Fundamentos de patologia

Donna E. Hansel · Capítulo 23 de 28

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Fundamentos de patologia

Capítulo 24 | Pele

Pele

 

Sumário do Capítulo

Anatomia e Histologia Normais

Epiderme

Zona da Membrana Basal

Derme

Folículos Pilosos

Glândulas Sudoríparas

Terminologia de Doença Cutânea

Doenças Cutâneas Infecciosas

Impetigo

Infecções Fúngicas Superficiais

Infecções Fúngicas Profundas

Infecções Virais

Infestações por Artrópodes

Anormalidades Hereditárias da Queratinização

Ictioses

Doença de Darier

Dermatoses e Distúrbios Inflamatórios da Pele

Urticária e Angioedema

Dermatite de Contato Alérgica

Eritema Multiforme

Psoríase

Lúpus Eritematoso Sistêmico

Líquen Plano

Doenças Bolhosas

Pênfigo Vulgar

Penfigóide Bolhoso

Dermatite Herpetiforme

Epidermólise Bolhosa

Inflamação Granulomatosa

Sarcoidose

Granuloma Anular

Acne Vulgar

Doença do Tecido Conjuntivo Dérmico: Esclerodermia

Vasculite Leucocitoclástica

Distúrbios Inflamatórios do Panículo

Eritema Nodoso

Eritema Indurado

Lesões Melanocíticas

Sarda

Lentigo

Nevo Melanocítico Adquirido

Nevo Displásico (Atípico)

Melanoma Maligno

Lesões Epidérmicas

Lesões Epidérmicas Benignas

Lesões Epidérmicas Pré-malignas e Malignas

Tumores de Anexos

Lesões Fibro-histiocíticas

Dermatofibroma

Dermatofibrossarcoma Protuberante

Fibroxantoma Atípico

Micose Fungóide

Sarcoma de Kaposi

 

Anatomia e Histologia Normais

 

A pele desempenha diversas funções fisiológicas, como a formação de barreira

protetora contra microrganismos, regulação da temperatura corporal

modulação imunorreguladora e sensação. A pele é constituída por epiderme

derme, folículos pilosos e glândulas sudoríparas.

 

Epiderme

A epiderme é formada por epitélio escamoso estratificado que repousa em

uma membrana basal (Fig. 24.1). Terminações nervosas livres estendem-se

pela epiderme e proporcionam informações sensoriais. As quatro camadas da

epiderme são:

 

• Estrato basal: camada única de células cuboidais (“células basais”)

mitoticamente ativas e que repousam na membrana basal e mostram-se

levemente basofílicas

• Estrato espinhoso (camada de células espinhosas): múltiplas camadas de

ceratinócitos com processos curtos entre as células

• Estrato granuloso (camada de células granulares): ceratinócitos achatados

que contêm muitos grânulos querato-hialinos

• Estrato córneo: ceratinócitos anucleados que formam uma barreira protetora

na superfície da pele (queratina)

 

São encontrados inúmeros tipos celulares no interior da epiderme

incluindo:

 

• Ceratinócitos: produzem queratina e desempenham a função de barreira

epidérmica primária contra a água; contêm tonofibrilas que terminam em

junções de adesão intercelular denominadas desmossomos

• transferida para ceratinócitos adjacentes, conferindo a cor da pele Melanócitos: derivam da crista neural e produzem melanina, que é

• Células de Langerhans: células que contêm HLA-DR que reconhecem e

processam antígenos e são imunopositivas para CD1a e S-100. Grânulos de

Birbeck (vesículas em forma de raquete de tênis) são identificados à

microscopia eletrônica

• Células de Merkel: células epidérmicas modificadas, nos lábios, cavidade

oral, folículos pilosos e pele palmar dos dígitos e funcionam como

mecanorreceptores

 

FIGURA 24.1

Epiderme normal. Ceratinócitos formam a epiderme de múltiplas

camadas, que protege contra a perda de água e invasão bacteriana. Os

melanócitos proporcionam cor, além de proteção contra radiação

ultravioleta. As células de Langerhans operam na regulação

imunológica. As células de Merkel fornecem sensação tátil. (De

Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed

Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 1204.)

 

Zona da Membrana Basal

A zona da membrana basal (ZMB) repousa entre a epiderme e a derme e é a

responsável pela polaridade das células epiteliais. A ZMB contém múltiplas

camadas contendo colágeno dos tipos IV e VII, dentre outros componentes

(Fig. 24.2). Diversas patologias afetam a ZMB, como o penfigóide bolhoso.

FIGURA 24.2

 

Interface dermo-epidérmica e zona da membrana basal. (De Rubin E,

Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia:

Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 1209.)

 

Derme

A derme situa-se abaixo da ZMB e contém predominantemente colágeno

embebido em matriz de ácido hialurônico, com terminações nervosas

mielinizadas entremeadas (incluindo corpúsculos de Meissner e corpúsculos

de Pacini) e vasculatura cutânea. As duas divisões principais da derme são:

 

• Derme papilar: imediatamente abaixo da ZMB e formada por delicadas

fibrilas de colágeno

• Derme reticular: abaixo da derme papilar e contém feixes de colágeno e

fibras elásticas

 

As papilas dérmicas contêm leitos capilares, que ajudam a regular a

temperatura corporal e podem permitir a saída de células inflamatórias

Existem canais linfáticos próximo da epiderme, que podem estar envolvidos

nas metástases de neoplasias cutâneas.

Folículos Pilosos

Os folículos pilosos são formados por uma invaginação da epiderme e contêm

bulbos compostos de tecido epitelial e tecido mesenquimatoso. O cabelo

formado por queratina rígida, cresce de modo cíclico, com a maior parte do

cabelo sofrendo crescimento ativo (fase anágena do crescimento do cabelo)

Os folículos pilosos estão associados aos músculos eretores dos pêlos e

regulam a posição do pêlo e os “arrepios”. A alopecia (calvície) é uma perda

de cabelo comumente causada pela parada de mitose do cabelo em

crescimento.

 

Glândulas Sudoríparas

Os três tipos de glândulas encontradas na pele são:

 

• Glândulas sebáceas: produzem a substância oleosa sebo que recobre a pele

• Glândulas sudoríparas écrinas: localizadas por toda a pele e podem ajudar a

regular a temperatura corporal

• Glândulas sudoríparas apócrinas: localizadas na axila, região genitoanal e ao

redor da aréola, e produzem uma secreção rica em proteínas que podem ser

metabolizadas por bactérias, produzindo odor

 

Terminologia de Doença Cutânea

 

Termos específicos empregados para descrever os achados clínicos na doença

cutânea incluem:

 

• Mácula: lesão plana que se manifesta como uma coloração diferente da pele

circunvizinha

• Mancha: uma mácula grande

• Pápula: lesão elevada com menos de 5 mm de diâmetro

• Nódulo: uma pápula grande

• Vesícula: uma pequena elevação da pele repleta de líquido

• Bolha: uma vesícula grande repleta de líquido

• Pústula: vesícula repleta de pus

• Escama: epiderme esfoliada semelhante a flocos

• Liquenificação: pele espessada com marcas cutâneas proeminentes

 

Os achados microscópicos que podem ser comuns a diversas doenças

cutâneas são:

• Hiperceratose: aumento da queratina com espessamento do estrato córneo

• Paraceratose: retenção de núcleos no estrato córneo

• Erosão: perda parcial da epiderme

• Ulceração: perda da espessura completa da epiderme

• Espongiose: edema entre as células da epiderme

• Acantólise: perda da aderência intercelular na epiderme

• Hiperplasia papilomatosa: alongamento da derme papilar

 

Doenças Cutâneas Infecciosas

 

Impetigo

O impetigo é uma infecção bacteriana superficial da pele, freqüentemente

causada por estafilococos ou estreptococos. Essa doença afeta crianças com

maior freqüência, que são infectadas por pequenas fissuras na pele. Ao exame

macroscópico, as mãos, os membros e a face demonstram erosões ou úlceras

cor de mel e com crostas, que freqüentemente apresentam uma área central de

aspecto normal. Por fim, pode haver a formação de vesículas ou bolhas e seu

rompimento, resultando em uma fina secreção soropurulenta que seca sobre a

superfície. À microscopia, são visualizados muitos neutrófilos abaixo do

estrato córneo e a epiderme demonstra alterações reativas como espongiose e

alongamento das cristas epidérmicas.

 

Infecções Fúngicas Superficiais

As infecções fúngicas superficiais de epitélio queratinizado inviável são

causadas por dermatófitos, que ingerem a queratina, e são denominadas

dermatofitose ou tinha. Com freqüência, a infecção ocorre associada a um

microambiente alterado, muitas vezes provocado pelo uso de corticosteróides

ou transpiração excessiva. O microrganismo causal mais comum é

Trichophyton rubrum; no entanto, espécies de Candida e Malassezia furfur

também podem produzir infecção. Colorações especiais, como o ácido

periódico de Schiff (PAS), podem demonstrar os microrganismos

Clinicamente, as dermatofitoses são denominadas pelo local de infecção (p

ex., tinha da cabeça para infecção do couro cabeludo; tinha crural para

infecção da área pubiana). Com freqüência, há hiperceratose, hiperplasia

epidérmica e inflamação perivascular crônica da derme.

 

Infecções Fúngicas Profundas As infecções fúngicas profundas freqüentemente ocorrem associadas a

infecção pulmonar, em especial sucedendo a inalação de aerossóis contendo

Histoplasma ou Blastomyces. Colorações especiais para fungos, como o PAS

podem demonstrar o microrganismo. Ao exame macroscópico, essas lesões

revelam-se nódulos ou úlceras e podem ser bilaterais. A introdução dos

microrganismos também pode ocorrer localmente e demonstrar um aspecto

semelhante a cancro. À microscopia, pode haver hiperplasia epidérmica

microabscessos intra-epidérmicos e inflamação granulomatosa supurativa da

derme.

 

Infecções Virais

Muitos tipos de vírus podem provocar infecção cutânea. Exemplos incluem:

 

• O molusco contagioso é uma infecção que ocorre em crianças e adultos

jovens e é disseminada por contato direto. Ao exame macroscópico, as

lesões consistem em pápulas firmes, em forma de cúpula, com a superfície

lisa e uma umbilicação central, e ocorrem na face, no tronco e na área

anogenital. Com freqüência, as lesões são autolimitadas. À microscopia

células epidérmicas contêm grandes inclusões virais citoplasmáticas

eosinofílicas (corpúsculos de molusco) em um fundo de hiperplasia

epidérmica papilomatosa.

• A infecção pelo papilomavírus humano (HPV) pode resultar em crescimento

verrucoso da epiderme (ver Lesões Epidérmicas Benignas, Verruga).

 

Infestações por Artrópodes

As infestações por artrópodes são freqüentemente pruríticas, e as reações

teciduais são produzidas em resposta a produtos dos artrópodes. Exemplos

incluem:

 

• Escabiose: causada pela sarna Sarcoptes scabei, que escava abaixo do

estrato córneo dos dedos, pulsos, do tronco e da pele genital, e resulta em

infiltração linfocítica e eosinofílica

• Pediculose: produzida por piolhos presentes ao longo de fios de cabelo

 

Insetos mordedores formam pequenas pápulas pruríticas até grandes

nódulos exsudativos na pele.

 

Anormalidades Hereditárias da Queratinização Ictioses

As ictioses compõem-se de um grupo heterogêneo de doenças hereditárias que

compartilham um espessamento acentuado do estrato córneo. Essas doenças

têm início na lactância ou na infância e os pacientes acometidos demonstram

escamas grosseiras, semelhante a peixe. Foram descritos quatro tipos

principais de ictioses:

 

• Ictiose vulgar

• Ictiose ligada ao X

• Ictiose lamelar

• Hiperceratose epidermolítica

 

Em geral as ictioses caracterizam-se por aumento da coesão do estrato

córneo, queratinização anormal e aumento da proliferação de células basais.

 

Doença de Darier

A doença de Darier é um distúrbio autossômico dominante que envolve o gene

ATP2A2 e se caracteriza por ceratoses multifocais. Os pacientes manifestam

durante a infância ou adolescência, pápulas cor da pele sobre o tronco, pregas

nasolabiais, costas, couro cabeludo, testa, orelhas e virilha, que, por fim

desenvolvem crostas.

 

Dermatoses e Distúrbios Inflamatórios da Pele

 

Um subgrupo de distúrbios que causam dermatoses está relacionado no

Quadro 24.1.

 

Urticária e Angioedema

A urticária e o angioedema são reações de hipersensibilidade do tipo

mediadas por imunoglobulina E. Ambos resultam em desgranulação de

mastócitos frente antígenos específicos e permeabilidade exagerada das

vênulas.

A urticária caracteriza-se por lesões pruríticas bem demarcadas

eritematosas e elevadas, associadas a edema na porção superior da derme

processo denominado vergões. Essas lesões aparecem sucedendo exposição a

antígeno e se resolvem em algumas horas. No entanto, na forma crônica, as

lesões podem recorrer durante várias semanas.

O angioedema é uma reação mais pronunciada, intensamente prurítica, na

qual os vergões são maiores e o edema se estende até a subcútis. As lesões

caracterizam-se por edema intersticial e vasos cutâneos dilatados.

 

Dermatite de Contato Alérgica

A dermatite de contato alérgica é uma reação de hipersensibilidade do tipo IV

(celular) que sucede exposição a antígeno. Os agentes agressores comuns

incluem membros do gênero de vegetais Rhus, como a hera venenosa e o

carvalho venenoso. As plantas contêm antígenos denominados haptenos que

se associam a moléculas transportadoras, após o que o complexo é processado

por células de Langerhans; esse processo resulta na formação de células T de

memória. Os pacientes demonstram lesões 5 a 7 dias após a reexposição ao

hapteno. Ao exame macroscópico, essas lesões são pequenas vesículas

eritematosas, intensamente pruríticas, que perduram cerca de 3 semanas. Por

fim, as lesões formam crostas e ocorre a cura sem a formação de tecido

conjuntivo. À microscopia, essas lesões demonstram edema epidérmico

proeminente, denominado dermatite espongiótica, com linfócitos e

macrófagos circundando o leito venular superficial e as vesículas. Após 24

horas, esofinófilos infiltram a epiderme e a derme.

 

Quadro 24.1

 

Distúrbios Associados a Dermatoses

 

Localização

Doença Anatômica Achados Patológicos

 

Urticária Variável Lesões pruríticas eritematosas elevadas,

bem demarcadas; desgranulação de

mastócitos e edema dérmico

 

Dermatite Região de Pequenas vesículas eritematosas,

de contato contato intensamente pruríticas, que formam

alérgica crostas sem fibrose cicatricial; edema

epidérmico (dermatite espongiótica),

vesículas, linfócitos e macrófagos que

envolvem o leito venular superficial;

eosinófilos após 24 horas Eritema Manchas Lesões em alvo com região vermelha

multiforme dispersas; pode central circundada por borda pálida e

ser borda eritematosa adicional; infiltração

disseminado; linfocítica da junção dermo-

também pode epidérmica e derme superior, apoptose

envolver de ceratinócitos; vesículas

membranas subepidérmicas ocasionais

mucosas

 

Psoríase Superfícies Placas escamosas eritematosas, bem

extensoras definidas, grandes, prateadas;

dorsais ou áreas epiderme hiperplásica, adelgaçada

expostas a sobre as papilas, hiperceratose,

traumatismo paraceratose, infiltração neutrofílica na

epiderme com formação de abscessos

de Munro

 

Lúpus Freqüentemente Erupção cutânea maculopapular;

eritematoso face (erupção vacuolização das células basais,

sistêmico cutânea malar), espessura epitelial alterada,

(LES) pele, tórax, hiperceratose, basais, tamponamento

costas, de folículos pilosos e infiltrado

superfícies linfocitário denso envolvendo células

extensoras basais, membrana basal e derme

 

Líquen Freqüentemente Pápulas violáceas de superfície

plano superfícies achatada; hiperceratose,

flexoras dos hipergranulose, infiltrado de linfócitos

pulsos semelhante a faixa na junção dermo-

epidérmica, epitélio com aspecto de

dente de serra

 

Eritema Multiforme

O eritema multiforme é um distúrbio autolimitado agudo mais comum no fina

da adolescência e no início da vida adulta. Com freqüência é induzido por um

agente infeccioso (herpesvírus, Mycoplasma) ou por uma reação

medicamentosa. O distúrbio varia em gravidade desde máculas eritematosas e vesículas até ulceração disseminada da pele e das membranas mucosas

freqüentemente fatal (reação de Stevens-Johnson).

Ao exame macroscópico, as lesões apresentam aspecto de “alvo”, com uma

zona vermelha escura central e formação ocasional de vesícula, circundada por

uma região mais pálida que é circundada adicionalmente por uma borda

eritematosa. À microscopia, a junção dermo-epidérmica e a derme superior

apresentam infiltrado linfocítico. A epiderme tem apoptose de ceratinócitos e

ocasionalmente formação subepidérmica de vesículas com a cobertura da

vesícula formada por epiderme necrótica.

 

Psoríase

Esse distúrbio cutâneo crônico comum acomete até 2% da população e

freqüentemente ocorre no final da adolescência ou no início da vida adulta

Caracteriza-se por grandes placas descamativas eritematosas, bem definidas

com um matiz prateado, encontradas com maior freqüência nas superfícies

extensoras dorsais ou em áreas expostas a traumatismo.

A fisiopatologia subjacente envolve diversos fatores, como:

 

• Fatores genéticos: forte associação com expressão de HLA-Cw6

• Fatores ambientais: pode ser desencadeada por infecção, fármacos

fotossensibilidade

• Proliferação celular anormal

• Alterações microcirculatórias: alças capilares das papilas dérmicas

desenvolvem maior quantidade de material da lâmina basal e infiltração

neutrofílica

• Fatores imunológicos: postulou-se que linfócitos T participam de modo

fundamental no desenvolvimento da lesão

 

À microscopia, a epiderme encontra-se hiperplásica, com cristas

epidérmicas alongadas e adelgaçamento sobre as papilas, e demonstra

hiperceratose e paraceratose. As papilas dérmicas adquirem a forma de taco e

contêm vênulas dilatadas tortuosas que permitem o efluxo de neutrófilos para

a epiderme. No interior da epiderme, os neutrófilos podem formar pequenos

abscessos no estrato espinhoso superior e no estrato córneo, denominados

abscessos de Munro. O plexo vascular superficial da derme encontra-se

circundado por quantidades variáveis de linfócitos (Fig. 24.3).

Clinicamente, os pacientes demonstram lesões de gravidade variável. A

retirada da escama sobrejacente resulta em focos puntiformes de hemorragia

oriunda de capilares acentuadamente dilatados nas papilas dérmicas. Até 7%

dos pacientes podem desenvolver uma artrite soronegativa associada, que é

mais comum nos pacientes com haplótipo HLA-B27. Com freqüência a

doença é intermitente e as opções de tratamento incluem corticosteróides

metotrexato, fototerapia e derivados de vitaminas A e D.

 

FIGURA 24.3

Psoríase. Neutrófilos emergem das extremidades da alça capilar

venulizada e envolvem a epiderme. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin

R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams

& Wilkins, 2005, p. 1216.)

 

Lúpus Eritematoso Sistêmico

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença auto-imune que afeta

comumente adultos jovens e de meia-idade.

A lesão epidérmica que ocorre no LES freqüentemente é desencadeada po

agentes exógenos. O processo mórbido envolve a deposição de imunocomplexos ao longo da membrana basal epidérmica, vacuolização de

ceratinócitos basais e liberação de DNA na circulação.

Parece haver uma relação inversa entre o nível de doença cutânea e as

manifestações sistêmicas. Estas manifestações variam com o tipo de doença

conforme mostrado a seguir:

 

• Lúpus eritematoso cutâneo (discóide) crônico: afeta com maior freqüência

apenas face, orelhas e couro cabeludo e pode provocar a formação de tecido

conjuntivo cicatricial; caracteriza-se por alteração da espessura epitelial

hiperceratose, tamponamento de folículos pilosos e denso infiltrado

linfocítico envolvendo as células basais, a membrana basal e a derme

• Lúpus eritematoso cutâneo subagudo: pode estar acompanhado pelo

envolvimento do sistema musculoesquelético e dos rins e demonstra um

infiltrado linfocítico mais brando envolvendo a membrana basal e

degeneração vacuolar proeminente dos ceratinócitos basais; afeta

comumente a parte superior do tórax, das costas e as superfícies extensoras

dos braços

• LES agudo: ocorre associado a doença dos rins e articulações e manifesta-se

por erupção cutânea malar e erupção maculopapular no tórax; caracterizado

por edema da derme papilar

 

Líquen Plano

O líquen plano é uma doença de etiologia desconhecida. A doença pode

ocorrer isoladamente ou associada a LES, miastenia grave, administração de

fármacos, ou devido a agentes externos. Ao exame macroscópico, o líquen

plano revela pápulas de cobertura plana violácea, freqüentemente nas

superfícies flexoras dos pulsos. À microscopia, a epiderme demonstra

hiperceratose (sem paraceratose) e espessamento e hipergranulose do estrato

granuloso, em forma de cunha. Um infiltrado em forma de faixa constituído

por linfócitos e macrófagos obscurece a junção dermo-epidérmica (Fig. 24.4)

A epiderme se projeta no infiltrado inflamatório subjacente com um aspecto

em pontas, semelhante a dentes de serra. Corpúsculos fibrilares, globulares

eosinofílicos (que representam ceratinócitos apoptóticos) estão presentes no

infiltrado inflamatório.

FIGURA 24.4

Líquen plano. A epiderme revela hiperceratose, hipergranulose

hiperplasia epidérmica e infiltrado de linfócitos semelhante a faixa

na junção dermo-epidérmica e formação de corpúsculos fibrilares

(De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed

Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 1232.)

 

Doenças Bolhosas

 

Pênfigo Vulgar

O pênfigo vulgar (PV) é uma doença auto-imune que ocorre com maior

freqüência entre os 40 e 60 anos de idade.

O PV é causado por anticorpos direcionados contra um antígeno de

ceratinócitos denominado desmogleína 3, que reside no desmossomo. A

desmogleína 3 localiza-se na porção inferior da epiderme e a ligação de

anticorpos com esse antígeno resulta na disjunção dos ceratinócitos, com

separação entre a camada basal e a epiderme remanescente e subseqüente

formação de bolhas.

A seguir, quatro variantes de PV:

 

• Pênfigo foliáceo: anticorpos direcionados contra desmogleína 1 nas

camadas epidérmicas espinhosa externa e granular

• Pênfigo eritematoso: versão mais branda do pênfigo foliáceo

freqüentemente envolvendo uma distribuição malar

• Pênfigo vegetante: a cura em áreas intertriginosas é caracterizada po

hiperplasia epidérmica papilar complexa

Pênfigo fármaco-induzido: associado mais comumente a penicilamina e

• captopril

 

Ao exame macroscópico, essas lesões mostram-se vesículas grandes

facilmente rompidas, que formam áreas desnudas ou crostosas e mais

freqüentemente no couro cabeludo, nas membranas mucosas e áreas

periumbilicais e intertriginosas. A pressão lateral sobre essas lesões resulta no

deslizamento da epiderme para fora da área afetada. À microscopia, existe

uma separação distinta entre a camada de células basais e as camadas

superiores da epiderme. A bolha resultante contém uma mistura de células

inflamatórias e ceratinócitos acantolíticos arredondados. A

imunofluorescência revela anticorpos imunoglobulina (Ig) G na epiderme que

se revelam em um padrão rendilhado delineando os ceratinócitos. O

tratamento envolve corticosteróides ou a administração de agentes

imunossupressivos.

 

Penfigóide Bolhoso

O penfigóide bolhoso é uma doença auto-imune que freqüentemente

manifesta-se no idoso por meio de bolhas grandes no tronco, nos membros e

áreas intertriginosas. O distúrbio é causado por anticorpos direcionados contra

as proteínas da membrana basal BPAG1 e BPAG2 e demonstra um quadro

clínico semelhante ao do pênfigo vulgar.

Ao exame microscópico, as bolhas do penfigóide bolhoso são

subepidérmicas, com a base da lesão formada pela lâmina densa, e a cobertura

formada pela epiderme. Essas bolhas contêm eosinófilos em abundância, além

de linfócitos, neutrófilos e fibrina. A imunofluorescência revela deposição

linear de C3 e IgG ao longo da membrana basal epidérmica. A doença é

tratada com corticosteróides sistêmicos.

 

Dermatite Herpetiforme

A dermatite herpetiforme (DH) caracteriza-se por vesículas agrupadas

(“semelhantes a herpes”), intensamente pruríticas, nas superfícies extensoras

do corpo, em especial cotovelos, joelhos e nádegas. O distúrbio com

freqüência acomete indivíduos do sexo masculino jovens até os de meia-idade

e é comum a associação com os haplótipos HLA-DR3, HLA-B8 e HLA

DQw2. A DH é causada por sensibilidade ao glúten. A ingestão de glúten no

trigo, na cevada, no centeio ou na aveia resulta na formação e deposição de IgA na junção dermo-epidérmica e nas coberturas das papilas dérmicas

Imunocomplexos de IgA por fim acarretam o recrutamento de neutrófilos para

a junção dermo-epidérmica durante as 12 horas seguintes (Fig. 24.5). Bolhas

subepidérmicas repletas de neutrófilos e eosinófilos podem se desenvolver a

seguir. A imunofluorescência revela depósito de IgA nas papilas dérmicas

Com freqüência as lesões se curam sem a formação de tecido conjuntivo

cicatricial. O tratamento inclui dieta sem glúten, administração de dapsona ou

de sulfapiridina.

 

Epidermólise Bolhosa

A epidermólise bolhosa (EB) é um grupo de doenças hereditárias

caracterizadas por vesículas que se formam em locais de pequeno traumatismo

e que, com freqüência, são observadas logo após o nascimento. As três

categorias principais de EB são:

 

• EB epidermolítica: doença autossômica dominante em que a citólise das

células basais resulta em uma vesícula no interior da epiderme e que se cura

sem formar tecido conjuntivo cicatricial

• EB juncional: doença autossômica recessiva causada por mutações no

colágeno tipo VII em que vesículas se formam no interior da lâmina lúcida

da zona da membrana basal e pode ser fatal nos primeiros 2 anos de vida

• EB dermolítica: doença autossômica dominante ou recessiva em que

mutações no colágeno tipo VII provocam a formação de vesículas que se

curam formando tecido conjuntivo cicatricial e anormalidades das unhas e

dentes

FIGURA 24.5

Dermatite herpetiforme. Depósitos de complexos de imunoglobulina

A nas extremidades das papilas dérmicas e na junção dermo-

epidérmica levam à formação de bolhas subepidérmicas repletas de

neutrófilos e eosinófilos. Ademais, ocorre o acúmulo de neutrófilos

nas extremidades das papilas dérmicas. (De Rubin E, Gorstein F

Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott

Williams & Wilkins, 2005, p. 1227.)

 

Inflamação Granulomatosa

 

A inflamação granulomatosa pode ser idiopática ou pode ocorrer associada a

um antígeno estranho ou um agente infeccioso.

 

Sarcoidose A sarcoidose é uma doença sistêmica que afeta primariamente os pulmões

mas também pode envolver a pele. Ao exame macroscópico, pode have

pápulas assintomáticas, placas e nódulos. À microscopia, identificam-se

granulomas epitelióides sem necrose caseosa.

 

Granuloma Anular

O granuloma anular é um distúrbio autolimitado benigno, de etiologia

desconhecida, que afeta com maior freqüência crianças e adultos jovens, em

especial mulheres. Ao exame macroscópico, visualizam-se placas anulares

cor da pele e assintomáticas, ou eritematosas, na superfície dorsal das mãos e

dos pés. À microscopia, as lesões contêm uma área central de colágeno

degenerado acelular e mucina na derme superficial, circundada por histiócitos

em paliçada. Com freqüência essas lesões se curam sem tratamento.

 

Acne Vulgar

 

A acne vulgar, uma doença dos folículos pilosos e das unidades sebáceas

comumente afeta adolescentes e caracteriza-se pela formação de lesões

papulares ou pustulares que, por fim, podem formar cicatriz. A patogenia

dessa doença mais provavelmente reflete a atividade de Propionibacterium

acnes em secreções sebáceas, podendo levar ao influxo subseqüente de

neutrófilos. A acne não-inflamatória caracteriza-se por comedões fechados e

abertos, que são acúmulos de lipídios, queratina e bactérias formando um

tampão central e resultando em dilatação folicular. A acne inflamatória

caracteriza-se por distensão folicular progressiva e ruptura, e confere a

presença de lesões cutâneas eritematosas.

 

Doença do Tecido Conjuntivo Dérmico: Esclerodermia

 

A esclerodermia afeta mais comumente mulheres entre 30 e 50 anos de idade e

caracteriza-se por fibrose progressiva da pele, dos rins, pulmões, do coração

esôfago e intestino delgado. Morféia é uma doença semelhante, porém mais

limitada, que afeta apenas áreas irregulares da pele.

Os pacientes na fase inicial da doença demonstram o fenômeno de Raynaud

e edema sem cacifo das mãos ou dos dedos. Feixes aumentados de colágeno

que correm paralelos à epiderme preenchem a derme, e existe um infiltrado

linfocítico irregular. Com o passar do tempo, a face desenvolve um aspecto semelhante a máscara, e a pele torna-se rígida e tensa. Os folículos pilosos se

obliteram e os ductos sudoríparos tornam-se aprisionados pelo colágeno.

 

Vasculite Leucocitoclástica

 

A vasculite leucocitoclástica, também denominada vasculite necrosante

cutânea, é uma doença mediada por imunocomplexos que pode ocorre

associada a diversas condições mórbidas, como doença auto-imune e infecção

Nessa doença, imunocomplexos são depositados ao longo de paredes

vasculares, levando à ativação subseqüente do complemento C5a e infiltração

neutrofílica. A atividade dos neutrófilos resulta em lesão endotelial e

deposição de fibrina.

Ao exame macroscópico, essas lesões mostram-se palpáveis, vermelhas, que

não clareiam mediante compressão, e são denominadas pápulas purpúricas

Com freqüência, essas lesões aparecem em coleções nos membros inferiores

ou em locais de compressão. À microscopia, os vasos da derme demonstram

um infiltrado neutrofílico que resulta em lesão vascular com extravasamento

de eritrócitos, depósitos de fibrina no vaso e quebra do núcleo dos neutrófilos

(“leucocitoclasia”) com a formação de remanescentes do núcleo semelhantes a

poeira.

Em geral as lesões se curam após um mês, mas podem resultar em

hiperpigmentação residual ou formação de fibrose cicatricial.

 

Distúrbios Inflamatórios do Panículo

 

A inflamação da subcútis é denominada paniculite e pode ser causada por

diversos fatores, como fármacos e microrganismos. A paniculite septal refere

se a inflamação dos septos, e a inflamação lobular refere-se a inflamação dos

lóbulos de gordura.

 

Eritema Nodoso

O eritema nodoso é uma doença autolimitada que freqüentemente acomete

pacientes entre 20 e 30 anos de idade. Caracteriza-se pelo início agudo de

nódulos sensíveis eritematosos nas superfícies extensoras dos membros

inferiores. O eritema nodoso está associado a infecção, fármacos e diversos

distúrbios sistêmicos e postulou-se que representa uma resposta imunológica a

antígenos estranhos.

No início da evolução da doença, os septos fibrosos subcutâneos

demonstram infiltração neutrofílica e extravasamento de eritrócitos (paniculite

septal). Numa fase avançada da doença, os septos tornam-se alargados

contendo células gigantes e linfócitos. Em geral, as lesões normalmente se

curam em 6 semanas sem a formação de tecido fibrótico cicatricial.

 

Eritema Indurado

O eritema indurado descreve nódulos ou placas nas pernas, subcutâneos e

recorrentes, e pode estar associado a DNA de Mycobacterium tuberculosis. Os

pacientes apresentam nódulos eritematosos sensíveis e recorrentes nas pernas

especialmente na panturrilha. A gordura subcutânea revela infiltrados

linfocíticos acentuados (paniculite lobular) que podem formar granulomas ou

provocar necrose de coagulação. Uma vasculite proeminente causada po

infiltrado linfocítico na parede do vaso pode acarretar necrose gordurosa

isquêmica. Essas lesões tendem a ulcerar e a cura se dá ao longo de alguns

anos e originam fibrose cicatricial.

 

Lesões Melanocíticas

 

Sarda

A sarda, ou efélide, é uma pequena mácula parda que ocorre na pele exposta

ao sol e é comum em indivíduos com pele clara. A pigmentação varia de

acordo com a exposição ao sol, e a maioria das sardas surge aos 5 anos de

idade. Essas lesões demonstram aumento do número de melanócitos e da

pigmentação dos ceratinócitos basais.

 

Lentigo

O lentigo é uma mácula parda que surge em qualquer idade, e a pigmentação

não varia com a exposição ao sol. Essas lesões demonstram cristas

epidérmicas alongadas, aumento do número de melanócitos e do pigmento

melanina nos melanócitos e ceratinócitos basais.

 

Nevo Melanocítico Adquirido

O nevo melanocítico adquirido, ou sinal, desenvolve-se mais freqüentemente

entre o nascimento e os 20 anos de idade e depende da exposição à luz

ultravioleta. Com o decorrer do tempo, os nevos podem se tornar planos ou por fim desaparecerem. Os indivíduos que desenvolvem >100 nevos correm

risco de melanoma.

Ao exame macroscópico, os nevos são lesões pardas, planas ou levemente

elevadas, bem demarcadas, com delineamento periférico regular. À

microscopia, os nevos demonstram maior quantidade de melanócitos

monomórficos na epiderme basal, na junção dermo-epidérmica ou na derme

que pode formar ninhos. Em geral, os nevos demonstram amadurecimento (ou

seja, menor tamanho celular) com profundidade na derme, distribuição

simétrica de células e ausência de mitoses. Os nevos podem ser subdivididos

com base na localização de células:

 

• Nevo juncional: melanócitos formam ninhos nas extremidades das cristas

epidérmicas

• Nevo composto: os ninhos envolvem a junção dermo-epidérmica e a derme

• Nevo dérmico: os ninhos estão presentes apenas na derme

 

Nevo Melanocítico Congênito

Os nevos melanocíticos congênitos estão presentes ao nascimento e

representam o aumento do número de melanócitos intra-epidérmicos e

dérmicos. Algumas lesões alcançam um tamanho maior (nevo piloso gigante

ou nevo vestuário) e existe maior risco de melanoma.

 

Nevo de Spitz

Os nevos de Spitz ocorrem em crianças e adolescentes e, ao exame

macroscópico, consistem em nódulo redondo rosado, elevado, com freqüência

na cabeça e no pescoço. A lesão tipicamente cresce com rapidez, alcançando 3

a 5 mm e demonstrando hiperceratose, paraceratose e ninhos de melanócitos

fusiformes e epitelióides na derme e na junção dermo-epidérmica.

 

Nevo Azul

O nevo azul é um nevo azul-escuro, cinza ou negro, no dorso da mão ou do pé

nas nádegas, no couro cabeludo ou na face. A derme contém melanócitos com

melanina com processos dendríticos longos.

 

Nevo Displásico (Atípico)

Em alguns casos, os nevos podem demonstrar crescimento melanocítico

persistente e, no exame macroscópico, aparecerem como lesões maiores e mais irregulares. A porção irregular da lesão cresce de modo assimétrico

afastando-se do nevo originário e, com freqüência, mede mais de 5 mm de

diâmetro. À microscopia, essas lesões freqüentemente demonstram

melanócitos com grande núcleo atípico que parece formar pontes entre as

cristas epidérmicas. Ademais, pode haver fibroplasias lamelares (tecido

conjuntivo eosinofílico circundante) e um infiltrado linfocítico.

 

Melanoma Maligno

O melanoma maligno ocorre com maior freqüência em regiões que foram

expostas de modo intermitente ao sol, em especial áreas de queimadura solar

Os melanomas podem mais comumente sofrer crescimento radial inicial e

disseminarem-se dorsalmente na epiderme e ao longo da derme superficial; as

lesões nessa fase de crescimento raramente dão metástase. As lesões que

entram na fase de crescimento vertical se estendem na derme, demonstram

aumento da atividade mitótica e podem conter quantidade mínima de

pigmento; as lesões na fase vertical são mais passíveis de sofrer disseminação

metastática por meios das vias linfáticas ou hematógenas e com maio

freqüência afetam linfonodos regionais.

Ao exame macroscópico, o melanoma maligno pode ser descrito

empregando-se a regra “ABCD”: Assimetria, Borda irregular, Cor variada e

Diâmetro superior a 6 mm. Nos estágios avançados de crescimento do

melanoma, também pode haver prurido, sangramento ou extravasamento de

líquido. À microscopia, as células malignas consistem em grandes melanócitos

epitelióides que revelam diminuição do amadurecimento associada à

profundidade e atividade mitótica.

O prognóstico de melanoma maligno pode ser avaliado empregando-se os

seguintes fatores:

 

• Espessura do tumor: a espessura é medida a partir da face superficial do

estrato granuloso até o ponto de invasão mais profunda e associa-se a um

prognóstico pior

• Taxa mitótica dérmica: associada a um prognóstico pior

• Resposta linfocítica: linfócitos infiltrando o tumor podem rompê-lo e forma

rosetas ao redor das suas células; tem correlação com prognóstico melhor

• Localização: lesões na cabeça, no pescoço, tronco ou na sola do pé têm

prognóstico sombrio

• Sexo: o sexo feminino comumente tem prognóstico melhor

Ao exame macroscópico, as lesões mostram-se branco-azuladas e revelam

derme papilar alargada. O melanoma do tipo lentigo maligno é uma fórmula

macular, pigmentada e grande de melanoma maligno e que ocorre com maio

freqüência em pessoas idosas de pele clara; acomete a pele exposta ao sol

especialmente na face e no dorso das mãos. À microscopia, melanócitos

atípicos formam filas de células praticamente contíguas no interior da camada

basal da epiderme, embora lesões avançadas possam sofrer crescimento

vertical.

 

Lesões Epidérmicas

 

Lesões Epidérmicas Benignas

Diversos distúrbios benignos afetam a epiderme, muitos dos quais

representam proliferações neoplásicas benignas que demonstram pouco ou

nenhum risco de disseminação metastática.

 

Verrugas

As verrugas são proliferações epidérmicas elevadas ou planas, circunscritas

que demonstram aspecto bronzeado e ocorrem no contexto de infecção po

papilomavírus humano (HPV). Existem diversos tipos de verrugas, como:

 

• Verruga vulgar (verrugas comuns): mais comuns na superfície dorsal das

mãos ou na face e exibem hiperceratose, hiperplasia epidérmica e

coilocitose (alteração viral que demonstra núcleo semelhante a uva passa

com halo perinuclear)

• Verrugas plantares: nódulos hiperceratóticos dolorosos na sola dos pés e que

demonstram proliferação epitelial endofítica ou exofítica e inclusões

citoplasmáticas abundantes

• Verruga plana: pequenas pápulas achatadas na face e que revelam

alongamento das cristas epidérmicas (acantose), hipergranulose e coilocitose

• Condiloma acuminado: verrugas genitais que exibem proliferação

epidérmica papilar e coilocitose

 

Ceratose Seborréica

A ceratose seborréica é uma doença de etiologia desconhecida que afeta com

maior freqüência a região do tronco de idosos. Ao exame macroscópico, essas

lesões revelam-se pápulas ou placas elevadas, descamativas, de coloração castanho-bronzeada, com escamas que podem ser facilmente retiradas. À

microscopia, a ceratose seborréica revela hiperceratose e cordões amplos

anastomosados de epitélio escamoso estratificado maduro, freqüentemente

associado a pequenos cistos de queratina. O surgimento de muitas ceratoses

seborréicas foi associado a processos internos (sinal de Leser-Trélat).

 

Ceratoacantoma

O ceratoacantoma desenvolve-se na pele exposta ao sol, freqüentemente nas

mãos ou na face, de indivíduos na meia-idade ou idosos. Essas lesões crescem

rapidamente por um período de 3 a 6 semanas e mostram-se como nódulos cor

da pele com queratina central. Os ceratoacantomas são proliferações papilares

endofíticas de ceratinócitos, com uma cratera central de queratina. A base

dessa cratera é revestida por ceratinócitos vítreos grandes. Em alguns casos

pode haver inflamação ou fibroplasias dérmicas associadas.

 

Pólipo Fibroepitelial

Os pólipos fibroepiteliais, também denominados marcas cutâneas ou

acrocórdons, são lesões comuns que ocorrem em indivíduos na meia-idade a

idosos e freqüentemente afetam a face, o pescoço, tronco ou as regiões

axilares. Ao exame macroscópico, essas lesões são protrusões polipóides co

da pele revestidas por epitélio escamoso benigno e contêm um centro

fibrovascular.

 

Cistos Epiteliais

Ocorrem diversos tipos de cistos epiteliais benignos, como:

 

• Cisto de inclusão epitelial: cisto que ocorre com freqüência na cabeça, no

pescoço e tronco e é revestido por epitélio escamoso estratificado produtor

de queratina sem apêndices associados

• Cisto dermóide: cisto que freqüentemente ocorre na cabeça e ao redor dos

olhos, revestido por epitélio escamoso estratificado produtor de queratina, e

contém apêndices dérmicos associados

• Cisto triquilemal (piloso): ocorre com freqüência no couro cabeludo e é

revestido por epitélio escamoso estratificado sem camada de células

granulares, produzindo uma queratinização abrupta, e seu conteúdo consiste

em “queratina úmida”

Lesões Epidérmicas Pré-malignas e Malignas

Ceratose Actínica

A ceratose actínica é uma proliferação pré-maligna de ceratinócitos que

tipicamente afeta indivíduos de meia-idade a idosos e preferencialmente as

áreas expostas ao sol. Os indivíduos de pele e cabelo claros correm risco maio

dessas lesões. A ceratose actínica manifesta-se como manchas ou placas que

demonstram hiperceratose, paraceratose densa e acentuada atipia epidérmica

mais proeminente nas camadas mais profundas da epiderme. Essas lesões

demonstram risco de transformação para carcinoma escamocelular.

 

Carcinoma Escamocelular

O carcinoma escamocelular (CEC) pode ser causado pela exposição a luz

ultra-violeta, radiação ionizante, carcinógenos químicos, infecção por HPV ou

processos fibrosantes crônicos, como fístulas e queimaduras (quando recebe o

nome de úlcera de Marjolin). O CEC afeta mais comumente indivíduos de

meia-idade a idosos, especialmente aqueles de pele e cabelo claros. Foram

descritas mutações em p53 em uma grande maioria de casos de CEC. Um

número inferior a 2 a 5% dessas lesões já sofreu disseminação metastática até

o momento do diagnóstico.

Ao exame macroscópico, essas lesões variam de aspecto, desde pequenas

pápulas eritematosas e descamativas até grandes lesões ulcerativas. À

microscopia, os tumores mimetizam o aspecto das células do estrato espinhoso

(em lesões bem diferenciadas a moderadamente diferenciadas), e demonstram

invasão da derme. As células tumorais demonstram aumento nuclear

hipercromasia, atividade mitótica variável e, ocasionalmente, invasão

perineural.

 

Carcinoma Basocelular

O carcinoma basocelular (CBC) é um dos processos malignos epidérmicos

mais comuns, e afeta com maior freqüência a pele exposta ao sol de indivíduos

idosos, em especial aqueles com pele clara. O CBC também pode ocorrer

associado à síndrome CBC nevóide, quando os pacientes desenvolvem

múltiplos CBC (freqüentemente na pele que não foi exposta ao sol) junto a

disceratoses das palmas e solas, cistos mandibulares, hipertelorismo e

ocasionalmente, meduloblastoma. Foram descritas mutações em PTCH em

formas hereditárias e esporádicas de CBC.

Ao exame macroscópico, o CBC demonstra um aspecto branco perolado e

nodular com delicados vasos ramificantes (telangiectasias) e pigmentação ou

ulceração central (úlcera corrosiva) ocasional. À microscopia, essas lesões

demonstram ninhos de células basalóides na junção dermo-epidérmica ou na

derme com formação de paliçada periférica e aspecto basofílico geral sob

aumento menor. Essas lesões podem demonstrar aumento da atividade

mitótica e apoptose. Esses tumores raramente dão metástase.

 

Carcinoma de Células de Merkel

O carcinoma de células de Merkel é um tumor agressivo que ocorre com

maior freqüência na cabeça e no pescoço de idosos e deriva de células da

crista neural. Ao exame macroscópico, essas lesões mostram-se nódulos

solitários, em forma de cúpula, e com coloração vermelha a arroxeada. À

microscopia, esses tumores têm um aspecto de células pequenas, com

cromatina granular distribuída ao acaso, figuras mitóticas freqüentes e

fragmentos apoptóticos. O carcinoma de células de Merkel cora-se para os

marcadores neuroendócrinos cromogranina e sinaptofisina.

 

Tumores de Anexos

 

Os tumores de anexos freqüentemente aparecem na época da puberdade e

quase sempre são lesões benignas que se diferenciam em diversos apêndices

cutâneos (embora possam ocorrer variantes malignas). Ao exame

macroscópico, essas lesões são elevações nodulares da pele. O Quadro 24.2

apresenta um resumo dos tumores de anexos.

 

Lesões Fibro-histiocíticas

 

Dermatofibroma

Os dermatofibromas são tumores benignos que ocorrem freqüentemente nos

membros de indivíduos na meia-idade. Ao exame macroscópico, essas lesões

consistem em nódulos em forma de cúpula, firmes e com consistência de

borracha, com bordas mal definidas e superfície de corte branco-amarelada. À

microscopia, essas lesões revelam um infiltrado dérmico de células fusiformes

delicadas (fibroblastos neoplásicos) mescladas a macrófagos, que pode se

misturar com o tecido circunvizinho. Tipicamente, não há atividade mitótica A epiderme sobrejacente encontra-se hiperplásica e com freqüência

hiperpigmentada.

 

Dermatofibrossarcoma Protuberante

O dermatofibrossarcoma protuberante (DFSP) é um tumor de crescimento

lento que freqüentemente surge no tronco de adultos jovens. À microscopia, o

DFSP revela-se uma lesão infiltrativa, mal definida, na derme ou na subcútis

e compõe-se de um arranjo em espirais (semelhante a cata-vento) de células

fusiformes que podem demonstrar atividade mitótica proeminente. Essas

lesões são imunopositivas para CD34, o que ajuda a diferenciá-las de

dermatofibromas. Essas lesões podem recorrer após excisão.

 

Fibroxantoma Atípico

O fibroxantoma atípico é uma lesão em forma de cúpula que ocorre com

freqüência na pele exposta ao sol de indivíduos idosos. Essas lesões

demonstram células fusiformes e epitelióides pleomórficas atípicas, com

figuras mitóticas atípicas ocasionais e células gigantes multinucleadas que

envolvem a derme. A recorrência local após excisão é comum.

 

Micose Fungóide

 

A micose fungóide é um linfoma cutâneo de células T que preferencialmente

afeta a população idosa e demonstra envolvimento cutâneo progressivo. No

início da doença, surgem máculas e placas eritematosas descamativas na

porção baixa do abdome, nas nádegas e na parte superior das coxas. À

microscopia, as lesões caracterizam-se por alterações do epitélio semelhantes a

psoríase. Com o passar do tempo, o aumento da infiltração por linfócitos T

atípicos leva a infiltração epidérmica (epidermotropismo), agregação de

linfócitos atípicos na epiderme (abscessos de Pautrier) e infiltrados dérmicos

nodulares e semelhantes a faixas. O aspecto característico do linfócito atípico

nesse distúrbio é denominado célula de Sézary-Lutzner, que contém um

grande núcleo cerebriforme. O envolvimento sistêmico pela micose fungóide é

denominado síndrome de Sézary.

 

Quadro 24.2

 

Tumores de Anexos Tumor Localização Aspecto Aspecto

Freqüente Macroscópico Microscópico

 

Cilindroma Couro Nódulos Ninhos bem

cabeludo solitários ou circunscritos de

múltiplos células

profundamente

basofílicas

circundadas por

membrana basal

espessada e

hialinizada

 

Siringoma Pálpebra e Pequenas Pequenos ninhos

parte pápulas alongados, em forma

superior da elevadas cor da de vírgula,

bochecha pele constituídos por

epitélio na derme

superior, formando

estruturas

semelhantes a ductos

e que contêm material

eosinofílico;

circundados por

estroma fibrótico

 

Poroma Sola ou Nódulos Amplas lâminas de

laterais dos solitários, com células cuboidais

pés, mãos consistência de monomórficas que se

ou dedos borracha estendem na derme e

podem formar espaços

císticos

 

Tricoepitelioma Face, couro Nódulos Lesão simétrica

cabeludo, solitários ou composta de

pescoço e múltiplos, cor agregados nodulares

porção da pele de células basalóides

que podem

superior do demonstrar

tronco diferenciação folicular

em um estroma

celular.

Freqüentemente há

cistos contendo

queratina

 

Triquilemoma Nariz, Lesões solitárias Proliferação

bochecha e cor da pele circunscrita de células

lábio com citoplasma claro,

superior semelhantes a bainha

da raiz externa de um

folículo piloso,

circundada por

espessa membrana

basal

 

Espiradenoma Tronco e Nódulos Componente sólido

membros solitários, contendo células

freqüentemente grandes e pequenas

dolorosos com linfócitos

mesclados e

componente cístico

que se assemelha a

ductos dilatados

contendo glóbulos de

material semelhante a

membrana basal

 

Sarcoma de Kaposi

 

O sarcoma de Kaposi é um tumor maligno de células endoteliais e surge mais

comumente no contexto de infecção pelo HIV. As lesões do sarcoma de

Kaposi evoluem através dos estágios de mancha, placa e nódulo. À

microscopia, canais vasculares semelhantes a fenda são revestidos por uma

única camada de células endoteliais atípicas. Esses vasos são circundados por fascículos de células fusiformes em um fundo de hemácias extravasadas

deposição de hemossiderina e esparso infiltrado inflamatório de linfócitos e

plasmócitos.

 

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