Fundamentos de patologia

Donna E. Hansel · Capítulo 8 de 28

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Fundamentos de patologia

Capítulo 8 | Patologia Ambiental e Nutricional

Patologia Ambiental e Nutricional

 

Sumário do Capítgenulo

Tabagismo

Doença Cardiovascular

Câncer do Pulmão

Outros Cânceres

Doenças Não-neoplásicas

Alcoolismo

Órgãos e Tecidos Afetados pela Ingestão de Álcool

Síndrome Alcoólica Fetal

Uso Abusivo de Drogas

Drogas Ilícitas

Complicações Clínicas do Uso Abusivo de Drogas Intravenosas

Vício de Drogas em Gestantes e Fatores de Risco para o Feto

Lesão Iatrogênica por Fármacos

Hormônios Sexuais

Anticoncepcionais Orais

Reposição Hormonal Pós-menopausa

Substâncias Químicas Ambientais

Solventes Orgânicos Voláteis e Vapores

Agrotóxicos

Hidrocarbonetos Halogenados Aromáticos

Cianeto

Poluentes do Ar

Metais

Disfunção da Regulação Térmica

Hipotermia

Hipertermia

Doenças Relacionadas com a Altitude

Lesões Físicas

Radiação

Irradiação do Corpo Inteiro

Radioterapia para Tumores

Radiação e Câncer

Distúrbios Nutricionais

Obesidade

Desnutrição Protéico-calórica

Vitaminas

Oligoelementos

 

A patologia ambiental trata das doenças causadas pela exposição a agentes

externos lesivos e deficiências de substâncias vitais. Abrange todas as causas

nutricionais, infecciosas, químicas e físicas de doenças.

 

Tabagismo O tabagismo é a maior causa evitável individual de morte nos Estados Unidos

Mais de 400.000 mortes por ano — cerca de um sexto da mortalidade total nos

Estados Unidos — ocorrem prematuramente devido ao tabagismo. As

principais doenças responsáveis pela alta mortalidade no tabagismo são, em

ordem de freqüência, coronariopatia, câncer do pulmão e doença pulmonar

obstrutiva crônica (Fig. 8.1).

 

FIGURA 8.1

Doenças associadas ao tabagismo. Os cânceres cuja incidência é

sabidamente maior entre os fumantes são mostrados à esquerda. As

doenças não-neoplásicas associadas ao tabagismo são mostradas à

direita. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology

4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 312.) Doença Cardiovascular

O tabagismo é o principal fator de risco independente para infarto do

miocárdio e atua de modo sinérgico com outros fatores de risco como pressão

arterial alta e colesterol sangüíneo elevado. A aterosclerose das artérias

coronárias e da aorta, além da vasculopatia periférica aterosclerótica, é mais

grave entre os fumantes, e o efeito está relacionado com o número de cigarros

fumados por dia e a duração do vício do tabagismo. Outros efeitos do

tabagismo que podem predispor a infarto do miocárdio são as ações

farmacológicas da nicotina, que é um alcalóide na fumaça do cigarro

responsável pelo vício pelo tabaco. A nicotina age primariamente no sistema

nervoso autônomo e mimetiza o efeito da acetilcolina. Aproximadamente 3

mg de nicotina são inalados de um cigarro. Essa quantidade aumenta a

freqüência cardíaca e contrai os vasos sangüíneos.

 

Câncer do Pulmão

A fumaça do cigarro é tóxica e carcinogênica. O câncer do pulmão é a causa

isolada mais comum de câncer tanto em homens quanto em mulheres nos

Estados Unidos, e mais de 85% das mortes por câncer do pulmão são

atribuídas ao tabagismo. O câncer do pulmão e o tabagismo estão associados a

certas exposições ocupacionais, como o que ocorre em trabalhadores que

lidam com asbesto [amianto]. O risco de desenvolver câncer do pulmão

aumenta em até 50 a 90 vezes quando o fumante tem contato com asbesto no

ambiente de trabalho.

 

Outros Cânceres

Os cânceres da cavidade oral ocorrem principalmente em fumantes. O

adenocarcinoma do rim tem freqüência aumentada em 50 a 100% em

fumantes. Cânceres da laringe, do esôfago, da bexiga, do pâncreas e da cérvice

uterina também apresentam freqüência maior de ocorrência entre fumantes.

 

Doenças Não-neoplásicas

A bronquite crônica e o enfisema são doenças de fumantes basicamente

relacionadas com a dose. A úlcera péptica, a osteoporose, as doenças da

tireóide e a degeneração macular estão associadas ao tabagismo. Mulheres que

fumam entram na menopausa antes das não-fumantes. Os lactentes nascidos

de mulheres que fumam são pequenos para a idade gestacional, e a mortalidade perinatal é mais alta entre a prole de mulheres fumantes. Os filhos

de mães fumantes mostram deficiências relacionadas com crescimento

maturidade intelectual e desenvolvimento emocional. A exposição a fumaça

no ambiente (tabagismo passivo) é considerada um fator de risco para doença

particularmente do trato respiratório, em não-fumantes.

 

Alcoolismo

 

Existem cerca de 12 milhões de alcoólicos nos Estados Unidos. O alcoolismo

crônico pode ser definido como a ingestão regular de álcool suficiente para

prejudicar um indivíduo socialmente, psicologicamente ou fisicamente. Para a

maioria das pessoas, isso pode significar o consumo diário superior a 45 g de

álcool (10 g de álcool = 30 ml, ou 1 oz, teor alcoólico de 43%). Níveis

superiores a 100 mg/dl são considerados evidência legal de conduzir veículo

alcoolizado. Em níveis superiores a 300 mg/dl, a maioria dos indivíduos torna

se comatosa, e sob concentrações superiores a 400 mg/dl, é comum a morte

por insuficiência respiratória.

Os mecanismos de inebriação não são conhecidos. Foram propostos alguns

mas nenhum foi comprovado de modo conclusivo.

 

• Ocorre uma mudança substancial no potencial redox intracelular durante a

oxidação de etanol até acetaldeído.

• O acetaldeído, um produto do metabolismo do álcool, é muito tóxico.

• O álcool, como todos os anestésicos, desorganiza as membranas celulares

por se intercalar na bicamada lipídica da membrana.

 

Órgãos e Tecidos Afetados pela Ingestão de Álcool

Além dos efeitos do álcool sobre órgãos e tecidos relacionados adiante, a

incidência de câncer na cavidade oral, laringe e esôfago é mais alta em

alcoólicos do que na população geral. A Fig. 8.2 ilustra algumas complicações

que ocorrem no uso abusivo crônico de álcool.

 

• Fígado: A doença hepática alcoólica é a complicação clínica mais comum

do alcoolismo; contribui para uma grande proporção de casos de cirrose

hepática. A natureza da bebida alcoólica é irrelevante.

• Sistema nervoso: A disfunção cerebral é mediada por deficiência de tiamina

(encefalopatia de Wernicke) e caracteriza-se por confusão mental, ataxia e

polineuropatia. Amnésia retrógrada e confabulação são características da

psicose de Korsakoff.

• Pâncreas: A pancreatite calcificante crônica é uma conseqüência

inquestionável do alcoolismo e é uma causa importante de insuficiência

pancreática.

• Coração: Um efeito tóxico do álcool consiste em uma forma de

miocardiopatia dilatada (miocardiopatia alcoólica), que leva à insuficiência

cardíaca congestiva de débito baixo. O coração alcoólico também é mais

suscetível a arritmias.

• Musculatura esquelética: A fraqueza muscular é extremamente comum

ocasionalmente ocorre uma miopatia crônica grave debilitante.

• Sistema endócrino: Feminização e atrofia testicular podem ocorrer no sexo

masculino, e redução da fertilidade pode ocorrer no sexo feminino.

• Trato gastrointestinal: Lesão da mucosa do esôfago e estômago é um efeito

tóxico direto. O álcool inibe o transporte ativo de aminoácidos, tiamina e

vitamina B . 12

• Sangue: Anemia megaloblástica secundária a uma deficiência de ácido

fólico não é rara em alcoólicos desnutridos.

• Osso: Os indivíduos que sofrem de alcoolismo crônico, particularmente

mulheres na pós-menopausa, correm risco maior de osteoporose.

FIGURA 8.2

Complicações do alcoolismo crônico. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin

R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams

& Wilkins, 2005, p. 320.)

 

Síndrome Alcoólica Fetal

Os lactentes nascidos de mães que consomem álcool em excesso durante a

gestação podem apresentar uma gama de anomalias, incluindo atraso do

crescimento, microencefalia, dismorfologia facial e disfunção neurológica

Apenas cerca de 6% da prole é afetada pela síndrome alcoólica fetal completa

porém podem surgir anormalidades menos graves.

 

Uso Abusivo de Drogas

 

Estima-se que o uso de drogas ilícitas provoque aproximadamente 20.000

mortes por ano nos Estados Unidos. Esse uso envolve agentes empregados

para alterar o humor e a percepção. Dentre essas substâncias químicas estão

(a) derivados do ópio (heroína, morfina); (b) depressores (barbitúricos

tranqüilizantes e álcool); (c) estimulantes (cocaína, anfetaminas), maconha

drogas psicodélicas (LSD); e (d) inalantes (nitrito de amila, solventes

orgânicos como os utilizados na cola).

 

Drogas Ilícitas

As drogas ilícitas contribuem para muitas síndromes patológicas, conforme

descrito adiante.

 

Heroína

A heroína é um potente derivado diacetil da morfina e, em geral, é

administrada por via subcutânea ou intravenosa. Produz euforia e sonolência

Overdoses podem acarretar hipotermia, bradicardia e depressão respiratória

Outros opiáceos sujeitos a uso abusivo são a morfina, a hidromorfona

(Dilaudid) e a oxicodona (OxyContin).

 

Cocaína e Anfetaminas

A cocaína é um alcalóide que é comumente rachado [“cracked”] em pedaços

menores e fumado (“crack”). Produz euforia e uma impressão de maior

sensibilidade. A overdose provoca ansiedade, delírio e convulsões ocasionais Arritmias cardíacas podem causar morte súbita em indivíduos aparentemente

sadios. A isquemia cardíaca decorrente do uso agudo de cocaína pode ocorre

na população que faz uso abusivo de drogas. O mecanismo de ação da cocaína

está relacionado com sua interferência na recaptação do neurotransmisso

dopamina.

As anfetaminas são simpaticomiméticas e assemelham-se à cocaína em seus

efeitos. As complicações mais sérias do uso abusivo são convulsões, arritmias

cardíacas e hipertermia.

 

Alucinógenos

Os alucinógenos incluem fenciclidina ou PCP e dietilamida do ácido lisérgico

(LSD). Embora não estejam relacionadas quimicamente, as duas substâncias

alteram a percepção e a experiência sensorial. A overdose dessas duas

substâncias pode produzir taquicardia, hipertensão, coma e convulsões.

 

Solventes Orgânicos

A inalação recreativa de preparados comerciais como colas, cimentos plásticos

e fluido para isqueiro é bastante difundida, particularmente entre adolescentes

Doses altas podem resultar em náusea, alucinações e, por fim, coma.

 

Complicações Clínicas do Uso Abusivo de Drogas Intravenosas

Além das reações relacionadas aos efeitos farmacológicos ou fisiológicos do

uso abusivo de drogas, as complicações mais comuns são causadas por

infecções bacterianas e virais (Fig. 8.3). As infecções mais comuns situam-se

no local da injeção (p. ex., abscessos, celulite, úlceras). A bacteremia pode

provocar endocardite bacteriana, abscessos pulmonares, renais e

intracranianos, meningite e osteomielite. Os viciados que compartilham

agulhas correm risco de AIDS e das hepatites virais B e C.

FIGURA 8.3

Complicações do uso abusivo de drogas intravenosas. (De Rubin E

Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia

Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 324.)

 

Vício de Drogas em Gestantes e Fatores de Risco para o Feto

Os lactentes de mães dependentes de drogas freqüentemente manifestam uma

síndrome de abstinência, com sintomas como tremores, irritabilidade

convulsões e reflexos hiperativos. No útero, o excesso de movimentos fetais e

demanda de oxigênio aumentam o risco de hipoxia durante o parto e aspiração

de mecônio. Mães viciadas em drogas vivenciam taxas mais altas de toxemia

da gestação e de trabalho de parto prematuro.

 

Lesão Iatrogênica por Fármacos

 

A lesão iatrogênica por fármacos refere-se aos efeitos colaterais não

intencionais de agentes terapêuticos ou diagnósticos prescritos por clínicos. O

paciente hospitalizado típico recebe cerca de 10 medicações diferentes; o risco

de uma reação adversa aumenta proporcionalmente com o número de

fármacos diferentes. São encontradas reações adversas em 2 a 5% dos

pacientes hospitalizados para atendimento clínico; dessas reações, 2-12% são

fatais. Os efeitos adversos das drogas resultam de (a) dose excessiva, (b) resposta fisiológica exagerada, (c) mecanismos de hipersensibilidade, (d

predisposição genética, (e) interações com outras drogas e (f) outros fatores

desconhecidos.

 

Hormônios Sexuais

 

Anticoncepcionais Orais

Preparados hormonais contendo estrógenos e esteróides sintéticos com

atividade semelhante à da progesterona atualmente são os anticoncepcionais

mais amplamente utilizados em países industrializados. Eles atuam evitando a

ovulação ou evitando a implantação. Seu risco de complicações é pequeno:

 

• Vascular: O risco de trombose venosa profunda é cerca de três vezes maior.

• Neoplásico: O risco de câncer ovariano e endometrial é menor, enquanto o

risco de câncer de mama é levemente maior.

• Adenomas benignos do fígado: O risco aumenta com a duração do uso.

 

Reposição Hormonal Pós-menopausa

Os preparados contendo associações de estrógeno e progesterona mostraram

se efetivos no tratamento de sintomas pós-menopausa e no abrandamento da

osteoporose. No entanto, estudos recentes descobriram que o tratamento de

reposição hormonal em mulheres na pós-menopausa aumenta o risco de

câncer de mama, infartos, AVC, coágulos sangüíneos, em especial após uso

prolongado.

 

Substâncias Químicas Ambientais

 

Solventes Orgânicos Voláteis e Vapores

• Clorofórmio (CHCl3) e tetracloreto de carbono (CCl4): Esses solventes

exercem efeitos anestésicos e também são hepatotoxinas. Doses grandes

provocam necrose hepática aguda, esteatose hepática e insuficiência

hepática.

• Tricloroetileno (C2HCl3): Esse solvente industrial deprime o sistema

nervoso central quando em doses altas.

• Metanol (CH 3OH): A lesão mais característica dos efeitos tóxicos do

metanol consiste em necrose das células ganglionares da retina com

subseqüente degeneração do nervo óptico.

Etilenoglicol (HOCH2 CH2OH): Usado com freqüência como

• anticongelante, a toxicidade do etilenoglicol correlaciona-se com necrose

tubular renal aguda.

• Benzeno (C6H6): O benzeno é um solvente muito empregado na indústria

Quase todos os casos de intoxicação aguda e crônica por benzeno

decorreram de contato industrial. O envenenamento agudo pelo benzeno

afeta o sistema nervoso central e a morte advém de insuficiência

respiratória. Os efeitos crônicos da exposição encontram-se na medula

óssea, causando anemia aplásica, leucemia mieloblástica aguda

eritroleucemia ou mieloma múltiplo.

 

Agrotóxicos

Pesticidas, fungicidas, herbicidas e fertilizantes orgânicos são muito

empregados na agricultura. Alimento inadvertidamente contaminado pode

causar doença aguda grave. Nos Estados Unidos, 30 a 40 pessoas morrem por

ano por envenenamento agudo por pesticida. Neurotoxicidade tardia fo

relatada em associação ao fosfato de triortocresil, um contaminante do óleo de

cozinha. O envenenamento agudo por esse composto provoca neurotoxicidade

periférica que evolui para fraqueza motora dos membros, que, em alguns

casos, é apenas parcialmente reversível. Certos tipos de doenças malignas

hematopoéticas foram relatados em fazendeiros que usaram quantidades

grandes do herbicida 2,4-ácido diclorofenoxiacético (2,4-D). Os efeitos

tóxicos crônicos de diversos agrotóxicos em pássaros e peixes são bem

conhecidos.

 

Hidrocarbonetos Halogenados Aromáticos

Quatro hidrocarbonetos halogenados aromáticos têm recebido atenção

considerável como possíveis causadores de doença em seres humanos, a sabe

(a) os bifenilpoliclorados (PCB); (b) clorofenóis (pentaclorofenol, usado como

conservante de madeira); (c) hexaclorofeno, usado como antibacteriano em

sabonetes; e (d) a dioxina TCDD, um produto intermediário da síntese de

herbicidas e hexaclorofeno. Os efeitos tóxicos prolongados em animais, po

essa classe de substância, são bem conhecidos.

 

Cianeto O cianeto bloqueia a respiração celular por se ligar de modo reversível à

citocromo oxidase, desse modo produzindo anoxia aguda. A flora intestina

humana contém enzimas que podem liberar cianeto a partir da amigdalina, um

glicosídeo encontrado nos caroços de damasco (e outras frutas). Antigamente

extratos de sementes de damasco eram usados na fabricação de panacéias

fraudulentas anticâncer que resultaram em casos de envenenamento por

cianeto.

 

Poluentes do Ar

Estudos estabeleceram uma ligação entre poluidores do ar e sintomas

respiratórios crônicos e mortalidade. Os efeitos adversos envolvem

principalmente indivíduos com doenças respiratórias preexistentes (asma

bronquite crônica e enfisema) e doença cardiovascular. Os poluentes do a

mais importantes implicados em doença humana são os seguintes:

 

• Dióxido de enxofre: O dióxido de enxofre resulta da combustão de petróleo

e carvão contendo enxofre em casas de força, refinarias de petróleo e

indústrias como fábricas de papel e fundições.

• Ozônio e óxidos de nitrogênio: Essas substâncias não derivam

principalmente de atividades industriais e sim da ação da luz solar sobre os

produtos de motores de combustão interna veiculares.

• Monóxido de carbono (CO): O CO é um gás inodoro resultante da

combustão incompleta de substâncias orgânicas. O CO ambiental deriva

principalmente de emissões da exaustão de automóveis, de incêndios e, em

alguns casos, de sistemas de aquecimento doméstico.

 

►O CO combina-se com a hemoglobina com uma afinidade 240 vezes

maior do que o oxigênio. Por conseguinte, o CO inibe a função da

hemoglobina como transportadora de oxigênio.

►Concentrações de CO superiores a 50% provocam coma e convulsões, e

concentrações superiores a 60% em geral são fatais devido a lesão

hipóxica irreversível.

►O envenenamento grave por CO caracteriza-se por coloração vermelho

cereja da pele. A recuperação pode estar associada a lesão cerebral.

 

Metais

Chumbo

Exposição

A exposição ocupacional ao chumbo é uma conseqüência nefasta na

fundição do chumbo e fabricação e reciclagem de baterias de automóvel. A

gasolina com chumbo, antes de ter sua fabricação proibida, era uma fonte de

contaminação por esse metal, e foi associada com morte de empregados na

área de indústrias de gasolina com chumbo tetraetílico. Além disso, a maioria

das casas construídas antes de 1940 era decorada com tinta que continha

chumbo; ocorreram envenenamentos acidentais por chumbo na reforma de

casas antigas. As crianças que moram em casas mais velhas revestidas

pesadamente com tinta em processo de desprendimento correm risco de

desenvolver envenenamento crônico por chumbo.

 

Metabolismo e Toxicidade

O chumbo é absorvido pelos pulmões ou pelo trato gastrointestinal e entra

em equilíbrio no sangue. O chumbo inibe a incorporação do ferro a heme

desse modo provocando anemia hipocrômica com pontilhado basófilo das

hemácias característico. A toxicidade pelo chumbo clássica manifesta-se na

disfunção do sistema nervoso, dos rins e do sistema hematopoético. A

nefropatia pelo chumbo caracteriza-se pelo comprometimento da reabsorção

tubular proximal de aminoácidos, fosfato e glicose. Quantidades tóxicas de

chumbo provocam encefalopatia e neuropatia periférica. A Fig. 8.4 ilustra as

diversas manifestações da intoxicação pelo chumbo em diferentes áreas do

corpo.

FIGURA 8.4

Complicações da intoxicação pelo chumbo. (De Rubin E, Gorstein F

Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott

Williams & Wilkins, 2005, p. 331.)

 

Mercúrio

O mercúrio liberado no meio ambiente com origem em despejo industria

pode ser bioconcentrado e penetrar na cadeia alimentar. As bactérias no fundo

de baías e oceanos conseguem converter compostos de mercúrio em

organomercuriais neurotóxicos. Estes são transferidos verticalmente ao longo

da cadeia alimentar e, por fim, são concentrados em peixes predatórios

grandes que constituem uma parcela importante da dieta de muitos países.

Tanto o mercúrio inorgânico quanto o orgânico são concentrados nos rins

Atualmente, a nefrotoxicidade mercurial crônica é quase sempre uma

conseqüência da exposição industrial prolongada. A proteinúria é comum

com glomerulonefrite membranosa. O metilmercúrio também se distribui até o

cérebro. A neurotoxicidade mercurial manifesta-se como constrição de

campos visuais, parestesias, ataxia e perda da audição.

 

Arsênico

Os compostos de arsênico contaminam o solo e a água potável em decorrência

de formações rochosas ricas em arsênico de ocorrência natural ou devido à queima de carvão ou ao uso de pesticidas arsenicais. A morte por

envenenamento por arsênico deve-se aos efeitos tóxicos no sistema nervoso

central. Cânceres da pele e do trato respiratório foram atribuídos à exposição

industrial e agrícola ao arsênico.

 

Cádmio

O cádmio é usado na fabricação de ligas, na produção de pilhas alcalinas, e

como pigmento. Os pulmões e os rins são os principais órgãos-alvo da

intoxicação crônica pelo cádmio. Enfisema, pneumonite e proteinúria são

achados compatíveis com a toxicidade do cádmio.

 

Níquel

O níquel é muito usado em eletrônica, cunhagem de moedas, ligas de aço

pilhas e processamento de alimentos. Dermatite é o efeito mais freqüente da

exposição excessiva. Os trabalhadores que lidam com o níquel apresentam

maior incidência de câncer do pulmão e câncer das cavidades nasais.

 

Ferro

O sulfato ferroso é a forma presente em comprimidos facilmente absorvida

Ocorre intoxicação aguda principalmente em crianças pequenas que ingerem

comprimidos de sulfato ferroso, pensando serem doces. A ingestão excessiva

de ferro em adultos é rara, mas ocorre em bantos da África do Sul que

cozinham e preparam bebidas alcoólicas em panelas de ferro.

O corpo humano não excreta o ferro. Ocorre uma pequena perda na

descamação do epitélio; uma perda maior ocorre no sangramento menstrual. O

excesso de acúmulo de ferro no fígado é conhecido como siderose que

quando grave, provoca cirrose hepática.

 

Disfunção da Regulação Térmica

 

Hipotermia

 

Hipotermia Generalizada

A hipotermia generalizada envolve uma diminuição da temperatura corporal a

níveis inferiores a 35ºC (95ºF). Se prolongada, diversas das conseqüências da

diminuição da temperatura corporal estão relacionadas com função

cerebrovascular alterada. Quando a temperatura central corporal alcança 32ºC (89,6ºF), a pessoa fria torna-se letárgica, apática e alheia ao meio externo. Um

declínio adicional da temperatura aumenta a letargia até torpor intermitente e

por fim, coma. Uma temperatura interna inferior a 28ºC (82,4ºF) resulta em

bradicardia e fibrilação atrial.

 

Alterações Térmicas Focais

Alterações térmicas focais referem-se a redução localizada, em vez de

sistêmica, da temperatura, tipicamente na pele. Ocorre vasoconstrição para

reduzir a perda de calor. Na geladura, formam-se cristais de gelo no interior

das células e entre elas, provocando a ruptura física de membranas celulares

A extensão da perda de tecido depende da duração e da profundidade do

congelamento. A lesão celular mais importante ocorre durante o

descongelamento, quando pode ocorrer ruptura mecânica adicional de

estruturas da membrana.

 

Hipertermia

 

Hipertermia Sistêmica

Essa elevação da temperatura central corporal pode ser causada por (a)

aumento da produção de calor, (b) diminuição da eliminação de calor do

corpo, ou (c) distúrbio no centro de regulação da temperatura. Uma

temperatura corporal superior a 42,5ºC (108ºF) provoca vasodilatação geral

função cardíaca ineficiente e alteração da respiração; elevações acima desse

valor não são compatíveis com a vida.

 

• Febre: A interleucina-1 e o fator de necrose tumoral são os principais

fatores responsáveis pelo reajuste do “termostato” corporal durante infecção

ou inflamação, para permitir uma temperatura corporal central mais alta.

• Intermação: Essa forma de hipertermia não é mediada por pirogênios

endógenos, mas surge quando as temperaturas ambientes são altas, e reflete

comprometimento das respostas de resfriamento (p. ex., falta de

transpiração). Os indivíduos que realizam exercícios físicos incomumente

vigorosos, as crianças muito pequenas, os idosos e as pessoas com doença

cardiovascular são especialmente vulneráveis. O resfriamento externo e a

reposição de líquidos e eletrólitos constituem a terapia efetiva.

• Hipertermia maligna: Esse estado hipermetabólico ocorre em pessoas

geneticamente suscetíveis após a exposição a determinados anestésicos. Queimaduras Cutâneas

Essas formas de hipertermia localizada foram separadas em três categorias de

intensidade:

 

• Queimaduras de primeiro grau (p. ex., queimadura solar leve): Lesão

endotelial leve produz vasodilatação.

• Queimaduras de segundo grau: Ocorre necrose do epitélio, mas a derme é

poupada; pode haver a formação de bolhas separando a epiderme da derme.

• Queimaduras de terceiro grau: Tanto a epiderme quanto a derme subjacente

são queimadas. Queimaduras mais profundas exigem enxerto de pele. A

perda de água corporal a partir de áreas desnudas é um distúrbio sistêmico

grave, que pode resultar em hemoconcentração, choque e necrose tubula

aguda dos rins. Infecções superficiais e sepse também são preocupações

sérias.

 

Inalação e Queimaduras Elétricas

Indivíduos aprisionados em um edifício em chamas podem sofrer queimaduras

por inalação, com lesão da cavidade oral e de todas as passagens do trato

respiratório. Pode suceder a síndrome de angústia respiratória.

A lesão elétrica produz danos de dois modos: (a) disfunção do sistema de

condução cardiovascular e (b) conversão de energia elétrica em energia

térmica quando a corrente atinge a resistência tecidual.

 

Doenças Relacionadas com a Altitude

 

Pode ocorrer doença de grandes altitudes em indivíduos que sobem até 2.500

m (8.000 pés) ou mais. As modificações fisiológicas induzidas pela grande

altitude relacionam-se com diminuição da pressão atmosférica e, por

conseguinte, diminuição da disponibilidade de oxigênio. A doença das

montanhas [náusea das alturas] aguda é a forma mais comum de doença por

altitude e pode se desenvolver a 2.500 m. Caracteriza-se por cefaléia, cansaço

anorexia, fraqueza e dificuldade para dormir. O edema sistêmico por grande

altitude pode ocorrer em altitudes superiores a 3.000 m e decorre de um

aumento assintomático da permeabilidade vascular. Ao retornar a altitudes

mais baixas, uma diurese faz o edema desaparecer. Pode ocorrer o

desenvolvimento de hemorragia retiniana da grande altitude em altitudes superiores a 5.000 m. Em geral essas alterações sofrem resolução sem

seqüelas.

Doenças por grande altitude mais sérias, em altitudes maiores, envolvem

edema pulmonar e hipertensão. Também pode haver o desenvolvimento de

encefalopatia com edema cerebral e hipoxia.

 

Lesões Físicas

 

O efeito de traumatismo mecânico está relacionado com a força transmitida ao

tecido, a taxa em que ocorre a transferência, a superfície à qual a força é

transferida e a área do corpo lesada. Exemplos de diversos tipos de

traumatismo incluem:

 

• A contusão é uma lesão mecânica localizada, com hemorragia focal, mas

sem ruptura epidérmica. Células sangüíneas que extravasam para o espaço

tecidual a partir de capilares lesados são ingeridas por macrófagos; a

hemoglobina degradada libera pigmentos do heme, conferindo a alteração

típica da cor da equimose.

• A abrasão é uma alteração cutânea causada por esmagamentos ou

arranhaduras. O epitélio é rompido.

• A laceração é uma separação ou rasgo da pele.

 

Feridas são rupturas mecânicas da integridade tissular.

 

Radiação

 

Radiação é a emissão de energia na forma de ondas eletromagnéticas (raios X

raios gama) ou partículas eletromagnéticas (partículas alfa, partículas beta

nêutrons). A radiação é emitida por substâncias radioativas ou vem de fontes

artificiais como máquinas de raios X e de radioterapia. A radiação pode ser

quantificada nas seguintes maneiras:

 

• Um roentgen é a medida da emissão de energia radiante oriunda de uma

fonte. Essa unidade refere-se à quantidade de ionização produzida no ar.

• Um rad equivale a 100 ergs de energia absorvida por grama de tecido

• Um gray (Gy) equivale a um joule de energia absorvida por quilo de tecido

Um centigray (cGy) equivale a 1 rad.

• Um rem é a quantidade de radiação que produz efeito biológico igual a 1

rad de raios X ou gama.

•Um sievert (Sv) é a dose em grays, multiplicada por um fator de qualidade Q apropriado, de modo que um Sv de radiação é, grosso modo, equivalente

em efetividade biológica a 1 Gy de raios gama.

 

No nível celular, a radiação apresenta dois efeitos: (a) um efeito somático

associado à morte aguda da célula e (b) a indução de lesão genética. Existe

uma sensibilidade diferencial dos tecidos à radiação. Órgãos e tecidos nos

quais as células se multiplicam rapidamente, como os intestinos e a medula

óssea, são lesados mais facilmente pela radiação do que os órgãos nos quais as

células se multiplicam bem lentamente, como músculos e tendões.

 

Irradiação do Corpo Inteiro

Exceto em casos raros, como na irradiação de dose alta que precede

transplante de medula óssea, níveis significativos de irradiação do corpo

inteiro decorrem apenas de acidentes industriais ou da explosão de armas

nucleares. Na irradiação do corpo inteiro, doses comparáveis de energia

radiante são transmitidas a todos os órgãos; por conseguinte, o

desenvolvimento de diferentes síndromes de radiação aguda reflete as

diferenças de vulnerabilidade dos tecidos-alvo (Fig. 8.5). Com 2.000 rads ou

mais de radiação do corpo inteiro ocorre morte em algumas horas devido a

lesão do sistema nervoso central, enquanto com 300 rads ocorre falência

hematopoética em 2 semanas. O sangramento, a anemia e a infecção

decorrentes podem provocar a morte em 3 semanas.

Após as bombas atômicas no Japão, foram observados efeitos teratogênicos

em crianças expostas durante os estágios fetais e embrionários do

desenvolvimento; entretanto, estudos de acompanhamento e prolongados não

encontraram evidências de lesão genética sob a forma de anormalidades

congênitas ou de doenças hereditárias na prole posterior de sobreviventes das

explosões nucleares.

FIGURA 8.5

Síndromes de radiação aguda. Na dose de aproximadamente 300 rads

de radiação corporal total, uma síndrome caracterizada por

insuficiência hematopoética desenvolve-se em duas semanas

Próximo a 1.000 rads, observa-se uma síndrome gastrointestinal com

latência de apenas 3 dias. Com doses de 2.000 rads ou mais

manifesta-se doença do sistema nervoso central em 1 hora, e sucede

morte rapidamente. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s

Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins

2005, p. 340.)

 

Radioterapia para Tumores

Durante a radioterapia para neoplasias malignas, uma certa quantidade de

tecido normal é incluída inevitavelmente no campo de irradiação. O dano ao

tecido exposto pode ser atribuído a (a) comprometimento do suprimento

vascular e (b) uma reação de reparação fibrótica à necrose aguda e à isquemia

crônica. Embora quase qualquer órgão possa ser lesado pela radiação, os

tecidos clinicamente importantes são a pele, os pulmões, o coração, o rim, a

bexiga e o intestino (Fig. 8.6).

FIGURA 8.6

Complicações não-neoplásicas da radiação. (De Rubin E, Gorstein F

Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott

Williams & Wilkins, 2005, p. 341.)

 

Radiação e Câncer

A evidência de que a radiação pode acarretar o câncer é inegável e vem tanto

de experimentos em animais quanto de estudos dos efeitos da exposição

ocupacional, da radioterapia para distúrbios não-neoplásicos, do uso

diagnóstico de certos radioisótopos e das explosões das bombas atômicas. Os

exemplos incluem:

 

• Alta taxa de câncer do pulmão em operários de minas de urânio

• Câncer da tireóide em adultos que receberam irradiação do timo enquanto

lactentes

• Alta taxa de câncer de mama em mulheres tratadas com radiação torácica

para doença de Hodgkin infantil

• Desenvolvimento de anemia aplásica e leucemia mielógena em indivíduos

tratados para espondilite anquilosante com doses baixas de radiação na

coluna espinhal

• Aumento da incidência de tumores cerebrais em indivíduos submetidos a

irradiação craniana para tinha da cabeça quando crianças

• Sobreviventes de explosões de bombas atômicas manifestaram diferentes

cânceres

 

Distúrbios Nutricionais

 

Obesidade

A obesidade é o distúrbio nutricional mais comum nos países industrializados

onde é muito mais freqüente do que todas as deficiências nutricionais

associadas. A obesidade é determinada de acordo com o índice de massa

corporal (IMC), calculado como peso (kg)/altura (m2). Um IMC de 25 a 30 é

classificado como acima do peso, entre 30 e 40, como obesidade e acima de

40 como obesidade mórbida.

 

Patogenia

A obesidade decorre do armazenamento excessivo de triglicerídeos em

depósito de tecido adiposo, devido à ingestão calórica excessiva, ao gasto

insuficiente de energia, ou ambos. Tanto os fatores genéticos quanto os

ambientais são importantes na patogenia da obesidade.

Foram descritos os hormônios envolvidos na regulação do peso corpora

(Fig. 8.7).

 

• O hormônio tireóideo aumenta a taxa metabólica. Os indivíduos com

deficiência de hormônio tireóideo apresentam taxas metabólicas basais mais

baixas e são mais pesados do que o normal, enquanto os com excesso de

hormônio tireóideo apresentam taxas metabólicas mais elevadas e são mais

magros.

• As melanocortinas constituem um grupo de peptídeos derivados por

clivagem pós-tradução do produto do gene da pró-opiomelanocortina. O

hormônio estimulador de α-melanócitos (α-MSH), um desses peptídeos

liga-se a receptores no hipotálamo e regula a ingestão de alimento por

suprimir o apetite.

• A leptina, produto do gene ob (obeso), é produzida pelo tecido adiposo

Níveis altos de leptina refletem maior massa de adipócitos e levam a uma

sensação de saciedade.

A grelina é um peptídeo produzido principalmente pelo estômago. Atua

•

provocando o apetite e promove depósito de gordura em adipócitos.

• O peptídeo glucagon-símile (GLP-1) promove uma sensação de saciedade

desse modo diminuindo a ingestão de alimento.

• A galanina é um peptídeo neurotransmissor e estimula a ingestão de

alimento.

• A proteína de adipócito relacionada com o complemento (ACRP30) é um

peptídeo produzido pelos adipócitos e está inversamente relacionada com o

peso corporal e a resistência à insulina. Seus níveis no sangue são mais

baixos em indivíduos obesos.

• O neuropeptídeo Y (NPY) é o produto peptídico de três núcleos diferentes

no hipotálamo e é um estimulador potente do apetite.

• Os receptores ativados por proliferador de peroxissomo (PPAR) são

proteínas que pertencem a uma família de fatores de transcrição. Acredita-se

que um isotipo, o PPARγ, esteja envolvido principalmente na regulação da

obesidade. Encontra-se presente em adipócitos e, quando ativado, aumenta a

captação de ácidos graxos e glicose pelos adipócitos.

 

FIGURA 8.7

O equilíbrio entre mediadores químicos que promovem o acúmulo

de gordura (ganho de peso) e os que promovem a perda de gordura

(perda de peso). (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s

Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins

2005, p. 345.)

 

Patologia e Manifestações Clínicas

A obesidade leva a um aumento geral na mortalidade e na morbidade (Fig

8.8).

 

• Os indivíduos obesos correm risco de desenvolver diabetes tipo II, com

níveis altos de insulina circulante e resistência periférica à ação da insulina

associados.

• A obesidade está ligada a aterosclerose e infarto do miocárdio.

• A obesidade está associada a hipercolesterolemia, níveis baixos de HDL e

hipertensão.

• Osteoartrite e artropatia degenerativa podem decorrer do efeito físico do

excesso de peso corporal.

• Nos indivíduos com obesidade mórbida, a gordura abdominal prejudica a

expansão torácica durante a inspiração (síndrome de Pickwick).

 

FIGURA 8.8

Complicações da obesidade. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al

Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams &

Wilkins, 2005, p. 346.)

 

Desnutrição Protéico-calórica

O marasmo e o kwashiorkor são duas deficiências protéico-calóricas comuns

no mundo não-industrializado.

 

Marasmo

O marasmo refere-se à deficiência de calorias de todas as fontes. Caracteriza

se por diminuição do peso corporal e atraso do crescimento, diminuição da

gordura subcutânea, abdome protuberante e debilidade muscular.

 

Kwashiorkor

O kwashiorkor é uma forma de desnutrição em crianças causada por dieta

deficiente em proteína. Os sintomas são semelhantes aos do marasmo, exceto

pela ocorrência de edema e apatia. O abdome encontra-se distendido devido à

musculatura flácida, hepatomegalia e ascite causada por hipoalbuminemia

(Fig. 8.9). À microscopia, os hepatócitos contêm gordura derivada do

carboidrato na dieta; contudo, o fígado apresenta esteatose devido a

apoproteína inadequada para transportar o lipídio para fora dos hepatócitos. A

esteatose hepática pode ser revertida ao normal quando se proporciona

proteína suficiente na dieta. O cabelo adquire uma coloração avermelhada

com uma despigmentação linear característica (sinal da bandeira), conferindo

evidências de períodos particularmente intensos de deficiência de proteína.

FIGURA 8.9

Complicações do kwashiorkor. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, e

al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams &

Wilkins, 2005, p. 347.)

 

Vitaminas

O corpo depende totalmente das fontes dietéticas para suprir suas necessidades

de vitaminas. Elas são necessárias em quantidades mínimas para as funções

metabólicas.

 

Vitamina A

Essa vitamina lipossolúvel é, na verdade, uma família de substâncias. Duas

formas ocorrem naturalmente como retinóides, que são abundantes no fígado e

nos ovos. Um precursor, o β-caroteno, encontrado principalmente em vegetais folhosos verdes, é convertido a retinóides na mucosa intestinal. Noventa po

cento da vitamina A corporal é estocada nas células estreladas perissinusoidais

do fígado.

 

• A vitamina A é um constituinte dos pigmentos fotossensíveis na retina e é

importante na manutenção da pele, do cabelo e dos revestimentos epiteliais

especializados. Também desempenha funções no amadurecimento ósseo e

na estrutura da membrana celular.

• A falta de vitamina A resulta em metaplasia escamosa, especialmente no

epitélio glandular (Fig. 8.10). O sinal mais precoce da deficiência

freqüentemente consiste na redução da visão sob pouca luminosidade. A

vitamina A é um componente necessário no pigmento dos bastonetes da

retina e é ativa na transdução luminosa.

 

FIGURA 8.10

Complicações da deficiência de vitamina A. (De Rubin E, Gorstein F

Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott

Williams & Wilkins, 2005, p. 348.)

Vitaminas do Complexo B

Os membros desse grupo hidrossolúvel são vitamina B (tiamina), niacina 1

vitamina B2 (riboflavina), vitamina B5 (ácido pantotênico), vitamina B

(piridoxina) e vitamina B (cianocobalamina). Com exceção da vitamina B 1212

que deriva apenas de fontes animais, as vitaminas do complexo B são

encontradas principalmente em vegetais verdes folhosos, leite e fígado.

 

Tiamina (Vitamina B 1)

A forma ativa da tiamina, o pirofosfato de tiamina, é importante no

metabolismo de carboidratos.

 

• A deficiência de tiamina era encontrada classicamente na Ásia, onde os

indivíduos alimentavam-se basicamente de arroz polido, do qual o processo

de polimento removia a cobertura rica em tiamina. Nos países ocidentais, a

deficiência ocorre principalmente em alcoólicos e pessoas com nutrição

inadequada.

• Os sintomas cardeais da deficiência de tiamina são polineuropatia, edema e

insuficiência cardíaca (Fig. 8.11). A síndrome da deficiência está dividida

em beribéri “seco”, com sintomas relacionados com o sistema

neuromuscular, e beribéri “úmido”, no qual predominam as manifestações

de insuficiência cardíaca.

• Nos casos graves, a deficiência manifesta-se pelo envolvimento do cérebro

(encefalopatia de Wernicke), com demência progressiva, ataxia e paralisia

dos músculos extra-oculares.

• O exame diagnóstico mais confiável para a deficiência de tiamina consiste

em uma resposta intensa e imediata à administração parenteral de tiamina.

FIGURA 8.11

Complicações da deficiência de tiamina (beribéri). (De Rubin E

Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia

Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 349.)

 

Niacina

A niacina refere-se a dois compostos quimicamente diferentes: ácido

nicotínico e nicotinamida. Esses componentes derivam da niacina da dieta ou

são biossintetizados a partir do triptofano disponível.

 

• A niacina tem papel importante na formação de NAD e seu fosfato, NADP

Esses compostos são importantes no metabolismo intermediário. A proteína

de origem animal e muitos tipos de grãos são boas fontes de niacina.

• A pelagra (palavra italiana que significa “pele rugosa”) refere-se à

deficiência clínica de niacina e é encontrada principalmente nos pacientes

enfraquecidos por outras doenças e em alcoólicos desnutridos.

• A pelagra caracteriza-se pelos três “D” da deficiência de niacina: dermatite

diarréia e demência (Fig. 8.12). A pele é rugosa e descamativa. Na boca

inflamação e edema levam ao aspecto grande e vermelho da língua.

 

FIGURA 8.12

Complicações da deficiência de niacina (pelagra). (De Rubin E

Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia

Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 350.)

 

Riboflavina (Vitamina B ) 2

A riboflavina deriva de muitas fontes vegetais e animais. É um componente

dos nucleotídeos da flavina, que desempenham papel importante no transporte

de elétrons. Em geral os sintomas clínicos da deficiência são encontrados

apenas em pacientes debilitados ou em alcoólicos desnutridos. As

complicações da deficiência de riboflavina são mostradas na Fig. 8.13. Uma

manifestação característica é a queilose, com fissuras na pele nos ângulos da

boca.

FIGURA 8.13

Complicações da deficiência de riboflavina. (De Rubin E, Gorstein F

Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott

Williams & Wilkins, 2005, p. 351.)

 

Ácido Pantotênico (Vitamina B ) 5

O ácido pantotênico é uma vitamina antioxidante utilizada na degradação de

carboidratos, proteínas e gorduras. É necessário para o crescimento apropriado

e saudável do cabelo. A vitamina B5 está contida em alimentos como cereais

de grãos integrais, legumes, ovos e carne. A deficiência é rara, mas pode

ocorrer em idosos desnutridos. Os sintomas da deficiência incluem alergias

insuficiência supra-renal e artrite reumatóide.

 

Piridoxina (Vitamina B ) 6

A atividade da piridoxina é encontrada em três compostos de ocorrência

natural: piridoxina, piridoxal e piridoxamina, e encontra-se amplamente

distribuída em alimentos de origem vegetal e animal. A piridoxina é

convertida a piridoxal fosfato, uma coenzima para muitas enzimas, inclusive

transaminases e carboxilases. A expressão primária da deficiência encontra-se

no sistema nervoso central, uma característica compatível com sua atuação na formação da descarboxilase dependente de pirodoxal do neurotransmissor

ácido γ-aminobutírico (GABA).

 

Cianocobalamina (Vitamina B ) 12

A cianocobalamina é encontrada em quase todas as proteínas de origem

animal, especialmente o fígado. São observadas deficiências nos casos de

anemia perniciosa, principalmente decorrente de falta de secreção de fato

intrínseco pelas células parietais da região fúndica do estômago. O fato

intrínseco é necessário para a absorção da vitamina B12 no íleo.

 

Ácido Fólico

Essa vitamina é encontrada em carnes, castanhas, feijões e vegetais folhosos

verdes; no entanto, a cocção excessiva destrói grande quantidade dessa

vitamina nos alimentos. Nos tecidos, o ácido fólico é reduzido

enzimaticamente a sua forma ativa de coenzima, que atua como um

transportador intermediário de grupos de carbono-1 em diversas reações

enzimáticas complexas. A gestação aumenta a necessidade de ácido fólico em

5 a 10 vezes. É importante observar que se constatou que a suplementação da

dieta de grávidas com ácido fólico evita o desenvolvimento de espinha bífida e

outras anomalias disráficas no neonato. A deficiência está associada a anemia

megaloblástica.

 

Vitamina C (Ácido Ascórbico)

A vitamina C é abundante em frutas cítricas e vegetais. Atua na hidroxilação

de pró-colágeno e, desse modo, é importante na formação e na manutenção de

muitos tipos de tecido conjuntivo que dependem do colágeno para a força

elástica. A vitamina C também apresenta propriedades antioxidantes e

aumenta a absorção de ferro a partir do intestino.

Há muito considera-se a vitamina C “antiescorbuto”. O escorbuto

caracteriza-se em crianças por defeitos no desenvolvimento de ossos e dentes

Como o colágeno nas paredes dos vasos sangüíneos é anormal, podem ocorrer

hemorragias, e a reparação da ferida é deficiente (Fig. 8.14).

FIGURA 8.14

Complicações da deficiência de vitamina C (escorbuto). (De Rubin E

Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia

Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 353.)

 

Vitamina D

A vitamina D é um hormônio esteróide lipossolúvel, encontrada em duas

formas: vitamina D (colecalciferol) e vitamina D (ergocalciferol). A 3 2

vitamina D3 é produzida na pele e a vitamina D2 deriva do ergosterol vegetal

As duas formas apresentam potência biológica equivalente.

 

• Para alcançar potência biológica, a vitamina D (seja a D ou a D ) precisa 2 3

ser hidroxilada a metabólitos ativos no fígado e no rim.

• A forma ativa da vitamina promove a absorção de cálcio e fósforo no

intestino delgado e pode influenciar diretamente a mineralização óssea.

• A deficiência de vitamina D é decorrente de (a) vitamina D insuficiente na

dieta, (b) produção insuficiente na pele devido a luz solar limitada, (c

absorção inadequada da dieta, ou (d) defeito na conversão a sua forma ativa

(como na hepatopatia ou na insuficiência renal).

Em crianças, a deficiência de vitamina D causa raquitismo, um

• enfraquecimento progressivo da estrutura óssea; em adultos, ocorre

osteomalacia (raquitismo do adulto).

 

Vitamina E

A vitamina E é um antioxidante que se acredita proteja os fosfolipídios da

membrana contra a peroxidação lipídica por radicais livres formados pelo

metabolismo celular. Milho e soja são ricos em vitamina E. Como a vitamina

E é lipossolúvel, qualquer alteração na absorção de gordura resulta em níveis

baixos no organismo.

 

Vitamina K

A vitamina K é uma vitamina lipossolúvel. Vegetais folhosos verdes são ricos

nessa vitamina. Ocorrem deficiências em condições que interferem na

absorção de gordura, como o espru ou na obstrução do trato biliar. A vitamina

K confere propriedades de ligação ao cálcio a certas proteínas; po

conseguinte, é importante para a atividade de quatro fatores da coagulação

protrombina, fator VII, fator IX e fator X. A deficiência pode provocar

hemorragia grave; a terapia parenteral com vitamina K tem efeito rápido.

 

Oligoelementos

Os oligoelementos como ferro, cobre, zinco, cobalto, iodo e selênio são

principalmente componentes de enzimas e co-fatores. As deficiências em

qualquer oligoelemento podem decorrer de síndrome de má absorção ou

durante nutrição parenteral total. Deficiências dietéticas de ferro e iodo são

discutidas nos Caps. 20 e 21.

 

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