Fundamentos de patologia
Capítulo 29 | Olho
Olho
Sumário do Capítulo
Anatomia e Histologia Normais
Lesões Físicas e Químicas do Olho
Órbita
Pálpebras
Conjuntiva
Olho Vermelho
Tracoma
Outras Infecções Conjuntivais
Córnea
Cristalino
Catarata
Presbiopia
Úvea
Retina
Hemorragia da Retina
Oclusão Vascular
Retinopatia Hipertensiva
Retinopatia Diabética
Descolamento da Retina
Retinite Pigmentar
Degeneração Macular
Manchas Maculares Vermelho-cereja
Estrias Angióides
Retinopatia da Prematuridade
Nervo Óptico
Glaucoma
Glaucoma Congênito
Glaucoma Primário de Ângulo Aberto
Glaucoma Primário de Ângulo Fechado
Outros Tipos de Glaucoma
Miopia
Olho Terminal (Phthisis Bulbi)
Neoplasias
Melanoma Maligno
Retinoblastoma
Anatomia e Histologia Normais
O olho é uma estrutura complexa. Compreende múltiplas camadas e está
protegido pelas pálpebras e cavidade óssea circundante (Fig. 29.1).
• A camada mais externa compõe-se da córnea e esclerótica; a camada centra
compõe-se da úvea (corpo ciliar, processos ciliares, íris e coróide); a camada
mais interna compõe-se da retina e do epitélio pigmentado da retina. Estrutura do olho. Este desenho mostra um corte horizontal do globo
• As câmaras oculares incluem a câmara anterior (entre a córnea e a íris), a
câmara posterior (entre a íris e o cristalino) e a câmara vítrea (entre o
cristalino e a retina). O humor aquoso refere-se ao líquido nas câmaras
anterior e posterior e o humor vítreo é o material semelhante a gel que
preenche a câmara vítrea.
• A íris é o diafragma contrátil que recobre a superfície anterior do cristalino
e contém pigmento no interior do estroma.
• A pupila é a abertura circular central do olho que altera o diâmetro para
regular a quantidade de luz que passa através do cristalino.
• O cristalino é uma estrutura translúcida biconvexa, situada entre os corpos
ciliares e estirada por fibras aderentes, permitindo que ocorra a
acomodação.
• Vasos sangüíneos: a artéria e a veia centrais da retina regulam o fluxo
sangüíneo ao olho e penetram no centro do nervo óptico na parte posterior
do olho.
FIGURA 29.1
ocular. (Detalhe superior) Aumento das câmaras anterior e posterior
mostrado com mais detalhes. Observe a direção do fluxo do humor
aquoso (setas), que é drenado pelo seio venoso da esclerótica (cana
de Schlemm) no ângulo iridocorneano. (Detalhes inferiores)
Organização típica das células e fibras nervosas da fóvea central
(esquerda) e da retina (direita). (De Ross MH, Kaye G, Pawlina W
Histology: A Text and Atlas, 4th ed. Philadelphia: Lippincot
Williams & Wilkins, 2003, p. 795.)
Lesões Físicas e Químicas do Olho
Podem ocorrer diversas manifestações de lesão ocular:
• Olho roxo: decorre de equimose das pálpebras vascularizadas, causada por
traumatismo físico
• Rupturas superficiais do epitélio da córnea: decorrem de abrasão traumática
uso de lentes de contato, corpos estranhos, luz ultravioleta, substâncias
químicas cáusticas
• Fratura por explosão: fratura dos ossos do assoalho da órbita na direção do
seio maxilar, causada por traumatismo contuso; o músculo reto inferior pode
ser aprisionado na fratura, provocando um afundamento do olho na órbita
(enoftalmia)
• Lesões causadas por corpos estranhos: podem resultar em inflamação
aguda, inflamação granulomatosa, degeneração da retina, alteração da cor
dos tecidos oculares devido a partículas contendo ferro (siderose bulbar)
catarata, descolamento da retina, glaucoma
Órbita
A protrusão anterior anormal do globo ocular é denominada exoftalmia
(quando bilateral) e proptose (quando unilateral). Diversas etiologias, como
doença tireóidea, cistos dermóides orbitários, hemangiomas, inflamação
linfomas e neoplasias, acarretam a projeção para a frente do globo ocular. A
causa mais comum de exoftalmia é a doença de Graves, uma forma de
hipertireoidismo que afeta mais comumente mulheres na meia-idade. A
exoftalmia pode preceder ou suceder outras manifestações da doença de Graves, e pode estar acompanhada por retração da pálpebra superior (devido
ao aumento do tônus simpático) e aspecto arregalado característico. As
complicações oculares dessa doença incluem exposição da córnea, com
ulceração e compressão do nervo óptico, que podem acabar por provoca
cegueira se não forem corrigidas.
Pálpebras
As pálpebras compõem-se de uma placa tarsal densa com músculo, glândulas
e pele sobrejacentes. As glândulas da pálpebra consistem em glândulas
sudoríparas écrinas, glândulas de Meibomio (produzem camada oleosa para
evitar evaporação da lágrima) e glândulas sebáceas/glândulas de Zeis
(desembocam nos folículos dos cílios), dentre outras. Diversos distúrbios
afetam as pálpebras, como:
• Blefarite: inflamação das pálpebras que produz uma massa sensível
vermelha, aguda
• Hordéolo (terçol): lesão focal inflamatória aguda das pálpebras e que pode
envolver as glândulas de Meibomio ou as glândulas sebáceas
• Calázio: inflamação granulomatosa concentrada ao redor das glândulas de
Meibomio ou das glândulas sebáceas; provável reação a secreções lipídicas
expelidas; resulta em uma tumefação indolor da pálpebra
• Pseudotumor inflamatório da órbita: distúrbio inflamatório crônico
idiopático, associado a fibrose variável; pode causar proptose e imobilidade
parcial do globo ocular
• Xantelasma: placa amarela de macrófagos repletos de lipídios, com
freqüência na face nasal da pálpebra; afeta idosos e pessoas com elevação
de lipídios
Conjuntiva
A conjuntiva é uma membrana transparente que se estende da margem latera
da córnea por toda a esclerótica (conjuntiva bulbar) e a superfície interna das
pálpebras (conjuntiva palpebral). Pode sofrer hemorragia sucedendo
traumatismo contuso, anoxia, episódios intensos de tosse ou espontaneamente
ao se levantar da cama ao acordar.
A inflamação da conjuntiva é denominada conjuntivite, que pode ocorrer
associada a alergia ou infecção. A conjuntivite infecciosa ocorre como conseqüência de microrganismos na superfície do olho, disseminação
hematógena de microrganismos para o olho a partir de um outro local, ou
introdução iatrogênica de microrganismos por meio de colírios infectados. A
conjuntivite pode ser acompanhada de ceratite (inflamação da córnea) ou
ulceração da córnea.
Olho Vermelho
O olho vermelho refere-se a uma forma infecciosa comum de conjuntivite
caracterizada por vasos sangüíneos conjuntivais hiperêmicos e exsudato
inflamatório; comumente forma crostas, fazendo com que as pálpebras
estejam aderidas pela manhã. O exsudato inflamatório pode ser purulento
fibrinoso, seroso ou hemorrágico, e contém células inflamatórias que variam
de acordo com o agente etiológico.
Tracoma
O tracoma é uma conjuntivite causada pelos sorotipos A, B e C de Chlamydia
trachomatis. Essa infecção é a causa mais comum de cegueira no mundo e é
especialmente prevalente na Ásia, Oriente Médio e partes da África. O
tracoma não é muito contagioso, mas pode se disseminar de um indivíduo para
outro em condições de superlotação ou de higiene inadequada. O tracoma
comumente cura-se de modo espontâneo em crianças, mas pode evoluir em
adultos. A doença é quase sempre bilateral e mais extensivamente envolve a
metade superior da conjuntiva e o epitélio da córnea. O infiltrado celula
compõe-se de linfócitos, com a formação de folículos linfóides e centros
germinativos necróticos. Por fim, linfócitos e vasos sangüíneos invadem a
porção superior da córnea (pannus, pano tracomatoso), e esse processo
finalmente resulta no fibrosamento da conjuntiva e das pálpebras e sua
distorção. À microscopia, o epitélio conjuntival contém inclusões
intracitoplasmáticas ricas em glicogênio e macrófagos grandes associados
contendo fragmentos nucleares (células de Leber). Essa doença pode se
complicada por infecção bacteriana secundária.
Outras Infecções Conjuntivais
• Infecções por clamídia: blenorréia por inclusão (uma conjuntivite
purulenta), ou conjuntivite por inclusão (uma conjuntivite folicular crônica
associada a hiperplasia linfóide focal). Ao contrário do tracoma, a
conjuntivite por inclusão em geral envolve a conjuntiva tarsal inferior e não
provoca formação de tecido cicatricial, necrose nem ceratite.
• A oftalmia neonatal: conjuntivite aguda grave acompanhada de exsudato
purulento copioso no neonato; causada por Neisseria gonorrhoeae. A
infecção é adquirida durante a passagem ao longo do canal do parto de uma
mãe infectada e pode resultar em ulceração da córnea, perfuração e
formação de fibrose no olho. O tratamento inclui eritromicina, tetraciclinas
ou nitrato de prata.
• Pinguécula: nódulo conjuntival amarelado geralmente localizado no lado
nasal ao limbo corneoescleral; consiste em tecido conjuntivo lesado pelo
sol.
• Pterígio: freqüentemente associado à pinguécula; representa uma prega de
conjuntiva vascularizada que cresce horizontalmente na córnea, na forma de
asa de inseto.
Córnea
A córnea é transparente, encontra-se situada na face anterior do olho e
consiste em múltiplas camadas que incluem, da porção anterior para a
posterior:
• Epitélio corneano: epitélio escamoso estratificado não-queratinizado
contínuo à conjuntiva bulbar; pode sofrer regeneração a partir de células
basais após lesão menor
• Membrana de Bowman: membrana basal anterior; evita disseminação de
infecções para o globo ocular; o dano desta membrana está associado a
erosões recorrentes da córnea
• Estroma corneano: porção mais espessa da córnea
• Membrana de Descemet
• Endotélio corneano: camada única de epitélio escamoso que permite a
transferência de nutrientes entre a córnea e o humor aquoso
Alguns distúrbios da córnea são descritos a seguir.
O herpesvírus simples (HVS) está relacionado com doença pelo tipo 1 e
pelo tipo 2.
• O HVS tipo 1 tem predileção pelo epitélio da córnea e pode causar lesões
oculares localizadas na infância, que são acompanhadas de linfadenopatia
regional, infecção sistêmica e febre. A maior parte das lesões oculares
consiste em placas assintomáticas, embora possam ocorrer conjuntivite
folicular unilateral aguda e úlceras de córnea. O HVS torna-se latente no
gânglio trigêmeo e pode sofrer reativação sucedendo traumatismo
exposição a luz ultravioleta ou luz solar, vacinação ou menstruação. A
reativação do HVS resulta em múltiplas úlceras corneanas intra-epiteliais
individualizadas minúsculas (ceratopatia puntiforme superficial). Essas
lesões aumentam de tamanho e coalescem, formando um padrão ramificado
com descamação epitelial entremeada, resultando em grandes úlceras
irregulares. As células epiteliais infectadas são multinucleadas e apresentam
corpúsculos de inclusão intranucleares eosinofílicos (corpúsculos de
Lipschütz). Além disso, podem ocorrer lesões do estroma da córnea, com o
desenvolvimento de uma opacidade corneana central em forma de disco
abaixo do epitélio (ceratite disciforme).
• O HVS tipo 2 pode infectar neonatos durante a passagem pelo canal do parto
de uma mãe infectada e pode causar lesões disseminadas na córnea e retina.
A oncocercose é causada pelo nematódeo Onchocerca volvulus, transmitido
pela picada de borrachudos infectados, após o que microfilárias liberadas de
vermes adultos do sexo feminino fertilizados migram para tecidos oculares
Quando as microfilárias morrem, uma resposta inflamatória provoca a
opacificação da córnea e comprometimento visual (cegueira do rio). Essa
doença é mais prevalente na África e na América Latina.
O arco lipóide (arco senil) ocorre em pacientes com determinados
distúrbios do metabolismo lipídico e manifesta-se como um arco branco
provocado pela deposição de lipídios na periferia da córnea.
A ceratopatia em faixa consiste em uma faixa horizontal opaca através da
córnea central superficial e contém fosfato de cálcio (associado a
hipercalcemia) ou proteína não calcificada (ceratopatia actínica crônica
devido a excesso de luz ultravioleta).
As distrofias corneanas são um grupo heterogêneo de doença não
inflamatória hereditária da córnea e são classificadas de acordo com a camada
da córnea envolvida, como o epitélio, o estroma e o endotélio. As distrofias
epiteliais envolvem a formação de microcistos, defeitos na membrana basal ou
depósito de substância finamente fibrilar na camada de Bowman. As distrofias
do estroma resultam em formas características de opacificação corneana
decorrente da deposição de diferentes substâncias (lipídios, proteínas amilóide) no interior do estroma. As distrofias endoteliais envolvem
anormalidades na membrana basal do endotélio corneano e resultam em
edema da córnea e perda progressiva da visão.
Cristalino
Catarata
A catarata é uma das doenças mais comuns do cristalino. Consiste em
opacificações do cristalino e pode ocorrer associada a diversas etiologias
como diabetes, deficiência de triptofano, corticosteróides, luz ultravioleta e
traumatismo, dentre outras. A catarata mais comum ocorre associada ao
envelhecimento, e começa quando ocorre o acúmulo de fendas entre as fibras
do cristalino. Com o decorrer do tempo, ocorre o acúmulo de materia
degenerado do cristalino nesses espaços, provocando a absorção de água, e
resultando em cristalino intumescido que pode obstruir a pupila e provoca
glaucoma. Na catarata madura, o cristalino pode sofrer degeneração e diminui
de volume. A catarata pode ser removida cirurgicamente.
Presbiopia
A presbiopia consiste no comprometimento da visão que ocorre com o
envelhecimento, quando o ponto próximo da visão localiza-se além do olho
Durante o envelhecimento, células subcapsulares cuboidais diferenciam-se em
fibras alongadas de cristalino, que levam o cristalino a perder sua elasticidade
Os pacientes com presbiopia precisam de óculos para a visão de perto.
Úvea
A úvea compõe-se da coróide, que contém vasos sangüíneos e melanina, dos
corpos ciliares, que regulam a forma do cristalino, e da íris. A coróide está
situada abaixo da retina e proporciona apoio de nutrientes para a retina
sobrejacente.
Diversos distúrbios inflamatórios afetam a úvea (uveíte), como inflamação
da íris (irite), inflamação do corpo ciliar (ciclite) e iridociclite, uma associação
entre irite e ciclite. Em geral, a iridociclite manifesta-se como olho vermelho
fotofobia, dor, visão embaçada, halo pericorneano e miose. Pode haver o
desenvolvimento de aderências entre os diversos componentes, como sinéquias posteriores entre a íris e o cristalino, e sinéquias anteriores
periféricas entre a íris periférica e o ângulo anterior da câmara.
A oftalmite simpática ocorre em resposta a uma lesão no olho oposto
diversas semanas antes, e caracteriza-se por inflamação granulomatosa
envolvendo toda a úvea. Essa doença pode ser complicada por vitiligo e
encanecimento dos cílios.
A sarcoidose pode afetar a úvea em até um terço dos pacientes com esse
distúrbio e, em geral, é bilateral. À microscopia, as lesões são granulomatosas
e podem estar acompanhadas de ceratopatia em faixa calcificada, catarata
vascularização da retina, hemorragia do vítreo e aumento bilateral das
glândulas lacrimais e salivares (síndrome de Mikulicz).
Retina
A retina compõe-se de retina neural, que contém os bastonetes e cones, e o
epitélio pigmentado da retina, que consiste em uma única camada de epitélio
cuboidal contendo melanina. A fóvea é a região de maior acuidade visua
devido à concentração mais alta de fotorreceptores, e localiza-se lateralmente
ao disco óptico. Circundando a fóvea encontra-se uma zona pigmentada
amarela denominada mácula lútea. As fibras nervosas oriundas da retina
coalescem e deixam o olho no disco óptico, que não possui fotorreceptores e
por conseguinte, é um ponto cego fisiológico.
Hemorragia da Retina
As hemorragias da retina ocorrem associadas a hipertensão, diabetes melito e
oclusão da veia central da retina. Se a hemorragia ocorrer dentro da camada de
fibras nervosas, os axônios se separam, resultando em um aspecto em forma
de chama durante o exame do fundo do olho, enquanto hemorragias mais
profundas tendem a ser arredondadas.
Oclusão Vascular
A oclusão vascular na retina pode decorrer de trombose, embolia, estenose
compressão vascular, vasoconstrição ou estase intravascular. Se a oclusão
vascular for intensa, pode haver isquemia, levando à tumefação de axônios e
formação de áreas penuginosas brancas que se assemelham a algodão no
exame do fundo do olho (manchas algodonosas). Essas lesões são reversíveis se a isquemia for corrigida a tempo. A oclusão pode afetar a artéria ou a veia
da retina.
A oclusão da artéria central da retina ocorre sucedendo trombose da artéria
da retina, arterite de células gigantes ou embolização, e pode resultar em
cegueira se a isquemia não for revertida. Edema intracelular, manifesto por
palidez retiniana, ocorre mais proeminentemente na mácula, onde as células
ganglionares são mais numerosas. A fóvea fica em contraste evidente como
um ponto vermelho-cereja. Pequenos êmbolos retinianos podem acarreta
visão embaçada unilateral transitória, fenômeno denominado amaurose fugaz.
A oclusão da veia central da retina acarreta hemorragias em forma de
chama, mais proeminentes ao redor do disco óptico. Com freqüência, a visão
se recupera bem, mas pode haver a indução de neovascularização da íris e
sinéquias anteriores periféricas. Esse processo resulta em glaucoma de ângulo
fechado com dor intensa e hemorragias repetidas diversos meses após a
oclusão.
Retinopatia Hipertensiva
A retinopatia hipertensiva ocorre sucedendo hipertensão prolongada e
demonstra achados característicos, como:
• Estreitamento arteriolar
• Hemorragias em forma de chama na camada de fibras nervosas da retina
• Exsudatos, incluindo alguns que se irradiam do centro da mácula
• Manchas algodonosas na retina superficial
• Microaneurismas
Ocorre arteriolosclerose na vigência de hipertensão crônica e mais
comumente afeta os vasos da retina e coróide. Na fundoscopia, as veias
mostram-se encurvadas onde as arteríolas as atravessam (encurvamento
arteriovenoso), as arteríolas retinianas anormais mostram-se como linhas
brancas paralelas em locais de interseções vasculares (embainhamento
arterial), e pequenas hemorragias retinianas superficiais ou profundas podem
ocorrer.
A hipertensão maligna caracteriza-se por arteriolite necrosante, com
necrose fibrinóide e trombose das arteríolas retinianas pré-capilares.
Retinopatia Diabética Ocorrem sintomas oculares em 20 a 40% dos diabéticos, e esses sintomas
manifestam-se em quase todos os pacientes com diabetes do tipo 1. A
retinopatia diabética ocorre em dois estágios. O primeiro deles é denominado
retinopatia diabética de fundo (não-proliferativa), que ocorre durante os
primeiros estágios da doença. Esse estágio exibe ingurgitamento venoso com
distensões cilindriformes, pequenas hemorragias (hemorragias puntiformes e
em manchas), microaneurismas capilares e exsudatos serosos. A retinopatia
começa no pólo posterior da retina, mas, por fim, pode envolver toda a retina.
Retinopatia Proliferativa
A retinopatia proliferativa ocorre após cerca de 10 anos de diabetes, e tem
correlação inversa com o grau do controle glicêmico. Esse estágio caracteriza
se pelo crescimento de novos vasos sangüíneos delicados, tecido fibroso e
tecido glial na direção do corpo vítreo. Esses vasos sangram com facilidade e
podem resultar em hemorragias no vítreo. O tecido fibrovascular e o tecido
glial podem sofrer contração, provocando descolamento da retina e cegueira
Além dessas alterações, os pacientes com diabetes também podem demonstrar
vasculopatia associada da retina.
Iridopatia Diabética
A iridopatia diabética ocorre quando uma camada fibrovascular cresce ao
longo da superfície anterior da íris e no ângulo da câmara anterior. Esse
crescimento pode acarretar sinéquias anteriores periféricas, sinéquias
posteriores e hemorragia na câmara anterior (hifema).
Catarata Diabética
A catarata diabética consiste em um manto de opacidades em forma de agulha
no cristalino, logo abaixo da cápsula anterior e posterior do cristalino
freqüentemente o processo é bilateral e pode demonstrar um aspecto de
“flocos de neve”. Além disso, em diabéticos, ocorrem cataratas relacionadas
com o envelhecimento em uma idade mais precoce do que na população geral
Descolamento da Retina
Durante o desenvolvimento fetal, o espaço entre a retina sensorial e o epitélio
pigmentado da retina torna-se obliterado quando essas duas camadas ficam
apostas. Entretanto, quando ocorre acúmulo de líquido (sangue, exsudatos
líquido vítreo) no espaço potencial entre essas camadas, a retina sensoria pode se descolar rapidamente. O descolamento da retina também pode ocorre
com o envelhecimento, quando o corpo vítreo diminui de tamanho e traciona a
retina neural, resultando em lacerações e descolamento da retina. Outros
fatores que provocam o descolamento da retina incluem defeitos retinianos
diminuição da pressão sobre a retina (após perda de vítreo) e enfraquecimento
da fixação da retina. O descolamento da retina resulta em degeneração dos
fotorreceptores, após o que espaços extracelulares semelhantes a cistos surgem
na retina.
Retinite Pigmentar
A retinite pigmentar refere-se a diversas retinopatias degenerativas
progressivas bilaterais, caracterizadas clinicamente por cegueira noturna e
constrição de campos visuais periféricos. Nessa doença, a perda de bastonetes
e cones é sucedida pela migração de células pigmentadas retinianas para a
retina sensorial, e a melanina surge no interior de processos delgados de
células aracneiformes e se acumula ao redor de pequenos vasos sangüíneos
retinianos ramificados. O quadro clínico é variável, mas pode finalmente levar
à contração dos campos visuais e visão de túnel. Em geral a visão central é
preservada até um estágio avançado da doença.
Degeneração Macular
A fóvea é a porção central da mácula que contém a concentração mais alta de
cones e é o ponto de maior acuidade visual. A degeneração dessa região pode
ocorrer com o envelhecimento, também associada a efeitos tóxicos de algumas
drogas (cloroquina) e alguns distúrbios hereditários. A degeneração macular
relacionada com o envelhecimento (DMRE) é a etiologia mais comum de
cegueira no idoso e é classificada como úmida ou seca. A DMRE seca decorre
de degeneração da mácula lútea, espessamento da membrana de Bruch (entre a
coróide e o EPR, epitélio pigmentar da retina), formando “drusas”, atrofia e
despigmentação do EPR, e perda dos capilares da coróide. A retina
sobrejacente encontra-se comprometida e ocorre a formação de pontos cegos
À medida que as drusas tornam-se revascularizadas, o extravasamento a parti
dos novos vasos provoca exsudatos e hemorragias abaixo da retina (DMRE
úmida). À medida que a degeneração macular evolui, a visão central torna-se
prejudicada. Ocasionalmente, essa doença pode estar acompanhada de hemorragia no espaço subretiniano (degeneração macular hemorrágica), que
pode ser tratada com fotocoagulação a laser.
Manchas Maculares Vermelho-cereja
Uma mancha vermelho-cereja na mácula pode decorrer de oclusão da artéria
central da retina ou doenças de depósito lisossômicas, como as gangliosidoses
Estrias Angióides
As estrias angióides referem-se ao aspecto semelhante a vaso de fraturas na
membrana de Bruch em diversas doenças sistêmicas.
Retinopatia da Prematuridade
A retinopatia da prematuridade (RP) é um distúrbio iatrogênico bilateral que
ocorre em lactentes prematuros que foram tratados com oxigênio após o
nascimento. Grandes quantidades de oxigênio resultam na obliteração de
vasos sangüíneos retinianos e falta de vascularização da retina periférica
Quando o lactente retorna ao ar ambiente, o endotélio vascular e as células
gliais proliferam na junção de porções avasculares e vascularizadas da retina
Em 25% dos casos, a RP evolui até uma fase cicatricial associada a
descolamento da retina, massa fibrovascular atrás do cristalino e cegueira.
Nervo Óptico
O edema do disco óptico (papiledema) refere-se a uma tumefação da papila do
nervo óptico quando ele penetra no globo (papila óptica) e pode ocorre
secundariamente a diversas etiologias, como o aumento da pressão
intracraniana. Outras causas de papiledema incluem obstrução da drenagem
venosa do olho, infarto do nervo óptico, inflamação do nervo óptico e
esclerose múltipla. No exame do fundo do olho, o disco óptico mostra-se
intumescido com margens embaçadas e vasos dilatados. Com freqüência, há
hemorragias, exsudatos e manchas algodonosas. Se não corrigido, o ponto
cego normal aumenta com o tempo e alterações atróficas podem levar a uma
perda da acuidade visual.
A atrofia do nervo óptico consiste no adelgaçamento do nervo óptico
causado por perdas de axônios. As causas de atrofia do nervo óptico incluem
edema prolongado da papila óptica, neurite óptica, compressão do nervo óptico, glaucoma, degeneração da retina e mutações genéticas (genes OPA1
OPA3 e WFS1).
Glaucoma
O glaucoma consiste em um conjunto de distúrbios caracterizados por
escavação do disco óptico e perda progressiva da sensibilidade de campo
visual, com freqüência causado por aumento da pressão intra-ocula
(hipertensão ocular). O aumento da pressão intra-ocular ocorre quando o
equilíbrio entre a produção e a drenagem de humor aquoso encontra-se
alterado, e pode acarretar alterações degenerativas induzidas pela pressão na
retina e na papila óptica. Sob condições normais, o humor aquoso é produzido
pelo corpo ciliar e flui da câmara posterior através da pupila até a câmara
anterior, quando desemboca em veias pela rede trabecular e pelo canal de
Schlemm. O glaucoma mais freqüentemente ocorre associado a lesão
congênita ou adquirida, do segmento anterior do olho que mecanicamente
obstrui a drenagem aquosa. Os pacientes com glaucoma comumente
apresentam visão embaçada e relatam o surgimento de halo ao redor de fontes
luminosas. Com o passar do tempo, o aumento da pressão intra-ocular pode
provocar diversos achados, como:
• Escavação em forma de taça da papila óptica
• Abaulamento da córnea ou da esclerótica em pontos fracos
• Atrofia do nervo óptico
• Degeneração da camada de células ganglionares da retina associada a
comprometimento da visão
• Buftalmia (olho excessivamente aumentado) se a pressão elevada ocorrer
antes de 3 anos de idade, quando o olho ainda é flexível
O tratamento do glaucoma é direcionado para baixar a pressão intra-ocular
e inclui a correção do distúrbio estrutural subjacente, redução da produção de
humor aquoso (por meio de inibidores da anidrase carbônica) ou empregando
se agentes hipotensivos oculares em casos de emergência.
Glaucoma Congênito
O glaucoma congênito é causado por anomalias do desenvolvimento que
levam à obstrução da drenagem aquosa. A maioria dos casos é recessiva
ligada ao X e comumente manifesta-se em meninos durante a lactância ou no início da infância. Em geral, a doença envolve os dois olhos e está associada a
uma câmara anterior profunda, turvação corneana, sensibilidade a luz
brilhante (fotofobia), lacrimejamento excessivo e buftalmia (olhos
aumentados). Os genes que foram implicados no glaucoma congênito são o
gene do citocromo P4501B1 (CYP1B1), o gene do fator de transcrição
FKHL7, o gene hipofisário 2 homeobox (PTX2) e o gene pareado 6 box
(PAX6).
Glaucoma Primário de Ângulo Aberto
O glaucoma primário de ângulo aberto ocorre em pacientes sem patologia
ocular subjacente conhecida e manifesta-se mais comumente na casa dos 50
anos de idade. É a forma mais comum de glaucoma e é uma causa importante
de cegueira nos Estados Unidos. No glaucoma de ângulo aberto, o ângulo da
câmara anterior encontra-se aberto e mostra-se normal, embora esteja presente
aumento da resistência ao fluxo de saída do humor aquoso nas proximidades
do canal de Schlemm. Com freqüência, a doença é bilateral (embora um olho
possa estar afetado de modo mais proeminente) e pode levar à lesão da retina
degeneração de nervo óptico e perda da visão periférica. Os pacientes com
diabetes melito e miopia correm risco de glaucoma primário de ângulo aberto.
Glaucoma Primário de Ângulo Fechado
O glaucoma primário de ângulo fechado ocorre após 40 anos de idade e
acomete indivíduos sem distúrbios oculares subjacentes conhecidos. No
glaucoma de ângulo fechado, a câmara anterior é mais superficial do que o
normal, e o ângulo mostra-se anormalmente estreito. Esse distúrbio afeta
indivíduos cuja íris periférica esteja deslocada anteriormente na direção da
rede trabecular, que cria um ângulo estreito. Quando a pupila se dilata
(midríase), a íris obstrui o ângulo da câmara anterior, comprometendo a
drenagem aquosa e provocando episódios súbitos de hipertensão intra-ocular
Dor ocular e halo ou anel ao redor de fontes luminosas acompanham essas
crises. Com o passar do tempo, o glaucoma de ângulo fechado pode resultar
em sinéquias anteriores periféricas (aderências entre a íris e a rede trabecular)
que posteriormente bloqueiam o fluxo de saída do humor aquoso. O glaucoma
de ângulo fechado agudo é uma emergência ocular e deve ser iniciado
tratamento hipotensivo ocular nas primeiras 24 a 48 horas para que se
mantenha a visão.
Outros Tipos de Glaucoma
O glaucoma de tensão baixa demonstra o defeito característico do campo
visual e os aspectos oftalmoscópicos do glaucoma de ângulo aberto crônico
sem o aumento da pressão intra-ocular. Esse distúrbio acomete mais
comumente os idosos.
O glaucoma secundário pode ocorrer associado a diversos distúrbios, como
inflamação, hemorragia, aderências e neovascularização da íris.
Miopia
A miopia é uma anormalidade ocular de refração na qual a luz oriunda do
objeto visualizado tem seu foco em um ponto na frente da retina devido ao
diâmetro ântero-posterior do olho mais longo do que o usual. Em geral, a
miopia tem início em indivíduos jovens e varia de intensidade. O tratamento
envolve lentes corretivas ou cirurgia refrativa (LASIK).
Olho Terminal (Phthisis Bulbi)
O Phthisis bulbi refere-se ao olho em estágio terminal, inespecífico, pequeno e
macio, com esclerótica enrugada e espessada, retina sensorial descolada
cristalino calcificado deslocado e córnea opaca enrugada. Com freqüência
pode ocorrer formação de osso intra-ocular. Em geral, o olho parece
desorganizado e atrófico. Com freqüência o tratamento consiste em
enucleação.
Neoplasias
Lesões metastáticas são as neoplasias mais comuns que afetam o olho. Das
neoplasias que têm origem no interior do olho, a maior parte origina-se de
neurônios retinianos imaturos (retinoblastoma) e melanócitos da úvea
(melanoma).
Melanoma Maligno
O melanoma maligno representa o processo maligno intra-ocular primário
mais comum e origina-se de melanócitos ou nevos na úvea. Com freqüência
essas lesões mostram-se circunscritas e invadem a membrana de Bruch
formando uma massa com aspecto de cogumelo. À microscopia, esses
melanomas podem conter células fusiformes sem nucléolos (células fusiformes A), células fusiformes com nucléolos (células fusiformes B) ou
células poligonais com bordas celulares distintas e nucléolos proeminentes
(células epitelióides). Quantidades variáveis de necrose estão presentes. Os
melanomas que surgem no corpo ciliar e na íris podem se estender
circunferencialmente ao redor do globo e são denominados melanomas em
anel.
Como o olho não possui vasos linfáticos, a disseminação do melanoma
ocorre por meio da extensão através da esclerótica e por disseminação
hematógena. Com freqüência o tratamento envolve a enucleação do olho, mas
a radioterapia ou a excisão local podem ser benéficas. Mais de metade dos
pacientes com melanoma pode sobreviver durante 15 anos.
Retinoblastoma
O retinoblastoma é a neoplasia maligna intra-ocular mais comum da infância e
origina-se de neurônios imaturos da retina. Embora a maioria dos
retinoblastomas seja unilateral e esporádica, aproximadamente 6% dos casos
são hereditários e mais comumente bilaterais. Esses tumores originam-se de
mutações espontâneas ou hereditárias do gene do retinoblastoma (Rb) em
13q14.
No exame macroscópico, os retinoblastomas consistem em tumores cor
creme contendo flocos calcificados brancos, semelhantes a giz, no interior de
zonas necróticas amarelas. À microscopia, essas lesões são celulares e pode
haver diversos padrões, como lâminas de células redondas com núcleo
hipercromático e citoplasma escasso, ou células organizadas ao redor de uma
cavidade central (rosetas de Flexner-Wintersteiner). Pode-se visualizar necrose
e calcificação. A disseminação de retinoblastomas ocorre por meio da
extensão direta ao longo do nervo óptico até o cérebro ou por disseminação
hematógena, freqüentemente para a medula óssea.
Os pacientes apresentam pupila branca (leucocoria), estrabismo, visão ruim
hifema espontâneo ou olho dolorido vermelho. Pode ocorrer glaucoma
secundário. Alguns retinoblastomas crescem na direção do corpo vítreo
(retinoblastoma endofítico), enquanto outros crescem entre a retina sensorial e
o epitélio pigmentado da retina, deslocando-a (retinoblastoma exofítico). O
diagnóstico e o tratamento precoces resultam em uma alta taxa de sobrevida
embora esses pacientes corram risco de outros processos malignos, como
sarcoma osteogênico, sarcoma de Ewing e pinealoblastoma.
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Donna E. Hansel