Fundamentos de patologia
Capítulo 4 | Imunopatologia
Imunopatologia
Sumário do Capítulo
Biologia do Sistema Imunológico
Componentes Celulares
Complexo de Histocompatibilidade Principal (MHC [Major
Histocompatibility Complex])
Moléculas de Histocompatibilidade Classe I e Classe II
Resposta Imunológica
Reações de Hipersensibilidade do Tipo I ou Imediata
Reações de Hipersensibilidade do Tipo II ou Mediadas por Anticorpos Não-
IgE
Reações de Hipersensibilidade do Tipo III ou Mediadas por Imunocomplexos
Reações de Hipersensibilidade do Tipo IV ou Mediadas por Células
Reações Imunológicas Contra Tecidos Transplantados
Reações de Rejeição a Transplante
Doença Enxerto-versus-Hospedeiro (DEVH)
Avaliação do Estado Imunológico
Doenças por Imunodeficiência
Deficiências de Função de Células B
Deficiências de Função de Células T
Doenças por Imunodeficiência Combinada: Imunodeficiência Combinada
Grave (IDCG)
Deficiência de Purina-nucleosídeo Fosforilase
Síndrome de Wiskott-Aldrich
Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS)
Auto-imunidade
Teorias da Auto-imunidade
Lesão Tissular e Doença Auto-imune
Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)
Doenças Lúpus-símiles
Síndrome de Sjögren
Esclerodermia (Esclerose Sistêmica Progressiva)
Polimiosite, Dermatomiosite e Miosite por Corpúsculo de Inclusão (MCI)
Doença Mista do Tecido Conjuntivo (DMTC)
Biologia do Sistema Imunológico
Componentes Celulares
Os componentes celulares do sistema imunológico derivam de células-tronco
hematopoéticas pluripotentes, que se separam em duas linhagens celulares
principais: linfóide e mielóide. As células-tronco linfóides diferenciam-se em
células T, células B e células destruidoras naturais (NK [natural killer])
enquanto a linhagem mielóide diferencia-se em unidades formadoras de
colônia (UFC), que por fim originam neutrófilos e monócitos, eosinófilos
basófilos, megacariócitos, mastócitos e eritrócitos.
Linfócitos Existem três tipos principais de linfócitos: células T, células B e células NK
As células T e as células B são fundamentais para o controle e o
desenvolvimento de respostas imunológicas, e as células NK constituem um
grupo de linfócitos que manifestam a habilidade intrínseca de destruir
determinadas células infectadas por vírus ou células tumorais.
Células T Os progenitores das células T originam-se na medula óssea, mas
migram para o timo, no qual adquirem seus receptores específicos e
marcadores de superfície. As duas classes principais de receptores de células T
são alfa/beta (α/β) e gama/delta (γ/δ). Esses receptores reconhecem
especificamente e ligam-se a diversos antígenos. Os dois receptores estão
associados ao complexo CD3 e, em conjunto, formam o complexo receptor de
células T. As células T com o receptor α/β somam 95% das células T na
circulação e pertencem a um dentre dois subgrupos principais: células T
auxiliares [helper] (T ), expressando o marcador de superfície CD4, ou as H
células T citotóxicas, expressando o marcador de superfície CD8.
• Células TH1: produzem citocinas específicas e desempenham funções
principalmente na ativação de macrófagos. Com freqüência são
denominadas células T CD4 inflamatórias.
• Células T 2 também produzem citocinas específicas e desempenham H
funções principalmente na estimulação da produção de anticorpos pelas
células B.
• Células T citotóxicas CD8: podem destruir outras células e são importantes
na defesa do hospedeiro contra patógenos citosólicos.
Células B
As células B originam-se e amadurecem na medula óssea adulta, na qua
adquirem seu receptor de superfície específico de ligação com antígeno, a
saber, a imunoglobulina de membrana. Esse receptor tem a mesma
especificidade antigênica da imunoglobulina solúvel que será secretada
quando a célula B encontrar seu antígeno específico.
Células NK
Acredita-se que as células NK formem-se e amadureçam tanto no timo
quanto na medula óssea. Reconhecem células-alvo principalmente por meio de
mecanismos independentes de antígeno, embora possam ocasionalmente provocar a lise de células-alvo por meio de citotoxicidade celular anticorpo
dependente (CCAD).
Células Apresentadoras de Antígeno (CAA)
As CAA processam antígeno e, a seguir, o expressam em sua superfície sob
uma forma reconhecível pelas células T. Diversas células apresentam a
capacidade de “apresentar” antígeno a células T. Tipicamente, antígenos
protéicos são degradados intracelularmente até peptídeos, que depois são
transportados para a superfície celular ligados a moléculas do complexo de
histocompatibilidade principal (MHC [major histocompatibility complex]). As
células T podem responder a antígeno quando ele é apresentado dessa
maneira. De fato, receptores de células T reconhecem antígeno apenas se eles
estiverem formando complexos com moléculas de MHC próprias. A esse
fenômeno dá-se o nome de restrição de MHC.
• Principais CAA: macrófagos tissulares, células dendríticas e células B.
• Células dendríticas: células semelhantes a aranhas, encontradas em tecido
linfóide e não-linfóide. As do tecido não-linfóide precisam ser ativadas por
antígeno antes de migrarem para tecido linfóide para o contato com células
T. Exemplo dessas células são as células de Langerhans epidérmicas.
Destino e Recirculação de Linfócitos
Os linfócitos são células móveis. Células T e células B maduras são as únicas
entre os leucócitos que podem circular no sangue, migrar para tecidos e entra
novamente na circulação se não encontrarem seu antígeno cognato. Esse
tráfego de linfócitos permite que pequenas quantidades de linfócitos antígeno
específicos movimentem-se para locais onde seu antígeno específico possa se
encontrado.
Complexo de Histocompatibilidade Principal (MHC [Major
Histocompatibility Complex])
O MHC consiste em um conjunto de genes encontrados em todos os
mamíferos e localizados no cromossomo 6 em seres humanos. Codifica um
conjunto de glicoproteínas da membrana conhecido como antígenos MHC
Esses antígenos também são conhecidos como antígenos leucocitários
humanos (HLA [human leukocyte antigens]), porque foram identificados pela
primeira vez em leucócitos. Os produtos dos genes do MHC são responsáveis principalmente pela rápida rejeição de enxertos entre indivíduos e apresentam
funções importantes na sinalização entre linfócitos e CAA.
Moléculas de Histocompatibilidade Classe I e Classe II
As moléculas de histocompatibilidade de classe I e classe II são codificadas
por genes muito polimórficos em regiões do MHC (Fig. 4.1).
• Moléculas de MHC classe I: presentes em quase todas as células e nas
plaquetas; associam-se a peptídeos gerados no citosol da célula, que são em
geral produtos virais de uma célula infectada por vírus. O complexo
resultante peptídeo-MHC pode ser reconhecido por células T citotóxicas
(CD8) e pode ativá-las, resultando na destruição da célula infectada.
• Moléculas de MHC classe II: em geral presentes apenas em CAA
associam-se a peptídeos gerados a partir de proteínas exógenas, que
subseqüentemente são degradadas em vesículas intracelulares das CAA
Esse complexo peptídeo-MHC resultante pode ser reconhecido pelas células
T auxiliares (CD4) e pode ativá-las.
Para evitar reações de rejeição intensas, é muito importante prever uma boa
compatibilidade para o transplante entre um doador e um receptor. A tipagem
tissular clínica (tipagem HLA) envolve o cruzamento genético dos genes HLA
(MHC) de órgão sólido, medula óssea ou células-tronco de doadores em
potencial com pacientes receptores. Polimorfismos nos genes HLA são
comparados cuidadosamente entre doador e receptor para determinar a
conveniência do transplante.
FIGURA 4.1
Os loci bastante polimórficos que codificam os antígenos do
complexo de histocompatibilidade principal Classe I e Classe II
localizam-se no braço curto do cromossomo 6. (Modificada de Rubin
E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia
Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 128.)
Resposta Imunológica
O primeiro objetivo de uma resposta imunológica consiste em proteger o
corpo contra invasão por material estranho; entretanto, em determinadas
situações, os efeitos protetores podem originar lesão tecidual. Uma resposta
imunológica que resulte em lesão tissular é em geral denominada uma reação
de “hipersensibilidade”. As reações de hipersensibilidade são classificadas de
acordo com o tipo de mecanismo imunológico (Quadro 4.1). As reações de
hipersensibilidade de tipo I, tipo II e tipo III envolvem a formação de um
anticorpo específico contra um antígeno estranho ou um antígeno do próprio
organismo. As reações do tipo IV não exigem a formação de um anticorpo
mas provocam a liberação de agentes lesivos por células que foram ativadas
por antígeno.
Quadro 4.1
Classificação de Gell e Coombs, Modificada, das Reações de
Hipersensibilidade
Tipo Mecanismo Exemplos
Tipo I (tipo Ativação e desgranulação de Febre do feno
anafilático): mastócitos mediadas por (rinite alérgica),
Hipersensibilidade anticorpo IgE asma, urticária,
imediata anafilaxia
Tipo II (tipo Não mediadas por IgE Urticárias físicas
citotóxico): Anticorpos citotóxicos (IgG, Anemias
Anticorpos IgM) formados contra hemolíticas
citotóxicos antígenos de superfície celular; auto-imunes,
complemento geralmente doença de
envolvido Goodpasture
Anticorpos não-citotóxicos Doença de
contra receptores de superfície Graves
celular
Tipo III (tipo Anticorpos (IgG, IgM, IgA) Doenças auto-
imunocomplexo): formados contra antígenos imunes LES,
Doença por exógenos ou endógenos; artrite
imunocomplexos complemento e leucócitos reumatóide),
(neutrófilos, macrófagos) muitos tipos de
freqüentemente envolvidos glomerulonefrite
Tipo IV (tipo Células mononucleares Doença
mediado por (linfócitos T, macrófagos) com granulomatosa
células): produção de interleucina e (tuberculose,
Hipersensibilidade linfocina sarcoidose)
do tipo tardio
De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 130.
Reações de Hipersensibilidade do Tipo I ou Imediata
O mecanismo causal inicial na hipersensibilidade do tipo I consiste na
formação, em indivíduos sensíveis, de anticorpo do tipo IgE em resposta à
exposição a um alérgeno (por exemplo, pólen, fragmentos de pele e pêlo de
animal, ácaros da poeira). As células T 2 medeiam a formação de anticorpos H
IgE que se ligam avidamente a receptores em mastócitos e basófilos. A
exposição subseqüente ao alérgeno desencadeador resulta na ligação do
alérgeno à sua IgE específica, levando à liberação de grânulos de mastócitos e
basófilos contendo mediadores pró-inflamatórios (Fig. 4.2).
Como os grânulos dos basófilos são pré-formados, sua liberação provoca
efeitos biológicos imediatos, daí o termo “hipersensibilidade imediata”
Contudo, leucotrienos C4, D4 e E4, conhecidos como as substâncias de reação
lenta da anafilaxia (SRS-As [slow-reacting substances of anaphylaxis]) são
importantes na segunda fase, tardia, da reação, que pode ter início horas após a
exposição antigênica e pode perdurar dias.
Basófilos e mastócitos podem ser ativados por outros agentes que não
anticorpos (p. ex., determinadas drogas, como a morfina, a melitina do ferrão
da abelha, o contato com um cubo de gelo e a urticária física). Além disso conforme mostrado na Fig. 4.1, anafilatoxinas como C3a e C5a podem
estimular diretamente mastócitos e basófilos. Dentre os constituintes dos
grânulos de mastócitos ou basófilos, a amina biogênica histamina é o efetor
mais importante.
FIGURA 4.2
Em uma reação de hipersensibilidade do tipo I, o alérgeno liga-se ao
anticorpo IgE de superfície citofílico em um mastócito ou um
basófilo e desencadeia a ativação celular e a liberação de uma cascata
de mediadores pró-inflamatórios. Esses mediadores são responsáveis
pela contração da musculatura lisa, pela formação de edema e pelo
recrutamento de eosinófilos. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al
Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams &
Wilkins, 2005, p. 131.)
Reações de Hipersensibilidade do Tipo II ou Mediadas por
Anticorpos Não-IgE
As reações de hipersensibilidade do tipo II (ou tipo citotóxico) são citotóxicas
direta ou indiretamente pela ação de anticorpos (principalmente IgG e IgM) direcionados contra antígenos fixos nas superfícies celulares ou no tecido
conjuntivo. O complemento participa de muitos desses eventos citotóxicos.
• Os produtos do complemento podem provocar diretamente a lise de células
alvo por meio do complexo de ataque à membrana (CAM; ver Cap. 2).
• A ativação do complemento pode indiretamente provocar a destruição da
célula-alvo por meio da formação de componentes de opsonina do
complemento, C3b ou C5b, que cobrem o alvo, desse modo aumentando sua
fagocitose.
• O complemento pode mediar a atração quimiotática de células fagocíticas
que produzem uma grande variedade de produtos lesivos aos tecidos.
• Algumas reações do tipo II não são mediadas por complemento. Células
alvo podem ser destruídas por leucócitos citolíticos ativados por anticorpo
um mecanismo denominado citotoxicidade celular anticorpo
dependente(CCAD).
Algumas reações do tipo II levam ao comprometimento da função, em vez
de destruir as células-alvo. Anticorpos anti-receptor são exemplos desse fato:
• Doença de Graves: anticorpos direcionados contra o receptor do hormônio
tireoestimulante (TSH) sobre células de folículos da tireóide agem como
ligantes, estimulam essas células independentemente de TSH e provocam
hipertireoidismo.
• Miastenia grave: auto-anticorpos ligam-se aos receptores da acetilcolina na
placa terminal neuromuscular, desse modo bloqueando a ligação da
acetilcolina e a estimulação muscular. Esse fenômeno provoca a fraqueza
muscular característica da doença.
Algumas reações do tipo II decorrem da formação de anticorpo contra um
componente estrutural do tecido conjuntivo. Na síndrome de Goodpasture
auto-anticorpo contra colágeno do tipo IV causa lesão da membrana basa
alveolar e da glomerular. O mecanismo envolve a formação de fatores
quimiotáticos do complemento que recrutam células inflamatórias que lesam
tecido (Fig. 4.3).
FIGURA 4.3
Em uma reação de hipersensibilidade do tipo II, o anticorpo liga-se
ao antígeno de superfície, ativa o sistema complemento e provoca o
recrutamento de células inflamatórias lesivas ao tecido. Diversos
peptídeos derivados do complemento (p. ex., C5a) são fatores
quimiotáticos potentes. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al
Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams &
Wilkins, 2005, p. 135.)
Reações de Hipersensibilidade do Tipo III ou Mediadas por
Imunocomplexos
Os complexos antígeno-anticorpo formados na circulação e depositados nos
tecidos, ou formados nos próprios tecidos, são os mediadores da lesão nas
reações do tipo III. Os imunocomplexos ativam complemento; essa ativação
leva ao recrutamento e à ativação de neutrófilos e monócitos, que liberam
mediadores inflamatórios lesivos. Imunocomplexos foram arrolados na
patogenia de muitas doenças humanas.
• Lúpus eritematoso sistêmico (LES): depósitos de anti-DNA de duplo
filamento encontrados em lesões vasculíticas
• Vasculite crioglobulinêmica: associada à infecção da hepatite C
• Púrpura de Henoch-Schönlein: depósitos de IgA encontrados em locais de
vasculite
• Artrite reumatóide
• Variedades de glomerulonefrite Reações de Rejeição a Transplante
• Doença do soro: causada pela injeção de uma proteína estranha e
caracterizada por febre, artralgias, vasculite e glomerulonefrite aguda
• Reação de Arthus: um modelo experimental de vasculite no qual uma lesão
localizada é induzida por imunocomplexos.
Reações de Hipersensibilidade do Tipo IV ou Mediadas por
Células
Em oposição a outras reações de hipersensibilidade, as reações do tipo IV não
são mediadas por anticorpos. Em vez disso, antígenos são processados por
macrófagos e apresentados a células T antígeno-específicas. As células T
ativadas a seguir liberam diversos mediadores que ativam células T adicionais
além de macrófagos e fibroblastos. A lesão tissular resultante é causada por
células T e macrófagos. Existem duas classes principais de reações de
hipersensibilidade do tipo IV.
Hipersensibilidade Tardia
Esse tipo de hipersensibilidade alcança um pico em 24 a 48 horas e pode se
resumido da seguinte forma:
• Antígenos protéicos estranhos são degradados até peptídeos por uma CAA
(em geral um macrófago) e são apresentados na superfície da célula junto
com HLA classe II.
• Células T CD4+ com receptores para o complexo peptídeo-HLA são
ativadas e secretam citocinas, como IL-2, IFN-γ e TNF-α.
• Citocinas recrutam e ativam linfócitos, monócitos e outras células
inflamatórias, resultando em lesão tissular.
• A eliminação do estímulo antigênico tem como conseqüência a resolução.
• A persistência do estímulo pode acarretar reação granulomatosa.
Citotoxicidade por Células T
As células T CD8+ citotóxicas podem destruir células infectadas por vírus e
células tumorais e participam da rejeição a transplante. Esse processo pode ser
resumido da seguinte forma:
• No caso de células infectadas por vírus ou células tumorais, células T CD8
citotóxicas são ativadas por antígeno estranho/HLA classe I (sel
[próprios]).
• Na rejeição a transplante, HLA estranhos sobre o transplante constituem
ativadores potentes de células T CD8+ citotóxicas.
• Nos dois casos, as células T citotóxicas destroem o alvo (Fig. 4.4).
FIGURA 4.4
Destruição da célula-alvo. Uma célula Tk ativada liga-se à célula-alvo
e libera perforina (e outros compostos líticos). A membrana da
célula-alvo perde a integridade, e a célula-alvo sofre lise. (Modificada
de Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed
Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 139.)
Reações Imunológicas Contra Tecidos Transplantados
O transplante de um órgão ou tecido quase sempre estimula uma resposta
imunológica contra o transplante. Os antígenos codificados pelo MHC são
críticos na estimulação da rejeição a transplante. Quanto maior a diferença do
MHC, mais rápida e grave a rejeição; por conseguinte, a “tipagem tissular” é
realizada antes do transplante, numa tentativa de equivaler o máximo possíve
os antígenos MHC do doador e do receptor.
Existem três categorias de reação de rejeição a transplante.
• A rejeição hiperaguda ocorre em minutos a horas após o transplante, e se
caracteriza por uma interrupção súbita da função, com congestão vascular
trombos, edema e infiltração neutrofílica. Exige a remoção cirúrgica
imediata do transplante.
• A rejeição aguda ocorre nas primeiras semanas ou primeiros meses após o
transplante e caracteriza-se por infiltrados de linfócitos e macrófagos
edema e, em casos graves, vasculite. Se detectada em seus estágios iniciais
a rejeição aguda pode ser revertida com terapia imunossupressora.
• A rejeição crônica ocorre meses a anos após o transplante e caracteriza-se
por fibrose, infiltrados irregulares de células mononucleares e paredes
vasculares espessadas. Lesão intensa do transplante decorre de episódios
repetidos de rejeição, e não responde bem a tratamento.
Doença Enxerto-versus-Hospedeiro (DEVH)
O transplante de células da medula óssea ou de células-tronco de um doado
para um paciente imunodeficiente, ou cujo sistema imune tenha sido destruído
por quimioterapia, pode resultar na complicação denominada doença enxerto
versus-hospedeiro. Nas reações de rejeição a tecido ou órgão transplantado, a
rejeição ocorre porque o sistema imunológico do receptor ataca o tecido ou
órgão estranho do doador. Nos transplantes de medula óssea ou de células-
tronco, as células transplantadas do doador atacam o sistema imunológico
“estranho” do receptor (ou seja, o enxerto ataca o hospedeiro), e sucede
DEVH. A DEVH pode ser aguda, desenvolvendo-se nos primeiros três meses
e caracterizada por erupções cutâneas, náusea e diarréia, ou pode tornar-se
crônica, afetando as glândulas mucosas da pele, estômago e intestinos. O
tratamento da DEVH exige terapia imunossupressora.
Avaliação do Estado Imunológico
Se houver suspeita de um distúrbio imunológico, muitos testes podem ser
realizados para medir a função imune:
• A determinação eletroforética dos níveis de imunoglobulina pode detecta
deficiências de imunoglobulinas IgM, IgG ou IgA.
• Provas sorológicas para anticorpos contra antígenos específicos podem
detectar deficiências específicas no sistema de células B, embora os níveis
de células B estejam normais.
• Determinações de função de células T
►Prova cutânea para hipersensibilidade tardia a antígenos comuns
►Respostas proliferativas de células T a estímulos mitogênicos
• Citometria de fluxo para quantificar células B e células T no sangue
periférico
Doenças por Imunodeficiência
Deficiências de Função de Células B
Agamaglobulinemia de Bruton Ligada ao X
• Pessoas acometidas: lactentes do sexo masculino com 5 a 8 meses de idade
• Defeito genético: no cromossomo X; uma mutação inativadora no gene para
tirosina quinase de células B, uma enzima crítica para o amadurecimento de
células B
• Características: infecções bacterianas recorrentes devido a uma ausência de
células B circulantes maduras e plasmócitos nos tecidos, além de níveis
muito baixos de todos os tipos de imunoglobulina.
Deficiência Seletiva de IgA
• Pessoas acometidas: relativamente comum em brancos caucasianos (1/700)
• Características: incapacidade de secretar determinadas subclasses de IgA
►Os pacientes podem ser assintomáticos ou podem manifestar infecções
respiratórias ou gastrointestinais (GI)
►Os pacientes exibem uma forte tendência a alergias
Imunodeficiência Variável Comum (IDVC)
A IDVC consiste em um grupo heterogêneo de distúrbios.
• Pessoas acometidas: os dois sexos, com média de idade de início de 30 anos
• Características: níveis baixos de gamaglobulina, infecções recorrentes e
incidência alta de doença maligna, em especial câncer do estômago.
Hipogamaglobulinemia Transitória do Lactente A IDCG é parte de um grupo heterogêneo de doenças que refletem distúrbios
• maternos protegem os neonatos, mas alcançam um valor mínimo com cerca Características: síntese tardia de imunoglobulina pelos lactentes. Anticorpos
de 3 meses. Devido a essa escassez de anticorpos, alguns lactentes
desenvolvem infecções recorrentes
• Manifestações clínicas: o distúrbio em geral corrige-se sem tratamento
porque os lactentes acabam por produzir seus próprios anticorpos
Síndrome de Hiper-IgM
• Patogenia: grupos de anomalias da produção de imunoglobulinas das quais
70% são ligadas ao X. A forma ligada ao X mais comum da doença decorre
de uma falência em expressar CD40, um ligante necessário para a
estimulação de isotipos de células B; por conseguinte, células B em
processo de amadurecimento não conseguem mudar de classe a partir dos
isotipos mais imaturos IgD/IgM para IgG e IgA.
• Manifestações clínicas: lactentes com a forma ligada ao X correm risco
maior de infecção e tendência maior a desenvolverem anemia hemolítica
auto-imune, púrpura trombocitopênica e neutropenia recorrente. Os níveis
séricos de IgM são altos, enquanto os de IgG e IgA são baixos.
Deficiências de Função de Células T
Síndrome de DiGeorge
• Causa: desenvolvimento embriológico anômalo da terceira e quarta bolsas
faríngeas que originam o timo e as glândulas paratireóides
• Características: anomalias cardíacas, hipocalcemia (devido a
hipoparatireoidismo, timo pequeno ou ausente e amadurecimento defeituoso
de células T. Ocorre falta de imunidade celular (contra bactérias e vírus
intracelulares). Pode ser tratada com transplante de timo.
Candidíase Mucocutânea Crônica
Esse tipo de candidíase decorre de um defeito congênito na função de células
T e caracteriza-se por suscetibilidade a infecções por Candida. A causa precisa
do defeito é desconhecida. Está associada a hipoparatireoidismo, doença de
Addison e diabetes melito.
Doenças por Imunodeficiência Combinada: Imunodeficiência
Combinada Grave (IDCG)
da função tanto de células B quanto de células T. Ocorre na forma ligada ao X
e na forma autossômica recessiva.
• Forma ligada ao X: o defeito mais comum deve-se a uma mutação da
subunidade da cadeia γ do receptor de IL-2. Essa mesma subunidade
também é parte de receptores para outras citocinas importantes no
desenvolvimento de células T e células B.
• Forma autossômica recessiva: o defeito deve-se a uma mutação no gene que
codifica uma proteína que se associa à mesma subunidade da cadeia γ. As
duas mutações provocam defeitos no desenvolvimento de células T e células
B.
A IDCG caracteriza-se por níveis baixos de imunoglobulinas e infecções
recorrentes por vírus, bactérias, fungos e protozoários. O timo é pequeno ou
inexistente, e o número de linfócitos sangüíneos é baixo.
A Deficiência de Adenosina Desaminase (ADA) é uma forma autossômica
recessiva de IDCG provocada por mutações no gene que codifica a enzima
adenosina desaminase. Quando a enzima é defeituosa ou ausente ocorre o
acúmulo de metabólitos tóxicos para células T e células B.
Deficiência de Purina-nucleosídeo Fosforilase
Síndrome rara de imunodeficiência em que o número de células T é muito
baixo, mas o número de células B bem como suas funções não são alterados.
Síndrome de Wiskott-Aldrich
Essa rara síndrome de imunodeficiência recessiva ligada ao X é provocada por
muitas mutações diferentes em um gene que codifica uma proteína, a WASP
(Wiskott-Aldrich syndrome protein [proteína da síndrome de Wiskott
Aldrich]), expressa em níveis muito altos em linfócitos e megacariócitos
Liga-se a uma família de enzimas que controlam inúmeros processos
celulares.
A síndrome de Wiskott-Aldrich caracteriza-se por eczema, plaquetopenia
níveis baixos de IgM com infecções recorrentes (em especial por
Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae) e deficiências seletivas
na imunidade celular. O transplante de medula óssea pode curar o distúrbio.
Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS)
O vírus da imunodeficiência humana (HIV) provoca a AIDS. Existem dois
tipos: HIV-1 e HIV-2. A maioria dos pacientes nos Estados Unidos e na
Europa encontra-se infectada pelo HIV-1. O HIV-2 está intimamente
relacionado e é endêmico na África Ocidental. A lesão fundamental é a
infecção de células T CD4+ auxiliares pelo HIV, levando à depleção dessa
população celular com a decorrente supressão da imunidade celular e a
humoral. Outras células-alvo do vírus da AIDS (macrófagos, células
dendríticas, células de Langerhans cutâneas e neuroglia) expressam CD4 em
sua superfície. Essas células podem funcionar como depósitos do vírus.
Transmissão
A transmissão ocorre principalmente dos seguintes modos:
• Relação sexual: tanto homossexual quanto heterossexual (a transmissão
heterossexual ocorre principalmente do homem para a mulher, e não da
mulher para o homem)
• Uso de drogas intravenosas
• Transfusão de sangue ou hemoderivados infectados pelo HIV
• Transmissão do HIV de mãe infectada para o lactente
Patogenia
O HIV é um retrovírus com envelope e que contém uma transcriptase reversa
e dois filamentos idênticos de RNA. Duas glicoproteínas virais no envelope
externo, a gp120 e a gp41, são fundamentais na entrada do nucleocapsídio
(partícula viral descoberta) na célula T CD4. A gp120 liga-se à molécula CD4
na membrana das células T, permitindo que a gp41 se insira na membrana
desse modo promovendo a internalização do vírus.
A entrada do HIV-1 na célula-alvo exige a ligação viral a um co-receptor, o
receptor de β-quimiocina 5 (CCR-5). Se o receptor de quimiocina dessa
célula-alvo estiver defeituoso, o vírus não consegue penetrar. É interessante
notar que cerca de 1% dos indivíduos brancos é homozigótico para as
principais deleções no gene CCR-5 e permanecem não infectados pelo HIV
mesmo com contato extenso com o HIV. Até mesmo a heterozigosidade para o
alelo mutante CCR-5 proporciona proteção parcial contra a infecção pelo HIV.
No interior da célula, a transcriptase reversa viral copia o RNA viral no
DNA de duplo filamento, que é transportado para o interior do núcleo e
integrado ao DNA cromossômico da célula T. Esse DNA viral integrado (pró vírus) é transcrito pela célula T, gerando RNA viral genômico e moléculas de
mRNA. O maquinário das células T traduz os mRNA para glicoproteínas e
proteínas de nucleocapsídeos virais. A seguir, os virions progênie são
organizados e brotam da membrana plasmática da célula infectada sob a forma
de vírus livres, ou infectam uma outra célula por meio de um evento de fusão
desse modo disseminando o vírus (Fig. 4.5).
FIGURA 4.5
Disseminação viral para outras células-alvo. Para completar o ciclo
de vida, o vírus precisa se disseminar para outras células e infectá-
las. Para esse fim, ocorre fusão de uma célula infectada com uma
célula não infectada (vista à esquerda) ou o brotamento e a liberação
de vírus livre da membrana plasmática da célula infectada (vista à
direita). (Modificada de Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s
Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005
p. 149.)
Resposta Imunológica
Células T CD4 auxiliares atuam de modo importante tanto na capacitação de
produção de anticorpos por células B quanto na ativação de células citotóxicas
e imunidade celular. Desse modo, na AIDS, as células T CD4 são destruídas, e
o sistema imune torna-se gravemente deficiente.
Embora a produção de anticorpos em resposta a antígenos específicos esteja
reduzida, existe um aumento da produção de anticorpos inespecíficos
possivelmente causada por infecções associadas a vírus ativadores de células B policlonais, como o vírus Epstein-Barr. As células T citotóxicas que
normalmente eliminariam células B infectadas pelo vírus Epstein-Bar
encontram-se acentuadamente reduzidas em número na AIDS.
A atividade de células NK encontra-se intensamente diminuída, e como
essas células NK destroem células infectadas por vírus e células tumorais, esse
defeito pode contribuir para o aparecimento de tumores e infecções virais que
assolam os pacientes com AIDS.
Alguns macrófagos exibem CD4 de superfície e podem estar infectados pelo
HIV. Em oposição a células T, os macrófagos não são destruídos pelo vírus
mas desenvolvem comprometimento da fagocitose e das respostas de
quimiotaxia.
Os defeitos na função de células T manifestam-se por respostas defeituosas
no teste cutâneo (diminuição da hipersensibilidade tardia) e pelo
comprometimento da resposta proliferativa a mitógenos e antígenos.
Patologia e Manifestações Clínicas
Uma pequena fração de indivíduos da raça branca permanece não infectada
pelo HIV mesmo após contato prolongado. Essa resistência foi atribuída a
deleções no gene receptor de quimiocina CCR-5, que funciona como um co
receptor (além do CD4) para a entrada do HIV na célula. Quando esse recepto
encontra-se defeituoso, o vírus não consegue entrar.
Quando ocorre infecção em indivíduos suscetíveis, ela pode ser dividida em
três fases:
• Síndrome inicial aguda: ocorre 2 a 3 semanas após o contato; sintomas
como febre, mialgia, linfadenopatia e erupção cutânea correlacionam-se
com a viremia; os sintomas iniciais podem sofrer resolução, dependendo da
carga viral e da efetividade da atividade antiviral das células T citotóxicas
ocorre soroconversão (anticorpos antivirais) 1 a 10 semanas após o início.
• Fase crônica latente: pode perdurar anos; pode haver linfadenopatia
generalizada persistente; a replicação viral se mantém em nível baixo; os
indivíduos podem transmitir o vírus embora possam estar assintomáticos
declínio gradual nas contagens de células T CD4; à medida que essa fase
aproxima-se da fase terminal, o CD4 declina a níveis inferiores a 400/mm2.
• Fase grave terminal (AIDS franca): associada a contagens de CD4 inferiores
a 200/mm2; a fase é iniciada pela ativação de células T mediada por diversos
agentes infecciosos; a destruição do sistema imunológico caracteriza-se por
infecções oportunistas e complicações neoplásicas da AIDS (Fig. 4.6).
FIGURA 4.6
A destruição do sistema imunológico celular mediada por HIV-1
provoca a AIDS. As complicações infecciosas e neoplásicas da AIDS
podem afetar praticamente qualquer sistema orgânico. (De Rubin E
Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia
Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 152.)
Tratamento
Muitos objetivos da terapia contra o HIV envolvem tentativas de eliminar ou
inibir proteínas necessárias para a replicação do vírus, como a transcriptase
reversa do HIV e a protease do HIV. Quimioterapias associadas para inibir o
HIV são denominadas em conjunto HAART ([highly active antiretrovira
therapy] terapia anti-retroviral intensamente ativa), e seu uso diminuiu muito a
mortalidade relacionada com a AIDS. Infelizmente, a alta taxa de mutação do
HIV gera mutações insensíveis a HAART. Os tipos de quimioterapia
atualmente existentes não erradicam o vírus do organismo, e mesmo se eliminassem as células positivas para o HIV do sangue, a interrupção
temporária do tratamento permitiria a reativação do HIV de reservatórios fora
da circulação.
Auto-imunidade
A tolerância imunológica é definida como a falência de responder a um
antígeno. Normalmente, o sistema imunológico é tolerante a auto-antígenos
Células B e células T tornam-se tolerantes a auto-antígenos principalmente
durante seu desenvolvimento e amadurecimento. Quando a tolerância é
perdida, o sistema imunológico pode destruir tecidos próprios, e ocorre o
desenvolvimento de doença auto-imune.
Teorias da Auto-imunidade
• Antígenos que normalmente não são acessíveis (p. ex., tecido do cristalino
espermatozóides, mielina) podem ser expostos ou liberados após lesão e
reconhecidos como estranhos.
• O funcionamento anormal das células T pode provocar auto-imunidade
porque a maioria das respostas a antígeno exige a participação de células T e
sua ativação.
• Mimetismo molecular: um antígeno bacteriano pode conter um epítope
semelhante a algum outro epítope sobre uma proteína do corpo, de modo
que os anticorpos formados contra a bactéria reagem de modo cruzado com
o antígeno do próprio corpo (p. ex., na cardiopatia reumática, anticorpos
contra bactérias estreptocócicas reagem de modo cruzado com antígenos da
musculatura cardíaca, provocando lesão cardíaca).
• Ativação de linfócitos policlonais: agentes policlonais, como LPS ou
“superantígenos” bacterianos podem provocar a proliferação de células B ou
células T sem estimulação antigênica específica. Uma determinada progênie
resultante dessas células pode ser auto-reativa.
Lesão Tissular e Doença Auto-imune
Existem dois tipos de doença auto-imune: órgão-específica e sistêmica. As
partes importantes do sistema imunológico na etiologia da doença auto-imune
e a lesão tecidual podem variar. Por exemplo, no lúpus eritematoso sistêmico
(LES), acredita-se que auto-anticorpos atuem de modo dominante, enquanto
em outras doenças, como o diabetes melito insulino-dependente (DMID, ou diabetes tipo 1), acredita-se que as células T tenham efeito principalmente
destruidor. A maior parte das respostas imunológicas usa o sistema
imunológico integrado, e mais de um efetor imune pode estar envolvido na
etiologia da patogenia e da lesão tecidual.
Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)
O LES é uma doença inflamatória auto-imune sistêmica crônica que
caracteristicamente acomete rins, articulações, membranas serosas e pele
Oitenta por cento dos pacientes são mulheres em idade reprodutiva. São
formados auto-anticorpos contra diversos auto-antígenos, mas os auto
anticorpos diagnósticos mais importantes são:
• anticorpos antinucleares (ANA)
• anticorpos contra DNA de duplo filamento
• anticorpos contra um antígeno nuclear solúvel denominado antígeno Sm
(Smith)
Patogenia
O LES é considerado o protótipo das reações de hipersensibilidade do tipo II
porque complexos antígeno-anticorpo são depositados em tecidos, provocando
a vasculite, a sinovite e a glomerulonefrite características.
Diversos fatores predispõem ao desenvolvimento de LES (Fig. 4.7). Além
disso, existe alguma predisposição genética para o LES. O haplótipo HLA-B8
é encontrado com freqüência em pacientes com LES. Está associado a
distúrbios imuno-reguladores, como a deficiência de certos componentes do
complemento e com hiper-reatividade de células B direcionadas por antígeno
Como as células T auxiliares CD4+ estão intimamente envolvidas na ativação
de células B, também é provável um defeito no funcionamento dessa
população celular.
FIGURA 4.7
A patogenia do lúpus eritematoso sistêmico é multifatorial. (De
Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed
Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 155.)
Patologia e Manifestações Clínicas
• Pele: É comum um exantema eritematoso malar em forma de “borboleta”
À microscopia, existe degeneração de células basais. Os estudos de
imunofluorescência revelam a deposição de imunoglobulina e complemento
na junção dermoepidérmica (faixa lúpica).
• Articulações: Manifestação mais comum do LES. Mais de 90% dos
pacientes apresentam poliartralgia. Ocorre sinovite inflamatória sem
destruição da articulação.
• Rins: A doença renal acomete 75% dos pacientes, em especial sob a forma
de glomerulonefrite. Existem quatro tipos histológicos principais:
1.Nefrite lúpica mesangial: apenas um leve aumento de células mesangiais e
matriz; imunocomplexos e complemento são encontrados em regiões do
mesângio; proteinúria e hematúria leves; o prognóstico é excelente
2.Nefrite proliferativa focal: aumento da celularidade em partes de alguns
glomérulos com proliferação de células endoteliais e mesangiais, e
infiltração de neutrófilos e monócitos; pode haver necrose e depósitos de
fibrina; o prognóstico é variado
3.Nefrite lúpica proliferativa difusa: tipo mais grave de doença renal
ocorrendo em aproximadamente 50% dos pacientes com envolvimento
renal clínico; aumento da celularidade, com deposição de fibrina e necrose
depósitos de imunocomplexos no subendotélio e no mesângio; pode evolui
para insuficiência renal
4.Nefrite lúpica membranosa: associada a proteinúria maciça e síndrome
nefrótica, mas com hipercelularidade mínima; a deposição de
imunoglobulinas e complemento na superfície subepitelial do capilar
glomerular provoca o espessamento difuso de alças capilares
• Distúrbios Respiratórios: Possibilidade de pneumonite e pleurite; pode
haver o desenvolvimento de fibrose intersticial progressiva em alguns
pacientes.
• Envolvimento Cardíaco: Pode ser encontrada pericardite, embora a
insuficiência cardíaca seja rara.
• Sistema Nervoso Central: Vasculite pode provocar hemorragia e infarto do
cérebro.
• Outras Alterações: A presença de anticorpos antifosfolipídios pode
predispor os pacientes com LES a complicações tromboembólicas como
derrame, embolia pulmonar e trombose venosa profunda e de veia porta.
Evolução Clínica
A evolução clínica do LES é muito variável e, como muitas doenças auto
imunes, apresenta exacerbações e remissões. Antes do advento de corticosteróides e outras terapias imunossupressoras, freqüentemente o LES
era uma doença fatal. No momento, a sobrevida geral em 10 anos alcança
90%.
Doenças Lúpus-símiles
Lúpus Fármaco-induzido
A doença pode suceder a administração de fármacos como a procainamida
(arritmias), hidralazina (hipertensão) e isoniazida (tuberculose). As
manifestações podem variar desde resultado do teste para ANA positivo com o
paciente assintomático até sintomas mais semelhantes aos do lúpus. São
encontrados auto-anticorpos contra histonas, mas não contra DNA de duplo
filamento ou contra antígeno Sm. Em geral, a suspensão do fármaco
desencadeador é curativa.
Lúpus Discóide Crônico
Nessa doença cutânea, são encontradas placas eritematosas mais comumente
na face e no couro cabeludo; existe deposição de imunoglobulinas e
complemento na interface dermoepidérmica. Até 10% dos pacientes acabam
manifestando outras características do LES.
Lúpus Cutâneo Subagudo
A doença é agravada pela exposição à luz solar e caracteriza-se por lesões
papulares e anulares no tronco. São característicos anticorpos contra um
complexo de ribonucleoproteínas.
Síndrome de Sjögren
A síndrome de Sjögren (SS) é uma doença auto-imune caracterizada po
ceratoconjuntivite seca (olhos ressecados) e xerostomia (boca seca). Os alvos
são as glândulas salivares e lacrimais. A SS é o segundo distúrbio de tecido
conjuntivo mais comum depois do LES e acomete 3% da população, com
maior freqüência mulheres, de 30 a 65 anos de idade. A SS está associada a
um risco 40 vezes maior de linfoma maligno.
Patogenia
• A SS primária ocorre isoladamente, enquanto a SS secundária pode ocorrer
associada a outras doenças auto-imunes, como artrite reumatóide ou LES.
• prevalência alta de outras doenças auto-imunes. Ocorrem casos dentro de famílias, com as famílias acometidas apresentando
• 50% dos pacientes apresentam auto-anticorpos contra proteínas nucleares
solúveis do tipo não-histona.
• O EBV (vírus Epstein-Barr) e o HTLV-1 (vírus da leucemia de células T
humana 1) talvez participem da possível etiologia viral da SS.
Manifestações Clínicas
• Observa-se infiltrado linfocítico intenso (principalmente com células T
CD4) nas glândulas salivares e lacrimais, principalmente ao redor dos
ductos. Os sintomas geralmente decorrem da ausência de saliva (atrofia
inflamação, fissuras da mucosa oral) e da ausência de lágrimas (córnea
ressecada, com fissuras ou ulcerada).
• Glândulas submucosas nos brônquios, no esôfago e no trato GI também
podem estar acometidas, além dos ductos biliares intra-hepáticos e dos
túbulos renais.
Esclerodermia (Esclerose Sistêmica Progressiva)
A esclerodermia é uma doença auto-imune caracterizada pela excessiva
deposição de colágeno e vasculopatia na pele e em órgãos internos, como o
trato gastrointestinal, o coração, o pulmão e os rins. Ocorre com freqüência
quatro vezes maior em mulheres em relação aos homens, principalmente na
faixa etária entre 25 e 50 anos. A esclerodermia manifesta-se como (a) forma
progressiva generalizada e (b) variante cutânea difusa ou CREST (calcinose
fenômeno de Raynaud, disfunção esofágica, esclerodactilia e telangiectasia)
A forma progressiva de esclerodermia inclui todos os sintomas da CREST
mas é mais grave, em geral começando com o fenômeno de Raynaud
(episódios intermitentes de isquemia dos dedos, marcada por palidez
parestesias e dor). Com freqüência, é sucedida por hipomotilidade esofágica e
disfagia. O espectro de anticorpos da doença é marcado por (a) anticorpos
anti-Scl-70, uma topoisomerase (em 30% dos pacientes); (b) anticorpos contra
RNA polimerase e (c) anticorpos anticentrômero, associados à síndrome
CREST. Outras manifestações clínicas incluem:
• O retesamento da pele facial leva à “fácies impassível” típica dos pacientes
acometidos.
• Ocorre fibrose pulmonar intersticial com dispnéia em 50% dos pacientes.
• O envolvimento vascular dos rins pode provocar hipertensão maligna.
Polimiosite, Dermatomiosite e Miosite por Corpúsculo de
Inclusão (MCI)
Essas doenças constituem um grupo de raras patologias auto-imunes do
músculo que ocorrem em crianças e adultos.
• Polimiosite e MCI: o dano muscular é mediado por células T CD8 ativadas
e macrófagos
• Polimiosite e dermatomiosite: são encontrados anticorpos miosite-
específicos (MSA [myositis-specific antibodies]
• Dermatomiosite: a deposição de imunocomplexos e complemento provoca
microangiopatia com redução do número de capilares nas fibras musculares
O envolvimento cutâneo pode se manifestar por exantema facial. A
freqüência de câncer é muitas vezes mais elevada do que na população geral.
Doença Mista do Tecido Conjuntivo (DMTC)
A DMTC associa aspectos de LES, esclerodermia e dermatomiosite. Existem
controvérsias quanto a DMTC ser verdadeiramente uma entidade mórbida
distinta ou ser simplesmente uma sobreposição de sintomas nos pacientes com
outros tipos de vasculopatias do colágeno. Entre 80% e 90% dos pacientes são
mulheres adultas. Os pacientes apresentam títulos altos de um anticorpo contra
uma proteína ribonuclear. Os sintomas podem incluir os do LES (erupção
cutânea, fenômeno de Raynaud, artrite e artralgias) e os da esclerodermia
(mãos inchadas, hipomotilidade esofágica e doença intersticial pulmonar).
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