Fundamentos de patologia

Donna E. Hansel · Capítulo 11 de 28

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Fundamentos de patologia

Capítulo 11 | O Coração

O Coração

 

 

Sumário do Capítulo

Anatomia e Histologia Normais

Hipertrofia Miocárdica e Insuficiência Cardíaca

Cardiopatia Congênita

Cardiopatia Congênita com Derivação Inicial da Esquerda para a Direita

Cardiopatia Congênita com Derivação da Direita para a Esquerda

Cardiopatia Congênita sem Derivação

Cardiopatia Isquêmica

Cardiopatia Hipertensiva

Cor Pulmonale

Doenças Valvares e Endocárdicas Adquiridas

Cardiopatia Reumática

Doenças Vasculares do Colágeno

Endocardite Bacteriana

Endocardite Trombótica Não-bacteriana

Prolapso da Valva Mitral

Miocardiopatias Primárias

Miocardite

Doenças Metabólicas do Coração

Miocardiopatia

Neoplasias Cardíacas e Distúrbios Tumoriformes

Mixomas Cardíacos

Rabdomioma

Fibroelastoma Papilar

Distúrbios Pericárdicos

Derrame Pericárdico

Pericardite Aguda

Pericardite Constritiva

Patologia das Terapias Intervencionistas

Angioplastia Coronária

Enxertos Arteriais Coronários

Próteses Valvares

Transplante do Coração

 

Anatomia e Histologia Normais

 

O coração é uma bomba muscular do tamanho do punho que pesa

aproximadamente 240 a 340 gramas (Fig. 11.1). O fluxo sangüíneo que deixa

o coração é influenciado por diversos fatores, como resistência ao fluxo de

saída (pressão venosa sistêmica ou pressão da artéria pulmonar)

contratilidade, freqüência cardíaca, higidez cardíaca e condução de impulsos

elétricos. A pressão venosa e a pós-carga inferiores no lado direito do coração

refletem-se na parede mais delgada do ventrículo direito (< 0,5 cm de

espessura da parede), quando comparada à do ventrículo esquerdo (1,3-1,5 cm

de espessura da parede).

O miocárdio é uma rede sincicial de miócitos conectados por junções

intercelulares mecânicas e elétricas. A contração de cada miócito ocorre po

meio de alterações no sarcômero, que é a unidade funcional básica do miócito

O sarcômero é formado por filamentos espessos e delgados interdigitados. Os

filamentos espessos são formados por cadeias pesadas de miosina, proteína C

de ligação da miosina e cadeias leves de miosina. Os filamentos delgados são

formados por actina e componentes reguladores, que incluem a tropomiosina e

o complexo da troponina. A quantidade de força gerada pelo miócito cardíaco

reflete-se na quantidade de sobreposição entre os filamentos espessos e

delgados, com um comprimento ideal de sarcômero de 2,0 a 2,2 μm. A lei de

Starling do coração postula que a força contrátil do coração é uma função do

comprimento diastólico da fibra.

A contração do coração é regulada pela entrada de cálcio no miócito

desencadeando uma alteração de formato das proteínas reguladoras e

permitindo a ciclagem repetitiva (por meio das pontes transversais repetitivas

da actina e da miosina no interior do sarcômero). Em geral, a força gerada pelo

miócito é diretamente proporcional à quantidade de cálcio que penetra na

célula.

O sistema de condução do coração inicia o batimento cardíaco no nódulo

sinoatrial, o qual, a seguir, transmite o impulso elétrico ao longo dos átrios, do

nódulo atrioventricular, do feixe de His e, por fim, dos ramos direito e

esquerdo do sistema de Purkinje, que ativa o músculo ventricular. Em casos de

disfunção do nódulo sinoatrial, os componentes mais distantes do sistema de

condução assumem o papel de marca-passo e, como regra, quanto mais dista

o local do impulso elétrico, mais lenta a freqüência cardíaca.

As artérias coronárias suprem o músculo cardíaco e compõem-se das

artérias coronárias direita e esquerda. O tronco da artéria coronária esquerda

bifurca-se no seu início, formando a artéria descendente anterior esquerda

(DAE) e a artéria circunflexa esquerda. A “dominância” da circulação

coronária é atribuída à artéria coronária que supre a artéria coronária

descendente posterior, que é mais freqüentemente uma distribuição com

dominância da coronária direita. O fluxo sangüíneo no coração tipicamente

passa das porções terminais da artéria coronária ao epicárdio e, a seguir, ao

endocárdio. Nos casos de isquemia miocárdica, o endocárdio geralmente é o

local mais vulnerável.

FIGURA 11.1

Diagrama do coração demonstrando câmaras e valvas cardíacas. (De

Moore KL, Dalley AF. Clinically Oriented Anatomy, 4th ed

Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 1999, p. 121.) VCS, veia

cava superior; VCI, veia cava inferior.

 

Hipertrofia Miocárdica e Insuficiência Cardíaca

 

O débito cardíaco pode ser descrito pelo mecanismo de Frank-Starling, que

postula que o volume sistólico do coração é uma função do comprimento

diastólico da fibra e que, dentro de certos limites, o coração normal irá

bombear qualquer volume trazido pela circulação venosa. Sob circunstâncias

normais, o coração tipicamente ejeta cerca de 60% do volume ventricula

durante a sístole (fração de ejeção). Contudo, nos estados mórbidos, o coração

pode sofrer alterações compensatórias, como hipertrofia, para manter o débito

cardíaco. Quando os mecanismos compensatórios começam a falhar, os

pacientes podem desenvolver insuficiência cardíaca congestiva. Nos casos de

comprometimento grave agudo, o coração não consegue manter o débito

cardíaco e os pacientes podem apresentar choque cardiogênico potencialmente

fatal.

A hipertrofia miocárdica é uma resposta adaptativa que aumenta a força

contrátil do miócito e que se desenvolve sob condições de sobrecarga

hemodinâmica, como na hipertensão crônica, estenose valvar, insuficiência

valvar, lesão miocárdica ou outros estresses. A hipertrofia caracteriza-se por

aumento do tamanho do miócito e das quantidades de proteínas sarcoméricas

sem um aumento verdadeiro no número de miócitos. Com o transcorrer do

tempo, a hipertrofia pode acarretar dilatação ventricular. Diversos fatores estão

envolvidos no desenvolvimento da hipertrofia cardíaca, incluindo:

 

• Angiotensina II: fator secretado localmente e que promove hipertrofia e

formação da matriz extracelular

• Endotelina 1: vasoconstritora e fator de crescimento de miócitos produzido

pelo coração

• Fator de crescimento insulina-símile-1: fator secretado localmente e que

promove o crescimento de miócitos

• Matriz extracelular: o aumento da síntese de colágeno na sobrecarga

cardíaca pode levar ao comprometimento da difusão de oxigênio e

nutrientes

• Dessensibilização β-adrenérgica: diminuição da resposta cardíaca a

catecolaminas devido a defeito no acoplamento do receptor com adenili

ciclase

• Homeostase do cálcio: a menor quantidade de canais RyR2 e a diminuição

da captação de cálcio pelo sarcolema levam à diminuição do cálcio

citosólico e comprometimento da contratilidade

• Expressão de proto-oncogenes: c-jun e c-fos são expressos na sobrecarga

aguda e podem promover a expressão de genes fetais

• Expressão de genes fetais: o fator natriurético atrial e a proteína natriurética

cerebral são reexpressos no coração adulto sucedendo sobrecarga, e podem

reduzir o estresse hemodinâmico por influenciar o equilíbrio de sódio e

água. Ademais, o coração em insuficiência pode utilizar a glicose em vez de

ácidos graxos como fonte de energia em decorrência da reexpressão de

genes fetais.

 

Diversos distúrbios podem causar insuficiência cardíaca, como cardiopatia

isquêmica (80% dos casos), miocardiopatias e cardiopatia congênita. A maior

parte dos pacientes com insuficiência cardíaca apresenta hipertrofia

ventricular. Nos casos em que o ventrículo esquerdo sofre hipertrofia e entra em falência, o ventrículo direito sofre um certo nível de hipertrofia devido à

sobrecarga aumentada. Na maioria dos casos, a hipertrofia ventricular é

sucedida por dilatação dos ventrículos.

A insuficiência cardíaca esquerda constitui a forma mais comum de

insuficiência cardíaca e freqüentemente ocorre secundariamente a cardiopatia

isquêmica e hipertensão. Ocorre aumento das pressões venosas atrial e

pulmonar, resultando em congestão pulmonar passiva, pequenas rupturas de

capilares pulmonares e saída de líquido dos capilares alveolares. Em geral os

pacientes exibem dispnéia de esforço, ortopnéia (dispnéia de decúbito)

dispnéia paroxística noturna e, com freqüência, edema pulmonar. Os pulmões

comumente demonstram a presença de macrófagos repletos de hemossiderina

(“células da insuficiência cardíaca”) devido à ruptura de pequenos capilares

Ademais, a perfusão arterial inadequada de órgãos terminais resulta na

retenção de sódio e água, provocando sobrecargas de volume.

A insuficiência cardíaca direita pode ocorrer associada a doença pulmona

intrínseca ou hipertensão pulmonar ou associada a insuficiência cardíaca

esquerda. Os pacientes freqüentemente demonstram distensão da veia jugular

edema de membros inferiores e congestão do fígado (“fígado em noz

moscada”) e do baço.

À microscopia, os miócitos lesados exibem um aspecto vacuolizado do

citoplasma devido a quantidades maiores de glicogênio e alterações

degenerativas decorrentes da perda de miofibrilas.

 

Cardiopatia Congênita

 

A cardiopatia congênita (CC) é vista em aproximadamente 1% de todos os

nativivos e pode ocorrer associada ou não a outras anomalias congênitas. O

Quadro 11.1 relaciona as anomalias e incidências relativas de cada uma delas

Influências não apenas ambientais como também genéticas foram implicadas

no desenvolvimento da CC, e os fatores de risco incluem uso de certos

fármacos no início da gestação, diabetes materno e infecção materna pelo

vírus da rubéola durante o primeiro trimestre. Defeitos em um único gene que

provoca CC incluem a síndrome de Turner, a síndrome de DiGeorge e a

trissomia do 21.

 

Quadro 11.1

 

Incidência Relativa de Anomalias Específicas em Pacientes com Cardiopatia Congênita

 

Defeitos septais ventriculares — 25 a 30%

Defeitos septais atriais — 10 a 15%

Ducto arterial patente — 10 a 20%

Tetralogia de Fallot — 4 a 9%

Estenose pulmonar — 5 a 7%

Coarctação da aorta — 5 a 7%

Estenose aórtica — 4 a 6%

Transposição completa das grandes artérias — 4 a 10%

Tronco arterial — 2%

Atresia tricúspide — 1%

De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, p. 530.

 

A CC pode ser classificada pela presença de derivações subjacentes no

interior do sistema cardiovascular, conforme descrito no Quadro 11.2. Os

pacientes que não apresentam derivação são tipicamente acianóticos, enquanto

os pacientes que apresentam derivação permanente da direita para a esquerda

ou que se encontram em estágios avançados de um desvio inicial da esquerda

para a direita e que reverteu a direção do fluxo (complexo de Eisenmenger)

tornam-se cianóticos.

 

Quadro 11.2

 

Classificação das Cardiopatias Congênitas

 

Derivação inicial da esquerda para a direita

 

Defeito septal ventricular

Defeito septal atrial

Ducto arterial patente

Tronco arterial persistente

Drenagem venosa pulmonar anômala

Síndrome do coração esquerdo hipoplásico

 

Derivação da direita para a esquerda

 

Tetralogia de Fallot

Atresia tricúspide

Sem derivação

 

Transposição completa dos grandes vasos

Coarctação da aorta

Estenose pulmonar

Estenose aórtica

Origem da artéria coronária na artéria pulmonar

Malformação de Ebstein

Bloqueio cardíaco completo

Fibroelastose endocárdica

De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, p. 531.

 

Cardiopatia Congênita com Derivação Inicial da Esquerda para

a Direita

As derivações iniciais da esquerda para a direita incluem diversas CC

descritas no Quadro 11.3. No início da evolução da doença, os pacientes quase

sempre encontram-se acianóticos, mas tornam-se cianóticos nos estágios

avançados, quando o fluxo da derivação reverte da direita para a esquerda, em

geral secundariamente a aumento da pressão pulmonar. Em muitos casos, o

defeito inicial pode não ser detectável até a reversão tardia do fluxo provocar

cianose, dilatação ventricular esquerda e insuficiência cardíaca. Em um

subgrupo de casos, podem ocorrer êmbolos paradoxais, entidade na qua

êmbolos passam do lado direito do coração para o esquerdo (com subseqüente

embolização sistêmica) por meio de uma anomalia septal.

A forma mais comum de CC é um defeito septal ventricular (DSV). Esses

defeitos podem ocorrer em qualquer ponto ao longo das porções muscular ou

membranosa do septo interventricular e podem apresentar tamanhos

surpreendentemente diferentes. A localização mais comum de um DSV é no

interior da porção membranosa do septo interventricular, que cresce

ventralmente dos coxins endocárdicos e situa-se abaixo da via de saída da

artéria pulmonar ou por trás do folheto septal da valva tricúspide. Pequenas

anomalias podem se fechar espontaneamente, enquanto as maiores podem

provocar reversão do fluxo devido ao aumento das pressões pulmonares, à

dilatação ventricular esquerda e à insuficiência cardíaca congestiva Complicações de DSV incluem endocardite infecciosa, êmbolos paradoxais e

prolapso de uma cúspide valvar aórtica.

Os defeitos septais atriais (DSA) também são anomalias comuns que

envolvem o septo atrial. O desenvolvimento do septo atrial é complexo e

inclui a formação de um septum primum com crescimento ventral, que se

estende até o coxim endocárdico, um defeito subseqüente nesse septum

primum que permite derivação da direita para a esquerda fetal (denominado

ostium secundum), e, por fim, o desenvolvimento de um segundo septo

(septum secundum) à direita do septum primum. A derradeira estrutura

formada por esses septos é o forame oval, que persiste até o nascimento e

quando fechado, é denominado fossa oval. Existem muitos subtipos de DSA

incluindo:

 

• Forame oval patente: até 25% dos adultos normais podem abrigar uma

minúscula abertura assintomática, algumas vezes identificada apenas por

meio de exame com uma sonda (forame oval patente pérvio à sonda), e que

pode vir a se tornar uma derivação verdadeira da direita para a esquerda

com o aumento da pressão atrial direita

• Defeito septal atrial, tipo ostium secundum: é o DSA mais comum (90% dos

casos) e é encontrado na porção média do septo; se associado a estenose

mitral, é denominado síndrome de Lutembacher

• Defeito septal atrial, tipo ostium primum: envolve a região adjacente aos

coxins endocárdicos

• Defeito tipo seio venoso: é encontrado na porção superior do septo, próximo

à entrada da veia cava superior

• Canal atrioventricular: pode ser parcial ou completo e envolve tanto o septo

atrial quanto o ventricular

 

A Fig. 11.2 demonstra o desenvolvimento normal dos septos atriais e

ventriculares. No início da vida, os pacientes com DSA podem descrever

fadiga precoce e dispnéia de esforço. Mais tarde, pode ocorrer o

desenvolvimento de uma derivação da direita para a esquerda secundária a

aumentos da pressão pulmonar, provocando cianose e baqueteamento dos

dedos. As complicações podem incluir arritmias atriais, hipertensão pulmonar

hipertrofia ventricular direita, insuficiência cardíaca, êmbolos paradoxais e

endocardite bacteriana.

Anomalias adicionais que envolvem uma derivação inicial da esquerda para

a direita são descritas no Quadro 11.3 e incluem ducto arterial patente, tronco

arterial, síndrome do coração esquerdo hipoplásico e retorno venoso pulmonar

anômalo.

 

FIGURA 11.2

A. Uma câmara atrial comum está sendo separada nos átrios direito e

esquerdo (AD e AE) pelo septum primum. Como o septum primum

ainda não se juntou aos coxins endocárdicos, existe um ostium

primum aberto. A cavidade ventricular está sendo dividida por um

septo interventricular muscular nas cavidades direita e esquerda (VD

e VE). VCS, veia cava superior; VCI, veia cava inferior. B. Formação

de câmaras separadas do coração. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams &

Wilkins, p. 532.)

 

Quadro 1.3

 

Cardiopatia Congênita com Derivações Iniciais da Esquerda para a

Direita

 

Doença Descrição

 

Defeito Cardiopatia congênita mais comum; freqüentemente

septal encontrado no septo membranoso abaixo da via de saída

ventricular da artéria pulmonar; pequenos DSV freqüentemente

(DSV) fecham-se espontaneamente; DSV grandes podem

acarretar insuficiência cardíaca, endocardite infecciosa,

êmbolos paradoxais, prolapso de uma cúspide valvar

aórtica e hipertensão pulmonar

 

Defeito Conexão normal entre os átrios (forame oval, ostium

septal atrial secundum, ostium primum, seio venoso, canal

(DSA) atrioventricular) é mantida após o nascimento; os

pacientes no início da doença podem manifestar cansaço

facilmente e dispnéia de esforço, e posteriormente revelar

cianose e baqueteamento dos dedos; a alteração pode ser

complicada por arritmias, hipertensão pulmonar,

hipertrofia ventricular direita, insuficiência cardíaca,

êmbolos paradoxais e endocardite bacteriana

 

Ducto Persistência de estrutura fetal pode levar a complicações

arterial quando grande, incluindo hipertrofia ventricular

patente esquerda, insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar e

(DAP) endocardite bacteriana; pode ser corrigida por aplicação

de inibidor de prostaglandina (p. ex., indometacina)

 

Tronco Tronco comum da aorta, das artérias pulmonares e das

arterial artérias coronárias que sempre cavalga um DSV e recebe

persis tente sangue dos dois ventrículos; os pacientes apresentam

insuficiência cardíaca rapidamente, infecções recorrentes

do trato respiratório e morte precoce devido a fluxo

sangüíneo pulmonar volumoso

 

Síndrome Hipoplasia do ventrículo esquerdo e da aorta ascendente e

do coração hipoplasia ou atresia das valvas esquerdas; acompanhada

esquerdo por uma derivação obrigatória da esquerda para a direita

hipoplásico através de forame oval patente; o fluxo sangüíneo

sistêmico passa do tronco pulmonar para a aorta por meio

de um ducto arterial patente

 

Retorno Mais comumente, a drenagem anômala completa da veia

venoso pulmonar demonstra drenagem dessa veia em uma

pulmonar câmara venosa pulmonar comum e, a seguir, ao longo de

anômalo uma veia cava superior esquerda persistente; os pacientes

conseguem sobreviver apenas se houver um forame oval

patente ou um defeito septal atrial

 

Cardiopatia Congênita com Derivação da Direita para a

Esquerda

As cardiopatias congênitas que demonstram derivação da direita para a

esquerda incluem tetralogia de Fallot e atresia tricúspide.

A tetralogia de Fallot representa 10% de todos os casos de CC e é definida

por quatro defeitos anatômicos:

 

• Estenose pulmonar

• Defeito septal ventricular que envolve o septo muscular e os coxins

endocárdicos

• Dextroposição da aorta de modo que ela cavalga o defeito septal ventricular

• Hipertrofia ventricular direita

 

O coração na tetralogia de Fallot sofre hipertrofia e assume o formato de

uma bota. Ademais, quase metade de todos os pacientes apresenta outras

anomalias cardíacas, como DSA do tipo ostium secundum, ducto arteria

patente, veia cava superior esquerda e defeitos nos coxins endocárdicos. Se as

anomalias cardíacas não forem corrigidas nos primeiros 2 anos de vida, os

pacientes desenvolvem dispnéia de esforço, dessaturação arterial e cianose. As

complicações podem incluir insuficiência cardíaca, atraso do crescimento

policitemia, endocardite bacteriana e abscessos cerebrais.

A atresia tricúspide consiste na ausência congênita da valva tricúspide que

resulta em uma derivação da direita para a esquerda através de um forame ova

patente.

 

Cardiopatia Congênita sem Derivação

Diversas cardiopatias congênitas podem produzir sintomas sérios sem a

presença de uma derivação. Essas alterações são descritas no Quadro 11.4.

 

Quadro 11.4

 

Cardiopatia Congênita sem Derivações

 

Doença Descrição

 

Transposição A aorta origina-se do ventrículo direito e a artéria

das grandes pulmonar origina-se do ventrículo esquerdo; a

artérias sobrevivência só é possível se houver uma comunicação

entre as duas circulações, como um DSA, DSV ou ducto

arterial patente

 

Coarctação da Constrição local da aorta que freqüentemente ocorre

aorta abaixo da origem da artéria subclávia esquerda no local

do ducto arterial pode estar associada a síndrome de

Turner ou a aneurismas saculares no cérebro;

identificada clinicamente por uma diferença nas leituras

de pressão arterial entre os membros superiores e

inferiores, e resulta em hipertrofia ventricular esquerda,

tontura e cefaléias; radiologicamente é identificada por

chanfraduras das superfícies internas das costelas

 

Estenose Pode envolver as valvas pulmonares, o músculo

pulmonar infundibular ventricular direito com estenose subvalvar,

ou porções periféricas das artérias pulmonares

 

Estenose Pode ser valvar (freqüentemente associada a valva aórtica

aórtica bicúspide), subvalvar (faixa de tecido fibroelástico ou

congênita crista muscular abaixo das valvas), ou uma estenose

supravalvar; com o decorrer do tempo, pode resultar em

calcificação valvar com redução da mobilidade, levando

a dispnéia e angina de peito Artéria Região do miocárdio suprida pela artéria coronária

coronária aberrante pode sofrer isquemia secundária ao teor

originando- diminuído de oxigênio da artéria pulmonar

se de uma

artéria

pulmonar

 

Malformação Deslocamento para baixo de uma valva tricúspide

de Ebstein anormal (com freqüência a valva septal ou a posterior)

para um ventrículo direito subdesenvolvido; as valvas

mostram-se alongadas e aderentes à parede ventricular;

pode acarretar insuficiência cardíaca, dilatação atrial

direita, arritmias e morte súbita

 

Bloqueio Ruptura do sistema de condução que freqüentemente

cardíaco complica outros defeitos cardíacos congênitos; pode

congênito acarretar hipertrofia cardíaca, arritmias, tontura e

insuficiência cardíaca

 

Fibroelastose Espessamento fibroelástico do endocárdio do ventrículo

endocárdica esquerdo que pode afetar as valvas; pode ser primária

ou secundária a fatores que levam à hipertrofia

ventricular esquerda; macroscopicamente, o coração

mostra áreas branco-acinzentadas

 

Dextrocardia Orientação para a direita do eixo base-ápice do coração;

o coração é funcionalmente normal se a dextrocardia

ocorrer associada a situs inversus (posição invertida dos

órgãos viscerais)

 

Cardiopatia Isquêmica

 

A cardiopatia isquêmica ocorre com maior freqüência associada a

aterosclerose, embora vasospasmo coronário, estenose aórtica, ou insuficiência

aórtica também possam induzir isquemia cardíaca. Em geral, a cardiopatia

aterosclerótica é responsável pela grande maioria de mortes relacionadas com

cardiopatia. Os fatores de risco para cardiopatia isquêmica estão relacionados

no Quadro 11.5.

Quadro 11.5

 

Fatores de Risco para Cardiopatia Isquêmica

 

Hipertensão sistêmica

Tabagismo

Diabetes melito

Colesterol sangüíneo elevado: especificamente, lipoproteínas de baixa

densidade (LDL) elevadas e lipoproteínas de alta densidade (HDL)

diminuídas

Obesidade

Envelhecimento

Sexo masculino

História familiar

Estilo de vida sedentário

Fatores séricos, trombóticos ou trombolíticos, aberrantes

 

Qualquer distúrbio que interfira no suprimento sangüíneo ao coração, com a

oxigenação do sangue ou com o aumento do trabalho cardíaco, pode provocar

cardiopatia isquêmica (Quadro 11.6). O fluxo sangüíneo ao coração torna-se

comprometido apenas na vigência de estenose luminal extensa (50 a 75% de

estenose luminal); as artérias coronárias são pequenas artérias musculares que

proporcionam resistência mínima ao fluxo sangüíneo. Em muitos casos, o

infarto agudo do miocárdio é causado por trombose secundária a ruptura

espontânea de uma placa aterosclerótica. A distribuição do infarto miocárdico

demonstra localizações específicas dependendo da artéria coronária envolvida

(Fig. 11.3) e diferentes características microscópicas com base na idade do

infarto.

 

Quadro 11.6

 

Causas de Cardiopatia Isquêmica

 

Redução da oferta de oxigênio

 

Distúrbios que influenciam o suprimento sangüíneo

 

Aterosclerose e trombose

Tromboêmbolos

Espasmo de artéria coronária

Vasos sangüíneos colaterais

Pressão arterial, débito cardíaco e freqüência cardíaca

Outros: arterite (p. ex., periarterite nodosa), aneurisma dissecante, aortite

luética, origem anômala da artéria coronária, ponte muscular da artéria

coronária

 

Distúrbios que influenciam a disponibilidade de oxigênio no sangue

 

Anemia

Deslocamento da curva de dissociação da hemoglobina-oxigênio

Monóxido de carbono

Cianeto

 

Aumento da demanda por oxigênio (ou seja, aumento do trabalho

cardíaco)

 

Hipertensão

Estenose ou insuficiência valvares

Hipertireoidismo

Febre

Deficiência de tiamina

Catecolaminas

De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, p. 543.

 

Infartos do miocárdio podem ser classificados como subendocárdicos ou

transmurais. Os infartos subendocárdicos afetam o terço interno do ventrículo

esquerdo e com freqüência ocorrem devido a hipoperfusão do coração. Por

outro lado, os infartos transmurais envolvem toda a espessura da parede

ventricular e com freqüência ocorrem sucedendo oclusão de uma artéria

coronária. O infarto pode evoluir com o tempo, e a extensão do infarto está

relacionada com o volume do fluxo colateral arterial.

As manifestações de cardiopatia isquêmica incluem:

 

• Angina de peito: tipicamente, dor subesternal que se irradia para o braço

esquerdo, mandíbula e região epigástrica, e pode estar acompanhada por

diaforese e náusea

• Angina estável: angina induzida por esforço físico ou estresse emocional, e

que é aliviada por repouso ou nitroglicerina sublingual

• Angina instável: início súbito de angina que pode ocorrer durante repouso

ou sono, associada ao desenvolvimento de trombos não-oclusivos sobre

placas ateroscleróticas, e que pode evoluir rapidamente para infarto do

miocárdio

• Angina de Prinzmetal: forma atípica de angina que ocorre em repouso e é

causada por espasmo da artéria coronária

• Infarto do miocárdio: foco individualizado de infarto que ocorre ao longo

de distribuições vasculares específicas

• Miocardiopatia isquêmica: episódios repetidos de isquemia resultam em

lesão de miócitos e disfunção ventricular esquerda, provocando

insuficiência cardíaca congestiva

• Morte súbita: freqüentemente causada por trombose aguda de uma artéria

coronária provocando fibrilação ventricular

 

Durante os primeiros 20 a 30 minutos de isquemia, a lesão dos miócitos

pode ser reversível. Entretanto, isquemia de duração maior resulta em lesão

permanente dos miócitos e alterações identificáveis a olho nu. Os achados

macroscópicos e microscópicos associados a infarto do miocárdio variam com

o tempo, e os principais achados estão relacionados no Quadro 11.7.

 

Quadro 11.7

 

Achados Macroscópicos e Microscópicos na Isquemia Cardíaca

 

Tempo Achados

Decorrido

Após

Isquemia

 

12-18 O infarto torna-se visível a olho nu como uma área evidente

horas de palidez e, à microscopia, contém fibras profundamente

eosinofílicas com necrose de coagulação e formação de

“fibras onduladas”

 

24 horas Infiltração de neutrófilos na periferia do infarto e os miócitos

perdem o núcleo

 

5-7 dias Ao exame macroscópico, o infarto mostra-se mosqueado e

mais bem delineado com uma região necrótica pálida

circundada por uma zona hiperêmica e, à microscopia, a

resposta neutrofílica abrandou-se; a periferia mostra

fagocitose, por macrófagos, do músculo morto, proliferação

de fibroblastos e infiltra ção de linfócitos

 

2-3 A olho nu, a região encontra-se deprimida e amolecida; à

semanas microscopia, o infiltrado inflamatório gradualmente

diminui e tem início o depósito de colágeno

 

> 1 mês O infarto mostra-se firme e branco e, à microscopia, revela

tecido fibroso denso

 

Quando ocorre reperfusão dos miócitos isquêmicos, a área do infarto

mostra-se hemorrágica e os miócitos mostram necrose com faixas de

contração, que são faixas eosinofílicas espessas, irregulares nos miócitos

necróticos.

Os infartos do miocárdio podem se manifestar com dor subesternal ou

precordial do tipo esmagamento, que pode se estender para a mandíbula ou

para baixo pela face interna do braço esquerdo. Os pacientes também

manifestam náusea, vômitos, diaforese e falta de ar. Um subgrupo de infartos

miocárdicos pode ser silencioso, especialmente em pacientes diabéticos. O

eletrocardiograma demonstra novas ondas Q e alterações no segmento ST

Também estão presentes elevações das enzimas cardíacas, troponinas

cardíacas e a isoforma MB da CK.

O tratamento do infarto do miocárdio inclui o restabelecimento do fluxo

sangüíneo por meio de enzimas trombolíticas (ativador de plasminogênio

tissular ou estreptoquinase) ou angioplastia coronária transluminal percutânea

(ACTP). Além disso, enxerto arterial coronário pode ser usado para

restabelecer o fluxo sangüíneo ao segmento distal de uma artéria coronária

ocluída.

As complicações dos infartos do miocárdio incluem:

 

• Arritmias

• Falência ventricular esquerda e choque cardiogênico

• Ruptura da parede livre do miocárdio

• Ruptura da musculatura papilar com regurgitação mitral decorrente

• Aneurismas

• Trombose mural e embolia

•Pericardite: A síndrome de Dressler refere-se a uma forma tardia de

pericardite que ocorre 2 a 10 semanas após o infarto, e pode ter uma base

imunológica

 

FIGURA 11.3

Posição de infartos do ventrículo esquerdo decorrentes da oclusão de

cada uma das três artérias coronárias principais. A. Infarto póstero-

lateral. B. Infarto anterior. C. Infarto posterior. (De Rubin E, Gorstein

F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott

Williams & Wilkins, p. 524.)

 

Cardiopatia Hipertensiva

 

A hipertensão é definida como elevação persistente da pressão arterial a níveis

superiores a 140 mm Hg sistólica ou 90 mm Hg diastólica. A hipertensão

sistêmica crônica provoca sobrecarga de pressão no ventrículo esquerdo que

por fim, leva a alterações compensatórias, como hipertrofia ventricular

esquerda concêntrica e hipertrofia septal. Ao exame macroscópico, o coração

revela-se aumentado e pesando mais de 350 gramas. À microscopia, o coração

revela aumento do diâmetro dos miócitos com núcleo aumentado, retangula (“boxcar [vagão de trem]”). Ademais, pode haver fibrose intersticial leve a

moderada. A cardiopatia hipertensiva também está associada ao agravamento

de aterosclerose coronária subjacente.

A hipertensão crônica persistente pode, por fim, sobrepujar os mecanismos

compensatórios do coração e provocar insuficiência cardíaca congestiva. Além

disso, as complicações vasculares que surgem da hipertensão crônica incluem

hemorragia intracerebral, infarto do miocárdio, aneurisma aórtico e doença

renal.

 

Cor Pulmonale

 

O cor pulmonale consiste na hipertrofia e dilatação do ventrículo direito

secundárias a hipertensão pulmonar. O aumento da resistência ao fluxo no

interior das artérias pulmonares ou arteríolas resulta em sobrecarga de pressão

no ventrículo direito, com decorrente hipertrofia compensatória. Além do

aumento da resistência no interior dos vasos pulmonares, hipoxia, acidose e

hipercapnia contribuem para a vasoconstrição pulmonar. Cor pulmonale pode

ocorrer na vigência de doença parenquimatosa pulmonar, vasculopatia

pulmonar, cardiopatia congênita ou diminuição da mobilidade do tórax

(Quadro 11.8).

O cor pulmonale pode ser agudo ou crônico. O processo agudo consiste na

ocorrência súbita de hipertensão pulmonar, que, com maior freqüência, ocorre

associada a êmbolos pulmonares maciços. Por outro lado, o cor pulmonale

crônico é muito mais comum e freqüentemente está associado a pneumopatia

obstrutiva crônica e fibrose pulmonar.

À macroscopia, o ventrículo direito encontra-se hipertrófico com espessura

da parede freqüentemente superior a 1 cm (a espessura normal é de 0,3-0,5

cm). Com freqüência, o ventrículo direito e o átrio direito mostram-se

dilatados. À microscopia, as alterações são as mesmas das observadas na

hipertensão ventricular esquerda, incluindo aumento do diâmetro dos miócitos

e aumento dos núcleos.

 

Quadro 11.8

 

Causas de Cor Pulmonale

 

Doenças parenquimatosas do pulmão

Bronquite crônica e enfisema Fibrose pulmonar (de qualquer etiologia)

Fibrose cística

 

Doenças vasculares pulmonares

Êmbolos pulmonares recorrentes

Hipertensão pulmonar primária

Estenose pulmonar periférica

Uso abusivo de drogas intravenosas

Residência em grandes altitudes

Esquistossomose

 

Cardiopatias congênitas

 

Comprometimento da movimentação do gradil torácico

Cifoescoliose

Síndrome de Pickwick

Fibrose pleural

Distúrbios neuromusculares

Hipoventilação idiopática

De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, p. 553.

 

Doenças Valvares e Endocárdicas Adquiridas

 

A valvopatia pode ocorrer em decorrência de inflamação, infecção ou doenças

degenerativas. A estenose valvar ocorre quando seus folhetos encontram-se

espessados e fundidos, o que leva a obstrução do fluxo sangüíneo e hipertrofia

do músculo cardíaco proximal à obstrução devido a sobrecarga de pressão. A

regurgitação valvar decorre da destruição da valva, o que acarreta fluxo

sangüíneo retrógrado, sobrecarga de volume na câmara cardíaca proximal e

subseqüente hipertrofia. Nos dois casos, quando os mecanismos

compensatórios cardíacos falham, pode ocorrer dilatação da câmara afetada

com função reduzida. O Quadro 11.9 apresenta uma descrição de valvopatias

adquiridas.

 

Cardiopatia Reumática

A cardiopatia reumática freqüentemente tem início como uma febre reumática

aguda durante a infância e é comum provocar deformidades crônicas das valvas cardíacas. Dois tipos de cardiopatia reumática estão resumidos no

Quadro 11.9.

 

Quadro 11.9

 

Valvopatias Adquiridas

 

Patologia Etiologia Achados Físicos Complicações

 

Cardiopatia reumática

 

Febre Streptococcus Miocardite Com freqüência,

reumática pyogenes associada a o processo sofre

aguda (estreptococos β- formação de resolução,

hemolíticos do corpúsculo de embora exista

grupo A) Aschoff, uma pequena

pericardite “pão taxa de

com manteiga” mortalidade

e endocardite associada a

com deposição miocardite

nodular de persistente; pode

fibrina, haver o

especialmente desenvolvimento

nas valvas de cardiopatia

esquerdas reumática

crônica

 

Cardiopatia Resolução de febre Folhetos valvares Regurgitação da

reumática reumática aguda fibróticos, valva mitral,

crônica espessados, estenose mitral,

contraídos e insuficiência

menos cardíaca

maleáveis, congestiva,

freqüentemente endocardite

fundidos; mais bacteriana,

comumente trombos murais,

afeta a valva pericardite

mitral, adesiva

provocando um

aspecto de

“boca de peixe”

da valva

 

Doenças vasculares do colágeno

 

Lúpus Auto-imune Endocardite com Coronariopatia,

eritematoso vegetações estenose ou

sistêmico verrucosas regurgitação

(LES) (endocardite de valvares

Libman-Sacks)

mais comum na

valva mitral,

pericardite

fibrinosa

 

Artrite Auto-imune Inflamação Em geral não

reumatóide granulomatosa compromete a

reumatóide com função

necrose

fibrinóide e

linfócitos e

macrófagos em

paliçada no

miocárdio,

pericárdio ou

nas valvas

 

Espondilite Auto-imune Dilatação do Regurgitação

anquilosante anel aórtico e aórtica

formação de

tecido cicatricial

da valva aórtica,

provocando

regurgitação

aórtica

 

Endocardite Infecção das valvas Vegetações Destruição da

bacteriana cardíacas, e pode bacterianas valva, levando a

ser aguda freqüentemente insuficiência

( Staphylococcus nas valvas cardíaca

aureus ou S. esquerdas congestiva,

pyogenes) ou (mitral e êmbolos

subaguda aórtica), com sépticos,

( Streptococcus freqüência nos glomerulonefrite

viridans ou pontos de devido a

Staphylococcus fechamento dos deposição de

epidermidis); folhetos ou imunocomplexos

ocorre associada a cúspides; o uso nos rins

valvopatia, abusivo de

próteses valvares, drogas

bacteremia, uso intravenosas

abusivo de drogas pode envolver

intravenosas, ou primariamente

idade avançada valvas direitas

 

Endocardite Associada a câncer Vegetações Embolização das

trombótica ou doenças estéreis nas vegetações

não- debilitantes valvas mitral e

bacteriana aórtica que não

acarretam

destruição

valvar

 

Estenose Valvopatia aórtica Calcificação Hipertrofia

aórtica reumática, distrófica da ventricular

calcificada estenose valva aórtica esquerda

calcificada senil que produz concêntrica,

ou estenose nódulos na base insuficiência

aórtica bicúspide e na metade cardíaca

congênita inferior dos congestiva

folhetos aórticos

e raramente

envolve as

margens livres Calcificação Pacientes idosos Depósitos Freqüentemente

do anel da calcificados assintomática;

valva mitral transformam o pode haver um

anel mitral em sopro

uma barra

encurvada

rígida, sem

deformação dos

folhetos

valvares

 

Prolapso da Idiopática, As valvas mitrais A maioria dos

valva mitral síndrome de encontram-se pacientes é

Marfan, distúrbios aumentadas e assintomática,

do colágeno, redundantes e mas pode

distrofia muscular as cordas provocar

miotônica, tendíneas endocardite

hipertireoidismo, encontram-se

entre outras adelgaçadas e

alongadas,

provocando

adejamento das

valvas mitrais

 

Disfunção de Cardiopatia Formação de Regurgitação

músculo isquêmica tecido cicatricial mitral

papilar do músculo

papilar

 

Cardiopatia Com freqüência Depósitos, Estenose de valva

carcinóide pequenos semelhantes a pulmonar

carcinóides placas, de tecido

intestinais que fibroso denso,

deram metástase cinza-perolado,

para o fígado nas valvas

tricúspide e

pulmonar e no

endocárdio

ventricular

direito,

associados à

deformação das

valvas

 

Febre Reumática Aguda

A febre reumática aguda (FRA) é uma doença multissistêmica da infância e

ocorre após uma infecção estreptocócica aguda, em geral uma faringite. As

crianças acometidas comumente têm entre 9 e 11 anos de idade. O agente

infeccioso é o Streptococcus pyogenes, que é um membro do grupo A da

família de Streptococcus β-hemolíticos. Embora a patogenia da FRA não seja

conhecida, propôs-se que anticorpos de reação cruzada contra antígenos

estreptocócicos poderiam levar a uma reação semelhante à auto-imune no

interior do corpo.

A FRA afeta o pericárdio, o miocárdio, o endocárdio e as valvas. Os

achados microscópicos incluem:

 

• Miocárdio: miocardite inespecífica com infiltração de linfócitos e

macrófagos, degeneração fibrinóide do colágeno e formação de corpúsculos

de Aschoff, que são lesões granulomatosas com uma região fibrinóide

central circundada por linfócitos, plasmócitos, macrófagos e células

gigantes

• Pericárdio: depósitos eriçados de fibrina nas superfícies visceral e parieta

do pericárdio, patologia denominada pericardite do tipo “pão com

manteiga”

• Endocárdio e valvas: os folhetos das valvas (mais freqüentemente das

valvas do lado esquerdo) tornam-se inflamados e edematosos e, por fim

provocam a deposição de minúsculos nódulos de fibrina ao longo dos

folhetos, alteração denominada endocardite verrucosa

 

O diagnóstico clínico da FRA exige a presença de dois critérios principais

ou de um critério principal e dois critérios secundários. Os critérios principais

são cardite, poliartrite, coréia, eritema marginado e nódulos subcutâneos. Os

critérios secundários incluem história pregressa de febre reumática, artralgia

febre, achados laboratoriais específicos e alterações eletrocardiográficas (ECG). Com freqüência, os pacientes manifestam sintomas 2 a 3 semanas após

a infecção, e os sintomas tipicamente sofrem resolução em 3 meses. As

articulações e o sistema nervoso central podem estar envolvidos

Freqüentemente o tratamento é sintomático. A FRA pode ser evitada com o

tratamento imediato de faringite estreptocócica com antibióticos.

 

Cardiopatia Reumática Crônica

Lesão estrutural crônica freqüentemente sucede febre reumática aguda e é

denominada cardiopatia reumática crônica. De modo característico, as valvas

cardíacas demonstram fibrose difusa, tornando-as espessadas, enrugadas e

menos maleáveis. Além disso, os folhetos das valvas afetadas podem

desenvolver aderências fibrosas, levando à fusão das valvas e subseqüente

estenose. Quase sempre a valva afetada com maior freqüência é a valvas

mitral, e a segunda em ordem de freqüência é a valva aórtica. A valva mitra

pode apresentar um aspecto de “boca de peixe” quando visualizada da face

ventricular devido à intensidade das aderências dos folhetos. As complicações

da cardiopatia reumática crônica incluem endocardite bacteriana, trombos

murais, insuficiência cardíaca congestiva e pericardite adesiva.

 

Doenças Vasculares do Colágeno

Diversas doenças vasculares do colágeno podem provocar valvopatia, como

lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatóide. Doenças vasculares

específicas do colágeno estão resumidas no Quadro 11.9.

 

Endocardite Bacteriana

A endocardite bacteriana é uma infecção das valvas cardíacas que afeta mais

comumente as do lado esquerdo. A endocardite bacteriana aguda

freqüentemente resulta na rápida destruição da valva infectada e envolve a

colonização das mesmas por microrganismos supurativos muito virulentos

como Staphylococcus aureus e S. pyogenes. A endocardite bacteriana

subaguda tipicamente afeta valvas previamente lesadas e envolve infecção po

microrganismos menos virulentos, como Streptococcus viridans ou

Staphylococcus epidermidis. Os fatores predisponentes para endocardite

bacteriana incluem:

 

• Cardiopatia congênita: fator predisponente mais comum em crianças

• Prolapso de valva mitral

• Cardiopatia reumática

• Uso de drogas intravenosas

• Próteses valvares

• Bacteremia transitória: ocorre devido a qualquer procedimento que

introduza bactérias no sangue, como procedimentos dentários e cateterismo

• Idade avançada

 

Ao exame macroscópico, coleções de vegetações bacterianas mostram-se

como nódulos irregulares castanho-rosados nas valvas, freqüentemente

envolvendo seus pontos de fechamento ou cúspides. A valva subjacente pode

mostrar-se lesada ou erodida. À microscopia, podem ser identificados

microrganismos com auxílio de colorações especiais.

Clinicamente, o início da endocardite bacteriana manifesta febre de grau

baixo, fadiga, anorexia e perda de peso. Por fim, os pacientes podem

desenvolver sopros cardíacos, esplenomegalia, petéquias e baqueteamento dos

dedos. O tratamento envolve a administração de um esquema prolongado de

antibióticos. As complicações incluem disseminação de tromboêmbolos

infectados, glomerulosclerose segmentar focal devido ao depósito de

imunocomplexos nos glomérulos, e insuficiência cardíaca congestiva

secundária a uma valva lesada.

 

Endocardite Trombótica Não-bacteriana

A endocardite trombótica não-bacteriana (ETNB) refere-se à presença de

vegetações estéreis em valvas cardíacas normais e ocorre freqüentemente

associada a um câncer subjacente ou uma doença debilitante. A ETNB é

semelhante à endocardite bacteriana, exceto por não apresentar lesão da valva

subjacente.

 

Prolapso da Valva Mitral

O prolapso da valva mitral é um distúrbio relativamente comum em que os

folhetos da valva mitral tornam-se aumentados e excessivos e as cordas

tendíneas tornam-se adelgaçadas e alongadas, levando ao prolapso das valvas

mitrais no interior do átrio esquerdo durante a sístole. O prolapso da valva

mitral pode ser primário e pode estar associado a uma forte história familiar da

doença, ou pode ocorrer secundariamente a diversos distúrbios, como a

síndrome de Marfan, distúrbios do colágeno hereditários, distrofia muscula miotônica, hipertireoidismo, lesões cardíacas congênitas e doença de von

Willebrand.

Ao exame macroscópico, as valvas mitrais são redundantes e deformadas e

demonstram um aspecto gelatinoso. À microscopia, existe um acúmulo de

tecido conjuntivo mixomatoso no centro do folheto valvar.

A maioria dos pacientes com prolapso da valva mitral é assintomática, com

um clique mesossistólico a tardio ocasional. Ocorrendo regurgitação mitral

pode ser auscultado um sopro sistólico tardio. A endocardite pode ser uma

complicação dessa doença. Nos casos graves de prolapso da valva mitral, está

indicada a substituição da valva.

 

Miocardiopatias Primárias

 

As doenças primárias do miocárdio incluem miocardite, doenças metabólicas e

miocardiopatias.

 

Miocardite

Miocardite é uma inflamação do miocárdio associada a necrose e degeneração

de miócitos independente de cardiopatia isquêmica. A miocardite é mais

comum em crianças de 1 a 10 anos de idade, embora a doença possa ocorrer

em qualquer idade. Na maioria dos casos, a etiologia não é determinada com

certeza, mas propôs-se uma infecção viral como causa subjacente. Os agentes

etiológicos da miocardite estão relacionados no Quadro 11.10. As

complicações da miocardite incluem insuficiência cardíaca aguda, arritmias e

morte súbita.

 

Quadro 11.10

 

Causas de Miocardite

 

Idiopática

 

Infecciosa

 

• Viral: Coxsackievírus, echovírus, vírus influenza, vírus da

imunodeficiência humana e muitos outros

• Riquétsias: Tifo, febre maculosa das Montanhas Rochosas

• Bacteriana: Difteria, infecção estafilocócica, estreptocócica,

meningocócica, por Borrelia (doença de Lyme) e por leptospira • Fungos e parasitas protozoários: Doença de Chagas, toxoplasmose,

aspergilose, criptococose e infecção por Candida

• Parasitas metazoários: Echinococcus, Trichinella

 

Não-infecciosa

 

• Hipersensibilidade e doenças imunologicamente relacionadas: Febre

reumática, lúpus eritematoso sistêmico, esclerodermia, reação a

fármacos (p. ex., a penicilina ou sulfonamida) e artrite reumatóide

• Radiação

• Outras: Sarcoidose, uremia

De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, p. 564.

 

Miocardite Infecciosa

A miocardite viral é a forma mais comum de miocardite e pode ser causada

por diversos vírus, incluindo coxsackievírus, echovírus e o vírus influenza. Os

pacientes com HIV são especialmente propensos a miocardite viral causada

por coxsackie B e adenovírus. A miocardite viral parece envolver

citotoxicidade viral direta ou reações imunológicas do tipo celular. Outras

causas infecciosas de miocardite são bactérias, riquétsias, fungos

toxoplasmose e Trypanosoma cruzi (doença de Chagas).

Ao exame macroscópico, o coração mostra-se mole e com dilatação

biventricular, que se correlaciona com os achados clínicos de hipocinesia

global do miocárdio. À microscopia, observa-se infiltrado intersticial irregular

ou difuso de linfócitos T e macrófagos. Ocasionalmente, células gigantes

multinucleadas podem ser observadas. Com freqüência células inflamatórias

circundam miócitos individuais, que sofrem necrose miocítica focal. À medida

que a infecção evolui para a cura, predominam a proliferação de fibroblastos e

a deposição de colágeno intersticial. Com freqüência, a miocardite viral está

associada a pericardite.

 

Miocardite por Hipersensibilidade

A miocardite por hipersensibilidade ocorre em resposta à administração de

fármacos e mostra-se morfologicamente semelhante à miocardite viral, exceto

pelo fato de eosinófilos estarem presentes com freqüência, e a necrose

miocítica ser rara. A maioria dos pacientes freqüentemente é assintomática embora dor torácica e alterações no ECG possam estar presentes. O tratamento

envolve a suspensão do fármaco desencadeador e, por vezes, a administração

de corticóides.

 

Miocardite de Células Gigantes

A miocardite de células gigantes é uma doença rara e muito agressiva

caracterizada por inflamação intensa do coração com áreas extensas de

necrose de miócitos e presença de muitas células gigantes multinucleadas

Essa doença manifesta-se com maior freqüência durante a terceira e a quinta

décadas de vida e é rapidamente fatal. Ao exame microscópico, o coração

mostra-se mole e dilatado com muitos trombos murais. À microscopia, células

gigantes, linfócitos e macrófagos circundam áreas serpiginosas de necrose. O

único tratamento para essa doença é o transplante do coração, embora a

patologia recorra em alguns pacientes.

 

Doenças Metabólicas do Coração

Diversas doenças metabólicas provocam manifestações cardíacas

Hipertireoidismo pode causar taquicardia e aumento da carga de trabalho

cardíaca e pode, por fim, acarretar angina de peito e insuficiência de débito

alto. Hipotireoidismo grave (mixedema) provoca diminuição do débito

cardíaco, redução da freqüência cardíaca e comprometimento da contratilidade

miocárdica, que podem resultar em coração flácido e dilatado com fibrose

intersticial. A cardiopatia por beribéri ocorre em pacientes com deficiência de

vitamina B1 (tiamina) e provoca dilatação do coração e insuficiência de débito

alto.

 

Miocardiopatia

A miocardiopatia é uma doença primária do miocárdio e inclui as formas

dilatada, hipertrófica e restritiva.

 

Miocardiopatia Dilatada

A miocardiopatia dilatada (MCD) é a forma mais comum de miocardiopatia e

caracteriza-se por dilatação biventricular, comprometimento da contratilidade

e, por fim, insuficiência cardíaca congestiva. A etiologia subjacente da MCD é

desconhecida; no entanto, propôs-se que fatores genéticos tivessem

participação no processo, e mutações em diversos genes associados a geração de força no interior do miócito foram associadas a essa doença, como nos

genes codificadores da distrofina, desmina e troponina T.

A miocardiopatia dilatada secundária ocorre associada a diversos

distúrbios, como miocardite viral, etanol, cobalto, produção excessiva de

catecolaminas, administração de antraciclina, ciclofosfamida e gestação. A

miocardiopatia da gestação ocorre durante o último trimestre da gravidez ou

durante os 6 primeiros meses após o parto e, nos Estados Unidos, é mais

comum em mulheres afro-norte-americanas, multíparas, com idade superior a

30 anos.

Os achados cardíacos são semelhantes independentemente da

miocardiopatia dilatada ser primária ou secundária. Ao exame macroscópico

o coração encontra-se aumentado, com hipertrofia dos dois ventrículos e peso

freqüentemente excedendo 900 gramas. Todas as câmaras do coração

encontram-se dilatadas, embora os ventrículos freqüentemente sejam afetados

com maior intensidade do que os átrios. O miocárdio mostra-se flácido e

pálido, com pequenas cicatrizes subendocárdicas presentes ocasionalmente

Com freqüência, há trombos murais. À microscopia, as fibras miocárdicas

exibem uma mistura de atrofia e hipertrofia. Fibrose intersticial e perivascula

é mais proeminente na zona subendocárdica. Células inflamatórias crônicas

dispersas podem estar presentes. À microscopia eletrônica, os miócitos

mostram perda de sarcômeros e aumento da quantidade de mitocôndrias.

No início da doença, os pacientes manifestam intolerância a exercícios

físicos que evolui até insuficiência cardíaca congestiva. Os pacientes correm

risco de arritmias ventriculares devido a anormalidades no cálcio intracelular

Por fim, o tratamento de pacientes gravemente acometidos inclui transplante

de coração ou o uso de um dispositivo de assistência ventricular.

 

Miocardiopatia Hipertrófica

A miocardiopatia hipertrófica descreve alterações hipertróficas do coração

desproporcionais à carga hemodinâmica que lhe é imposta. Essa doença

mostra um forte componente genético, com mais de 100 mutações gênicas

associadas ao seu desenvolvimento. Mutações nos genes codificadores de β-

miosina de cadeia pesada, proteína C de ligação da miosina e troponina T

acabam afetando a função sarcomérica e provocando a formação de hipertrofia

cardíaca.

Ao exame macroscópico, o coração encontra-se sempre aumentado, mas o

grau de hipertrofia é variável. A parede ventricular esquerda encontra-se

espessa e a cavidade do ventrículo esquerdo encontra-se bastante reduzida de

tamanho. Muitos casos revelam associação a hipertrofia assimétrica do septo

interventricular, que freqüentemente se mostra mais espesso que a parede

ventricular esquerda. Esse septo espessado pode sofrer abaulamento no sentido

da via de saída do ventrículo esquerdo durante a sístole ventricular, levando à

obstrução da via de saída aórtica. Os átrios tipicamente encontram-se

dilatados. À microscopia, as miofibras exibem desarranjo proeminente, que é

mais extenso no septo interventricular.

A maioria dos pacientes com miocardiopatia hipertrófica é assintomática

mas todos correm risco de morte súbita durante exercícios físicos intensos

Essa anormalidade cardíaca é encontrada com freqüência à necropsia de

atletas jovens de competição que sofrem morte súbita. Os pacientes podem

manifestar, antes de qualquer desfecho grave, dispnéia, angina de peito

síncope ou notadamente aumento das frações de ejeção à ultra-sonografia. O

tratamento farmacológico inclui administração de bloqueadores β-

adrenérgicos e bloqueadores dos canais de cálcio para reduzir a contratilidade

a obstrução da via de saída e melhorar o relaxamento ventricular esquerdo

durante a diástole. Ademais, a remoção cirúrgica da porção afetada do septo

interventricular está associada ao alívio dos sintomas, mas não do risco de

morte súbita.

 

Miocardiopatia Restritiva

A miocardiopatia restritiva engloba um grupo de doenças nas quais

anormalidades miocárdicas ou endocárdicas limitam o enchimento diastólico

sem interferir na função contrátil do coração. Na maioria dos casos, acaba

provocando insuficiência cardíaca congestiva. As causas da miocardiopatia

restritiva incluem:

 

• Deposição amilóide: as paredes ventriculares mostram-se espessadas, firmes

e com consistência de borracha; a superfície endocárdica tem aparência

granular e textura áspera.

• Doença endomiocárdica: engloba a fibrose endomiocárdica e a doença

endomiocárdica eosinofílica (endocardite de Löffler). Essa endocardite de

Löffler está associada a hipereosinofilia e um exantema, e demonstra uma

camada branco-acinzentada de endocárdio espessado que se estende do

ápice do ventrículo esquerdo até o folheto posterior da valva mitral.

• Doenças de depósito: incluem as doenças de depósito de glicogênio do tipo

II, mucopolissacaridoses, esfingolipidoses e hemocromatoses.

• Sarcoidose: pode produzir grandes regiões de necrose miocárdica, mais

proeminentemente envolvendo a base do septo interventricular, e pode

envolver o sistema de condução do coração.

 

Neoplasias Cardíacas e Distúrbios Tumoriformes

 

Raras vezes o coração pode estar envolvido por tumores cardíacos primários

ou por disseminação metastática de melanoma maligno ou carcinomas do

pulmão, de mama ou do trato gastrointestinal.

 

Mixomas Cardíacos

Os mixomas cardíacos totalizam metade de todos os tumores cardíacos. Com

freqüência, essas neoplasias são esporádicas, mas podem estar associadas a

síndromes autossômicas dominantes familiares. A grande maioria dos

mixomas surge no átrio esquerdo. Ao exame macroscópico, mostram-se como

massas polipóides brilhantes com pedúnculos curtos, freqüentemente medindo

5 a 6 cm de diâmetro. À microscopia, células estreladas poligonais estão

presentes individualmente ou em pequenos aglomerados no interior de um

estroma mixóide frouxo. Os pacientes podem ser diagnosticados com

disfunção de valva mitral ou com êmbolos que têm origem no tumor. A

ressecção cirúrgica do tumor promove a cura na maioria dos casos.

 

Rabdomioma

O rabdomioma é o tumor cardíaco primário mais comum em lactentes e

crianças e é identificado como múltiplas massas nodulares no interior do

miocárdio. A origem dos rabdomiomas é controversa e essa entidade pode

representar um hamartoma, e não um processo neoplásico. Com freqüência, as

lesões podem estar associadas a esclerose tuberosa. As lesões são múltiplas e

envolvem os dois ventrículos e, freqüentemente, os átrios. Em 50% dos casos

a massa pode se projetar para o interior da câmara cardíaca.

Ao exame macroscópico, os rabdomiomas mostram-se massas pálidas, com

tamanho variando até alguns centímetros de diâmetro. À microscopia, as

lesões compõem-se de células com citoplasma claro e pequeno núcleo central O citoplasma apresenta pequenos processos fibrilares contendo sarcômeros

que se irradiam para a margem das células (“células aracneiformes”).

 

Fibroelastoma Papilar

O fibroelastoma papilar é uma lesão hamartomatosa formada por frondes

papilares de até 4 cm de diâmetro, e que envolvem as valvas cardíacas com

freqüência. À microscopia, essas frondes apresentam um núcleo denso centra

de colágeno e fibras elásticas, circundado por tecido conjuntivo mais frouxo, e

são cobertas por endotélio. Embora essa lesão freqüentemente não produza

sintomas clínicos, os fragmentos podem formar êmbolos para outros órgãos.

 

Distúrbios Pericárdicos

 

Derrame Pericárdico

Sob condições normais, o pericárdio contém cerca de 50 mL de líquido que

lubrifica o movimento do coração no interior do saco pericárdico. No derrame

pericárdico, ocorre o acúmulo de excesso de líquido no interior do saco

pericárdico. Se um derrame pericárdico ocorrer rapidamente, um aumento até

mesmo pequeno do volume pode acarretar comprometimento agudo e grave da

função cardíaca. Se um derrame pericárdico ocorrer lentamente, o pericárdio

consegue acomodar até 2 L de líquido. Os subtipos de derrame pericárdico

incluem:

 

• Derrame pericárdico seroso: freqüentemente ocorre associado a aumento de

volume extracelular na insuficiência cardíaca ou na síndrome nefrótica

• Derrame quiloso: ocorre devido a uma comunicação do ducto torácico com

o espaço pericárdico em associação a obstrução linfática

• Derrame pericárdico serossangüinolento: pode ocorrer após traumatismo

torácico ou reanimação

• Hemopericárdio: hemorragia para o interior da cavidade pericárdica

sucedendo traumatismo cardíaco ou ruptura da parede ventricular livre após

infarto

 

O tamponamento cardíaco ocorre associado ao acúmulo rápido de líquido

no interior do saco pericárdico. Esse rápido acúmulo pode fazer com que a

pressão pericárdica exceda a pressão venosa central, limitando o retorno de

sangue ao coração. O tamponamento cardíaco manifesta-se por diminuição da

pressão arterial e pulso paradoxal (diminuição anormal da pressão sistólica durante a inspiração). Esse distúrbio é quase universalmente fatal se não for

aliviado por pericardiocentese ou por intervenção cirúrgica.

 

Pericardite Aguda

A pericardite é uma inflamação do pericárdio visceral ou do pericárdio

parietal, e pode ocorrer no contexto de miocardite viral, exsudato serofibrinoso

ou hemorrágico, ou derrames pericárdicos malignos. A pericardite fibrinosa é

a forma mais comum de pericardite aguda e manifesta-se por exsudato

granular fosco, rico em fibrina, na superfície pericárdica inflamada. O

pericárdio contém predominantemente um infiltrado linfocítico. A pericardite

fibrinosa pode ocorrer associada a uremia, infecção viral, ou infarto do

miocárdio. Outras formas de pericardite incluem pericardite supurativa ou

pericardite hemorrágica.

Os pacientes podem apresentar dor torácica subesternal intensa e súbita, e

atrito pericárdico. As alterações do ECG refletem anormalidades de

repolarização.

 

Pericardite Constritiva

A pericardite constritiva é uma doença fibrosante crônica do pericárdio, que

comprime o coração e restringe a entrada do fluxo. A despeito do nome, a

pericardite constritiva não exibe inflamação, e sim uma obliteração

progressiva do espaço pericárdico por tecido fibroso e fusão do pericárdio

visceral com o parietal. Os fatores de risco para esse distúrbio incluem

radiação mediastinal, cirurgia cardíaca e infecção tuberculosa. Ao exame

macroscópico, o coração encontra-se pequeno e circundado por um pericárdio

rígido que restringe o enchimento diastólico do coração. O tratamento

preferencialmente envolve pericardiectomia total.

 

Patologia das Terapias Intervencionistas

 

Angioplastia Coronária

A angioplastia coronária e a colocação de stent são realizadas para dilata

mecanicamente uma artéria estenosada por aterosclerose. Em até 40% dos

pacientes, desenvolve-se reestenose da luz do vaso em 6 meses devido a uma

resposta fibroproliferativa das células da musculatura lisa da túnica íntima

lesada durante o procedimento.

Enxertos Arteriais Coronários

Os enxertos arteriais coronários são realizados na vigência de estenose da

artéria coronária proximal e, com freqüência, utilizam a artéria mamária

interna ou a veia safena como derivação. As complicações dos enxertos afetam

mais freqüentemente as derivações feitas com veia safena e incluem trombose

precoce, hiperplasia da túnica íntima e aterosclerose nos enxertos venosos.

 

Próteses Valvares

As próteses valvares podem ser completamente mecânicas ou podem conte

tecido derivado de valvas ou de pericárdio de suíno ou de bovino. As valvas

tissulares estão sujeitas a degeneração do tecido com o decorrer do tempo

enquanto as valvas mecânicas apresentam risco maior de trombose e exigem

terapia anticoagulante prolongada.

 

Transplante do Coração

A rejeição a aloenxerto é uma complicação importante do transplante do

coração e ocorre de diversas formas:

 

• Rejeição hiperaguda: ocorre associada a incompatibilidade de grupo

sangüíneo ou diferenças importantes de histocompatibilidade, e envolve a

presença de anticorpos pré-formados

• Rejeição humoral aguda: deposição vascular de imunoglobulina e

complemento

• Rejeição celular aguda: forma mais comum de rejeição a aloenxerto e

envolve infiltração de células T e necrose focal aguda de miócitos

• Rejeição vascular crônica: proliferação concêntrica da túnica íntima que

ocorre no primeiro ano do transplante e pode provocar coronariopatia

importante e infarto do miocárdio

 

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