulmões pálidos (pneumonia alba), fígado
aumentado, assim como baço e linfonodos
• Dentes: incisivos chanfrados e molares malformados (dentes de Hut
chinson)
• Ossos: inflamação do periósteo
• Olhos: vascularização corneana e formação de tecido cicatricial na córnea
• Sistema nervoso: retardo mental, surdez
A penicilina é o agente de escolha para o tratamento da sífilis, tanto intra
uterina quanto pós-natal. Se for administrada para essas duas condições
impede a maioria dos sintomas.
Características Cromossômicas
Cromossomos Normais
Os 46 cromossomos das células somáticas humanas consistem em 23 pares
Desses 23 pares, 22 são semelhantes no sexo feminino e masculino e são
denominados autossomos. O par restante constitui os cromossomos sexuais
XX no sexo feminino e XY no masculino. Os cromossomos podem se
isolados a partir de células mitóticas, e corados e classificados de acordo com
seu comprimento e posicionamento do centrômero (Fig. 6.2).
FIGURA 6.2
centrômeros exatamente no meio; nos cromossomos
submetacêntricos, o centrômero divide o cromossomo em um braço
curto (p) e um braço longo (q); cromossomos acrocêntricos exibem
braços muito curtos, ou pedículos, e satélites aderidos a um
centrômero localizado fora do centro.
Técnicas para Identificação de Cromossomos e Genes
• A hibridização com fluorescência in situ (FISH) usa sondas de DNA
marcadas com fluorescência para identificar pequenas regiões de
cromossomos ou genes individuais.
• O bandeamento cromossômico é uma técnica que faz uso de colorações
especiais para delinear bandas específicas nos cromossomos. O padrão das
bandas é único para cada cromossomo e possibilita a identificação de cada
cromossomo, além de defeitos em um segmento de cromossomo.
Anormalidades Cromossômicas
Anormalidades Cromossômicas Estruturais
A maioria das anormalidades cromossômicas estruturais que podem surgir
quando células somáticas se dividem tem pequena conseqüência para o
organismo como um todo, porque a célula individual com a anormalidade ou
consegue desempenhar as funções ou morre. Sob certas circunstâncias, as
anormalidades estruturais somáticas podem envolver proto-oncogenes e
contribuir para a patogenia de determinados cânceres (ver Cap. 5).
Contudo, anormalidades cromossômicas estruturais com origem durante a
gametogênese são importantes porque são transmitidas a todas as células
somáticas da prole e podem resultar em doença. Durante a meiose normal
cromossomos homólogos formam par e trocam material genético. Em um
processo anormal denominado translocação, cromossomos não-homólogos
formam par e trocam material genético. Nas translocações equilibradas, não
ocorre perda de material genético; os portadores são fenotipicamente normais
mas correm risco de produzir prole com cariótipos desequilibrados e
anormalidades fenotípicas graves.
Alguns dos seguintes tipos de reorganização estrutural observada em
cromossomos humanos são ilustrados na Fig. 6.3.
• Translocação Recíproca: Troca de segmentos cromossômicos acêntricos
entre dois cromossomos diferentes (não-homólogos)
• Translocação Robertsoniana: Dois cromossomos acrocêntricos não
homólogos quebram próximo ao centrômero, formando um cromossomo
metacêntrico grande, composto dos braços longos do par. Os braços curtos
geralmente se perdem.
• Deleções Cromossômicas: Perda de uma porção de um cromossomo; na
síndrome cri du chat (deleção de uma parte do braço curto do cromossomo
5), alguns retinoblastomas (deleções do braço longo do cromossomo 13) e
na aniridia do tumor de Wilms (deleções no braço curto do cromossomo 11)
• Inversão Cromossômica: Refere-se a (a) quebra de um cromossomo em dois
pontos, (b) inversão de segmento entre as quebras; e (c) reunião das duas
extremidades quebradas. Pode interferir no pareamento e no crossover
[permuta] durante meiose.
• Cromossomo em Anel: Cromossomo com formato anormal pode impedir a
divisão meiótica normal, mas em geral sem conseqüências.
• Isocromossomos: Cromossomos metacêntricos produzidos durante meiose
ou mitose quando o centrômero quebra transversalmente em vez de
longitudinalmente, resultando em um microssomo apresentando os dois
braços longos do cromossomo original e o outro cromossomo apresentando
os dois braços curtos e nenhum braço longo; na síndrome de Turner (15%
das pessoas acometidas possuem um isocromossomo do cromossomo X)
FIGURA 6.3
Anomalias estruturais dos cromossomos humanos. A deleção de uma
parte de um cromossomo leva à perda de material genético e um
cromossomo encurtado. Uma translocação recíproca envolve a quebra
de dois cromossomos não-homólogos, com troca dos segmentos
acêntricos. Uma inversão exige duas quebras em um único
cromossomo. Se as quebras forem em lados opostos do centrômero, a
inversão é pericêntrica; ela é paracêntrica se as quebras forem no mesmo braço. Uma translocação robertsoniana ocorre quando dois
cromossomos acrocêntricos não-homólogos se partem perto de seus
centrômeros, após o que os braços longos se fundem para formar um
grande cromossomo metacêntrico. Os isocromossomos surgem de
uma divisão defeituosa do centrômero, que leva a duplicação do
braço longo (iso q) e deleção do braço curto, ou o reverso (iso p). Os
cromossomos em anel envolvem quebras de ambas as partes
teloméricas de um cromossomo, deleção dos fragmentos acêntricos e
fusão da porção cêntrica restante. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R
et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams &
Wilkins, 2005, p. 228.)
Anormalidades Cromossômicas Numéricas
Termos Úteis
• Haplóide: Um único conjunto (n) de cada um dos cromossomos (n = 23 nos
seres humanos); apenas as células germinativas apresentam número
haplóide (n) de cromossomos
• Diplóide: Um conjunto duplo (2n) de cada um dos cromossomos (2n = 46
nos seres humanos); a maioria das células somáticas é diplóide
• Euplóide: Qualquer múltiplo do número haplóide, de n a 8n; muitas células
hepáticas são euplóides (4n). Quando o múltiplo é superior ao diplóide, o
cariótipo é denominado poliplóide
• Aneuplóide: Cariótipos que não são múltiplos exatos do número haplóide
Muitas células cancerígenas são aneuplóides, uma característica associada a
comportamento biológico agressivo.
• Monossomia: Ausência, em uma célula somática, de um cromossomo de um
par homólogo (p. ex., um único cromossomo X é característico da síndrome
de Turner)
• Trissomia: Presença, em uma célula somática, de uma cópia extra de um
cromossomo normalmente em par (p. ex., a síndrome de Down é causada
pela presença de três cromossomos 21)
Não-disjunção
• A não-disjunção é a falha dos cromossomos pareados ou das cromátides em
se separarem e moverem para pólos opostos na anáfase, seja durante mitose
seja durante a meiose. É a principal causa de anormalidades cromossômicas
numéricas.
• A não-disjunção durante a meiose ocorre com maior freqüência em
indivíduos com cromossomos estruturalmente anormais.
• A não-disjunção mitótica pode envolver células embrionárias em estágios
iniciais de desenvolvimento e resultar em aberrações cromossômicas
transmitidas através de algumas linhagens celulares, mas não em outras
Como conseqüência, tem-se o mosaicismo, no qual o corpo contém duas ou
mais linhagens celulares cariotipicamente diferentes. O mosaicismo
autossômico é raro e provavelmente letal; o mosaicismo que envolve
cromossomos sexuais é razoavelmente comum e encontrado em pacientes
com disgenesia gonadal diagnosticados com a síndrome de Turner ou a
síndrome de Klinefelter.
Efeitos das Aberrações Cromossômicas
• A maioria das anormalidades cromossômicas é incompatível com a vida. Os
defeitos em geral são letais, levando a morte prematura e abortos.
• Monossomias autossômicas geralmente resultam em morte embrionária
mas a monossomia do cromossomo X (45X) pode ser compatível com a
vida, embora mais de 95% desses embriões sejam perdidos durante a
gestação.
• A ausência de um cromossomo X (45Y) resulta em aborto precoce.
• Aproximadamente 0,3% de todos os lactentes nativivos apresentam uma
anormalidade cromossômica.
• Trissomias autossômicas em geral são letais, exceto a trissomia do 21
(síndrome de Down).
Nomenclatura das Aberrações Cromossômicas
O Quadro 6.1 apresenta a nomenclatura relacionada com os cromossomos.
Quadro 6.1
Nomenclatura Relacionada com os Cromossomos
Designação numérica de autossomos 1-22
Cromossomos sexuais X, Y
Adição de um cromossomo ou parte de um cromossomo +
Perda de um cromossomo ou de parte de um –
cromossomo
Mosaicismo numérico (p. ex., 46/47) /
Braço curto do cromossomo (petite) p
Braço longo de cromossomo q
Isocromossomo I
Cromossomo em anel r
Deleção del
Inserção ins
Translocação t
Cromossomo derivado (portando translocação) der
Terminal ter
Cariótipos representativos
Sexo masculino com trissomia do 21 47,XY, +21
Sexo feminino portador de translocação do tipo fusão 45,XX-14, –
entre os cromossomos 14 e 21 21,
+t(14q21q)
Síndrome de cri du chat (sexo masculino) com deleção 46,XY,del(5p)
de uma porção do braço curto do cromossomo 5
Sexo masculino com cromossomo 19 em anel 46,XY,r(19)
Síndrome de Turner com monossomia do X 45,X
Mosaico de síndrome de Klinefelter 46,XY/47,XXY
De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 231.
Síndromes de Aberrações Cromossômicas Numéricas ou
Estruturais
Trissomia do 21 (Síndrome de Down)
A trissomia do 21 é uma das causas mais comuns de retardo mental. Dois
terços dos conceptos com esse defeito são abortados espontaneamente ou
morrem in utero.
Patogenia
Os três mecanismos pelos quais as cópias dos genes no cromossomo 21
podem estar presentes em células somáticas na síndrome de Down são os
seguintes:
• Não-disjunção durante a primeira divisão meiótica, levando à presença de
um cromossomo 21 extra completo (95% dos casos)
• Translocação de um braço longo extra do cromossomo 21 para um outro
acrocêntrico (5% dos casos)
• Mosaicismo para trissomia do 21, causada por não-disjunção durante mitose
de uma célula somática no início da embriogênese, com algumas células
apresentando número normal de cromossomos 21 e outras com um
cromossomo 21 extra (2% dos casos)
Mães com idade mais avançada correm risco maior de dar à luz um lactente
com a síndrome de Down devido à não-disjunção; a incidência alcança 1 em
30 aos 45 anos de idade.
Patologia e Manifestações Clínicas
O diagnóstico da síndrome de Down é habitualmente feito no momento do
nascimento com a observação do aspecto físico característico do bebê e, a
seguir, é confirmado por análise citogenética. À medida que a criança se
desenvolve, aparecem anormalidades típicas (Fig. 6.4). O principa
determinante da sobrevida na síndrome de Down consiste na presença ou na
ausência de cardiopatia congênita.
FIGURA 6.4
Manifestações clínicas da síndrome de Down. (De Rubin E, Gorstein
F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott
Williams & Wilkins, 2005, p. 234.)
Outras Trissomias
A trissomia do 18 é menos freqüente do que a síndrome de Down. As
trissomias do 13 e do 22 ocorrem, mas são ainda mais raras. Os lactentes
acometidos por essas trissomias em geral morrem nos primeiros 3 meses de
vida.
Também ocorrem trissomias parciais. Por exemplo, a trissomia 9p
[translocação do braço curto do cromossomo 9 para diversos autossomos
diferentes] e a translocação recíproca entre os braços longos dos cromossomos
22 e 11.
Portadores de translocações equilibradas em geral são assintomáticos, mas
sua prole pode apresentar uma série de defeitos.
Síndromes de Deleção Cromossômica
A deleção de um cromossomo autossômico inteiro não é compatível com a
vida, mas deleções de partes de cromossomos podem ocorrer. Todas essas
deleções são indicadas pelo número do cromossomo seguido por p (braço
curto) ou q (braço longo). Quase todas as síndromes resultantes de deleção
caracterizam-se por baixo peso ao nascimento, retardo mental, anormalidades esqueléticas, cardiopatia congênita e anormalidades urogenitais. Essas
síndromes incluem:
• Síndrome 5p (síndrome cri du chat): lactente com choro agudo, semelhante
ao de um filhote de gato, chama a atenção para o distúrbio
• Síndrome 11p: resulta na ausência da íris (aniridia) e freqüentemente está
acompanhada por tumor de Wilms
• Síndrome 13q: associada a retinoblastoma e causada pela perda do gene
supressor de tumor Rb presente no braço longo do cromossomo 13
Outras síndromes de deleção envolvendo deleções de material dos
cromossomos 18, 19, 20, 21 e 22 foram documentadas. Deleções e
reorganizações de seqüências subteloméricas foram relatadas e demonstrou-se
que eram uma causa de retardo mental e características dismórficas.
Síndromes de Quebra Cromossômica
Algumas síndromes recessivas associadas a quebras e reorganizações
cromossômicas freqüentes são acompanhadas por um risco importante de
leucemia e cânceres. Esses distúrbios incluem xerodermia pigmentosa
síndrome de Bloom, anemia de Fanconi e ataxia-telangiectasia. Quebras
cromossômicas adquiridas e reorganizações (translocações) estão associadas a
leucemias e linfomas, sendo a mais conhecida a leucemia mielógena crônica
t(9;22), e o linfoma de Burkitt, principalmente t(8;14). Ver Quadro 6.1 para
relação de nomenclatura relacionada com os cromossomos.
Aberrações Numéricas de Cromossomos Sexuais
Cromossomos sexuais adicionais parecem produzir menos desequilíbrio
genético do que autossomos extras, e são consideravelmente mais comuns do
que os dos autossomos, com exceção da trissomia do 21. Enquanto o
cromossomo X possui mais de 1.300 genes, o cromossomo Y é
consideravelmente menor e tem apenas cerca de 200 genes, um dos quais
consiste na região Y de determinação do sexo (SRY [sex-determining region
Y]). A SRY codifica uma pequena proteína nuclear que desempenha um pape
importante no desenvolvimento do fenótipo masculino.
Embora o sexo masculino porte apenas um cromossomo X, tanto o sexo
masculino quanto o feminino produzem as mesmas quantidades de produtos
gênicos codificados pelo cromossomo X. Essa aparente discrepância fo
explicada pelo efeito de Lyon, no qual baseiam-se os seguintes princípios:
• No sexo feminino, um cromossomo X é inativado de modo irreversível no
início da embriogênese. O cromossomo X inativado é detectável pelos
núcleos em interfase como um aglomerado escuro de cromatina
denominado corpúsculo de Barr.
• O cromossomo X, paterno ou materno, é inativado aleatoriamente, e a
inativação é transmitida às células progênie. Assim, todas as mulheres são
mosaicos para os cromossomos X derivados do pai e da mãe.
• O cromossomo X inativado retém alguns genes funcionais importantes na
gametogênese e também para crescimento e desenvolvimento normais.
Síndrome de Klinefelter (47,XXY)
A síndrome de Klinefelter está relacionada com a presença de um ou mais
cromossomos X além do complemento XY normal. É uma causa importante
de hipogonadismo e infertilidade no sexo masculino. A maioria dos homens
com essa síndrome apresenta cariótipo 47,XXY, mas alguns são mosaicos (p
ex., 46,XY/47,XXY) ou apresenta mais do que dois cromossomos X
Independentemente do número de cromossomos X, a presença do
cromossomo Y assegura um fenótipo masculino. As manifestações clínicas da
síndrome de Klinefelter são mostradas na Fig. 6.5.
FIGURA 6.5
Manifestações clínicas da síndrome de Klinefelter. (De Rubin E
Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia
Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 238.)
O Homem XYY
As características do fenótipo XYY são estatura alta, tendência para acne
cística e alguns problemas no desenvolvimento motor e da linguagem. Não
foram comprovadas relações entre homens XYY e comportamento agressivo e
anti-social.
Síndrome de Turner (45,X)
A síndrome de Turner refere-se ao espectro de anomalias decorrentes de
uma monossomia completa ou parcial do cromossomo X em pessoa com fenótipo feminino. O cariótipo 45,X é uma das anormalidades de aneuploidia
mais comuns em conceptos humanos, mas quase todos são abortados
espontaneamente. As manifestações clínicas da síndrome de Turner são
mostradas na Fig. 6.6.
Apenas cerca de metade das mulheres com a síndrome de Turner não
apresenta um cromossomo X inteiro; o restante são mosaicos ou exibem
aberrações estruturais do cromossomo X. Mulheres com o cariótipo mosaico
46,X/46,XX apresentam manifestações fenotípicas mais leves e até mesmo
podem ser férteis. Os pacientes com o cariótipo mosaico 45,X/46,XY, nos
quais um zigoto masculino original foi modificado por uma não-disjunção
mitótica, correm risco de 20% de desenvolverem câncer de células
germinativas e devem ser submetidos profilaticamente à remoção das gônadas
anormais.
FIGURA 6.6
Manifestações clínicas da síndrome de Turner. (De Rubin E, Gorstein
F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott
Williams & Wilkins, 2005, p. 239.)
Síndromes em Mulheres com Cromossomos X Múltiplos
Um cromossomo X extra em um fenótipo feminino (47,XXX) é a
anormalidade mais freqüente dos cromossomos sexuais em mulheres. A
maioria é fértil e com inteligência normal, embora ocorra incidência maior de
defeitos congênitos na sua prole.
As mulheres com quatro e cinco cromossomos X são retardadas mentais e
não amadurecem sexualmente. Todas as mulheres com cromossomos X extras
apresentam corpúsculos de Barr adicionais, indicando inativação de todos os
cromossomos X exceto um.
Anormalidades Monogênicas (Distúrbios Mendelianos)
Os traços mendelianos são classificados como (a) autossômico dominante, (b)
autossômico recessivo, (c) dominante ligado ao X e (d) recessivo ligado ao X.
Herança Mendeliana
As leis clássicas da hereditariedade mendeliana são as seguintes:
• Um traço mendeliano é determinado por duas cópias do mesmo gene
(alelos), localizadas no mesmo locus em dois cromossomos homólogos. No
caso dos cromossomos X e Y no sexo masculino, um traço é determinado
por apenas um alelo.
• Genes autossômicos localizam-se em um dos 22 autossomos.
• Traços ligados ao sexo são codificados por loci no cromossomo X.
• Um traço fenotípico dominante exige a presença de apenas um alelo de um
par de genes, independentemente de os alelos serem homozigóticos ou
heterozigóticos.
• Um traço fenotípico recessivo exige que os dois alelos sejam idênticos
(homozigóticos).
• Na co-dominância, os dois alelos em um par heterozigótico manifestam-se
completamente.
Mutações
A mutação consiste em uma alteração hereditária estável no DNA, e uma
ampla gama de mutações contribui para o grande número de polimorfismos
genéticos na população. O polimorfismo consiste numa variante genética que
se manifesta pelo menos em 1% de uma população. Alguns exemplos de
polimorfismos bem conhecidos são os grupamentos sangüíneos humanos ABO, o fator Rh humano e o complexo de histocompatibilidade principa
(MHC) humano.
Os principais tipos de mutações encontradas nos distúrbios genéticos são os
seguintes:
• Mutações pontuais: substituição de uma base por outra
• Mutação de matriz de leitura: No código genético, cada conjunto de três
bases constitui um códon específico para um aminoácido particular
inserções ou deleções de um número de bases, que não seja múltiplo de 3
na região codificadora do DNA, modificam a matriz de leitura da
mensagem. Quando isso acontece, cada códon a partir da mutação apresenta
uma nova seqüência e codifica um aminoácido diferente.
• Deleções grandes: deleção de um segmento extenso de DNA.
• Expansão de seqüências de repetições de trinucleotídeos instáveis: O
genoma humano contém freqüentes seqüências de trinucleotídeos repetidas
uma atrás da outra. Quando essas seqüências se estendem acima de um
número limiar, pode ocorrer doença. Exemplos:
►Doença de Huntington: expansão de uma repetição CAG dentro da
seqüência de codificação do gene huntingtina
►Síndrome do X frágil: expansão de uma repetição CGG em uma região
não codificadora adjacente ao gene FMRI no cromossomo X
►Distrofia miotônica: expansão de uma repetição CTG em uma região não
traduzida por gene da distrofia miotônica
►Ataxia de Friedreich: expansão de uma repetição GAA no gene frataxina
Distúrbios Autossômicos Dominantes
Os distúrbios autossômicos dominantes são expressos em heterozigotos. Uma
doença dominante ocorre apenas quando um gene defeituoso (ou seja, alelo
mutante) está presente, enquanto o alelo no cromossomo homólogo é normal
Algumas características relevantes nos traços autossômicos dominantes são:
• O gene que sofreu a mutação determina a expressão fenotípica.
• Os dois sexos são afetados igualmente, e pode haver transmissão de um
genitor para a progênie de qualquer sexo.
• O traço codificado pelo gene mutante pode ser transmitido a gerações
sucessivas (a menos que interfira na capacidade reprodutiva).
• Cada pessoa com a doença tem um genitor afetado (a menos que o distúrbio
decorra de uma nova mutação).
• Esses distúrbios podem comprometer a função e influenciar a redução na
expectativa de vida, mas a maioria dos indivíduos sobrevive até a idade
reprodutiva, pelo menos.
• Em geral a homozigose é fatal.
Mais de 1.000 doenças humanas são herdadas como traços autossômicos
dominantes. Exemplos são dados no Quadro 6.2.
Quadro 6.2
Distúrbios Autossômicos Dominantes Representativos
Doença Freqüência Cromossomo
Hipercolesterolemia familiar 1/500 19p
Doença de von Willebrand 1/8.000 12p
Esferocitose hereditária (formas principais) 1/5.000 14,8
Eliptocitose hereditária (todas as formas) 1/2.500 1,1p,2q,14
Osteogênese imperfeita (tipos I-IV) 1/10.000 17q,7q
Síndrome de Ehlers-Danlos, tipo III 1/5.000 ?
Síndrome de Marfan 1/10.000 15q
Neurofibromatose tipo I 1/3.500 17q
Coréia de Huntington 1/15.000 4p
Retinoblastoma 1/14.000 13q
Tumor de Wilms 1/10.000 11p
Polipose adenomatosa familiar 1/10.000 5q
Porfiria intermitente aguda 1/15.000 11q
Amiloidose hereditária 1/100.000 18q
Doença do rim policístico do adulto 1/1.000 16p De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 243.
Base Bioquímica dos Distúrbios Autossômicos Dominantes
Existem vários mecanismos importantes pelos quais os distúrbios
autossômicos dominantes provocam doença.
• Haploinsuficiência: Se o produto gênico for um componente de uma rede
complexa (p. ex., um receptor ou uma enzima), metade da quantidade
normal do produto gênico não é suficiente para manter o estado normal
Exemplos incluem talassemia-β e hipercolesterolemia familiar.
• Cópia extra do alelo: A duplicação do gene da proteína de mielina
periférica 22 provoca a doença de Charcot-Marie-Tooth do tipo 1A.
• Ativação constitutiva de um gene: Esse fenômeno é encontrado nas
síndromes de câncer familiar. Por exemplo, mutações no proto-oncogene
RET provocam atividade anormalmente aumentada de uma tirosina quinase
levando ao aumento da proliferação celular na neoplasia endócrina múltipla
do tipo 2.
• Ruptura dos padrões morfológicos normais: As mutações nos genes que
codificam proteínas estruturais, como o colágeno e os componentes
citoesqueléticos, podem resultar em interações moleculares anormais. Estas
são exemplificadas por doenças como a osteogênese imperfeita e a
esferocitose hereditária.
Distúrbios Autossômicos Dominantes Hereditários do Tecido
Conjuntivo
Esta discussão limita-se a três das entidades mais comuns e mais estudadas
síndrome de Marfan, síndrome de Ehlers-Danlos e osteogênese imperfeita.
Síndrome de Marfan
A síndrome de Marfan caracteriza-se por anormalidades no coração, na
aorta, no esqueleto, nos olhos e na pele. A síndrome é causada por uma
mutação de sentido trocado em que o gene codificador de fibrilina-1, uma
glicoproteína que é elemento constitutivo importante de microfibrilas
extracelulares, e tem distribuição ampla, tanto no tecido conjuntivo elástico
quanto no não-elástico, por todo o corpo. A fibrilina anormal codificada pelo
gene defeituoso tem um efeito negativo dominante, interferindo na montagem de microfibrilas normais. O gene (FBN1) foi mapeado no braço longo do
cromossomo 15 (15q21.1).
As características da síndrome de Marfan incluem:
• Sistema esquelético: Em geral os pacientes são altos e magros, com dedos
longos semelhantes a aranha, e articulações hiperextensíveis (dupla
articulação).
• Sistema cardiovascular: O defeito cardiovascular de maior importância
clínica consiste em fraqueza da túnica média elástica da aorta, provocando
suscetibilidade a aneurismas dissecantes da aorta. A insuficiência da valva
aórtica e o prolapso da valva mitral também podem ocorrer.
• Olhos: Alterações oculares refletem a lesão intrínseca no tecido conjuntivo e
incluem luxação do cristalino (ectopia lentis), miopia intensa e
descolamento da retina.
Síndrome de Ehlers-Danlos
A síndrome de Ehlers-Danlos (SED) consiste em um grupo de distúrbios do
tecido conjuntivo decorrentes de anomalias no colágeno. A SED é clínica e
geneticamente heterogênea, tendo-se observado mais de 10 variedades. A
manifestação comum em todas as síndromes consiste em um defeito
generalizado no colágeno, incluindo anormalidades em sua estrutura
molecular, síntese, secreção e degradação. Dependendo do tipo de SED, as
lesões moleculares do colágeno estão associadas a fraqueza intensa das
estruturas de suporte da pele, das articulações, artérias e dos órgãos viscerais
As manifestações características incluem hiperelasticidade acentuada e
fragilidade da pele, hipermobilidade articular e propensão a hematomas.
Osteogênese Imperfeita
A osteogênese imperfeita (OI), ou doença do osso quebradiço, consiste em
um grupo de distúrbios nos quais a anormalidade generalizada do tecido
conjuntivo é expressa principalmente como fragilidade do osso. Existem
quatro tipos de OI, com defeitos genéticos heterogêneos, mas todos os tipos
afetam a síntese do colágeno tipo 1. Em 90% dos casos, mutações nos genes
de colágeno pró-α1 e pró-α2 estão presentes, acarretando a substituição da
glicina obrigatória por outros aminoácidos em cada terceiro resíduo.
A variante mais comum freqüentemente vem acompanhada por múltiplas
fraturas ósseas na infância e escleróticas azuis decorrentes da transparência do tecido conjuntivo delgado sobre a coróide.
A osteogênese imperfeita é discutida com mais detalhes no Cap. 26.
Outros Distúrbios Autossômicos Dominantes
Neurofibromatoses (NF)
As neurofibromatoses são distúrbios autossômicos dominantes
caracterizados pelo desenvolvimento de múltiplos neurofibromas (tumores
benignos de nervos periféricos).
Existem duas formas principais de NF: NF tipo 1 (doença de von
Recklinghausen) e NF tipo 2 (neurofibromatose central). A NF1 e a NF2 são
causadas por dois genes anormais separados; o gene para NF1 localiza-se no
cromossomo 17, e o gene para NF2 encontra-se no cromossomo 22. Tanto o
gene para NF1 quanto o gene para NF2 são genes supressores de tumor
acredita-se que anomalias nesses genes sejam responsáveis pela predisposição
à formação de tumores em nervos.
As manifestações típicas da NF1 incluem:
• Neurofibromas cutâneos, subcutâneos e plexiformes. Em geral os
neurofibromas plexiformes envolvem nervos periféricos maiores, com
freqüência são grandes e podem causar desfiguração da face ou do membro.
• Manchas café-com-leite (numerosas manchas cutâneas castanho-claras).
• Nódulos de Lisch (nódulos pigmentados da íris, consistindo em massas de
melanócitos).
• Lesões esqueléticas, comprometimento intelectual leve e risco de distúrbios
mielóides malignos também ocorrem na doença.
A NF2 caracteriza-se por tumores bilaterais do oitavo nervo craniano
(neuromas acústicos) e, com freqüência, meningiomas e gliomas. É menos
comum do que a NF1.
Nanismo Acondroplásico
Esse distúrbio hereditário do desenvolvimento condroblástico epifisário
acarreta formação inadequada de osso endocondral. Assim, produz-se uma
forma de nanismo caracterizado por membros curtos e cabeça e tronco
normais. A acondroplasia é discutida no Cap. 26.
Hipercolesterolemia Familiar
Esse distúrbio caracteriza-se por níveis altos de lipoproteínas de baixa
densidade (LDL) no sangue. O distúrbio decorre de anormalidades no gene
que codifica o receptor de superfície celular que remove as LDL do sangue. O
gene localiza-se no braço curto do cromossomo 19. Foram descritas mais de
150 mutações diferentes no gene de receptor de LDL, incluindo inserções
deleções e mutações pontuais sem sentido e de sentido trocado. Foram
observadas classes de defeitos genéticos em diversas das etapas envolvidas na
síntese e no processamento intracelular do receptor de LDL.
A hipercolesterolemia familiar resulta em uma diminuição do transporte de
colesterol LDL para o interior das células e hipercolesterolemia intensa
Ocorre início precoce de aterosclerose, coronariopatia, e xantomas em
tendões.
Distúrbios Autossômicos Recessivos
Os distúrbios autossômicos recessivos estão associados a sintomas clínicos
quando os dois alelos em um locus em cromossomos homólogos são
defeituosos. A maioria das doenças metabólicas genéticas exibe uma
modalidade autossômica recessiva de hereditariedade, e caracteristicamente é
causada por deficiências em enzimas, e não por anormalidades nas proteínas
estruturais. Algumas manifestações importantes dos traços autossômicos
recessivos vão a seguir:
• Quanto mais infreqüente o gene mutante, menor a probabilidade de o pai e a
mãe não-aparentados portarem o traço; por conseguinte, distúrbios
autossômicos recessivos raros são, freqüentemente, o produto de
casamentos consangüíneos.
• Tanto o pai quanto a mãe, em geral, são heterozigóticos para o traço e
clinicamente normais.
• Em média, os sintomas surgem em um quarto da prole. Metade da prole é
heterozigótica para o traço e assintomática.
• Tanto o sexo masculino quanto o feminino podem ser igualmente afetados.
• Os traços recessivos são mais freqüentemente evidentes na infância
enquanto distúrbios dominantes podem manifestar-se inicialmente na vida
adulta.
• Qualquer doença autossômica recessiva específica pode variar em
intensidade, idade de início e existência de uma forma aguda ou forma
crônica.
Alguns distúrbios autossômicos recessivos representativos estão
relacionados no Quadro 6.3.
Quadro 6.3
Distúrbios Autossômicos Recessivos Representativos
Doença Freqüência Cromossomo
Fibrose cística 1/2.500 7q
Talassemia-α Alta 16p
Talassemia-β Alta 11p
Anemia falciforme Alta 11p
Deficiência de mieloperoxidase 1/2.000 17q
Fenilcetonúria 1/10.000 12q
Doença de Gaucher 1/1.000 1q
Doença de Tay-Sachs 1/4.000 15q
Síndrome de Hurler 1/100.000 22p
Doença de depósito de glicogênio Ia 1/100.000 17
(doença de von Gierke)
Doença de Wilson 1/50.000 13q
Hemocromatose hereditária 1/1.000 6p
Deficiência de α 1-antitripsina 1/15.000 11q
Albinismo oculocutâneo 1/20.000 11q
Alcaptonúria < 1/100.000 3q
Leucodistrofia metacromática 1/100.000 22q
De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 248.
Fibrose Cística A fibrose cística (FC) é o distúrbio autossômico recessivo mais comum em
crianças brancas. É rara em negros e praticamente desconhecida em asiáticos
A FC caracteriza-se por (a) doença pulmonar crônica; (b) função pancreática
exócrina deficiente e (c) outras complicações relacionadas com aumento da
viscosidade do muco.
Patogenia
Uma mutação no gene regulador da condutância transmembrana da fibrose
cística (CFTR), que foi localizado no braço longo do cromossomo 7, é o
defeito genético na FC. Muitas mutações no gene CFTR interrompem a
síntese, o transporte intracelular, os domínios de ligação e a estrutura de poros
do canal da proteína CFTR transmembrana. O gene CFTR codifica uma
proteína transportadora de membrana de ligação ao ATP que facilita a
movimentação de cloreto através de membranas epiteliais. A doença decorre
de transporte anormal de eletrólitos causado por comprometimento da função
do canal de cloreto de células epiteliais.
A secreção de íons cloreto por células epiteliais secretoras de muco controla
a secreção paralela de líquido e, conseqüentemente, a viscosidade do muco
Todas as conseqüências patológicas da FC podem ser atribuídas à presença de
muco anormalmente espesso, que obstrui as passagens das vias respiratórias
dos ductos pancreáticos e biliares e do intestino fetal.
Diagnóstico
O diagnóstico da FC é estabelecido de modo mais confiável pelo “teste do
suor”. As concentrações mais elevadas de eletrólitos no suor são decorrentes
da falha de reabsorção de cloreto pelas células dos ductos das glândulas
sudoríparas, levando ao acúmulo de cloreto de sódio.
Patologia e Manifestações Clínicas
A FC acomete muitos órgãos que produzem secreções exócrinas (Fig. 6.7).
• Trato respiratório: A doença pulmonar é responsável pela maior parte da
morbidade e mortalidade associadas à FC. Obstruções e infecções
recorrentes resultam em bronquiolite crônica e bronquite. Espécies de
Pseudomonas são os microrganismos infecciosos mais comuns encontrados
nos pulmões de pacientes com FC.
• Pâncreas: Uma forma de pancreatite crônica que manifesta ductos dilatados
e císticos, bloqueados por muco, acomete 85% dos pacientes com FC.
• Fígado: O muco espesso obstrui o fluxo biliar provocando cirrose biliar
secundária, inflamação portal crônica e fibrose septal.
• Trato gastrointestinal: Obstrução do intestino delgado (íleo meconial
acomete 5 a 10% dos neonatos com FC.
• Trato reprodutivo: Quase todos os indivíduos do sexo masculino com FC
manifestam atrofia obstrutiva ou fibrose de partes do sistema de ductos
reprodutivos, resultando em infertilidade. A maioria dos indivíduos do sexo
feminino com FC também é infértil.
FIGURA 6.7
Manifestações clínicas da fibrose cística. (De Rubin E, Gorstein F
Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott
Williams & Wilkins, 2005, p. 251.)
Doenças de Depósito Lisossômicas
As doenças de depósito lisossômicas caracterizam-se pelo acúmulo, em
lisossomos, de substratos normais não metabolizados devido a deficiências de
hidrolases ácidas específicas. Os lisossomos são sacos membranosos de
enzimas hidrolíticas que realizam a digestão intracelular de materiais advindos
tanto do exterior quanto do interior da célula; seus múltiplos tipos de enzimas
hidrolíticas degradam praticamente todos os tipos de moléculas biológicas, e
são ativos idealmente em pH ácido de 3,5 a 5,5.
• Praticamente todas as doenças de depósito lisossômicas decorrem de
mutações em genes que codificam hidrolases lisossômicas.
• Uma deficiência em uma das mais de 40 hidrolases ácidas pode resultar no
acúmulo de material não digerido no lisossomo, que se tornará ingurgitado e
expandirá, interferindo no funcionamento normal da célula.
• As doenças de depósito lisossômicas são classificadas de acordo com o
material anormalmente retido em seu interior (p. ex., na esfingolipidose
esfingolipídios acumulam-se no interior de lisossomos).
• Células fagocitárias são ricas em lisossomos, e órgãos como o fígado e o
baço com grandes quantidades dessas células tornam-se aumentados em
diversas das doenças de depósito lisossômicas.
Doença de Gaucher
A doença de Gaucher caracteriza-se pelo acúmulo de glicosil-ceramida
primariamente nos lisossomos de macrófagos, e deve-se a uma deficiência da
enzima glicocerebrosidase, que é um tipo de β-glicosidase lisossômica. A
deficiência pode ser atribuída a diversas mutações de uma única base no gene
da β-glicosidase.
Patologia
O marco da doença de Gaucher consiste na presença de células de Gaucher
que são macrófagos cheios de lipídios na polpa vermelha do baço, em
sinusóides do fígado, linfonodos, pulmões e medula óssea. A célula de
Gaucher é grande, PAS-positiva e apresenta um aspecto característico de
“lenço de papel amassado”. O aumento do baço é praticamente universal
Acredita-se que a glicosil-ceramida das células de Gaucher no cérebro origine
se da renovação de gangliosídeos da membrana plasmática de células no
sistema nervoso central.
Classificação e Manifestações Clínicas
Existem três formas diferentes da doença de Gaucher:
• O tipo 1 (não-neuropática crônica) é a forma mais comum. É encontrada
principalmente em judeus adultos asquenase e caracteriza-se po
esplenomegalia intensa. Ocorre alguma erosão óssea, mas sem
envolvimento cerebral. A expectativa de vida é normal. O tipo 1 é tratado
por meio da administração intravenosa de glicose cerebrosidase ácida
modificada.
• O tipo 2 (neuropática aguda) é uma forma rara da doença com início por
volta de 3 meses de vida. Não é prevalente entre um grupo étnico em
particular. Os lactentes mostram hepatoesplenomegalia e deterioração
neurológica. A morte ocorre antes de 1 ano de idade.
• A doença do tipo 3 (neuropática subaguda) associa características da doença
do tipo 1 e do tipo 2. É menos grave que o tipo 2, com a deterioração
neurológica manifestando-se numa idade mais avançada e evoluindo de
modo mais lento.
Doença de Tay-Sachs (Gangliosidose GM , Tipo 1) 2
A doença de Tay-Sachs é a variante infantil catastrófica de uma classe de
doenças de depósito lisossômicas conhecidas como gangliosidases GM 2, em
que esse gangliosídeo é depositado em neurônios do sistema nervoso central, e
é provocada por uma falha na degradação lisossômica. A doença de Tay-Sachs
decorre de aproximadamente 50 mutações diferentes no gene no cromossomo
15 que codifica a subunidade α da hexosaminidase A, com um resultante
defeito na síntese dessa enzima. É predominantemente uma doença de judeus
asquenase, nos quais a taxa de portador é de 1 em 30.
A sintomatologia da doença de Tay-Sachs manifesta-se entre 6 e 10 meses
de idade com deterioração motora e mental progressiva e também cegueira. O
envolvimento de células ganglionares da retina é detectado pela oftalmoscopia
como mancha vermelho-cereja na mácula. A maioria das crianças com a
doença morre antes dos 4 anos de idade.
Doença de Niemann-Pick
A doença de Niemann-Pick (DNP) refere-se a lipidoses caracterizadas pelo
depósito lisossômico de esfingomielina em macrófagos de muitos órgãos
hepatócitos e cérebro. A célula de depósito característica na DNP é uma célula
espumosa, uma célula grande contendo esfingomielina e colesterol; essas
células são numerosas no baço, linfonodos e medula óssea. Judeus asquenase
apresentam freqüência alta de DNP, mas o distúrbio manifesta-se em outros
grupos étnicos também.
A DNP pode ser classificada nos tipos A e B:
• O tipo A manifesta-se na lactância e caracteriza-se por
hepatoesplenomegalia e neurodegeneração progressiva, com a morte
ocorrendo até os 3 anos de idade. A atividade da esfingomielinase encontra
se totalmente ausente.
• O tipo B é mais variável e associado a hepatoesplenomegalia, envolvimento
neurológico mínimo e sobrevida até a fase adulta. Nesse tipo de DNP, 10%
da atividade enzimática normal podem ser detectados.
Cistinose
A cistinose é uma doença de depósito lisossômico incomum, na qual o
defeito não se deve a uma deficiência da hidrolase ácida no interior do
lisossomo, mas a uma ausência do transportador de cistina transmembrana
lisossômico. Assim, ocorre o aprisionamento de cistina no interior do
lisossomo. Se não tratada, a alteração resulta em insuficiência renal, com
freqüência antes da adolescência. O uso de cisteamina para diminuir a cistina
lisossômica retarda bastante a evolução da doença.
Mucopolissacaridoses
As mucopolissacaridoses (MPS) compreendem um conjunto de doenças de
depósito lisossômico caracterizadas pelo acúmulo de glicosaminoglicanos
(mucopolissacarídeos) em muitos órgãos. Todos os tipos de MPS são
autossômicos recessivos, exceto a síndrome de Hunter, que é um dis-túrbio
recessivo ligado ao X. Essas doenças raras são causadas por deficiên-cias em
uma das dez enzimas lisossômicas envolvidas na degradação seqüencial de
glicosaminoglicanos (GAG). Os GAG são cadeias de polissacarídeos grandes
sintetizadas por fibroblastos como constituintes normais de muitos tecidos.
Embora a gravidade e a localização das lesões na MPS variem com a
deficiência de enzima específica, certas manifestações são comuns à maioria
dessas síndromes:
• GAG não degradados tendem a se acumular em lisossomos de macrófagos
fibroblastos, células endoteliais, neurônios e hepatócitos.
• As células afetadas encontram-se intumescidas e límpidas. À microscopia
eletrônica, observam-se muitos lisossomos intumescidos contendo materia
granular ou filamentoso.
• O sistema nervoso central sofre perda de neurônios e atrofia cortical
Desenvolvem-se deformidades esqueléticas, lesões cardíacas e
hepatoesplenomegalia.
A síndrome de Hurler é a forma clínica mais grave de MPS. As
características desta e de outras variedades de MPS estão resumidas no
Quadro 6.4.
Quadro 6.4
Mucopolissacaridoses
Localização
Tipo Epônimo do Gene Manifestações Clínicas
I H Hurler 4p16.3 Organomegalia, lesões cardíacas,
disostose múltipla, turvação da córnea,
morte na infância
I S Scheie 4p16.3 Articulações enrijecidas, turvação da
córnea, inteligência normal,
longevidade
II Hunter X Organomegalia, disostose múltipla,
retardo mental, morte antes dos 15
anos de idade
III Sanfilippo 12q14 Retardo mental
IV Morquio 16q24 Deformidades esqueléticas, turvação
da córnea
V Obsoleto –– ––
VI Maroteaux 5q13-14 Disostose múltipla, turvação da córnea,
Lamy morte na segunda década de vida
VII Sly 7q21.1-22 Hepatoesplenomegalia, disostose
múltipla
De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 255.
Glicogenoses (Doenças de Depósito de Glicogênio)
As glicogenoses são um grupo de doenças hereditárias causadas por defeitos
no metabolismo de glicogênio. Caracterizam-se pelo acúmulo de glicogênio principalmente nos órgãos que são normalmente ricos em glicogênio —
fígado, músculo esquelético e coração. Com uma rara exceção (deficiência de
fosforilase quinase ligada ao X), todos os tipos de doença de depósito de
glicogênio representam traços autossômicos recessivos. Serão discutidos aqu
apenas alguns exemplos representativos.
• A doença de von Gierke (glicogenose tipo IA) caracteriza-se pelo acúmulo
de glicogênio no fígado em decorrência de uma deficiência de glicose-6
fosfatase. O defeito resulta em hepatomegalia e hipoglicemia.
• A doença de Pompe (glicogenose tipo 2) é causada por uma deficiência da
enzima lisossômica α-glicosidase. Com isso, ocorre o acúmulo de
glicogênio nos lisossomos de muitas células diferentes. Todos os órgãos são
acometidos, e a morte decorre de insuficiência cardíaca antes dos 2 anos de
idade.
• A doença de Andersen (glicogenose tipo IV) é um distúrbio muito raro no
qual uma forma anormal de glicogênio (amilopectina) é depositada
principalmente no fígado. O distúrbio decorre da deficiência da enzima
amiloglicantransferase, que é responsável pela criação dos pontos de
ramificação na molécula normal de glicogênio. As crianças com a doença
geralmente morrem de cirrose hepática até os 4 anos de idade.
• A doença de McArdle (glicogenose tipo V) caracteriza-se pelo acúmulo de
glicogênio no músculo esquelético devido a uma deficiência de fosforilase
muscular, a enzima responsável pela liberação de glicose-1-fosfato do
glicogênio. Os sintomas consistem em câimbras e espasmos musculares
durante e após exercícios físicos.
Erros Inatos do Metabolismo de Aminoácidos
Certos distúrbios hereditários envolvem o metabolismo de muitos
aminoácidos. A discussão seguinte considera defeitos no metabolismo da
fenilalanina e tirosina.
Fenilcetonúria (PKU)
Esse distúrbio autossômico recessivo caracteriza-se por deterioração menta
progressiva nos primeiros anos de vida devido aos níveis altos circulantes de
fenilalanina secundários a uma deficiência da enzima hepática fenilalanina
hidroxilase.
Patogenia
A fenilalanina é um aminoácido essencial oxidado no fígado, formando
tirosina pela fenilalanina hidroxilase. Concentrações séricas altas de
fenilalanina são neurotóxicas. A deficiência de PAH também provoca a
formação de fenilcetona, mas essa substância não é responsável pelo dano
neurológico na PKU. A fenilcetona é excretada na urina, daí o nome da
doença, fenilcetonúria.
Manifestações Clínicas
O lactente acometido parece normal ao nascimento, mas em geral a
deterioração mental é pronunciada até 1 ano de idade. Lactentes com PKU
tendem a ter pele clara e cabelo louro porque a incapacidade de converter
fenilalanina a tirosina leva à redução da síntese de melanina.
Tratamento
Uma dieta com restrição de fenilalanina é o tratamento de escolha. Em
geral, é necessária uma dieta semi-sintética. Cerca de 10 milhões de neonatos
no mundo todo são triados anualmente para hiperfenilalaninemia por meio de
um exame sangüíneo simples, e a maior parte dos 1.000 novos casos
estimados é tratada imediatamente.
Tirosinemia
Essa rara doença autossômica recessiva manifesta-se como doença hepática
aguda na lactância ou como uma doença mais crônica no fígado, nos rins e no
cérebro, em crianças. Níveis elevados de tirosina e seus metabólitos são
encontrados no sangue. As duas formas são causadas por uma deficiência de
fumarilacetoacetato hidrolase, a última enzima na via catabólica que converte
tirosina a fumarato e acetoacetato. Lesão celular é atribuída à formação de
metabólitos tóxicos anormais.
Alcaptonúria (Ocronose)
Essa rara doença autossômica recessiva caracteriza-se pela excreção do
ácido homogentísico na urina, pigmentação generalizada e artrite. É causada
por uma deficiência de ácido homogentísico oxidase, que impede o
catabolismo de ácido homogentísico, um intermediário no metabolismo de
fenilalanina e tirosina.
Pacientes com alcaptonúria excretam urina que escurece rapidamente em
repouso devido à formação de pigmento pela oxidação do ácido homogentísico. Um pigmento semelhante é depositado em muitos tecidos
corporais.
Albinismo
O albinismo refere-se a um grupo heterogêneo de pelo menos 10 distúrbios
hereditários caracterizados por hipopigmentação em decorrência da ausência
ou da síntese reduzida, de melanina. O tipo mais comum é o albinismo
oculocutâneo (AOC), uma família de doenças intimamente relacionadas
Existe deficiência ou ausência completa do pigmento melanina na pele
folículos pilosos e olhos. Os indivíduos com AOC têm problemas oftálmicos
(fotofobia, estrabismo, nistagmo), uma sensibilidade intensa à luz solar e um
risco bastante elevado de desenvolver carcinoma escamocelular.
Duas formas principais de AOC são diferenciadas pela presença (AOC
tirosina-positiva) ou ausência (AOC tirosina-negativa) de tirosinase. Nos
pacientes com AOC tirosina-positivos, uma pequena quantidade de pigmento
acumula-se com a idade, enquanto os pacientes tirosina-negativos não
apresentam melanina detectável.
Distúrbios Ligados ao X
Um distúrbio ligado ao X manifesta um gene anormal no cromossomo X (Fig
6.8).
A expressão de um distúrbio ligado ao X é diferente em homens e mulheres
As mulheres, apresentando dois cromossomos X, podem ser homozigóticas ou
heterozigóticas para um determinado traço, e a expressão clínica de tal traço é
variável, dependendo de esse traço ser dominante ou recessivo. Por outro lado
os homens, que apresentam apenas um cromossomo X, são hemizigóticos para
o traço, de modo que, independentemente de ser dominante ou recessivo, o
traço é invariavelmente expresso pelo sexo masculino.
FIGURA 6.8
Localização de doenças hereditárias representativas no cromossomo
X. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed
Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 261.)
Traços Dominantes Ligados ao X
Manifestações distintivas incluem:
• As mulheres são afetadas com freqüência duas vezes maior do que os
homens.
• Uma mulher heterozigótica transmite o distúrbio para metade de sua prole
seja ela do sexo masculino ou feminino.
• Um homem com um distúrbio dominante ligado ao X transmite a doença
apenas a suas filhas, nunca a seus filhos.
• A manifestação clínica da doença tende a ser menos grave e mais variáve
nas mulheres heterozigóticas do que nos homens hemizigóticos. Isso se
explica em parte pelo fato de que na mulher a inativação de um cromossomo
X é aleatória, resultando em mosaicismo para o alelo mutante, uma
condição que pode estar associada à expressão inconstante do traço.
Traços Recessivos Ligados ao X
As características distintas incluem:
• A maioria dos traços ligados ao X é recessiva; ou seja, as mulheres
heterozigóticas não manifestam a doença clínica.
• Filhos de mulheres portadoras do traço apresentam chance de 50% de
herdarem a doença; as filhas não são sintomáticas.
• Todas as filhas de homens afetados são portadoras assintomáticas, mas os
filhos encontram-se livres do traço e não podem transmitir a doença a sua
prole.
• As mulheres homozigóticas sintomáticas são resultados apenas do raro
encontro de um homem afetado e de uma mulher heterozigótica
assintomática.
• O traço tende a ocorrer em tios maternos e em primos do sexo masculino
descendentes das irmãs da mãe.
O Quadro 6.5 apresenta uma lista de distúrbios recessivos ligados ao X.
Quadro 6.5
Doenças Recessivas Ligadas ao X Representativas
Freqüência no Sexo
Doença Masculino
Síndrome do X frágil 1/2.000
Hemofilia A (deficiência de fator VIII) 1/10.000
Hemofilia B (deficiência de fator IX) 1/70.000
Distrofia muscular de Duchenne-Becker 1/3.500
Deficiência de glicose-6-fosfato Até 30%
desidrogenase
Síndrome de Lesch-Nyhan (deficiência de 1/10.000
HPRT)
Doença granulomatosa crônica Não rara
Agamaglobulinemia ligada ao X Não rara
Imunodeficiência combinada grave ligada Rara
ao X
Doença de Fabry 1/40.000
Síndrome de Hunter 1/70.000
Adrenoleucodistrofia 1/100.000
Doença de Menkes 1/100.000
De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 263.
Distrofias Musculares Ligadas ao X (Distrofias Musculares de Duchenne e
de Becker)
As distrofias musculares ligadas ao X estão entre as doenças genéticas
humanas mais freqüentes, ocorrendo em 1 para cada 3.500 meninos, uma
incidência que alcança a da FC. A distrofia muscular de Duchenne (DMD)
variante mais comum, é uma degeneração progressiva fatal do músculo, e que
se manifesta antes dos 4 anos de idade. A distrofia muscular de Becker (DMB)
é alélica a DMD, porém menos freqüente e mais branda.
Patogenia
Tanto a DMD quanto a DMB são causadas por uma deficiência de
distrofina, uma proteína citoesquelética localizada na face citoplasmática da
membrana plasmática de células musculares, e associada à membrana po
glicoproteínas integrantes da membrana. Essas, por sua vez, estão ligadas a
laminina extracelular. Moléculas de distrofina formam uma rede que conecta
fibras de actina intracelular à matriz extracelular, uma função que mantém as
propriedades mecânicas da célula muscular. Os pacientes com DMD não
apresentam distrofina detectável, enquanto os pacientes com DMB apresentam
uma molécula de distrofina menor do que a normal.
Manifestações Clínicas
Os sintomas da DMD evoluem com a idade. Na doença avançada
miocardiopatia é uma causa freqüente de morte. Existe uma redução geral da
inteligência. A média de idade de morte em meninos com DMD é de 17 anos
A DMB tem um início mais tardio e sintomas mais brandos. Nas duas
variantes, ocorrem achados patológicos característicos na biopsia muscula
(ver Cap. 27).
Hemofilia A (Deficiência de Fator VIII)
Essa doença é um distúrbio da coagulação do sangue ligado ao X e que
resulta em hemorragia espontânea, particularmente para o interior de
articulações, músculos e órgãos internos. Na verdade, a hemofilia clássica
consiste em duas doenças distintas, uma decorrente de mutações no gene
codificador do fator VIII (hemofilia A), e a outra provocada por defeitos no
gene para fator IX (hemofilia B). A hemofilia A é encontrada com maior
freqüência, e será discutida a seguir.
Patogenia
O gene codificador do fator VIII localiza-se na extremidade do braço longo
do cromossomo X; mutações nesse gene incluem inversões do gene, deleções
mutações pontuais e inserções. Cada família com hemofilia na sua história
abriga uma mutação diferente. Em metade dos casos, mutações de novo são a
causa do distúrbio.
Patologia e Manifestações Clínicas
A gravidade da tendência a sangramento depende da quantidade de
atividade do fator VIII no sangue. Sangramento repetido nas articulações
provoca uma artrite deformante. Hematúria, além de obstrução intestinal e
respiratória, também pode ocorrer, com sangramento para os pulmões e trato
gastrointestinal. Atualmente, existe o fator VIII recombinante humano para
tratamento, além das transfusões sangüíneas mais clássicas.
Síndrome do X Frágil
Essa síndrome é a causa mais comum de retardo mental hereditário; perde
apenas para a síndrome de Down como causa de retardo mental. O nome
refere-se a um marcador citogenético, lacunas que não se coram nas quais a
cromatina não consegue se condensar durante a mitose, efeito provocado pela expansão de uma repetição de trinucleotídeos CGG no cromossomo X em
Xq27.3. A síndrome acomete os dois sexos.
Patogenia
Nas famílias com história de síndrome do X frágil, as gerações posteriores
são mais passíveis de ser acometidas do que as primeiras, provavelmente
porque os cromossomos com mais de cerca de 52 repetições de trios podem
expandir o número de repetições, particularmente durante a meiose no sexo
feminino, levando a expansões maiores (pré-mutações) em gerações
sucessivas. Expansões com mais de 200 repetições estão associadas a retardo
mental e representam mutações completas. Homens e mulheres com pré-
mutações podem ser portadores assintomáticos.
Manifestações Clínicas
Neonatos do sexo masculino com mutações completas têm aspecto normal
mas surgem características típicas (embrutecimento facial, testículos
aumentados, anomalias em valvas cardíacas) durante a infância. O retardo
mental é profundo. Uma proporção significativa de crianças do sexo
masculino autistas é portadora do cromossomo X frágil. O sexo feminino com
mutações completas pode ou não manifestar retardo mental.
Doença de Fabry
Essa síndrome ligada ao X é uma doença de depósito lisossômica causada
por deficiência de α-galactosidase. Os glicoesfingolipídios acumulam-se no
endotélio dos tecidos corporais. As lesões cutâneas caracterizam-se por um
tipo particular de tumor (angioqueratoma). Os indivíduos acometidos morrem
no início da idade adulta devido a insuficiência vascular progressiva
resultando em infartos cerebrais, renais e cardíacos.
Doenças Mitocondriais
As proteínas mitocondriais são codificadas por genomas tanto nucleares
quanto mitocondriais. A maior parte dos defeitos hereditários na função
mitocondrial decorre de mutações no genoma mitocondrial. Características da
genética exclusiva das mitocôndrias incluem:
• Herança materna: As mitocôndrias de todos os vertebrados são herdadas da
mãe. Durante a fertilização, as mitocôndrias dos espermatozóides na cauda
do esperma não penetram no oócito; por conseguinte, o ovo fertilizado
carreia os cromossomos femininos e masculinos, mas mitocôndrias apenas
femininas.
• Variabilidade de cópias de DNA mitocondriais (mtDNA): O número de
mitocôndrias e o número de cópias de mtDNA por mitocôndria varia em
diferentes tecidos. O ATP é sintetizado na mitocôndria, e o teor de DNA por
mitocôndria correlaciona-se com a necessidade de ATP em um determinado
tipo celular.
• Efeito de limiar: Mutações no mtDNA levam a populações mistas de
genomas mitocondriais mutantes e normais em qualquer célula particular. O
fenótipo associado a mutações em mtDNA reflete a intensidade da mutação
a proporção de genomas mutantes e a demanda do tecido de ATP. Diferentes
tecidos exigem limiares mínimos de ATP para manter atividade metabólica
cérebro, coração e músculo esquelético apresentam demandas
particularmente grandes de ATP, de modo que as doenças causadas por
mutações no genoma mitocondrial afetam principalmente o sistema nervoso
o coração e o músculo esquelético.
• Taxa alta de mutações: A taxa de mutações de mtDNA é consideravelmente
mais elevada do que a de DNA nuclear, em parte devido a meno
capacidade de reparação de DNA.
Todas as doenças mitocondriais hereditárias são raras e apresentam
manifestações clínicas variáveis. A primeira doença humana reconhecida
como sendo causada por mutação pontual em mtDNA foi a neuropatia óptica
hereditária de Leber, um distúrbio caracterizado por perda progressiva da
visão. Desde então, diversas miopatias e encefalopatias mitocondriais foram
descritas.
Imprinting Genético
O imprinting genético refere-se à observação de que o fenótipo associado a
alguns genes difere dependendo de o alelo ser herdado da mãe ou do pai. Esse
fenômeno significa que, no caso de genes produzidos por imprinting, apenas o
alelo materno ou o alelo paterno será mantido no estado inativo. O alelo que
não sofreu imprinting (ativo) provê a função biológica do locus genético. Se o
alelo que não sofreu imprinting for alterado através de mutação, o alelo que
sofreu imprinting (inativo) não consegue compensar as funções biológicas que faltam. O imprinting ocorre na meiose durante a gametogênese e o padrão de
imprinting é mantido em graus variáveis em diferentes tecidos. O processo é
reajustado durante a meiose da geração seguinte, de modo que a seleção de um
determinado alelo para imprinting pode variar de uma geração para outra.
O imprinting genético é ilustrado por duas síndromes raras nas quais a
mesma deleção do locus cromossômico 15q11-13 resulta em fenótipos
acentuadamente diferentes na progênie, dependendo de as deleções serem
transmitidas pela mãe ou pelo pai.
• A síndrome de Prader-Willi decorre de transmissão paterna. Caracteriza-se
por hipotonia, obesidade, hipogonadismo e retardo mental.
• A síndrome de Angelman decorre de transmissão materna e caracteriza-se
por hiperatividade, risada inapropriada e convulsões.
Herança Multifatorial
A herança multifatorial é um termo que descreve um processo pelo qual uma
doença decorre de efeitos aditivos de diversos genes anormais e diversos
fatores ambientais. Por exemplo, a formação do lábio e do palato encontra-se
sob controle de diversos genes e ocorre em torno do 35o dia de gestação
Rubéola, anticonvulsivantes ou anormalidades cromossômicas podem
interferir no processo de fusão e resultar em fenda labial ou palatina. A
herança multifatorial apresenta as seguintes características:
• A expressão de sintomas é proporcional ao número de genes mutantes.
• Fatores ambientais influenciam a expressão dos sintomas ou do traço.
• O risco de expressão nos genitores, irmãos e irmãs, e na prole é o mesmo
(5%–10%).
• A probabilidade de expressão na prole posterior é influenciada pela
expressão do traço em irmãos ou irmãs anteriores.
• Quanto mais intenso o defeito, maior o risco de transmissão à prole.
• Algumas anormalidades mostram predileção de sexo.
Algumas doenças representativas associadas a herança multifatorial são
mostradas no Quadro 6.6.
Quadro 6.6
Doenças Associadas a Herança Multifatorial Representativas Adultos Crianças
Hipertensão Estenose pilórica
Aterosclerose Lábio e palato fendidos
Diabetes, tipo 2 Cardiopatia congênita
Diátese alérgica Meningomielocele
Psoríase Anencefalia
Esquizofrenia Hipospádias
Espondilite anquilosante Luxação congênita do quadril
Gota Doença de Hirschsprung
De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 267.
Triagem para Portadores de Distúrbios Genéticos
O objetivo da triagem para distúrbios genéticos consiste em identificar casais
nos quais os dois membros são portadores heterozigóticos de uma doença
genética e pertencem a um grupo étnico com freqüência alta daquela doença
Alguns casais teriam risco de 25% de ter prole acometida a cada gestação
Esses casais podem ser submetidos a diagnóstico pré-natal a fim de determinar
o estado genético do feto. Alguns centros oferecem diagnóstico genético pré
implantação para assegurar que o embrião implantado não apresentará a
doença.
Diagnóstico Pré-natal de Distúrbios Genéticos
A amniocentese e a biopsia de vilosidade coriônica são os métodos mais
importantes para diagnóstico de distúrbio de desenvolvimento ou distúrbio
genético. As indicações para a realização de diagnóstico pré-natal são: (a)
idade de 35 anos ou mais (mulheres), (b) anormalidade cromossômica
pregressa, (c) portador de translocação, (d) história de erros congênitos do
metabolismo hereditários, (e) heterozigotos identificados e (f) história familiar de distúrbios ligados ao X. Técnicas moleculares novas para a detecção de
portador e para o diagnóstico pré-natal precoce têm utilidade cada vez maior.
Prematuridade e Crescimento Intra-uterino Retardado
A duração da gestação humana normalmente é de 40(+/−2) semanas, e a
maioria dos neonatos pesa 3.300(+/−600) g. A prematuridade é definida como
idade gestacional inferior a 37 semanas, e peso ao nascimento inferior a 2.500
g. Contudo, alguns lactentes a termo podem pesar menos de 2.500 g devido a
atraso no crescimento intra-uterino. Fatores que predispõem a nascimento
prematuro são (a) doença materna, (b) incompetência uterina, (c) distúrbios
fetais e (d) anormalidades placentárias. Os fatores que predispõem a atraso do
crescimento intra-uterino são (a) comprometimento da saúde e nutrição
maternas, (b) circulação placentária inadequada ou (c) distúrbio do
crescimento ou do desenvolvimento do feto.
Índice de Apgar
As avaliações clínicas da maturidade neonatal em geral são realizadas 1 e 5
minutos após o parto. Parâmetros como freqüência cardíaca, esforço
respiratório, tono muscular, cor e resposta a um cateter na narina são
registrados. Quanto mais alto o índice de Apgar, melhor a condição clínica do
lactente; o lactente na melhor condição possível recebe um índice máximo de
10.
Imaturidade de Órgão como Causa de Problemas Neonatais
• Pulmões: A imaturidade dos pulmões impõe uma das maiores ameaças à
viabilidade do lactente com baixo peso ao nascimento. Dois fatores
contribuem para o perigo: (a) Movimentos respiratórios fracos do lactente
imaturo podem não livrar os alvéolos do líquido amniótico, e (b) deficiência
de surfactante (uma secreção produzida por pneumócitos tipo II) que
funciona mantendo os alvéolos expandidos por meio da redução da tensão
superficial.
• Fígado: Uma deficiência de glicuronil transferase e a decorrente
incapacidade de conjugar e excretar bilirrubina freqüentemente provocam a
hiperbilirrubinemia neonatal com icterícia e kernicterus (lesão neuronal e
possíveis seqüelas neurológicas graves).
• Cérebro: Em lactentes prematuros, o desenvolvimento incompleto do
sistema nervoso central freqüentemente reflete-se em fraco controle
vasomotor, hipotermia, dificuldade de alimentação e apnéia recorrente.
Síndrome da Angústia Respiratória (SAR) do Neonato
A SAR está associada principalmente a prematuridade e é a causa principal de
morbidade e mortalidade entre neonatos. Além da prematuridade, outros
fatores predisponentes são diabetes materno, parto por cirurgia cesariana e
asfixia neonatal. O surfactante pulmonar é liberado no líquido amniótico e
pode ter amostra colhida antes do nascimento por meio de amniocentese para
avaliar a maturidade do pulmão fetal.
Patogenia
A patogenia está associada à deficiência de surfactante, que é uma substância
complexa contendo fosfolipídios, lecitina e fosfatidilglicerol, secretados para a
superfície alveolar por pneumócitos tipo II. O surfactante impede que os
alvéolos colabem quando o lactente expira. O pulmão imaturo é deficiente
tanto em quantidade quanto em composição do surfactante. A hipoxia
decorrente leva a isquemia pulmonar, dano a capilares pulmonares e
extravasamento de líquido rico em proteínas para os alvéolos.
Patologia
Macroscopicamente, os pulmões são vermelho-escuro e sem ar. À
microscopia, os alvéolos encontram-se colabados. Os alvéolos, os ductos e
pequenos bronquíolos são revestidos por detritos eosinofílicos acumulados
descritos como uma membrana hialina.
Manifestações Clínicas
A SAR caracteriza-se por aumento do esforço e da freqüência respiratória e
cianose. As principais complicações da SAR relacionam-se com anoxia e
acidose e incluem:
• Hemorragia cerebral intraventricular devido a ruptura de veias de parede
delgada, dilatadas, nessa área
• Persistência do ducto arterioso patente com possível insuficiência cardíaca
congestiva subseqüente
• Enterocolite necrosante relacionada com isquemia da mucosa intestinal
Displasia broncopulmonar que se acredita resultar da toxicidade do oxigênio
• decorrente do uso de respiradores com pressão positiva
Tratamento
Os corticosteróides induzem a formação de surfactante. A instilação traquea
direta de surfactante mostrou reduzir a mortalidade e a morbidade em lactentes
com SAR.
Eritroblastose Fetal
Esse distúrbio consiste em uma doença hemolítica do feto causada por
anticorpos maternos contra antígenos eritrocitários fetais, como antígenos Rh
e antígenos de grupo sangüíneo ABO. Os anticorpos maternos provocam
hemólise das hemácias fetais e anemia fetal.
Patogenia
Incompatibilidade de Rh
O sistema de grupamento sangüíneo Rh consiste em 25 componentes. Os
alelos cde/CDE são os mais importantes na doença; anticorpos contra o
antígeno D provocam 90% dos casos de eritroblastose fetal. Uma mãe Rh
negativa pode ser sensibilizada pela exposição a eritrócitos fetais Rh-positivos
no momento do parto.
A eritroblastose fetal não ocorre comumente durante a primeira gestação
mas, se a mãe novamente abrigar um feto Rh-positivo, pode ser detectado um
título crescente de anticorpos contra os eritrócitos fetais. A gravidade da
doença tende a aumentar a cada gestação subseqüente. No entanto, muitas
mulheres Rh-negativas não produzem uma resposta imunológica substancia
contra sangue fetal Rh-positivo; apenas 5% das mulheres Rh-negativas dão à
luz lactentes com eritroblastose fetal.
Incompatibilidade de ABO
Desde a existência da profilaxia RhoGAM de mães Rh-negativas, a
incidência de eritroblastose por incompatibilidade de Rh diminuiu bastante
Atualmente, a incompatibilidade de ABO é a principal causa de doença
hemolítica do neonato. Ocorre principalmente em neonatos de grupo
sangüíneo A com mãe de grupo sangüíneo O. A maioria dos lactentes sofre
doença branda, e a icterícia constitui-se na única manifestação clínica. Patologia e Manifestações Clínicas
A gravidade da eritroblastose fetal varia desde hemólise leve até anemia fatal
e os achados patológicos são determinados pela extensão da doença
hemolítica.
• Ocorre morte in utero na forma mais grave da doença.
• Hidropisia fetal caracteriza-se por edema grave secundário a insuficiência
cardíaca congestiva causada por anemia intensa.
• Kernicterus (encefalopatia por bilirrubina) caracteriza-se por impregnação
de bile no cérebro, particularmente nos núcleos basais, núcleos pontinos e
núcleos dentados no cerebelo. A destruição excessiva de hemácias que
ocorre na doença acarreta a formação de bilirrubina. Como o fígado feta
imaturo conjuga mal a bilirrubina, esta é liberada para o sangue, provocando
icterícia que, se intensa, evolui para kernicterus.
Prevenção e Tratamento
O uso de globulina anti-D humana (RhoGAM) administrada à mãe em 72
horas do parto é suficiente para neutralizar as células fetais antigênicas que
podem ter penetrado na circulação materna durante o parto, desse modo
evitando a sensibilização materna ao sangue fetal.
Lesões do Parto
As lesões do parto abrangem um espectro desde traumatismo mecânico até
lesão anóxica, e ocorrem em 5 por 1.000 nativivos.
• As lesões cranianas podem incluir fraturas de crânio e hemorragia
intracraniana. Esta é uma das lesões do parto mais perigosas, e pode resulta
em seqüelas neurológicas crônicas.
• Lesões de nervo periférico podem ocorrer sob a forma de paralisia braquial
paralisia facial ou paralisia de nervo frênico. A maioria desses distúrbios em
geral sofre resolução em alguns meses. O prognóstico depende de os nervos
estarem lacerados ou simplesmente lesados pela pressão.
• As fraturas podem envolver a clavícula e/ou úmero. É necessária a
imobilização do braço e do ombro para a consolidação completa.
• A ruptura do fígado pode ocorrer em decorrência de pressão mecânica
durante um parto difícil. Poderá ser necessária a reparação cirúrgica se a
laceração for grande.
Síndrome da Morte Súbita Infantil (SMSI)
A SMSI é definida como “a morte inesperada de um lactente ou de uma
criança pequena sem respaldo pelo histórico, e em que o exame post-mortem
meticuloso não consegue demonstrar uma causa adequada de morte”. A
maioria das mortes ocorre durante o sono. O recente declínio nas taxas de
morte por SMSI foi atribuído ao encorajamento dos pais para colocar seus
lactentes de costas para dormir. A patogenia da SMSI não está bem
compreendida. Fatores de risco incluem baixo peso ao nascimento
prematuridade ou doença 2 semanas antes da morte.
Neoplasias da Lactância e Infância
O câncer é a principal causa de morte provocada por doença em crianças de 1
a 15 anos de idade. Nas crianças, a maioria dos tumores malignos surge dos
tecidos hematopoiético, nervoso e mole, diferentemente dos adultos, nos quais
a maioria dos cânceres tem origem epitelial (Fig. 6.9). Algumas neoplasias são
evidentes ao nascimento e são obviamente tumores de desenvolvimento que
evoluíram in utero. Além disso, órgãos com desenvolvimento anormal, órgão
primordial persistente e resquício de órgão deslocado são vulneráveis à
transformação neoplásica.
Os cânceres da infância em especial são discutidos nos capítulos que lidam
com os órgãos envolvidos. Os princípios básicos de neoplasia e carcinogênese
são discutidos no Cap. 5.
Tumores benignos e distúrbios tumoriformes em crianças incluem:
• Hamartomas são tumores que representam crescimento exagerado benigno
de tecido normal, com as células organizadas em um modo bastante
irregular.
• Coristomas são semelhantes a hamartomas, porém consistem em agregados
minúsculos de componentes de tecido normal em localizações aberrantes (p
ex., tecido supra-renal no córtex renal).
• Hemangiomas ou tumores constituídos por vasos sangüíneos são vistos com
freqüência em crianças; a maioria regride com a idade. Uma “mancha em
vinho do Porto” constitui um hemangioma capilar congênito da pele da face
ou couro cabeludo, conferindo uma coloração roxo- escuro à área afetada.
• Linfangiomas são tumefações que consistem em muitos canais linfáticos
dilatados, separados por septos fibrosos. A maioria ocorre na cabeça e no
pescoço, mas o assoalho da boca, o mediastino e as nádegas não são locais
raros. Não regridem espontaneamente e devem ser ressecados.
• Teratomas sacrococcígeos são massas lobuladas grandes na região do
sacro ou das nádegas, compostos de muitos tecidos, particularmente de
origem neural. Ocorrem com maior freqüência em meninas. A maioria é
benigna no lactente novo, mas pode se tornar maligna numa fase posterior
da vida; devem ser ressecados.
FIGURA 6.9
Distribuição de tumores da infância de acordo com idade e
localização primária. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s
Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005
p. 277.)
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