Fundamentos de patologia
Capítulo 27 | Musculatura Esquelética
Musculatura Esquelética
Sumário do Capítulo
Anatomia e Histologia Normais
Reações Patológicas Gerais
Distrofia Muscular
Distrofia Muscular de Duchenne
Distrofia Muscular de Becker
Distrofia Miotônica
Miopatias Congênitas
Miopatias Inflamatórias
Miastenia Grave
Síndrome de Lambert-Eaton
Doenças Metabólicas Hereditárias
Rabdomiólise
Desnervação
Atrofia Muscular Espinhal
Atrofia de Fibras do Tipo II
Miopatia da Doença Crítica
Anatomia e Histologia Normais O músculo compõe-se de fascículos (grupos de fibras musculares) separados uns dos outros po tecido conjuntivo denominado perimísio. Cada fibra muscular, por sua vez, é circundada por um endomísio e é formada por numerosas miofibrilas. Células satélites dispersas estão presentes no músculo, e funcionam como células progenitoras durante o processo de regeneração muscular Cada fibra muscular é inervada por um único axônio, embora um determinado nervo possa inervar diversas fibras. Um neurônio motor inferior e suas fibras inervadas associadas são denominados uma unidade motora. As fibras musculares respondem à transmissão neuronal por sinalização através de receptores de acetilcolina nicotínicos agrupados na placa terminal motora.
As fibras musculares são subdivididas em fibras do tipo I e do tipo II, cujos fenótipos podem
ser influenciados por sinalização oriunda do neurônio motor inferior.
• As fibras do tipo I (também denominadas fibras vermelhas ou de contração lenta) apresentam
maior capacidade de reserva de oxigênio e maior quantidade de mitocôndrias. A ativação dessas fibras resulta em uma contração prolongada e lenta que é bastante resistente à fadiga.
• As fibras do tipo II (também denominadas fibras brancas ou de contração rápida) usam a via de
Embden-Myerhof para a glicólise anaeróbica. A ativação dessas fibras resulta em contração mais rápida, curta e poderosa do que a das fibras do tipo I. Essas fibras coram-se proeminentemente com miosina ATPase.
A maior parte da musculatura humana é formada por uma combinação de fibras do tipo I e tipo
II, embora a proporção dessas fibras varie de acordo com a localização.
A investigação de uma doença muscular é realizada por biopsia muscular, com o quadríceps
femoral e o bíceps braquial sendo os locais de biopsia mais comuns. Nos pacientes com neuropatia periférica, o músculo gastrocnêmio e o nervo sural freqüentemente são utilizados para obtenção de amostras.
Reações Patológicas Gerais
Em diversas miopatias, as fibras musculares são submetidas a um ciclo de necrose e regeneração A lesão das fibras musculares resulta em necrose focal (segmentar) da fibra, deixando uma membrana basal e um suprimento nervoso residuais. A infiltração de macrófagos e a ativação de células satélites, que formam mioblastos regenerativos, resultam no restabelecimento da fibra muscular. Em geral, a fibra muscular em regeneração tem diâmetro menor que a fibra que a originou; núcleos vesiculares grandes e de localização central, com nucléolos proeminentes localizam-se no interior da fibra. O retorno da função pode ocorrer em algumas semanas após lesão.
Distrofia Muscular
A distrofia muscular refere-se a um grupo de distúrbios caracterizados por fraqueza progressiva dos músculos voluntários, e é causada por um distúrbio muscular primário. Em geral, a distrofia muscular é doença progressiva caracterizada por necrose e regeneração de fibras musculares resultando em fibrose muscular progressiva e substituição do tecido muscular por tecido adiposo Esses distúrbios não estão associados a um componente inflamatório importante.
Distrofia Muscular de Duchenne A distrofia muscular de Duchenne é um distúrbio ligado ao X que se manifesta com degeneração progressiva de fibras musculares, freqüentemente envolvendo a cintura pélvica e a cintura do ombro. Mutações e deleções de distrofina (Xp21) provocam diminuição significativa ou ausência dos níveis dessa proteína na superfície interna do sarcolema. O diagnóstico pode ser estabelecido por reação de cadeia de polimerase (RCP) do DNA genômico derivado de leucócitos ou por biopsia muscular, que mostra pouca a nenhuma proteína do tipo distrofina por meio de imunocoloração ou imunoblot. A atividade da creatinoquinase sérica encontra-se bastante aumentada.
Os meninos acometidos pela distrofia muscular de Duchenne freqüentemente demonstram
fraqueza aos 3 a 4 anos de idade, em especial na cintura do ombro e da pelve. É comum a pseudo-hipertrofia dos músculos da panturrilha causada por substituição de músculo por tecido fibroadiposo. Muitos pacientes freqüentemente demonstram graus variáveis de retardo mental Com freqüência os pacientes ficam presos a uma cadeira de rodas aos 10 anos de idade, e a morte freqüentemente ocorre secundária a complicações respiratórias ou arritmia cardíaca.
Distrofia Muscular de Becker
A distrofia muscular de Becker é uma forma mais branda da distrofia muscular de Duchenne, em que uma proteína truncada de distrofina está presente nas fibras musculares. O distúrbio manifesta-se durante a infância. A atividade sérica da creatinoquinase também se encontra bastante aumentada.
Distrofia Miotônica
A distrofia miotônica é um distúrbio autossômico dominante caracterizado por relaxamento muscular lento (miotonia) e fraqueza e perda musculares progressivas. O distúrbio comumente manifesta-se durante a vida adulta, embora a idade de início seja bastante variável. A distrofia miotônica é causada por um cromossomo 19 que sofreu mutação (19q13.3), que codifica uma nova proteína quinase serina-treonina e resulta na expansão de uma repetição CTG. Os pacientes acometidos freqüentemente demonstram mais de 50 repetições dessa seqüência. Uma forma congênita do distúrbio ocorre na prole de mulheres que apresentam distrofia miotônica sintomática.
A maioria dos pacientes demonstra atrofia de fibras musculares tipo I e hipertrofia de fibras
musculares tipo II. A reação de ATPase revela numerosas fibras em anel, correspondentes a uma concentração circunferencial de sarcoplasma intensamente corado. Em oposição à distrofia muscular de Duchenne, a necrose e a regeneração não são características proeminentes desse distúrbio.
Os pacientes freqüentemente apresentam fraqueza e enrijecimento musculares lentamente
progressivos, com freqüência no terço distal dos membros, na face e na mandíbula. Múltiplos sistemas podem ser afetados e outros achados incluem atrofia testicular, alterações de personalidade e catarata.
Miopatias Congênitas
As miopatias congênitas freqüentemente se manifestam no período neonatal por meio de hipotonia generalizada (Quadro 27.1). Em geral, a hipotonia persistente não evolui e não parece influenciar o ciclo de vida do paciente. Por outro lado, diversas formas de miopatia “maligna” (doença de Pompe, doença de Werdnig-Hoffman) têm um curso rapidamente progressivo que resulta em morte no primeiro ano de vida. As miopatias congênitas — incluindo doença da zona central, miopatia de nemalina e miopatia centronuclear — compartilham diversas características Os pacientes com freqüência demonstram hipotonia congênita, diminuição dos reflexos tendinosos profundos, diminuição da massa muscular e marcos motores tardios. A biopsia muscular revela predominância anormal de fibras do tipo I, mas não há necrose de fibras musculares nem fibrose. O nível sérico de creatinoquinase é normal.
Quadro 27.1
Miopatias Congênitas
Modo de Defeito Achados no Achados
Miopatia Herança Genético Músculo Associados
Doença de Autossômico Receptor de Predominância A maioria dos
zona central dominante rianodina de fibras do pacientes deambula.
(19q13.1) tipo I que Rara associação com
mostram zona hipertermia maligna
central de
degeneração
Miopatia dos Autossômico Múltiplos genes, Predominância Pode apresentar
bastonetes dominante incluindo α- de fibras do envolvimento (da ou tropomiosina tipo I que intenso da face, nemalina) autossômico lenta, α-actina revelam faringe e pescoço.
recessivo de músculo agregados de Pode haver
esquelético, α- estruturas em cifoescoliose tropomiosina forma de dentre outros bastão no
citoplasma
Miopatia Formas A forma ligada ao Predominância As formas ligadas ao
centronuclear autossômica X é causada por de fibras do X podem ser fatais
dominante, mutação em tipo I no período autossômica uma tirosina mostrando neonatal, enquanto recessiva e fosfatase pequenas fibras as formas ligada ao X redondas com autossômicas
núcleo central dominantes
apresentam início
tardio
Miopatias Inflamatórias
As miopatias inflamatórias representam um grupo incomum de distúrbios adquiridos, que manifestam fraqueza muscular proximal simétrica, aumento dos níveis séricos de enzimas derivadas de músculo e inflamação não-supurativa do músculo esquelético (Quadro 27.2) Postulou-se que esses distúrbios, que incluem dermatomiosite, polimiosite e miosite por corpúsculo de inclusão, representam processos auto-imunes, embora antígenos específicos não tenham sido identificados.
Os pacientes com miopatia inflamatória freqüentemente demonstram fraqueza de musculatura
proximal simétrica progressiva, levando a dificuldade para subir degraus ou pentear o cabelo. Os pacientes também demonstram aumento dos níveis séricos de creatinoquinase, além da presença de anticorpos antinucleares e anticitoplasmáticos. As miopatias inflamatórias caracterizam-se por infiltrado inflamatório mononuclear, necrose e fagocitose de fibras musculares, uma mistura de fibras em regeneração e atróficas e fibrose muscular.
Quadro 27.2
Miopatias Inflamatórias
Idade de Achados no Achados
Miopatia Início Etiologia Músculo Associados
Polimiosite Após 20 Músculos afetados Inflamação Alguns pacientes
anos de expressam endomisial e podem idade antígeno MHC-I, infiltração apresentar
que podem levar à mononuclear de pneumopatia resposta de células fibras musculares intersticial, T CD8+ de aspecto sadio fenômeno de
Raynaud, artrite
não-erosiva
Dermatomiosite Crianças Imunocomplexos Vasos sangüíneos Erupção cutânea
e nas paredes de intramusculares nas pálpebras adultos vasos sangüíneos revelam hiperplasia superiores, face,
resultam em uma endotelial, trombos tronco. Pode microangiopatia e de fibrina, ocorrer perda de miofibras; obliteração e as associada a pode ser mediada miofibras revelam outras doenças parcialmente por atrofia periférica auto-imunes ou células T CD4+ (atrofia a carcinoma do
perifascicular) pulmão
Miosite com Vida Envolvimento do Necrose e
corpúsculo de adulta endomísio por regeneração de
células T citotóxicas fibras individuais.
As miofibras
contêm vacúolos
semelhantes a
fendas e inclusões
citoplasmáticas
eosinofílicas
(amilóide
intracelular)
Miastenia Grave
A miastenia grave é uma doença auto-imune adquirida causada por anticorpos policlonais circulantes contra o receptor de acetilcolina nas placas motoras terminais de fibras musculares. A ligação dos anticorpos resulta em aumento da endocitose do receptor de acetilcolina, levando a fraqueza muscular e fadiga fácil. Esse distúrbio acomete mais comumente adultos jovens, com predominância do sexo feminino.
Os pacientes com miastenia grave freqüentemente demonstram períodos de exacerbação e
períodos de diminuição da fraqueza e da fadiga musculares, que podem com freqüência afetar os músculos dos olhos, levando a ptose e diplopia. Os músculos do tronco e dos membros também podem ser afetados, e um subgrupo de pacientes desenvolve insuficiência respiratória devido ao envolvimento dos músculos respiratórios. A biopsia muscular revela achados mínimos, como atrofia de fibras musculares do tipo II e coleções focais de linfócitos no interior de fascículos musculares. Uma grande quantidade de pacientes apresenta timoma (cuja remoção cirúrgica pode levar à cura) ou hiperplasia tímica associados. O tratamento inclui corticosteróides, agentes anticolinesterase ou plasmaférese.
Síndrome de Lambert-Eaton
A síndrome de Lambert-Eaton é uma síndrome paraneoplásica freqüentemente associada a carcinoma de células pequenas do pulmão, além de outros processos malignos, e se manifesta po meio de fraqueza muscular e desgaste dos músculos proximais.
Doenças Metabólicas Hereditárias
Diversas anormalidades hereditárias afetam a musculatura esquelética, como doenças de depósito de glicogênio, miopatias lipídicas, doença mitocondrial, além de outras deficiências de enzimas (Quadro 27.3).
Rabdomiólise
A rabdomiólise é a necrose não-inflamatória de fibras musculares que pode resultar em liberação de grandes quantidades de mioglobina a partir das células e possivelmente insuficiência rena aguda secundária a mioglobinemia. A rabdomiólise pode ser aguda, subaguda ou crônica, e pode ser induzida por gripe, exercícios físicos, intermação ou hipertermia maligna. A rabdomiólise aguda caracteriza-se por músculos edemaciados, sensíveis e fracos. Identifica-se necrose dispersa de fibras musculares com regeneração focal e coleções de macrófagos.
Desnervação
A lesão de neurônios motores inferiores resulta em degeneração axonal e decorrente atrofia angular irregularmente dispersa de fibras musculares dos tipos I e II. Nos casos graves de desnervação, surgem coleções de fibras atróficas angulares, que se coram intensamente para esterase inespecífica e pelas reações NADH-TR (ao contrário da atrofia causada por desuso ou desgaste). À medida que os neurônios que sobrevivem brotam novas terminações nervosas, as fibras musculares reinervadas tornam-se fibras do tipo I ou do tipo II, dependendo do sina oriundo do axônio que faz a inervação. Com o passar do tempo, surgem unidades motoras maiores que demonstram grandes aglomerados de fibras do tipo I adjacentes a grandes aglomerados de fibras do tipo II (processo denominado grupamento de tipo). Os pacientes com grupamento de tipo manifestam câimbras musculares além de fraqueza muscular. Nos casos em que não ocorre reinervação, as fibras musculares progressivamente sofrem atrofia e por fim são substituídas por tecido fibroadiposo, resultando também em fraqueza muscular.
Quadro 27.3
Doenças Metabólicas Hereditárias Envolvendo a Musculatura Esquelética
Modo de Defeito Achados à Achados
Doença Herança Molecular Microscopia Associados
Doenças de depósito de glicogênio
Glicogenose tipo II Autossômico Atividade O músculo Hipotonia. A
(deficiência de recessivo alterada da contém forma mais grave maltase ácida, maltase ácida grandes é a doença de doença de (redução da acúmulos de Pompe, na qual Pompe) degradação de glicogênio os lactentes
glicogênio e limitados por podem morrer acúmulo no membrana devido a interior de insuficiência lisossomos) cardíaca
Glicogenose tipo Autossômico Deficiência da A microscopia Hepatomegalia,
III recessivo enzima eletrônica atraso do
desramificadora revela grandes crescimento (redução da agregados de hidrólise de grânulos de glicogênio) glicogênio no
sarcoplasma
Glicogenose tipo V Autossômico Deficiência de Acúmulo sutil Necrose
(doença de recessivo miofosforilase de grânulos de proeminente de McArdle, (redução da glicogênio no miofibras pode deficiência de clivagem de sarcoplasma ocorrer associada miofosforilase) glicogênio) a exercícios
físicos
prolongados
Miopatias lipídicas
Deficiência de Autossômico Deficiência de Acúmulo Intolerância a
carnitina recessivo carnitina maciço de exercícios físicos,
(redução do gotículas de fraqueza de transporte de lipídios no musculatura aminoácidos de sarcoplasma proximal cadeia longa progressiva
para o interior
das
mitocôndrias)
Doença mitocondrial
Encefalomiopatias Transmissão Com freqüência, Acúmulo de Síndrome de
mitocondriais materna atividade mitocôndrias Kearns-Sayre
comprometida que se mostram (oftalmoplegia, da citocromo como material degeneração oxidase granular pigmentar da
avermelhado retina, arritmias
no sarcoplasma cardíacas); (fibras síndrome vermelhas MELAS rotas) (myopathy,
encephalopathy,
lactic acidosis,
strokelike
episodes –
miopatia,
encefalopatia,
acidose láctica,
episódios
semelhantes a
derrame)
Paralisia periódica Autossômico Anormalidades Posteriormente Episódios de
familiar dominante nos fluxos de na evolução da fraqueza
sódio e potássio doença, as muscular ou para o interior e fibras paralisia, para fora das musculares sucedidos por células mostram recuperação musculares vacuolização rápida
sarcoplasmática
Atrofia Muscular Espinhal
A atrofia muscular espinhal (AME) consiste em um grupo de distúrbios autossômicos recessivos causados por anormalidades em 5q11.2-13.3, e demonstra degeneração das células do corno anterior da medula espinhal. Os subtipos de AME incluem:
• Doença de Werdnig-Hoffmann (AME do tipo I ou infantil): fraqueza progressiva e grave na
lactância, com a morte freqüentemente ocorrendo no primeiro ano de vida; à microscopia visualizam-se grupos de minúsculas fibras atróficas arredondadas que ainda são identificáveis como fibras do tipo I ou II com a reação ATPase, além de hipertrofia de fibras do tipo I
• Doença de Kugelberg-Welander (AME tipo III ou juvenil): forma de AME de início tardio que
pode não evoluir; à microscopia, ocorre grupamento de tipo Atrofia de Fibras do Tipo II
A atrofia de fibras do tipo II freqüentemente ocorre secundariamente a outros distúrbios e reflete uma atrofia angular seletiva de fibras do tipo II, conforme demonstrado com a reação ATPase. A miopatia esteróide é uma forma de atrofia de fibras do tipo II que se manifesta por fraqueza muscular e ocorre sucedendo a administração prolongada de corticosteróides.
Miopatia da Doença Crítica
Os pacientes que recebem doses altas de esteróides associados a agentes bloqueadores neuromusculares podem demonstrar miopatia da doença crítica, manifesta por perda de filamentos espessos de miosina, conforme revelado à microscopia eletrônica. Com freqüência esses filamentos sofrem reconstituição após a suspensão dos corticosteróides.
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