Fundamentos de patologia

Donna E. Hansel · Capítulo 5 de 28

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Fundamentos de patologia

Capítulo 5 | Neoplasia

Neoplasia

 

 

Sumário do Capítulo

Epidemiologia do Câncer

Tumores Benignos versus Malignos

Tumores Benignos

Tumores Malignos

Diagnóstico Histológico de Processos Malignos

Tumores Benignos

Tumores Malignos

Invasão e Metástase

Crescimento Localizado: Carcinoma in Situ

Metástase

Eventos Escalonados na Invasão e na Metástase

Graduação e Estadiamento de Cânceres

Graduação

Estadiamento

Origem do Câncer

Origem Clonal

Câncer como Processo Alterado de Diferenciação

Crescimento do Câncer

Genética Molecular do Câncer

Oncogenes, Proto-oncogenes e Câncer

Gene e Nomenclatura de Produtos Genéticos

Mecanismos de Ativação de Oncogenes Celulares

Mecanismos de Ação de Oncogenes

Genes Supressores de Tumor

Fatores Epigenéticos no Câncer

Genes de Reparação de DNA e Câncer

Telomerase

Vírus e Câncer Humano

Retrovírus RNA

Vírus DNA

Carcinogênese Química

Patogenia

Exames de Triagem

Carcinógenos Químicos Humanos

Carcinogênese Física

Radiação Ultravioleta (UV)

Asbesto e Mesotelioma

Imunologia Tumoral

Mecanismos de Citotoxicidade Imunológica

Evasão da Citotoxicidade Imunológica

Efeitos Sistêmicos do Câncer Sobre o Hospedeiro

 

Epidemiologia do Câncer O câncer soma um quinto do índice total de mortalidade nos Estados Unidos e

é a segunda principal causa de morte depois de doenças cardiovasculares e

acidente vascular cerebral. De modo geral, após décadas de aumentos

constantes, a taxa de mortalidade, ajustada para a idade, relacionada com todos

os cânceres alcançou um patamar. Os tipos de tumor mais comuns em homens

e mulheres nos Estados Unidos estão relacionados no Quadro 5.1. Diferenças

geográficas e étnicas em populações por todo o mundo influenciam a

incidência do câncer, conforme demonstrado no Quadro 5.2.

 

Quadro 5.1

 

Tipos Tumorais mais Comuns em Homens e Mulheres

 

Tipo Tumoral %

 

Homens

 

Próstata 33

 

Pulmão e brônquio 14

 

Cólon e reto 11

 

Bexiga 6

 

Melanoma 4

 

Linfoma não-Hodgkin 4

 

Rim 3

 

Cavidade oral 3

 

Leucemia 3

 

Pâncreas 2

 

Todo os outros locais 17

 

Mulheres

 

Mama 32

 

Pulmão e brônquio 12

Cólon e reto 11

 

Corpo uterino 6

 

Ovário 4

 

Linfoma não-Hodgkin 4

 

Melanoma 3

 

Tireóide 3

 

Pâncreas 2

 

Bexiga 2

 

Todos os outros locais 20

De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 210.

 

Quadro 5.2

 

Diferenças Geográficas e Étnicas na Incidência de Câncer

 

Ocorrência Baixa ou

Câncer Ocorrência mais Elevada Rara

 

Nasofaríngeo Regiões da China, Hong Outras regiões do

Kong e Singapura mundo

 

Esôfago Cinturão da Turquia até o Mulheres mórmons em

leste da China Utah

 

Estômago Japão, Chile

 

Colorretal Estados Unidos Japão, Índia, África

 

Fígado Regiões onde as hepatites B

e C são endêmicas

 

Pele Norte da Austrália, sudoeste Japão, China, Índia

dos Estados Unidos

 

Mama Estados Unidos, Europa África, Ásia Cérvice Latinos no Texas Judeus Asquenase de

Israel

 

Coriocarcinoma Litoral pacífico da Ásia

 

Próstata Afro-norte-americanos Japão

 

Testículo Negros africanos

 

Pênis Partes da África e Ásia Homens circuncisados

de qualquer raça

 

Linfoma de África Europa e América

Burkitt

 

Mieloma Afro-norte-americanos Brancos norte-

múltiplo americanos

 

Leucemia Idosos europeus e norte- Japão

linfocítica americanos

crônica

 

Tumores Benignos versus Malignos

 

Tumores Benignos

Os tumores benignos não penetram as bordas do tecido adjacente nem se

disseminam para sítios distantes. O sufixo “oma” para tumores benignos é

precedido pela referência à célula ou ao tecido de origem. Exemplos de

tumores benignos incluem:

 

• Epitelioma: Tumor benigno do epitélio escamoso

• Papiloma: Uma neoplasia que cresce para fora a partir do epitélio

• Adenoma: Tumor benigno com origem em epitélio glandular

• Pólipo: Massa de tecido que se projeta de uma superfície

• Teratoma: Origina-se nas três camadas de células germinativas; pode conte

diversas estruturas; ocorre principalmente nas gônadas, e pode ser benigno

ou maligno. Não penetra as bordas do tecido adjacente.

• Hamartoma: Representação desorganizada de componentes tissulares

normais

• Coristoma: Ilha ectópica de tecido normal

 

Tumores Malignos

Os tumores malignos invadem tecidos contíguos e podem dar metástase em

locais distantes, onde subpopulações de células malignas se estabelecem

crescem e invadem novos sítios. Exemplos de tumores malignos incluem:

 

• Carcinoma: nome aplicado a cânceres de origem epitelial

• Sarcoma: nome aplicado a cânceres de origem mesenquimatosa

 

Os equivalentes malignos de tumores benignos em geral apresentam o

mesmo nome, com o sufixo carcinoma ou sarcoma, dependendo da origem

Por exemplo, um tumor maligno do estômago é um adenocarcinoma gástrico

enquanto um tumor ósseo composto de condrócitos malignos é denominado

condrossarcoma do osso.

 

Diagnóstico Histológico de Processos Malignos

 

O “padrão ideal” para o diagnóstico de câncer continua a ser a microscopia de

rotina. A distinção entre tumores benignos e malignos é o desafio diagnóstico

mais importante.

 

Tumores Benignos

Os tumores benignos assemelham-se ao seu tecido de origem tanto histológica

quanto citologicamente. A estrutura macroscópica de um tumor benigno pode

adotar configurações papilares ou polipóides, mas o epitélio de revestimento

assemelha-se ao do tecido normal.

 

Tumores Malignos

Os tumores malignos podem se diferenciar do tecido originário tanto

morfológica quanto funcionalmente. Características de tumores malignos

incluem:

 

• Anaplasia (ausência de diferenciação) ou células atípicas:

 

►variação no tamanho e forma de células e núcleo celular

►núcleo aumentado e mais intensamente corado com nucléolos

proeminentes

►mitoses atípicas e abundantes

►células bizarras, incluindo células gigantes tumorais

• Muitas dessas características são precedidas por um epitélio displásico pré

neoplásico, que pode resultar em carcinoma in situ (ver Cap. 1).

• Atividade mitótica: Mitoses abundantes são características, mas não um

critério essencial de tumores malignos. Por exemplo, no caso de um

leiomiossarcoma (sarcoma semelhante a células de músculo liso), o

diagnóstico de processo maligno baseia-se até mesmo em algumas poucas

mitoses.

• Padrão de crescimento: Com freqüência, tumores malignos apresentam um

padrão de crescimento desorganizado e aleatório. Se eles suplantarem o

suprimento sangüíneo, poderão manifestar necrose isquêmica.

• Invasão:

 

►Os tumores malignos infiltram tecidos adjacentes, particularmente vasos

sangüíneos e linfáticos.

►Em oposição aos tumores benignos, os tumores invasores não apresentam

cápsula bem definida ou plano de clivagem que os separem do tecido

normal.

 

• Metástases: Um tumor é identificado como maligno quando a invasão é

sucedida por implantação de massas tumorais adicionais em sítios distais. O

tecido ou órgão do qual o tumor se originou nem sempre é aparente com

base nas propriedades morfológicas. Nesses casos, a microscopia eletrônica

ou o uso de marcadores tumorais imunoistoquímicos podem auxiliar na

detecção da origem correta de um tumor.

 

►Características da microscopia eletrônica (ME): Como os carcinomas têm

origem epitelial, o exame à ME pode revelar marcadores epiteliais, como

desmossomos ou complexos de junção especializados. A presença de

melanossomos significa a presença de um melanoma. Grânulos limitados

por membrana com cernes densos são características de neoplasias

endócrinas.

►Marcadores tumorais imunoistoquímicos são antígenos que indicam a

origem da neoplasia; colorações à base de imunoperoxidase e

imunofluorescência baseiam-se em anticorpos que se ligam a antígenos

específicos, característicos de um tecido ou órgão específico, e coram

esses antígenos. Nem todos os marcadores tumorais são específicos para

doença; no entanto, ajudam a determinar a linhagem de tumores

indiferenciados. Isso é importante porque decisões terapêuticas podem ter

por base a identificação apropriada.

►Análises de DNA e genes são úteis no diagnóstico de tumores linfóides e

também nas determinações do teor de DNA de células tumorais.

►Algumas moléculas derivadas de tumor (isto é, α-fetoproteína e antígeno

carcinoembrionário [CEA]) normalmente são expressas apenas em tecidos

fetais. Quando detectadas em líquidos corporais de adultos, podem indica

células neoplásicas indiferenciadas.

 

O Quadro 5.3 relaciona marcadores usados com freqüência para identifica

tumores com origem em órgãos específicos. A maior parte das neoplasias

linfóides expressa marcadores de antígenos CD.

 

Quadro 5.3

 

Marcadores Freqüentemente Utilizados para Identificar Tumores

 

Marcador Células-alvo

 

Células epiteliais

 

Citoqueratinas Carcinomas, mesotelioma

 

CK7 Muitos adenocarcinomas

 

CK20 Carcinomas gastrointestinais e ovarianos,

carcinoma de células transicionais da

bexiga, tumor de células de Merkel

 

Antígeno de membrana Carcinomas, mesotelioma, alguns linfomas

epitelial (EMA [epithelial de células grandes

membrane antigen])

 

Ber-Ep4 A maioria dos adenocarcinomas, mas não

no mesotelioma

 

B72.3 (associado a tumor) Muitos adenocarcinomas, mas não no

mesotelioma

 

CEA Muitos adenocarcinomas, mas não no

mesotelioma CD15 Muitos adenocarcinomas, mas não no

mesotelioma

 

Células mesoteliais

 

Citoqueratinas CH5/6 Mesotelioma

 

Vimentin Mesotelioma

 

HBME Mesotelioma

 

Calretinina Mesotelioma

 

Melanócitos

 

HMB-45 Melanoma maligno

 

Proteína S-100 Melanoma maligno

 

MART-1 Melanoma maligno

 

Células neuroendócrinas e neurais

 

Cromograninas Carcinoma neuroendócrino, tumor

carcinóide

 

Sinaptofisina Carcinoma neuroendócrino, tumor

carcinóide

 

Enolase neurônio- Carcinoma neuroendócrino, tumor

específica carcinóide

 

CD57 Carcinoma neuroendócrino

 

Proteínas de Neuroblastoma

neurofilamentos

 

Células gliais

 

Proteína ácida fibrilar glial Astrocitoma e outros tumores da glia

(GFAP)

 

Células mesenquimatosas

 

Vimentin A maioria dos sarcomas Desmina Tumores musculares (miossarcomas)

 

Actina músculo-específica Tumores musculares (miossarcomas)

 

CD99 Sarcoma de Ewing, tumores

neuroectodérmicos periféricos (PNET)

 

Órgãos específicos

 

Antígeno prostático Câncer da próstata

específico (PSA)

 

Fosfatase alcalina Câncer da próstata

prostática específica

(PSAP)

 

Tireoglobulina Câncer da tireóide

 

α-Fetoproteína (AFP) Carcinomas hepatocelulares, tumor do saco

vitelino

 

Antígeno Cânceres gastrointestinais

carcinoembrionário

(CEA)

 

Fosfatase alcalina Seminoma

placentária (PLAP)

 

Gonadotropina coriônica Tumores trofoblásticos

humana (hCG)

 

CA19.9 Carcinomas pancreáticos e gastrointestinais

 

CA125 Carcinoma de ovário

 

Calcitonina Carcinoma medular da tireóide

Modificado de Rubin, Rubin’s Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 174.

 

Invasão e Metástase A invasão e a metástase são as duas propriedades, de células cancerosas

responsáveis pela maioria das mortes provocadas pelo câncer.

 

Crescimento Localizado: Carcinoma in Situ

A maioria dos carcinomas tem início como crescimentos localizados

confinados ao epitélio de que se originam. Desde que não transponham a

membrana basal epitelial, esses tumores são denominados carcinoma in situ

Nesse estágio, são assintomáticos e curáveis.

 

Metástase

Metástases Hematógenas

Os capilares e as vênulas são invadidos com maior freqüência do que as

arteríolas e artérias, de parede mais espessa. Como o fígado recebe sangue do

trato gastrointestinal (GI), os tumores abdominais podem provocar metástases

hepáticas. Outros tumores penetram em veias sistêmicas que, por fim

desembocam na veia cava, e, daí, nos pulmões. Algumas células tumorais

atravessam a microcirculação, alcançado o cérebro e os ossos.

 

Metástases Linfáticas

Os capilares linfáticos não possuem membrana basal; por isso, as células

tumorais podem atravessá-los mais rapidamente do que os capilares. Os

tumores com origem em tecidos que apresentam uma rica rede linfática (p. ex.

a mama) com freqüência se disseminam por essa via. As células que ganham

os linfáticos são transportadas para linfonodos regionais de drenagem, onde se

alojam e crescem. Linfonodos que sustentam depósitos metastáticos podem

muitas vezes estar maiores do que seu tamanho normal, com freqüência

tornando-se maiores do que a lesão primária.

 

Semeadura de Cavidades Corporais

Os tumores malignos com origem em órgãos adjacentes à cavidade peritonea

e à cavidade pleural podem liberar células nesses espaços. Os tumores nesses

locais freqüentemente produzem grandes quantidades de líquido (p. ex., ascite

líquido pleural). A semeadura ocasional na cavidade pericárdica, no espaço

articular e no espaço subaracnóide também pode ocorrer.

 

Eventos Escalonados na Invasão e na Metástase Diversas etapas são necessárias para que as células malignas estabeleçam uma

metástase. Embora a maior parte dos cânceres tenha origem na transformação

maligna de uma única célula, surgem subpopulações com características

biológicas diferentes (heterogeneidade tumoral). Em cada etapa da cascata

metastática, provavelmente apenas as células mais ajustadas sobrevivem:

 

1.Moléculas de adesão intercélulas, como caderinas e cateninas, ajudam a

manter a coesão de células epiteliais; a expressão dessas moléculas

encontra-se reduzida na maioria dos carcinomas. Células tumorais

epiteliais precisam se destacar umas das outras antes de conseguirem

invadir a membrana basal subjacente e a matriz extracelular.

2.Enzimas proteolíticas elaboradas pelas células malignas estimulam a

movimentação através da matriz extracelular.

3.O câncer invasivo penetra nos canais vasculares ou linfáticos pelos

mesmos mecanismos empregados para penetrar na matriz extracelular.

4.A sobrevida e a permanência no sangue circulante ou na linfa envolve a

aderência das células tumorais às células endoteliais, envolve também a

retração do endotélio e a ligação na membrana basal subjacente. Coleções

de células tumorais podem crescer no interior da luz vascular.

5.Por fim, o tumor extravasa e sai da circulação para um novo sítio tissular.

6.As células cancerosas extravasadas crescem em resposta a fatores de

crescimento autócrinos. Muitos desses fatores de crescimento (fator de

crescimento endotelial vascular, fator de crescimento transformador-β e

fator de crescimento derivado de plaquetas) desencadeiam e regulam a

angiogênese, um processo necessário para a sobrevida tumoral.

 

Nem todas as colônias metastáticas crescem imediatamente. Os tumores

podem recorrer localmente ou em sítios metastáticos muitos anos após o

câncer primário ter sido removido cirurgicamente. Este fenômeno é

denominado dormência tumoral.

 

Graduação e Estadiamento de Cânceres

 

Na tentativa de prognosticar o comportamento de um tumor e de estabelecer

critérios para o tratamento, muitos cânceres são classificados por grau e

estágio. As opções de cirurgia e tratamento são influenciadas pelo estágio, que

reflete a extensão da disseminação, e pelo grau, que reflete as características

celulares.

Graduação

A graduação citológica e histológica tem por base o grau de anaplasia e o

número de células em proliferação. Os esquemas de graduação classificam os

tumores em três ou quatro graus. Os tumores de grau baixo são bem

diferenciados e os de grau alto são anaplásicos. A correlação geral entre grau e

comportamento biológico não é invariável.

 

Estadiamento

Os critérios habitualmente empregados são: (a) tamanho do tumor; (b

extensão de crescimento local; (c) presença de metástases em linfonodos; e (d)

presença de metástases distantes. Esses critérios foram codificados no sistema

internacional de estadiamento de câncer TNM:

 

• T: refere-se ao tamanho do tumor primário

• N: metástases em linfonodos regionais

• M: presença e extensão de metástases distantes

 

Origem do Câncer

 

Origem Clonal

Pesquisas realizadas em tumores humanos e experimentais forneceram provas

contundentes de que a maioria dos cânceres tem origem em uma única célula

transformada. Por exemplo, um paciente com mieloma múltiplo produz

plasmócitos neoplásicos com uma única molécula de imunoglobulina

exclusiva de tal paciente.

 

Câncer como Processo Alterado de Diferenciação

Em alguns cânceres, existem provas de que as células malignas decorrem de

uma parada do amadurecimento na seqüência de desenvolvimento de uma

célula-tronco até uma célula completamente diferenciada.

 

• O carcinoma escamocelular contém células diferenciadas e também células

indiferenciadas. Quando transplantadas para hospedeiros adequados, apenas

as células indiferenciadas formam tumores.

• Quando uma única célula-tronco de teratocarcinoma de camundongo é

transplantada para um embrião de camundongo em início de

desenvolvimento, o filhote completamente normal nascido a termo consiste

em um mosaico composto de células derivadas tanto do embrião

propriamente dito quanto do carcinoma embrionário. Por conseguinte, a

progênie da célula maligna, sob a influência de controles normais de

desenvolvimento, diferencia-se em elementos teciduais maduros.

• Estudos realizados com leucemias e linfomas indicam que esses cânceres

não são distúrbios proliferativos verdadeiros, mas refletem um

desacoplamento entre proliferação e diferenciação. As células malignas que

se acumulam são células que não alcançaram o estágio de diferenciação

terminal.

• Estudos indicam que retinóides participam da promoção do

comprometimento de células cancerosas até o estágio terminal de

diferenciação. Membros dessa classe de compostos induzem a remissão em

certas leucemias.

 

Crescimento do Câncer

 

O principal determinante do crescimento tumoral é o fato de que ocorre maior

produção do que morte de células em um determinado período de tempo. O

tempo de divisão, apenas, não pode ser responsabilizado pelo aumento do

tumor, porque as células tumorais não se dividem necessariamente com maio

rapidez do que as células normais. Os diversos fatores envolvidos no

crescimento tumoral são descritos da seguinte forma:

 

• O crescimento do tumor depende da fração de crescimento (proporção entre

as células que participam do ciclo celular) e a taxa de morte celular. O

equilíbrio entre a renovação celular e a morte celular, que é estritamente

mantido em tecidos de proliferação normal, encontra-se defeituoso nos

tumores.

• A angiogênese tumoral (formação de novos capilares) é essencial para a

manutenção do crescimento de tumores.

• A dormência tumoral contribui para o intervalo que precede o surgimento de

metástases. Em tumores como o câncer de mama e o melanoma, as

metástases podem permanecer dormentes durante muitos anos. Não se sabe

se as células tumorais no estágio de dormência não conseguem crescer

devido a interferência na angiogênese, falta de resposta a fatores de

crescimento ou presença de restrições imunológicas ao crescimento.

 

Genética Molecular do Câncer O câncer tem uma base genética. As propriedades do câncer que apóiam essa

conclusão incluem:

 

• Predisposição genética

• Presença de anormalidades cromossômicas em células neoplásicas

• Correlação entre comprometimento do reparo de DNA e ocorrência de

câncer

• Associação íntima entre carcinogênese e mutagênese

 

O crescimento de células malignas decorre da aquisição seqüencial de

mutações somáticas em genes que controlam o crescimento celular, a

diferenciação, a apoptose e a manutenção da integridade do genoma. Estima

se que sejam necessários pelo menos quatro a sete genes mutantes para a

transformação de uma célula normal em célula maligna, e esse processo de

várias etapas pode ocorrer durante um período de anos. Três classes principais

de genes sofrem mutação em diferentes cânceres:

 

• Proto-oncogenes que regulam crescimento, diferenciação e sobrevida

celulares normais

• Genes de supressão de tumor, cujos produtos inibem a proliferação celular

• Genes de reparação de não equivalência de DNA que mantém a fidelidade

da replicação do DNA

 

Oncogenes, Proto-oncogenes e Câncer

Os oncogenes são versões mutantes de proto-oncogenes, os genes normais

envolvidos na regulação do crescimento. O conceito de oncogenes derivava

anteriormente de estudos de vírus tumorais de animais (retrovírus

transformadores), que conseguiam conferir um fenótipo neoplásico a células

infectadas por vírus.

Os oncogenes virais transformadores foram denominados genes v-onc, e

descobriu-se que apresentam homologia com seqüências de DNA eucariótico

denominadas proto-oncogenes. Estes proto-oncogenes, que mostraram a

capacidade de sofrer mutação, são denominados oncogenes celulares e são

designados pelo prefixo “c” (p. ex., c-myc, c-abl).

 

Gene e Nomenclatura de Produtos Genéticos

O nome de um gene é sempre impresso em itálico, enquanto o produto

protéico do gene, embora tenha o mesmo nome do gene, não é representado em itálico. Por exemplo, o produto protéico do gene p53 é a p53.

 

Mecanismos de Ativação de Oncogenes Celulares

O proto-oncogene pode ser convertido em oncogenes, ou ativado, das

seguintes maneiras:

 

• Mutação pontual: O primeiro oncogene identificado em um tumor de bexiga

humano foi produzido por uma mutação pontual (substituição de glicina po

valina no códon 12) no gene c-ras. Estudos de outros cânceres revelaram

mutações pontuais envolvendo outros códons do gene ras. Alterações em

outros genes reguladores do crescimento também foram descritas.

• Translocação cromossômica: A transferência de uma porção de um

cromossomo para outros foi implicada na patogenia de diversas leucemias e

diversos linfomas humanos. Por exemplo:

 

►O cromossoma Philadelphia (encontrado em 95% dos pacientes com

leucemia mielógena) decorre de uma translocação cromossômica

envolvendo quebras nas extremidades dos cromossomos 9 e 22. Assim

cria-se um novo gene híbrido, que gera sinais mitogênicos e

antiapoptóticos.

►75% dos pacientes com linfoma de Burkitt apresentam uma translocação

do gene c-myc, um proto-oncogene envolvido na progressão do ciclo

celular. Essa translocação leva à expressão desregulada do gene.

 

• Amplificação do gene: Alterações cromossômicas que resultam em um

aumento do número de cópias de um gene foram encontradas primariamente

em tumores sólidos humanos, e podem provocar a expressão bastante

aumentada do gene. Essas alterações podem ser encontradas como (a

regiões de coloração homogênea (HSR [homogeneous staining regions])

(b) regiões com bandas anormais; ou (c) fragmentos duplos (elementos

extracromossômicos visualizados como múltiplos corpúsculos).

 

►Amplificação gênica da família myc foi demonstrada em carcinoma de

células pequenas do pulmão, tumor de Wilms e hepatoblastoma.

►Neuroblastoma avançado está associado a amplificação de 700 vezes do

gene N-myc.

►O proto-oncogene erb B está amplificado em até um terço dos cânceres de

mama e ovário, e está associado a sobrevida geral baixa.

Mecanismos de Ação de Oncogenes

Os oncogenes podem ser classificados de acordo com os papéis

desempenhados pelos seus equivalentes normais (os proto-oncogenes). Os

produtos protéicos de oncogenes atuam de modo importante no crescimento e

na diferenciação celulares. Esses produtos de oncogenes realizam suas

atividades em diversos compartimentos celulares, alguns como fatores de

crescimento extracelular e outros em compartimentos celulares que variam

desde receptores da membrana até fatores no núcleo (Fig. 5.1).

 

FIGURA 5.1

Compartimentos celulares nos quais residem os produtos

oncogênicos ou proto-oncogênicos. (1) Fatores de crescimento, (2

receptores transmembrana de fatores de crescimento (tirosina

quinase), (3) quinases associadas à membrana, (4) família da ras

GTPase, (5) quinases citoplasmáticas, (6) reguladores da transcrição

nuclear. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology

4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 187.)

 

Oncogenes e Fatores de Crescimento

Quando fatores de crescimento extracelulares solúveis ligam-se aos seus

receptores específicos de superfície celular, uma cascata de sinalização leva à

entrada da célula no ciclo mitótico. As células cancerosas podem produzir uma

mistura de fatores do crescimento com atividade autócrina ou parácrina Exemplos de fatores de crescimento envolvidos na transformação neoplásica

incluem:

 

• O fator de crescimento derivado de plaquetas (PDGF [platelet-derived

growth factor]) é codificado pelo proto-oncogene c-sis e é um mitógeno

potente para fibroblastos, músculo liso e células da glia. Tumores como

sarcomas e glioblastomas produzem polipeptídeos PDGF-símiles.

• Uma proteína que apresenta homologia com fator de crescimento de

fibroblastos (FGF) é produzida por um oncogene e foi identificada no

câncer do estômago humano e no sarcoma de Kaposi.

 

Oncogenes e Receptores de Fatores de Crescimento

Certas mutações de receptores de fatores de crescimento provocam a ativação

descontrolada (constitutiva) do receptor, independentemente da ligação com o

ligante.

 

• Mutações pontuais na linhagem germinativa em c-ret provocam a atividade

constitutiva do receptor e estão associadas a síndromes de neoplasias

endócrinas múltiplas (NEM) e ao carcinoma tireóideo medular familiar.

• Mutações pontuais no gene (c-met) que codifica o receptor de fator de

crescimento de hepatócito (HGF) estão associadas a cânceres renais

papilares.

• Muitos fatores de crescimento estimulam a proliferação celular por se

ligarem a receptores de membrana com atividade de tirosina quinase. Um

receptor de PDGF anormal com atividade de tirosina quinase constitutiva

gerado em decorrência de translocação cromossômica, foi encontrado em

pacientes com leucemia mielomonocítica.

 

Oncogenes e Proteínas Sinalizadoras de Não-receptores

• Tirosina quinases: Diversas proteínas com atividade de tirosina quinase não

são receptores ligados a membrana e são codificadas pelos genes na família

src. O único membro da família src implicado na tumorigênese humana é o

c-abl, que codifica uma tirosina quinase citoplasmática. Na leucemia

mielógena crônica, o c-abl é translocado do cromossomo 9 para a região bcr

do cromossomo 22, formando um gene de fusão (bcr-abl). A atividade

bastante elevada da tirosina quinase decorrente da ativação do gene de fusão

provoca a oncogênese.

• Gene c-raf: Esse gene codifica uma oncoproteína citoplasmática solúvel que

participa da transdução de sinais do citoplasma para o núcleo. Mutações

pontuais nesse gene ocorrem em até 10% dos cânceres humanos.

• Oncogene ras: O proto-oncogene ras codifica uma pequena proteína ras que

reúne a ativação de receptores do fator de crescimento com transcrição

gênica no núcleo.

 

►A ras é ativa quando se liga a GTP e inativa quando se liga a GDP. A ras

tem atividade de GTPase intrínseca, que pode retornar ras ativada a seu

estado inativo.

►Mutações dos proto-oncogenes ras (H-ras, N-ras, e K-ras) são

encontradas em 25% de todos os tumores humanos. A maioria das

mutações que causa transformação maligna resultou na suspensão da

atividade normal de GTPase de ras, levando-a a permanecer em um estado

estimulado desregulado.

 

Oncogenes e Proteínas Reguladoras Nucleares

Diversas proteínas nucleares codificadas por proto-oncogenes estão

intimamente envolvidas na expressão seqüencial de genes que regulam a

proliferação e a diferenciação celulares. Os produtos de c-myc, c-fos e c-jun

são proteínas nucleares que ativam a expressão de uma variedade de genes

envolvidos na proliferação e diferenciação celulares. A mutação desses genes

resulta na hiperexpressão de seus produtos. A hiperexpressão da proteína c-jun

foi descrita em cânceres do pulmão e colorretais. A hiperexpressão de c-myc

ocorre no adenocarcinoma do pulmão e da mama. Conforme citado

anteriormente, a translocação característica do linfoma de Burkitt ativa de

modo constitutivo a expressão de c-myc.

 

Controle do Ciclo Celular

As células entram no ciclo mitótico pela progressão de G a G em resposta a 0 1

fatores de crescimento e citocinas. Durante G1, um comprometimento para

entrar na fase S de replicação do DNA é denominado restrição ou ponto R

Esse ponto de controle permite à célula confirmar que seu DNA encontra-se

íntegro antes de se envolver na replicação de DNA nuclear na fase S. O

processo é regulado por ciclinas D e E, as quais, por sua vez, ativam membros

da família de proteína quinases dependentes de ciclina (Cdk [cyclin-dependen

protein kinases]). As Cdk 2, 4 e 6 fosforilam a proteína do retinoblastoma (Rb), a qual, por sua vez, libera fatores de transcrição da família E2F. A E2F

foi identificada como um importante ativador de transcrição no controle do

ciclo celular. A E2F direciona a célula para ultrapassar o ponto R e permite a

síntese de genes envolvidos na replicação de DNA. Os inibidores de Cdk são

regulados pela proteína de supressão tumoral p53 (Fig. 5.2).

As células cancerígenas freqüentemente exibem perda do ponto de controle

R através de mecanismos como hiperexpressão de ciclina D1, perda de

inibidores de Cdk ou inativação da proteína Rb fosforilada (pRb) ou da

proteína p53. A diminuição dos níveis de um inibidor de Cdk está associada a

prognóstico sombrio no adenocarcinoma do cólon e em certos cânceres do

pulmão. Por outro lado, diversos tumores malignos hiperexpressam diversas

ciclinas e Cdks.

 

FIGURA 5.2

Regulação do ciclo celular. As células são estimuladas a entrar em G

a partir de G 0 por meio de fatores de crescimento e de citocinas pela via de ativação de proto-oncogenes. Uma junção crítica na transição

de células G 1 para a fase S consiste no ponto de restrição (R). Um

evento regulador importante nesse processo é a fosforilação da Rb

pelas quinases dependentes de ciclinas (cdk), que acarreta a

liberação do ativador da transcrição E2F. As cdk são suprimidas pelos

inibidores de cdk que são regulados por p53. As proteínas de

supressão tumoral bloqueiam o avanço do ciclo celular basicamente

dentro de G1. A interrupção da progressão do ciclo celular durante G

e G 2 pode provocar apoptose como uma via por falta de alternativas

As fases S, G 2 e M também são reguladas por ciclinas, cdk e

inibidores de cdk. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s

Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005

p. 190.)

 

Bcl-2 e Apoptose

A apoptose, ou morte celular programada, é uma via reguladora importante na

eliminação de células que não são mais úteis ou que podem ser lesivas ao

organismo (ver Cap. 1). Dois mecanismos principais desencadeiam a ativação

da cascata da caspase, levando à apoptose:

 

• Liberação de citocromo c de mitocôndria

• Ligação de ligantes específicos a receptores de “morte” da superfície

celular, como Fas e fator de necrose tumoral (TNF)

 

Para as células tumorais adquirirem malignidade, devem escapar da

apoptose por meio de desmanche do maquinário apoptótico. Um mecanismo

consiste em causar a hiperexpressão de Bcl-2, uma proteína antiapoptose. A

Bcl-2 impede a liberação de citocromo c de mitocôndrias, desse modo

suprimindo a apoptose. A Bcl-2 encontra-se hiperexpressa em linfomas de

células B foliculares, e a expressão do gene bcl-2 foi observada em diversos

outros cânceres humanos. Muitos cânceres humanos mostram outras

anormalidades na cascata apoptótica, incluindo a hiperexpressão de proteínas

que bloqueiam a ativação da caspase e as mutações inativadoras de proteínas

pró-apoptóticas.

 

Genes Supressores de Tumor A discussão anterior sobre oncogenes descreve a geração de caracteres

malignos por meio da ativação de genes que promovem o crescimento celular

No entanto, a malignidade também pode decorrer da inativação de genes que

normalmente suprimem ou que regulam negativamente o crescimento celular

Dois desses genes supressores de tumor são os genes do retinoblastoma (Rb) e

o gene p53.

 

Gene do Retinoblastoma (Rb)

A Rb é o produto protéico do gene supressor de tumor Rb. Conforme

mencionado anteriormente, quando a Rb é fosforilada, induz a liberação do

fator de transcrição E2F, desse modo permitindo a progressão do ciclo celular

de G para S. Mutações inativadoras em Rb permitem a proliferação celular 1

desregulada.

O retinoblastoma é um raro câncer intra-ocular da infância atribuído à

inativação do gene Rb. Cerca de 40% dos casos estão associados a uma

mutação na linhagem germinativa (retinoblastoma hereditário). A criança

acometida herda um alelo Rb defeituoso e um gene normal. Esse estado

heterozigótico não está associado a nenhuma alteração observável na retina

mas se o alelo normal remanescente for inativado por mutação ou deleção

ocorre o desenvolvimento do câncer (Fig. 5.3). Os pacientes com

retinoblastoma hereditário têm um risco 200 vezes maior de desenvolver

tumores mesenquimatosos num estágio posterior da vida.

Nos casos esporádicos (não-hereditários), a criança inicialmente apresenta

dois genes Rb normais, mas ambos são inativados por mutações na retina. A

incidência de retinoblastoma esporádico é muito baixa (1/30.000).

FIGURA 5.3

A origem de “dois eventos” do retinoblastoma. A. Uma criança com a

forma herdada do retinoblastoma nasce com uma mutação da

linhagem germinativa em um alelo do gene do retinoblastoma

localizado no braço longo do cromossomo 13. Uma segunda mutação

somática na retina resulta na inativação do alelo Rb funcional, com

desenvolvimento subseqüente de retinoblastoma. B. Em casos

esporádicos de retinoblastoma, a criança nasce com dois alelos Rb

normais. São necessárias duas mutações somáticas independentes

para inativar a função do gene Rb e permitir o aparecimento de um

clone neoplásico. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s

Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005

p. 192.)

 

Gene p53

As mutações de p53 são consideradas a alteração genética mais comum no

câncer humano. A molécula de p53 impede que as células entrem na fase S do

ciclo celular se houver dano no DNA. Também aumenta o reparo de DNA

danificado. Se a alteração de DNA não puder ser reparada, p53 aumenta a

transcrição de um gene que induz a apoptose da célula com o DNA lesado.

A maioria dos cânceres humanos exibe mutações inativadoras de p53 ou

anormalidades nas proteínas que regulam a atividade de p53. O gene p53 é deletado ou sofre mutação em 75% dos casos de câncer colorretal, e com

freqüência, no câncer de mama, carcinoma de células pequenas do pulmão

carcinoma hepatocelular e astrocitoma. A síndrome de Li-Fraumeni refere-se a

uma predisposição herdada para desenvolver cânceres em muitos órgãos

devido a mutações na linhagem germinativa de p53.

 

Outros Genes de Supressão de Tumor

A maioria dos genes supressores de tumor inibe o crescimento celula

desregulado por meio do controle da progressão do ciclo celular, reprimindo a

transcrição de genes promotores de crescimento ou causando a inativação

contínua de receptores de fator de crescimento. Mutações ou deleções de

genes de supressão tumoral provocam a remoção dessa supressão. O Quadro

5.4 relaciona diversos genes supressores de tumor além de Rb e p53.

 

Quadro 5.4

 

Outros Genes Supressores de Tumor

 

Função Normal do Gene ou

Gene Produto Tumor

 

APC Inibe β-catenina, um ativador de Polipose colônica

genes envolvido na progressão do adenomatosa

ciclo celular familiar

 

WT1 Essencial para o desenvolvimento Tumor de Wilms,

normal do trato urogenital e um tumor

reprime a transcrição de diversos cancerígeno do

genes promotores de crescimento rim que ocorre na

infância

 

NF1 Codifica neurofibromina, um Neurofibroma tipo

regulador negativo de ras 1

 

VHL (von Inibe a elonguina, uma molécula Carcinoma renal,

Hippel- que promove o alongamento por hemangioblastoma

Lindau) transcrição de genes promotores do cérebro e

do crescimento feocromocitoma

 

FHIT (fragile A proteína FHIT é pró-apoptótica e Cânceres do rim,

histidine supressora do crescimento pulmão e trato

triad [tríade digestivo

da histidina

frágil])

 

p15 e p16 Produtos gênicos normais são Associado a

inibidores de cdk que funcionam tumores de mama,

como reguladores negativos do pâncreas e

ciclo celular próstata

 

DPC4 O produto normal é um ativador 90% dos

transcricional que medeia a carcinomas de

resposta inibitória ao crescimento pâncreas

de TGF-β

 

BRCA1 e Supressores tumorais envolvidos Suscetibilidade a

BRCA2 nas funções de verificação do ciclo câncer de mama

celular; também operam como

genes de reparação de DNA

 

PTEN Suprime crescimento tumoral por Cânceres da

(fosfatase e antagonizar tirosina quinases próstata, muitos

tensina) gliomas, cânceres

da tireóide

 

Fatores Epigenéticos no Câncer

Fatores epigenéticos são aqueles que afetam a atividade de uma célula sem

alterar diretamente a seqüência de bases no seu DNA. Diferentemente das

mutações, as modificações epigenéticas, como a metilação de DNA ou a

acetilação de histonas, são eventos moleculares potencialmente reversíveis que

podem causar alterações na expressão gênica. As histonas são proteínas

básicas associadas a DNA no cromossomo, e a acetilação da histona está

associada ao aumento da atividade transcricional. Os genes supressores de

tumor podem ser alvos de fatores epigenéticos, resultando em sua inativação

por meio da supressão da transcrição ou do bloqueio da ligação de fatores de

transcrição.

 

Genes de Reparação de DNA e Câncer Podem ocorrer erros no DNA durante a síntese, e o processo de reparação de

não-equivalência localiza e remove pares de bases sem a equivalência

Agressões ambientais também podem resultar em erros na síntese de DNA. Os

genes de reparação de DNA, algumas vezes denominados genes de mutação

ou protetores, são genes envolvidos na reparação da não-equivalência. A perda

das funções desses genes torna o DNA suscetível ao acúmulo progressivo de

mutações; quando essas mutações afetam proto-oncogenes de genes de

supressão de tumor, pode decorrer o câncer. Exemplos de cânceres que

apresentam um defeito na reparação de não-equivalência ou reparação

defeituosa de DNA são:

 

• Câncer de Cólon Não-Polipose Hereditária (CCNPH): a incidência de

câncer do estômago e do intestino delgado também é maior nos pacientes

com CCNPH

• Ataxia-telangiectasia: uma rara síndrome hereditária com predisposição a

linfomas, leucemias e câncer do estômago e de mama

• Xerodermia Pigmentar: doença autossômica recessiva na qual o aumento de

sensibilidade à luz solar é acompanhado por alta incidência de cânceres de

pele

• Síndrome de Bloom (SB): doença autossômica recessiva com predisposição

a uma série de cânceres; as células de pacientes com SB mostram grande

freqüência de mutações

 

Telomerase

Os telômeros nas extremidades dos cromossomos progressivamente encurtam

à medida que as células se dividem (ver Cap. 1). A telomerase é uma enzima

que acrescenta seqüências teloméricas repetitivas a fim de manter o

comprimento do cromossomo. Células somáticas não expressam normalmente

a telomerase, mas alguns cânceres sim. Entretanto, o papel da telomerase na

oncogênese ainda é controverso.

 

Vírus e Câncer Humano

 

Estima-se que infecções virais sejam responsáveis por 15% de todos os

cânceres humanos. Um retrovírus RNA e cinco vírus DNA estão associados a

cânceres humanos.

 

Retrovírus RNA

• O Vírus da Leucemia de Células T Humana-1 (HTLV-1) é um retrovírus

RNA firmemente associado a uma rara leucemia de células T de adultos

endêmica no sul do Japão e na Bacia do Caribe. A leucemia se desenvolve

em menos de 5% dos indivíduos infectados e pode ter uma latência de 40

anos para o seu desenvolvimento.

• O HTLV-1 apresenta um tropismo para linfócitos CD4+.

• O genoma do HTLV-1 não contém oncogene conhecido, e não se integra em

um sítio específico no genoma do hospedeiro. A estimulação oncogênica é

mediada pelo gene de ativação de transcrição viral, o tax, cujos produtos

protéicos promovem a atividade de genes envolvidos na proliferação celular

como o fator de crescimento de células T interleucina-2 (IL-2) e seu

receptor, o fator estimulador de colônias de granulócitos-macrófagos (GM

CSF) e os proto-oncogenes c-fos e c-sis.

 

Vírus DNA

Papilomavírus Humanos (HPV)

Os HPV induzem lesões em seres humanos que evoluem para carcinoma

escamocelular.

 

• Foram identificados mais de 80 HPVs diferentes. A maioria está associada a

lesões benignas, como verrugas cutâneas, verrugas genitais e papilomas

laríngeos.

• Pelo menos 20 tipos de HPV estão associados a câncer da cérvice uterina

em especial HPV 16 e 18.

• E6 e E7 são as principais oncoproteínas codificadas pelo HPV. E6 tem por

alvo p53 para degradação, e E7 inibe Rb, desse modo eliminando as funções

de supressão de tumor desses produtos gênicos.

 

Vírus Epstein-Barr (EBV)

O EBV é um herpesvírus amplamente disseminado; 95% dos adultos no

mundo todo apresentam anticorpos contra ele. O EBV infecta linfócitos B e

lhes confere habilidade de proliferar indefinidamente in vitro (imortaliza-os)

O EBV pode causar mononucleose infecciosa, que é uma doença

linfoproliferativa de curta duração; contudo, também está associado ao

desenvolvimento de certos cânceres humanos. O EBV também está ligado aos

seguintes distúrbios:

Linfoma de Burkitt, um câncer infantil encontrado principalmente na África

• Equatorial: A estimulação prolongada do sistema imunológico, como a que

ocorre nas infecções por malária na África Equatorial, pode resultar em

proliferação descontrolada de células B, que, por sua vez, levam à

desregulação do oncogene c-myc e à proliferação descontrolada de um clone

maligno de células B.

• Câncer nasofaríngeo: Essa variante de carcinoma escamocelular é endêmica

no sul da China e em partes da África. Setenta por cento dos pacientes são

curados por radioterapia apenas.

• Linfoproliferação policlonal nos estados de imunodeficiência: Os estados

congênitos ou adquiridos de imunodeficiência podem ser complicados pelo

desenvolvimento de distúrbios proliferativos de células B induzidos por

EBV. Neoplasia linfóide é vista especialmente nos receptores de transplante

renal imunodeprimidos, e distúrbios de células B são encontrados em

pacientes com a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS).

 

Vírus da Hepatite

• Estudos epidemiológicos estabeleceram uma associação entre a infecção

crônica pelo vírus da hepatite B (hepatite crônica e cirrose) e o carcinoma

hepatocelular primário.

• A infecção crônica por um vírus RNA hepatotrópico (vírus da hepatite C)

também impõe alto risco de carcinoma hepatocelular.

 

Herpesvírus Humano 8 (HHV 8)

O sarcoma de Kaposi é uma neoplasia vascular mais comumente associada à

AIDS, e as células neoplásicas contêm seqüências do vírus HHV 8. Assim

como outros vírus de DNA, o genoma do HHV 8 codifica proteínas que

interferem nas vias de supressão tumoral de p53 e Rb.

 

Carcinogênese Química

 

Patogenia

Existem quatro estágios de carcinogênese química:

 

1.Iniciação: Ocorre mutação em uma única célula.

2.Promoção: Ocorre expansão clonal da célula iniciada, mas as células

alteradas permanecem dependentes do estímulo promotor.

Progressão: O crescimento é autônomo, e as células tornam-se

3. imortalizadas.

4.Câncer: As células adquirem a capacidade de invadir e dar metástases.

 

Exames de Triagem

Os exames de triagem para atividade carcinogênica potencial concentram-se

na relação entre carcinogenicidade e mutagenicidade. O mutágeno consiste em

um agente que pode alterar permanentemente a constituição genética de uma

célula. Noventa por cento dos carcinógenos conhecidos são mutagênicos no

sistema de exames empregado.

 

• O teste Ames usa o aparecimento de mutações de matriz de leitura e

substituições de pares de bases em uma cultura da bactéria Salmonella

typhimurium para medir a carcinogenicidade.

• Células de animais como hepatócitos de rato e células ovarianas da fêmea

de hamster chinês são observadas à procura de mutações, síntese de DNA

não programada e quebras no filamento de DNA.

• Atualmente, células humanas cultivadas estão sendo cada vez mais usadas

em ensaios de mutagenicidade.

 

Carcinógenos Químicos Humanos

Carcinógenos de Ação direta

• Essas substâncias químicas (alguns agentes alquilantes e outros acilantes

provocam o câncer diretamente, sem terem de sofrer alteração.

• Eles são intrinsecamente reativos o suficiente para estabelecerem ligações

covalentes com macromoléculas celulares.

 

Carcinógenos de Ação Indireta

A maioria dos carcinógenos orgânicos exige a conversão metabólica até um

composto mais reativo. Essa conversão é enzimática. Muitas células corporais

particularmente hepatócitos, possuem sistemas de enzimas que convertem pró

carcinógenos a suas formas ativas. Níveis enzimáticos determinados

geneticamente, em pessoas diferentes, podem determinar a sensibilidade a

carcinógenos. O Quadro 5.5 relaciona alguns dos carcinógenos químicos

associados ao câncer humano.

 

Quadro 5.5

Carcinógenos Químicos Associados a Câncer em Seres Humanos

 

Carcinógeno Ativação Tipo de Processo Maligno

 

Hidrocarbonetos Subordinada a Ampla gama de órgãos-

aromáticos policíclicos oxidases de alvo; produzem câncer no

(derivados do alcatrão função mista local da aplicação; presente

da ulha) dependentes na fumaça do cigarro

do citocromo associada a câncer de

P450 pulmão

microssômico

 

Agentes alquilantes São Pacientes que recebem essa

(muitas drogas carcinógenos terapia apresentam risco

quimioterapêuticas são de ação direta; maior de desenvolvi mento

agentes alquilantes) transferem futuro de câncer

grupos alquila

para o DNA

 

Aflatoxina B1 (um Metabolizada Entre os carcinógenos mais

produto do fungo até um potentes do fígado, em

Aspergillus flavus, que epóxido, que é especial em partes da

cresce em amendoins e detoxificado África

grãos) ou se liga a

DNA

 

Aminas aromáticas e Primariamente Exposição ocupacional a

corantes azo metabolizados aminas aromáticas na

no fígado; forma de corantes de

hidroxilação N anilina → câncer da bexiga

formando

derivados

hidroxilamina

 

Nitrosaminas (o Hidroxilação, Associadas a cânceres de

conservante nitrito seguida pela esôfago e GI

comumente adicionado formação de

a alimentos pode reagir um íon

com outros

componentes da dieta, carbênio

formando nitrosaminas) alquila reativo

 

Diversos agentes; metais, Os mecanismos Muitos cânceres ocorrem

asbesto, plásticos, de ativação em ambientes

polímeros de dextrana são obscuros ocupacionais; a associação

entre câncer de pulmão e

exposição a asbesto está

claramente estabelecida

em fumantes

 

Carcinogênese Física

 

Radiação Ultravioleta (UV)

• Os cânceres atribuídos à exposição ao sol, a saber, carcinoma basocelular

carcinoma escamocelular e melanoma, ocorrem predominantemente nos

indivíduos de pele clara. Os efeitos da radiação UV sobre as células incluem

ativação enzimática, inibição de divisão celular, mutagênese, morte celular e

câncer.

• A xerodermia pigmentar, uma doença com incidência alta de cânceres de

pele decorrentes da sensibilidade à luz solar, exemplifica a importância da

reparação do DNA na proteção contra os efeitos lesivos da radiação UV. Os

distúrbios de pele tanto neoplásicos quanto não-neoplásicos na xerodermia

pigmentar são atribuídos ao comprometimento da excisão de DNA lesado

pela UV.

 

Asbesto e Mesotelioma

O mesotelioma, um câncer das cavidades pleural e peritoneal, ocorre

principalmente em trabalhadores intensamente expostos a asbesto. Existe uma

forte correlação entre câncer de pulmão e fumantes expostos a asbesto.

 

Imunologia Tumoral

 

A teoria da vigilância imunológica afirma que clones mutantes com potencia

neoplásico surgem com freqüência, mas são eliminados por respostas

imunológicas celulares. Contudo, as evidências desse conceito são muito

controversas.

Mecanismos da Citotoxicidade Imunológica

A contribuição de qualquer mecanismo imunológico específico para a

destruição das células tumorais in vivo não foi definida com clareza. Estão

sendo ativamente estudados diversos mecanismos possíveis (Fig. 5.4).

 

FIGURA 5.4

Possíveis mecanismos de citotoxicidade tumoral imunológica em

estudos em animais. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s

Pathology, 4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005

p. 206.)

 

Citotoxicidade Mediada por Células T

As células T citotóxicas (CD8+) conseguem reconhecer e destruir uma célula

que contém antígenos “estranhos” quando peptídeos derivados desses

antígenos estão associados a moléculas do complexo de histocompatibilidade

principal (MHC) classe I e encontram-se dispostos na superfície das células tumorais. As células T CD8+ podem ser sensibilizadas a tumores sob as

seguintes circunstâncias:

 

• A célula tumoral expressa um antígeno específico àquela célula tumoral que

não está presente nas células corporais normais (antígeno tumor-específico).

• A célula tumoral expressa um antígeno presente naquela célula tumoral e

também presente em certas células corporais (antígeno associado a tumor).

• A célula tumoral hiperexpressa um antígeno.

• A célula tumoral expressa um peptídeo viral codificado por um vírus

oncogênico.

 

Outros Mecanismos

• Citotoxicidade mediada por células destruidoras naturais (NK [natura

killer]): As células NK são células semelhantes a linfócitos, com atividade

tumoricida, e que não dependem de sensibilização prévia a antígenos de

células tumorais.

• Citotoxicidade mediada por macrófagos: Os macrófagos conseguem

destruir células tumorais de modo não-específico; no entanto, não está

definido seu papel no controle de tumores malignos.

• Citotoxicidade mediada por células dependentes de anticorpos

Anticorpos direcionados contra antígenos associados a tumor não destroem

a célula tumoral, mas podem agir como um elo entre o efetor apropriado

(destruidor) e a célula tumoral. Os efetores podem ser macrófagos

neutrófilos ou linfócitos.

• Citotoxicidade mediada por complemento: Células tumorais que foram

recobertas por anticorpos específicos podem sofrer lise pela ação do

complemento.

 

Evasão da Citotoxicidade Imunológica

Não existem provas conclusivas de que a vigilância imunológica de tumor seja

um processo válido. Foram propostas diversas propriedades de células

tumorais para a falência de respostas imunológicas para limitar o crescimento

tumoral, incluindo:

 

• Deficiência (ou falta) de expressão de antígenos específicos de tumor

• Deficiência de expressão de histocompatibilidade (MHC, HLA)

• Deficiência de processamento de peptídeo de antígeno tumoral

• Falta de co-estimuladores necessários para a ativação de células T

• Expressão de fatores imunossupressores

 

Efeitos Sistêmicos do Câncer Sobre o Hospedeiro

 

O câncer pode produzir efeitos distantes não atribuíveis a invasão tumoral ou

metástase, que são denominados em conjunto de síndromes “paraneoplásicas”

Essas síndromes podem ser a primeira manifestação da doença e também

podem fornecer um meio de monitorar a evolução mórbida.

 

• Febre: ocorre com maior freqüência na doença de Hodgkin, no carcinoma

de células renais e no sarcoma osteogênico

• Anorexia e perda de peso: podem ser acompanhadas por taxa metabólica

elevada; o TNF-α (caquexina) pode levar à caquexia.

• Síndromes endócrinas: manifestam-se com maior freqüência na produção

ectópica de diversos hormônios peptídicos que não se encontram sob

controle regulador normal. Como exemplo, a síndrome de Cushing causada

por hormônio adrenocorticotrópico, a retenção de sódio e água causada por

hormônio antidiurético inadequado, a hipercalcemia causada por peptídeo

paratormônio-símile, a hipocalcemia causada por carcinoma tireóideo

medular secretor de calcitonina e a hipoglicemia causada pela produção

excessiva de insulina por tumores de células das ilhotas do pâncreas.

• Síndromes neurológicas: Neuropatia motora subaguda, um distúrbio da

medula espinhal, está fortemente associada a câncer. As neuropatias

periféricas podem indicar tumores ocultos.

• Síndromes na musculatura esquelética: dermatomiosite e polimiosite estão

associadas a câncer.

• Síndromes hematológicas: eritrocitose, anemia, aumento do número de

granulócitos e plaquetas e o estado de hipercoagulação podem se

indicações de processo maligno.

• Síndromes GI: lesão GI ou hepática (com depressão da síntese de albumina)

é possível.

• Síndrome nefrítica: Pode ser uma conseqüência de trombose da veia renal.

• Síndromes cutâneas: acantose nigricans (um distúrbio cutâneo marcado por

hiperpigmentação regional e hiperceratose) pode ocorrer.

• Amiloidose: Cerca de 15% dos casos ocorrem associados a cânceres.

 

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