Fundamentos de patologia
Capítulo 22 | Diabetes Melito
Diabetes Melito
Sumário do Capítulo
Regulação da Glicemia
Classificação do Diabetes Melito
Diabetes Melito Tipo I
Diabetes Melito Tipo II
Complicações do Diabetes Melito
Aterosclerose, Nefropatia Diabética e Retinopatia Diabética
Neuropatia Diabética
Infecções
Complicações da Gravidez
O pâncreas desempenha funções não apenas de órgão endócrino mas
também de órgão exócrino. Os distúrbios mais comuns do pâncreas endócrino
são o diabetes melito e a formação de tumores. A neoplasias do pâncreas
endócrino são discutidas no Cap. 15.
Regulação da Glicemia
Sob condições normais, a ingestão de uma refeição rica em carboidratos
resulta no aumento da glicemia, que induz a secreção de insulina oriunda das
células β pancreáticas. A insulina tem as funções de reduzir os níveis
sangüíneos de glicose por meio dos seguintes mecanismos:
• Aumento da captação de glicose pela musculatura esquelética e pelo tecido
adiposo
• Inibição da gliconeogênese no fígado
• Promoção da síntese de glicogênio no fígado
• Inibição da liberação de glucagon do pâncreas
O receptor de insulina — presente no músculo esquelético, fígado e nas
células adiposas — é uma glicoproteína heterotetramérica contendo duas
subunidades α extracelulares e duas subunidades β transmembrana. Quando
ligadas à insulina, as subunidades β funcionam como uma tirosina quinase
para ativar moléculas sinalizadoras subseqüentes. Por fim, o transporte de
glicose e as proteínas metabólicas são ativadas para reduzir os níveis de
glicose circulante.
Anormalidades em qualquer uma dessas vias pode levar ao diabetes melito
que se caracteriza por aumento da glicemia (hiperglicemia), excreção do
excesso de açúcar na urina (glicosúria), além do aumento do volume de urina
(poliúria) e da sede (polidipsia).
Classificação do Diabetes Melito
O diabetes pode ser uma doença primária ou ocorrer associada a diversos
distúrbios, como doença pancreática, anormalidades endócrinas, gestação ou
uso abusivo de fármacos.
As formas de diabetes melito são:
• Diabetes tipo I: inferior a 10% de todos os pacientes diabéticos; início
juvenil; destruição auto-imune de células β pancreáticas
Diabetes tipo II: maioria dos pacientes diabéticos; surge com maio
•
freqüência no início na vida adulta; associado a obesidade; associação de
comprometimento da secreção de insulina e resistência à insulina periférica
• Diabetes gestacional: defeito em células β e resistência à insulina pela
gravidez
• Diabetes induzido por glicocorticóides: ocorre na síndrome de Cushing e na
administração de corticosteróides
Diabetes Melito Tipo I
O diabetes melito tipo I (também conhecido como diabetes melito insulino
dependente [DMID]) é causado pela destruição auto-imune de células β
pancreáticas. A redução da produção de insulina provoca níveis altos
sustentados de glicemia, com perda de glicose na urina, além do metabolismo
da gordura corporal, resultando na produção de corpos cetônicos (ácido
cetoacético e ácido β-hidroxibutírico) e da produção continuada de glicose
pelo fígado (Fig. 22.1).
FIGURA 22.1
Sinais e sintomas de hiperglicemia não controlada no diabetes
melito. (De Rubin E, Gorstein F, Rubin R, et al. Rubin’s Pathology
4th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2005, p. 1175.)
O diabetes tipo I é mais comum entre indivíduos oriundos do norte da
Europa. O pico de início geralmente ocorre na época da puberdade e a maioria dos pacientes tem menos de 20 anos de idade no início da doença. Postulou-se
que os seguintes fatores promovem o desenvolvimento do diabetes melito tipo
I:
• Expressão do complexo de histocompatibilidade principal dos tipos HLA-
DR3 ou HLA-DR4: ocorre em 95% dos pacientes
• Destruição de células β por processo auto-imune do tipo celular: linfócitos T
CD8+ (citotóxicos) infiltram e lesam ilhotas pancreáticas, alteração
denominada insulite; pode recorrer em pâncreas transplantado de doado
devido a memória imunológica; 10% dos pacientes têm uma segunda
doença auto-imune, como a doença de Graves ou anemia perniciosa.
• Infecção viral: caxumba, vírus coxsackie grupo B; possivelmente devido a
epítopes de antígenos compartilhados entre células β e proteínas virais
(mimetismo molecular)
• Exposição química
Os pacientes com diabetes melito tipo I apresentam poliúria, polifagia e
polidipsia, hiperglicemia e redução dos níveis séricos de insulina devido a uma
diminuição intensa das células β pancreáticas e da produção de insulina
Alguns casos podem ser marcados pelo desenvolvimento de cetoacidose
quando o paciente demonstra acidose intensa devido ao aumento da produção
de cetonas. Como falta produção de insulina, esses pacientes necessitam de
insulina exógena.
À microscopia, os achados pancreáticos no diabetes melito tipo I são
variáveis. O início da doença é marcado por infiltrado linfocítico nas ilhotas
pancreáticas (insulinite). A doença mais avançada demonstra ilhotas de
tamanhos variáveis, semelhantes a fitas, devido à perda da população de
células β. Com freqüência, o pâncreas exócrino associado contém fibrose
interlobular e interacinar.
Diabetes Melito Tipo II
O diabetes melito tipo II (também conhecido como diabetes melito não
insulino-dependente [DMNID]) caracteriza-se por redução da sensibilidade
tecidual à insulina (resistência à insulina) e diminuição da secreção de insulina
estimulada pela glicose. A doença do tipo II é mais comum em adultos e com
freqüência acomete idosos e obesos, embora haja uma incidência crescente de
diabetes melito tipo II em pacientes jovens; nos Estados Unidos, minorias étnicas são acometidas com maior freqüência. O Quadro 22.1 apresenta uma
comparação entre os tipos I e II de diabetes melito. Os fatores propostos para a
promoção do desenvolvimento do diabetes melito tipo II incluem:
• Herança multigênica: 60% dos pacientes têm o pai ou a mãe ou um irmão
com DMNID; os dois gêmeos monozigóticos em geral são afetados
• Obesidade, especialmente víscero-abdominal: adipócitos liberam ácidos
graxos livres e citocinas (fator de necrose tumoral α/TNF-α e adiponectina)
que reduzem a sensibilidade periférica, provocando resistência à insulina
• Hipertensão, níveis reduzidos de exercícios físicos, dislipidemia: fatores de
risco cardiovasculares que provocam resistência à insulina e
hiperinsulinemia compensatória, processo denominado síndrome metabólica
• Ascendência africana
• Envelhecimento
Com freqüência, os pacientes apresentam poliúria, polidipsia e polifagia. A
cetoacidose tipicamente não é uma apresentação clássica nos pacientes com
diabetes melito tipo II. Nos casos de hiperglicemia intensa na vigência de
desidratação, os pacientes podem vivenciar coma hiperosmolar não-cetótico.
À microscopia, identifica-se uma redução variável nas células β
pancreáticas e as ilhotas de Langerhans contêm um acúmulo de tecido
fibrótico e amilóide. O diabetes melito tipo II pode ser tratado inicialmente por
dieta e exercícios físicos; entretanto, casos mais graves são tratados com anti
hiperglicêmicos por via oral e insulina, quando necessário.
Quadro 22.1
Comparação entre os Tipos I e II do Diabetes Melito
Característica Tipo I Tipo II
Idade de início Em geral antes dos 20 Em geral após os 20
anos anos
Tipo de início Súbito; freqüentemente Gradual; em geral sutil,
com cetoacidose assintomático
Peso corporal Normal Excesso de peso
usual
Genética < 20% > 60%
(pais/irmãos com
diabetes)
Gêmeos 50% concordantes 90% concordantes
monozigóticos
Associação com HLA-DR3, HLA-DR4 Nenhuma
HLA
Anticorpos Secundários à lesão Nenhum
anticélulas de
ilhotas
Lesões de ilhotas Inflamação inicial; atrofia Fibrose, amilóide
e fibrose posteriormente
Células β Acentuadamente Normal ou levemente
reduzidas reduzidas
Insulina Acentuadamente Elevada ou normal
sangüínea reduzida
Tratamento Necessidade de insulina Dieta, exercícios físicos,
medicação oral, insulina
Complicações do Diabetes Melito
A elevação crônica da glicemia é o principal fator no desenvolvimento de
complicações diabéticas (como retinopatia, nefropatia e neuropatia), que
freqüentemente afetam pequenos vasos (alterações microvasculares)
Complicações macrovasculares (como aterosclerose) ocorrem em idosos com
diabetes melito, embora a fisiopatologia dessas alterações em relação à
hiperglicemia não seja clara.
Diversos mecanismos fisiopatológicos acarretam as alterações patológicas
evidentes no diabetes:
• Glicosilação de proteínas: a glicose liga-se de modo não-enzimático a
muitas proteínas, inclusive a hemoglobina; a elevação da hemoglobina A1
sérica reflete controle inadequado da glicose nas 6 a 8 semanas precedentes
a ligação cruzada de proteínas glicosiladas provoca o espessamento das
membranas basais dos vasos
• Via da aldose redutase: o excesso de glicose nos tecidos é metabolizado pela
aldose redutase, provocando a formação de sorbitol, que pode ser tóxico
para as células
• Ativação de proteína quinase C (PKC): o diacilglicerol sintetizado a partir
de intermediários glicolíticos ativa a PKC; promove aumento da produção
de citocinas, da contratilidade e permeabilidade microvasculares e da
proliferação de células endoteliais e de músculo liso
• Excesso de formas de oxigênio reativas: promove fosforilação oxidativa
mitocondrial
Aterosclerose, Nefropatia Diabética e Retinopatia Diabética
A hiperglicemia afeta os vasos sangüíneos de todos os calibres por aumentar
evolução de aterosclerose. A cardiopatia aterosclerótica e o acidente vascular
cerebral isquêmico são as principais causas de morte em adultos com diabetes
A vasculopatia periférica também é comum nessa população, levando a
úlceras distais e gangrena, contribuindo para cerca de 40% de amputações
não-traumáticas de membro nos Estados Unidos. A doença de pequenos vasos
— causada por arteriolosclerose hialina, espessamento da membrana basa
capilar e aumento da agregação plaquetária — provoca insuficiência renal e
cegueira.
A nefropatia diabética soma 20 a 40% dos casos de insuficiência renal, e a
nefropatia secundária ao diabetes é a principal causa para transplante renal em
adultos. A patogenia da nefropatia diabética tem início com hipertensão
glomerular e hiperperfusão renal, resultando em uma cascata de deposição de
proteína no mesângio, glomerulosclerose e insuficiência renal. Além disso
ocorre espessamento da membrana basal glomerular devido a produtos de
glicosilação. O principal achado patológico nos rins de pacientes com diabetes
é glomerulosclerose nodular (doença de Kimmelstiel-Wilson), que demonstra
material semelhante a membrana basal depositado sob a forma de lóbulos, ou
de modo difuso por todo o glomérulo (ver Cap. 16).
O agravamento da função renal é marcado por albuminúria e aumento da
taxa de filtração glomerular, da creatinina sérica e da uréia sangüínea. A via
primária de prevenção da nefropatia diabética é o controle rigoroso da glicemia e a adição de medicação anti-hipertensiva, em especial inibidores da
enzima conversora da angiotensina (ECA), quando necessário.
A retinopatia diabética provoca cegueira em uma proporção significativa de
pacientes com diabetes, e a prevalência de retinopatia diabética está
relacionada com a duração e a gravidade da hiperglicemia. As alterações
microscópicas na retinopatia diabética são discutidas no Cap. 29.
Neuropatia Diabética
A neuropatia diabética é uma complicação comum do diabetes e afeta
primariamente o sistema nervoso sensorial autônomo e o periférico. Foram
identificadas alterações nos axônios, na bainha de mielina, nas células de
Schwann e nos pequenos vasos sangüíneos que circundam os nervos. A
neuropatia periférica inicialmente causa dor e sensações anormais nas
extremidades distais. Por fim, leva à perda do tato, sensação de dor e
propriocepção, freqüentemente numa distribuição de “meia e luva”. A perda
da sensação na extremidade distal freqüentemente faz com que os pacientes
não percebam estímulos lesivos no pé e no tornozelo, o que leva à formação
de úlceras. A disfunção autônoma contribui para hipotensão postural, diarréia
disfunção erétil e bexiga hipotônica.
Infecções
Os pacientes com hiperglicemia mal controlada correm risco de infecção
bacteriana e infecção fúngica devido à diminuição da função leucocitária. As
infecções observadas com maior freqüência são infecções do trato urinário, em
que a urina rica em glicose proporciona um meio para o crescimento de
microrganismos.
Complicações da Gravidez
O controle glicêmico inadequado durante a gestação leva ao nascimento de
bebês com peso alto (macrossomia), ocasionalmente sendo necessária uma
cirurgia cesariana. Durante a gestação, o aumento da glicemia provoca
hiperplasia de células β pancreáticas no feto, freqüentemente levando a
episódios hipoglicêmicos durante o período neonatal. Uma outra complicação
da hiperglicemia durante a gestação inclui o desenvolvimento de
anormalidades maiores, como anomalias do coração e de grandes vasos e
defeitos no tubo neural, como espinha bífida e anencefalia.
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