Fundamentos de patologia
Capítulo 23 | Amiloidoses
Amiloidoses
Sumário do Capítulo
Amilóide
Amiloidoses Comuns
Características Clínicas das Amiloidoses
Amilóide
A amiloidose descreve um depósito extracelular de proteínas características
que pode ocorrer de modo localizado ou sistêmico associado a diversos
processos mórbidos. O próprio amilóide compõe-se de uma proteína
fibrilogênica doença-específica e um conjunto comum de componentes, que inclui o componente amilóide P (AP) derivado do amilóide P sérico
componentes da membrana basal (laminina, colágeno tipo IV e perlecan) e
apolipoproteína E.
Nas colorações de rotina (H&E), o amilóide mostra-se amorfo, rosa pálido e
vítreo. Colorações especiais podem ser empregadas para acentuar a presença
da proteína amilóide, e a coloração mais comum é o vermelho-Congo. O
amilóide corado pelo vermelho-Congo demonstra birrefringência vermelho
verde-maçã sob luz polarizada. Outras colorações que acentuam o amilóide
são a tioflavina T (visualizada sob luz ultravioleta), alcian blue e colorações
imunoistoquímicas contra proteínas específicas de doenças.
Os diversos amilóides compartilham um aspecto ultra-estrutural. À
microscopia eletrônica, o amilóide tem grupos de fibras organizadas em
arranjos paralelos, e cada grupo apresenta uma orientação diferente; essa
configuração contribui para a propriedade de birrefringência sob luz
polarizada. As subunidades individuais de proteínas são organizadas
primariamente como lâminas dobradas em β. As subunidades protéicas
específicas, que são específicas de doença e parte integral da estrutura do
amilóide, estão relacionadas no Quadro 23.1.
Quadro 23.1
Classificação dos Amilóides
Proteína Proteína
Amilóide Precursora Contexto Clínico
AA apoSAA Inflamação aguda persistente
AL cadeia leve κ Mieloma múltiplo, discrasias de plasmócitos e
ou λ amilóide primário
AH cadeia γ Macroglobulinemia de Waldenströn
ATTR Transtirretina Polineuropatia amiloidótica familiar, TTR
normal no amilóide sistêmico senil
AGel Gelsolina Amiloidose familiar, HCHWA finlandesa,
ACys Cistatina C amiloidose sistêmica hereditária islândica,
ALys Lisozima tipo Ostertag
AFib Fibrinogênio Amiloidose renal hereditária Aβ Precursor de Doença de Alzheimer
β-proteína Síndrome de Down, HCHWA holandesa
APrP Proteína CDJ, scrapie, BSE, GSS, Kuru
ACal príon Carcinoma medular da tireóide
Pró-
(calcitonina)
AANF Fator Amilóide atrial isolado
AIAPP natriurético Diabetes melito tipo II, insulinomas
atrial
Polipeptídeo
de amilóide
de ilhota
CDJ, doença de Creutzfeldt-Jakob; BSE, encefalopatia espongiforme bovina; GSS, síndrome de Gerstmann-Staussler-Sheinker; HCHWA, hemorragia cerebral hereditária associada a amilóide; TTR, transtirretina.
Modificado de Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 1190.
Amiloidoses Comuns
As amiloidoses foram classificadas anteriormente como primária (sem doença
subjacente conhecida), secundária a processo mórbido conhecido, ou familiar
Esse esquema de classificação foi alterado a fim de refletir a proteína doença
específica envolvida na formação do amilóide. Algumas dessas doenças mais
comuns que manifestam depósito de amilóide são:
• Febre Mediterrânea familiar: doença autossômica recessiva; mapeada no
braço curto do cromossomo 16; caracterizada por disfunção de leucócitos
polimorfonucleares e crises recorrentes de serosite
• Doença de Alzheimer: deposição do peptídeo Aβ derivado da clivagem
proteolítica da proteína precursora amilóide (PPA) por secretase; deposição
localizada no cérebro; ver Cap. 28
• Diabetes: a clivagem de polipeptídeos amilóides nas ilhotas resulta na
deposição de amilóide no pâncreas
• Amiloidose AL: derivada de cadeias leves κ ou λ de anticorpos; produzida
por células neoplásicas e, por conseguinte, varia na seqüência entre os
pacientes; pode ocorrer na amiloidose primária, no mieloma múltiplo, nos
linfomas de células B ou em outras discrasias de plasmócitos
• Amiloidose AA: derivado da proteína amilóide sérica normal A; ocorre
associada a distúrbios inflamatórios persistentes, neoplásicos e hereditários
a seqüência AA é a mesma entre os pacientes
Características Clínicas das Amiloidoses
Os aspectos clínicos variam dependendo da localização do depósito de
amilóide predominante. Diferentes órgãos e estruturas podem esta
envolvidos, como:
• Rins: pode resultar em síndrome nefrótica e insuficiência renal
• Vasos: o amilóide está presente com freqüência nas paredes de vasos
sangüíneos e pode provocar complicações hemorrágicas, especialmente no
cérebro de idosos
• Coração: o depósito miocárdico pode levar a cardiomegalia, insuficiência
cardíaca congestiva, arritmias se o sistema de condução for afetado e
miocardiopatia restritiva
• Trato gastrointestinal: afeta mais comumente gânglios, musculatura lisa de
vasos e submucosa, provocando constipação ou diarréia
• Nervos periféricos
Com maior freqüência, o amilóide deposita-se no estroma de órgãos
afetados e pode provocar aumento do órgão com um aspecto ceroso pálido ao
corte, ou atrofia do órgão devido ao comprometimento da circulação. Por fim
o diagnóstico de amiloidose depende da demonstração desse materia
histologicamente.
Nas formas sistêmicas de amiloidose, a doença é progressiva e pode levar à
morte em um curto período de tempo. Por exemplo, os pacientes com
amiloidose AL geralmente morrem em 1 a 2 anos devido a complicações de
amiloidose ou ao próprio processo mórbido subjacente. O tratamento da
amiloidose envolve o controle da doença subjacente, a inibição da formação
do nicho no amilóide (ou seja, tratamento com colchicina da febre
Mediterrânea familiar) e a aceleração da remoção do amilóide (ou seja
tratamento dos pacientes com amiloidose AL com análogo iodado de
doxorrubicina). Outras modalidades potenciais de tratamento são a redução da
concentração de precursor amilóide e a inibição de interações moleculares.
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