José Bálsamo, Volume IV
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Memórias de um médico:
José Bálsamo
Volume IV
Alexandre Dumas
I
A PARTE DE EL-REI
O duque de Aiguillon, ficando só,
achou-se a princípio um pouco perturbado. Havia perfeitamente compreendido tudo quanto seu tio lhe dissera, havia perfeitamente compreendido que a senhora du Barry escutava, havia finalmente compreendido perfeitamente que um homem de espírito em tais circunstâncias, era preciso mostrar-se homem de brio, e jogar só a partida a que o velho duque queria associar-se.
A chegada de el-rei interrompeu muito a
propósito a explicação que infalivelmente teria resultado da firmeza puritana do senhor de Aiguillon.
O marechal não era homem que se
deixasse enganar muito tempo, e principalmente que fizesse brilhar com um fulgor exagerado a virtude de qualquer outro à custa da sua.
Mas, tendo ficado só, de Aiguillon teve
tempo para reflectir.
El-rei chegava com efeito. Já os seus
pajens tinham aberto a porta da antecâmara, e Zamora corria para o monarca pedindo-lhe doces, tocante familiaridade que, nos seus momentos de mau humor, Luís XV pagava com um piparote no nariz ou um puxão de orelhas muito desagradável ao jovem africano.
El-rei instalou-se no gabinete das
curiosidades, e, o que convenceu de Aiguillon que a senhora du Barry não tinha perdido uma única das palavras da sua conversa com o tio, foi porque ele, de Aiguillon, ouviu perfeitamente, desde as primeiras palavras, a conversa com a condessa.
Sua Majestade parecia muito fatigado,
como um homem que houvesse levantado um peso imenso; Atlas não ficava tão cansado depois de ter sustido o céu pelo espaço de doze horas sobre os ombros.
Luís XV fez-se agradecer, aplaudir e
acariciar por sua amante; fez contar toda a história da despedida do senhor de Choiseul; e pareceu isso diverti-lo muito.
Então a senhora du Barry aventurou-se.
Era boa maré para a política; e demais sentia-se valente bastante para revolver uma das quatro partes do mundo.
- Senhor - disse ela - destruiu, foi bom;
derrubou, é óptimo; mas agora trata-se de reedificar.
- Oh! Já está tudo feito - disse el-rei
negligentemente.
- Já tem um ministério?
- Sim!
- Assim, de repente, sem respirar? - Ora, que louca... Oh! Bem mostra que é
mulher! Antes de despedir o cozinheiro, como o outro dia disse, não se deve ter já justo outro novo?
- Torne a dizer-me que já está composto
o gabinete.
El-rei ergueu-se um pouco do canapé em
que se havia antes deitado do que sentado, servindo-se para almofada principal dos ombros da formosa condessa.
- Parece, Joaninha - disse ele ao ver o seu
desassossego - que conhece o meu ministério para o censurar, e que tem alguém para me propor.
- Ah! - disse a condessa - não é
totalmente absurdo isso que diz.
- Realmente?... Tem um ministério? - E o senhor não tem também outro? -
redargüiu ela.
- Oh! Eu, é a minha obrigação, condessa.
Vejamos, quem são os seus candidatos?...
- Não, diga-me primeiramente os seus. - De boa vontade, para lhe dar o
exemplo.
- Na marinha, primeiramente, onde
estava aquele caro senhor de Praslin?
- Ah! Coisa nova, condessa; um homem
encantador, que nunca viu o mar.
- Ora adeus!
- Palavra de honra! Isto é uma invenção
magnífica. Vou tornar-me muito popular, e vou ser coroado nos mares mais longínquos... Em efígie, já se sabe.
- Mas quem é, senhor? Quem é? - Apostamos em como não adivinha
entre mil?
- Um homem cuja escolha o torna
popular... Não, não adivinho.
- Um homem do parlamento, minha
querida... Um primeiro presidente do parlamento de Besançon.
- O senhor de Boynes?
- Exactamente... Apre! Como é sábia!...
Conhece essa gente?
- Pudera não! Fala-me todo o dia em
parlamento. Ora! Mas é um homem que nem sabe o que é um leme.
- Melhor. O senhor de Praslin sabia bem
demais o seu estado, e custou-me muito dinheiro com as suas construções navais.
- Mas na fazenda, senhor? - Oh! Para a fazenda, é outro caso,
escolho um homem especial.
- Um banqueiro?
- Não... Um militar. Há muito tempo que
os banqueiros me roubam.
- E na guerra, Santo Deus? - Sossegue, vai um banqueiro, Terray,
que é um esquadrinhador de contas, vai achar erros em todas as adições do senhor de Choiseul. Sempre lhe direi que tive idéia de tomar para a guerra um homem maravilhoso, um puro como eles dizem; era para agradar aos filósofos.
- Bom! Quem havia de ser? Voltaire? - Quase... O cavalheiro du Muy... Um
Catão.
- Ah! Santo Deus! Aterra-me! - Pois é verdade... Eu tinha-o mandado
chamar, estava assinado o seu decreto, e ele já me tinha agradecido, quando o meu bom ou mau génio... Não é capaz de saber, condessa, o que me fez dizer-lhe?... Que viesse esta noite a Luciennes cear e conversar.
- Oh! Que horror!
- Pois bem! Condessa, quer saber o que
Muy me respondeu?
- Diga... Diga...
- Em outros termos, condessa: mas enfim
disse-me que servir el-rei era o seu mais ardente desejo; mas servir a senhora du Barry era-lhe impossível.
- É magnífico o seu filósofo! - Compreende, condessa, estendi-lhe a
mão... Para que me entregasse a nomeação, que rasguei com um sorriso muito pachorrento, e o cavalheiro desapareceu. E contudo, se fosse Luís XIV teria mandado apodrecer um semelhante maroto nalgum dos tristes buracos da Bastilha; mas sou Luís XV, e tenho um parlamento que me dá com um chicote em lugar de ser eu quem lhe dê com ele. Eis aí o caso!
- Não importa, senhor - disse a condessa
cobrindo de beijos o seu real amante - é um homem perfeito.
- Não é isso que todos hão-de dizer.
Terray é odiado.
- Quem o não é?... E nos negócios
estrangeiros?
- Aquele bom Bertin que a condessa
conhece.
- Eu não.
- Então, que não conhece. - Mas em tudo isso não vejo eu um único
ministro bom.
- Talvez; mas diga-me quais são os seus? - Só direi um.
- Não o diz; tem medo.
- O marechal.
- Que marechal? - perguntou el-rei
fazendo uma visagem.
- O duque de Richelieu.
- Aquele velho? Um atarantado? - Ora, atarantado, o vencedor de Mahon.
- Um homem imoral, que faz fugir todas
as mulheres!
- Ora! Isso é desde que não anda atrás
delas.
- Não me fale em Richelieu, não gosto
dele! Esse vencedor de Mahon levou-me a todos os covis de Paris... Faziam-me cantigas e epigramas. Não, não!... Richelieu, oh! só o nome me faz sair fora de mim.
- Odeia-o então muito?
- Quem?
- Os Richelieu.
- Com toda a minha alma os odeio. - Todos?
- Todos. Não é um belo duque e par o
senhor de Fronsac? Mais de dez vezes mereceu ser açoitado.
- Entrego-lhe esse; mas ainda há alguns
Richelieu.
- Ah! Sim, de Aiguillon.
- Então?
O leitor que julgue de que modo o
sobrinho pôs o ouvido à escuta.
- Esse, deveria odiá-lo mais que a todos
os outros, porque me entrega nas mãos de todos os tagarelas da França, mas é uma fraqueza de que me não posso curar, é atrevido e não me desagrada.
- É um homem de espírito! - bradou a
condessa.
- Um homem corajoso e rígido defensor
da prerrogativa real. É um verdadeiro par.
- Sim, sim, cem vezes sim! Faça dele
alguma coisa.
Então el-rei olhou para a condessa
encruzando os braços.
- Como me pode propor semelhante
coisa, condessa, no momento em que a França inteira me pede que exile e exautore o duque?
Por sua vez também a senhora du Barry
encruzou os braços.
- Há pouco - disse ela - chamava a
Richelieu um atarantado; pois bem! Em si é que de direito recai esse nome.
- Oh! Condessa...
- Está bem soberbo, por ter despedido o
senhor de Choiseul.
- Ah! Não era coisa fácil.
- Mas demitiu-o, e agora recua diante
das conseqüências!
- Eu?
- Certamente. O que fez despedindo o
duque?
- Dei um pontapé no parlamento. - E não lhe quer dar outro? Com os
diabos, levante as duas pernas, uma depois da outra, já se sabe. O parlamento queria conservar Choiseul, mandou-o embora; o parlamento quer mandar embora de Aiguillon, faça o contrário, conserve-o.
- Mas eu também não o mando embora. - Guarde-o, emendado e
consideravelmente aumentado.
- Quer uma pasta para esse enredador? - Quero uma recompensa para aquele
que o defendeu, mesmo com risco das suas dignidades e da sua fortuna.
- Diga também da sua vida, porque o
duque há-de ser apedrejado qualquer dia destes, juntamente com o seu amigo Maupeou.
- Era esse um belo meio para animar os
seus defensores, se o ouvissem.
- Eles pagam-me na mesma moeda,
condessa.
- Não diga semelhante coisa, os factos
provam o contrário.
- Ora! Mas que furor é esse por de
Aiguillon?
- Furor! Nem sequer o conheço; vi-o e
falei-lhe hoje pela primeira vez.
- Ah! Isso é diferente; então é por
convicção e como eu nunca as tive, respeito todas as convicções.
- Então dê alguma coisa a Richelieu, em
nome de de Aiguillon, já que a este nada quer dar.
- A Richelieu? Nada, nada, nada! - Então ao senhor de Aiguillon, já que
não quer dar a Richelieu.
- Como! Dar-lhe uma pasta? Neste
momento é impossível.
- Pois sim... Mas depois... Lembre-se que
é homem hábil, activo, e que junto com Terray e Maupeou, terá as três cabeças de Cérbero; lembre-se também que o seu ministério é apenas um gracejo que não pode durar.
- Engana-se, condessa, há-de durar pelo
menos três meses.
- Durante três meses? Está dito, aceito e
conservo a sua palavra.
- Oh! Oh! Condessa.
- Está dito! Agora preciso alguma coisa
para o presente.
- Não tenho coisa alguma. - Tem a cavalaria ligeira; o senhor de
Aiguillon é um oficial, e o que se chama um valente espada, dê-lhe a sua cavalaria ligeira.
- Pois sim.
- Obrigada! - bradou a condessa cheia de
prazer obrigada!
E o senhor de Aiguillon sentiu dar um
beijo muito plebeu nas faces de Sua Majestade Luís XV.
- Agora - disse el-rei - dê-me de cear,
condessa.
- Não - disse ela - aqui não há coisa
nenhuma; maçou-me com política... Os meus criados fizeram discursos e fogos de vista, mas na cozinha... nada.
- Então, venha comigo a Marly. - É impossível; tenho a cabeça
despedaçada.
- Está com a enxaqueca?
- Fortíssima.
- Então deve ir deitar-se, condessa. - É o que vou fazer, senhor. - Então, adeus.
- Até à vista, quer dizer?
- Faço um pouco a figura do senhor de
Choiseul, mandam-me embora.
- Sim, mas acompanhando-o, fazendo-
lhe festas e carícias - disse a louca mulher, que brandamente ia empurrando el-rei para o lado da porta, e acabou por pô-lo fora, rindo sempre às gargalhadas e voltando-se a cada degrau que ele descia.
No alto da escada estava a condessa com
uma luz na mão.
- Ouça, condessa - disse el-rei tornando a
subir um degrau.
- Senhor!
- Contanto que o pobre marechal não
morra disso.
- De quê?
- De febre da pasta.
- Como é mau! - disse a condessa
soltando uma última gargalhada.
E Sua Majestade partiu muito satisfeito
com esse último epigrama a respeito do duque, a quem realmente odiava.
Quando a senhora du Barry voltou para
o seu gabinete, achou de Aiguillon de joelhos diante da porta, de mãos postas e com os olhos ardentemente fitos nela.
A condessa corou.
- Nada consegui - disse ela; - pobre
marechal...
- Oh! Eu sei tudo - disse ele - ouve-se
perfeitamente... Agradecido, minha senhora, agradecido!
- Creio que lhe devia tudo quanto fiz -
redargüiu a condessa com um doce sorriso; - mas levante-se, duque, senão hei-de julgar que tem tanta memória como espírito.
- Isso pode muito bem ser, minha
senhora! Como meu tio lhe disse, nada mais sou do que o seu apaixonado servidor.
- E de el-rei. Amanhã será preciso ir
cumprimentar Sua Majestade; levante-se, peço-lho eu.
E estendeu-lhe a mão, que o duque
beijou respeitosamente.
A condessa ficou muito comovida, ao
que parece, porque não acrescentou mais palavra.
O senhor de Aiguillon calou-se, tão
perturbado como a condessa; afinal, a senhora du Barry, erguendo a cabeça, disse outra vez:
- Pobre marechal! Há-de ser preciso
dizer-lhe tudo!
O senhor de Aiguillon pensou que estas
palavras eram uma despedida definitiva, e inclinou-se.
- Minha senhora - disse o duque - vou
ter com ele.
- Oh! Duque, toda a notícia má deve dar-
se o mais tarde possível! Faça coisa melhor do que ir a casa do marechal, ceie comigo.
O duque sentiu como que o perfume da
mocidade e de amor abrasar e regenerar o sangue do seu coração.
- Não é uma mulher - disse ele - é... - Sou Lange, não é verdade? - lhe disse ao
ouvido a boca ardente da condessa, que se chegou muito a ele para lhe falar mais baixo, e que consigo o levou para a mesa.
Nessa noite o senhor de Aiguillon devia
julgar-se bem feliz, porque tirou a pasta a seu tio, e comeu a parte que pertencia a el-rei.
II
AS ANTECÂMARAS DO SENHOR
DE RICHELIEU
O senhor de Richelieu, como todos os
cortesãos, tinha um palácio em Versalhes, outro em Paris, uma casa em Marly, uma em Luciennes; enfim uma habitação ao pé de cada uma das habitações ou estações de el-rei.
Luís XV, multiplicando as suas
habitações, tinha imposto a todo o homem de certa ordem, privilegiado das pequenas ou grandes entradas, a obrigação de ser muito rico para seguir numa proporção igual o trem da sua casa e o vôo dos seus caprichos.
O senhor de Richelieu portanto
habitava, no momento da demissão dos senhores de Choiseul e de Praslin, o seu palácio de Versalhes; era para ali que havia ido na véspera, na volta de Luciennes, depois de ter apresentado seu sobrinho à senhora du Barry.
Richelieu tinha sido visto com a
condessa no bosque de Marly, tinham-no visto em Versalhes depois da queda do ministro, era sabida a sua secreta e prolongada ausência em Luciennes; foi isso bastante para que toda a corte, com as indiscrições de João du Barry, se julgasse obrigada a ir cumprimentar o senhor de Richelieu.
O velho marechal ia portanto agora
também por sua vez respirar esse perfume de lisonja, de adulação e de carícias que todo o interessado vem queimar sem discernimento diante do ídolo do dia.
O senhor de Richelieu não esperava
contudo o que ia suceder-lhe; mas levantou-se na manhã do dia de que falamos, com a firme resolução de calafetar o nariz contra o perfume, do mesmo modo que Ulisses tapava os ouvidos com cera contra o canto das sereias.
O resultado para ele só devia chegar no
dia seguinte; era com efeito no dia seguinte, que devia ser conhecida e publicada por el-rei mesmo a nomeação do novo ministério.
A surpresa do marechal foi grande
quando acordando, ou melhor diremos, quando acordado por uma bulha de carruagens, soube pelo seu criado que os pátios do palácio estavam cheios, assim como as antecâmaras e as salas.
- Oh! Oh! - disse ele - parece-me que dou
que falar?
- É muito cedo, senhor marechal - disse o
criado vendo a precipitação do duque em desatar o seu barrete de dormir.
- De hoje em diante - redargüiu o duque
- já para mim não há-de haver horas, lembre-se disto.
- Sim, senhor.
- O que disseram às pessoas que me têm
procurado?
- Que V. Exª. não estava ainda
levantado.
- Simplesmente?
- Nada mais.
- É uma tolice, devia-se ter acrescentado
que eu me tinha deitado muito tarde, ou então, o que era ainda melhor, deviam... Vejamos, onde está Rafté?
- O Sr. Rafté dorme ainda - disse o
criado.
- Como dorme? Vão já acordar esse
miserável.
- Vamos, vamos! - disse um velho fresco
e alegre que apareceu no limiar da porta - aqui está Rafté, o que querem dele?
Toda a raiva do marechal se extinguiu
com estas palavras.
- Ah! Bem dizia eu que não dormias. - E quando assim fosse, o que haveria
para admirar? Ainda há pouco que é dia.
- Mas, meu caro Rafté, vês que eu não
durmo.
- Isso é outro caso, o senhor é ministro...
Como haveria de dormir?
- Bom, lá vais tu ralhar - disse o
marechal fazendo trejeitos diante do espelho; - não estás contente?
- Eu! Que me importa a mim com isso?
Vai cansar-se muito, o que o fará adoecer. Resultará disso que serei eu quem governe o Estado, e não é coisa muito divertida, senhor.
- Oh! Como estás velho, Rafté! - Tenho exactamente quatro anos menos
que o duque. Oh! Sim, estou bem velho.
O marechal bateu o pé com impaciência. - Passaste pela antecâmara? - disse ele. - Sim.
- Quem está lá?
- Toda a gente.
- O que dizem?
- Cada um conta a outro o que vem
pedir-lhe.
- Isso é muito natural; mas da minha
nomeação ouviste dizer alguma coisa?
- Oh! Prefiro não repetir o que ouvi. - Olá!... Já os críticos começam?
- E dos que de si precisam, senhor! O
que será daqueles de quem o senhor precisa?
- Ah! Rafté - disse o velho marechal
afectando rir-se - aqueles que disseram que tu me lisonjeias...
- Olhe, senhor - disse Rafté - por que
diabo se foi ligar a essa charrua chamada ministério? Está cansado de ser feliz e de viver?
- Meu caro, de tudo tenho provado,
menos disso.
- Ora adeus! Nunca provou arsénico?
Por que não engole uma pequena dose misturada com o seu chocolate, por curiosidade?
- Rafté, és um preguiçoso: adivinhas que
na qualidade de meu secretário vais ter muito que fazer, e recuas diante do trabalho... Parece-me que já o disseste.
O marechal fez-se vestir com cuidado. - Dá-me um certo garbo militar -
recomendou ele ao criado e põe-me as minhas ordens militares.
- Pelo que parece, temos a pasta da
guerra? – perguntou Rafté.
- É verdade, sim, parece que é a que nos
coube.
- Ora vamos a saber - prosseguiu Rafté -
isto não é regular, pois não vi a nomeação de el-rei.
- Ela vai chegar, sem dúvida. - Então, sem dúvida é hoje a palavra
oficial?
- Como te tens tornado desagradável
desde que envelheceste, Rafté... És formalista e purista; se eu soubesse, não teria mandado fazer por ti o meu discurso de recepção na Academia; é isso o que fez de ti um pedante.
- Então ouça, senhor, já que fazemos
parte do governo, sejamos regulares... É caso singular.
- O que é singular?
- O Sr. Conde de La Vaudraye, que
acaba de me falar na rua, disse-me que nada se havia feito ainda a respeito de ministério.
Richelieu sorriu.
- O senhor de La Vaudraye tem razão -
disse ele. - Mas então já saíste?
- Pudera! Que remédio tive eu, aquele
maldito barulho das carruagens acordou-me; vesti-me, pus as minhas ordens militares, e fui dar uma volta pela cidade.
- Ah! Parece-me que o Sr. Rafté quer
divertir-se à minha custa?
- Oh! Senhor, Deus me livre de tal; é
porque...
- É porque...
- Passeando, encontrei alguém. - Quem foi?
- O secretário do abade de Terray. - Então?
- Então, disse-me só que o seu amo
estava nomeado para a guerra.
- Oh! Oh! - disse Richelieu com o seu
eterno sorriso.
- O que conclui V. Exª. disto? - Que se o senhor de Terray tem a pasta
da guerra, não a tenho eu; e que, se ele a não tem, pode ser que eu a tenha.
Rafté tinha feito bastante para a sua
consciência; era um homem atrevido, incansável, ambicioso, com tanto espírito como seu amo, e mais bem armado do que ele, porque sabia que era plebeu e dependente, dois grandes defeitos que, durante quarenta anos, haviam exercitado toda a sua astúcia, toda a sua força e toda a agilidade do seu espírito. Rafté, vendo seu amo tão descansado, julgou que não teria também nada que temer.
- Vamos - disse ele - apresse-se, senhor,
não se faça esperar muito, seria de mau agoiro.
- Estou pronto; mas quem está lá, torno a
perguntar?
- Aqui tem a lista.
Apresentou a seu amo uma grande lista,
na qual o duque leu com satisfação os primeiros nomes da nobreza, da magistratura e da finança.
- Se eu me tornasse popular, hem Rafté?
- Estamos no tempo dos milagres -
respondeu este - podia ser.
- Ah! Taverney! - disse o marechal
continuando na leitura da lista. - Que vem ele aqui fazer?
- Não sei, senhor marechal, vamos, faça
a sua entrada.
E, quase com autoridade, o secretário
obrigou seu amo a entrar na sala grande.
Richelieu devia estar satisfeito; o modo
porque o receberam não estava abaixo das ambições de um príncipe de sangue.
Mas toda a civilidade, tão fina, tão hábil,
tão cautelosa daquela época e daquela sociedade, serviu mal o acaso, que preparava a Richelieu uma severa mistificação.
Por conveniência e por respeito à
etiqueta, toda essa multidão absteve-se de pronunciar diante de Richelieu a palavra ministério; alguns mais ousados chegaram a proferir a palavra parabéns; esses sabiam que era necessário tocar muito de leve nessa palavra, e mesmo que Richelieu apenas lhe responderia.
Para toda a gente essa visita feita ao
despontar do Sol foi apenas como uma demonstração, como um desejo, por exemplo.
Não era muito raro, naquela época, que
as mais leves aparências fossem compreendidas pelas massas e na unanimidade.
Alguns cortesãos na conversa
arriscaram-se a exprimir um voto, um desejo, uma esperança.
Um teria estimado, dizia ele, ver o seu
governo mais influente sobre Versalhes. Gostava de falar nisso com um homem de um crédito tão grande como o do senhor de Richelieu.
Outro afirmava ter sido esquecido três
vezes pelo senhor de Choiseul nas promoções de cavaleiros da ordem; contava com a obsequiosa lembrança do senhor de Richelieu para avivar a de el-rei, agora, que nada havia já que pusesse obstáculos à vontade de Sua Majestade.
Enfim outras pretensões mais ou menos
ávidas, mas apresentadas com muita arte, soaram aos ouvidos encantados do marechal.
A pouco e pouco se afastou a chusma;
queria-se, segundo diziam, deixar o senhor marechal entregue às suas importantes ocupações.
Só uma pessoa se deixou ficar na sala. Não se tinha aproximado com os outros,
nada tinha pedido, nem mesmo se havia apresentado.
Quando a gente começou a sair,
aproximou-se aquele homem do duque, com um sorriso nos lábios.
- Ah! Senhor de Taverney - disse o
marechal; - estou encantado, encantado!
- Eu esperava-te, duque, para te fazer os
meus cumprimentos, positivos e sinceros.
- Ah! Deveras; e por quê? - redargüiu
Richelieu a quem o modo reservado dos cortesãos havia obrigado a mostrar-se discreto, e como misterioso.
- Os meus cumprimentos e parabéns
pela tua nova dignidade, duque.
- Caluda! Caluda! - disse o marechal; -
Não falemos nisso... Não há coisa nenhuma feita ainda, é apenas um boato.
- Entretanto, meu caro marechal, há
muitas pessoas da minha opinião, porque as tuas salas estavam cheias.
- Mas não sei porque motivo. - Oh! Sei-o eu muito bem. - O que é? O que é?
- Foi só por uma palavra que eu disse. - Qual foi?
- Ontem, no Trianon, tive a honra de
fazer a corte a El-rei. Sua Majestade falou-me dos meus filhos, e acabou dizendo-me: “Conhece o senhor de Richelieu, creio eu; vá cumprimentá-lo”.
- Ah! Sua Majestade disse-lhe isso? -
redargüiu Richelieu com um orgulho patente, como se essas palavras tivessem sido a nomeação oficial de que Rafté duvidava ou cuja demora deplorava.
- De modo que - prosseguiu Taverney –
desconfiei logo da verdade; não era difícil vendo a pressa de toda a gente de Versalhes em vir cumprimentar-te; eu vim, obedecendo a el-rei, para te dar os parabéns, e obedecendo ao meu sentimento particular, para te recomendar a nossa antiga amizade.
O duque tinha chegado à embriaguez. É
um defeito de natureza de que os espíritos mais sólidos nem sempre se podem livrar. Só viu em Taverney um desses pretendentes da última ordem, pobre gente retardada no caminho da protecção, inúteis mesmo a ser protegidos, inúteis principalmente nas suas relações e aos quais se leva a mal que ressuscitem das suas trevas, depois de vinte anos, para virem aquecer-se aos raios do sol da prosperidade alheia.
- Bem vejo o que é - disse o marechal
asperamente - vem pedir-se-me alguma coisa.
- Exactamente, duque.
- Ah! - disse Richelieu sentando-se, ou
antes enterrando-se num sofá.
- Eu disse-te que tenho dois filhos –
continuou Taverney mansa e astuciosamente porque percebia o resfriamento do seu grande amigo, e por isso se dirigia a ele mais activamente. - Tenho uma filha, que amo muito, e que é um modelo de virtude e de formosura. Ela está em casa da senhora delfina, que se dignou tomá-la em particular estima. Da minha formosa Andreia não te falo eu, duque, porque está feita a sua fortuna, ou pelo menos está em bom caminho para isso. Já viste a minha filha? Não ta apresentei já em alguma parte? Não tens ouvido falar dela?
- Ora!... Não sei... Pode ser... - respondeu
Richelieu negligentemente.
- Não importa - prosseguiu Taverney - a
minha filha está arranjada. Eu, vês tu, de nada preciso, el-rei deu-me uma pensão que me chega para viver. Naturalmente, hei-de ter algumas luvas para reedificar Casa Vermelha, de que pretendo fazer o meu retiro supremo; com a tua influência, com a da minha filha...
- Ah! - disse consigo Richelieu, que até
então não havia escutado, enlevado com estava na contemplação da sua própria grandeza, e que essa palavra: “influência da minha filha” chamou a si de sobressalto. - Ah! Ah! A sua filha... Mas é uma jovem formosura que faz sombra àquela boa condessa; é um pequeno escorpião que se agasalha debaixo das asas da delfina para morder em alguém de Luciennes... Vamos, vamos, nada de ser mau amigo, e quanto a gratidão, aquela boa condessa, que me fez ministro, vai ver se eu sou ingrato.
Depois, em voz alta:
- Continue - disse ele com altivez ao
barão de Taverney.
- Estou quase no fim - redargüiu este
muito decidido a rir interiormente do vaidoso marechal, contanto que dele alcançasse o que pretendia; - portanto não penso mais senão no meu filho Filipe, que tem um belo nome, mas a quem sempre faltará a ocasião de açacalar esse nome, se ninguém o ajudar. Filipe é um rapaz valente e reflectido, talvez demasiado reflectido; mas isso é conseqüência da sua posição apurada; bem sabes que o cavalo, quando tem a rédea curta, baixa a cabeça.
- Que me importa a mim com isso? -
pensava o marechal fazendo visíveis e inequívocos gestos de aborrecimento e impaciência.
- Eu precisava - continuou
desapiedadamente o barão de Taverney - alguém colocado numa posição elevada, como tu, para dar a Filipe uma companhia. A senhora delfina, quando chegou a Estrasburgo, fê-lo nomear capitão; sim, mas faltaram-lhe cem mil libras para ter uma bela companhia nalgum regimento de cavalaria privilegiado. Faz-me alcançar isso, meu grande amigo.
- Seu filho - disse Richelieu - é aquele
mancebo que prestou um serviço à senhora delfina?
- E bem grande serviço - respondeu
Taverney; - foi ele que defendeu uma das mudas que esperavam por Sua Alteza Real, e que João du Barry queria levar por força.
- Olá! - disse Richelieu consigo mesmo -
é esse exactamente o maior inimigo da condessa... Vem bater a boa porta, este Taverney! Apresenta como documentos de mercê o que são documentos de exclusão formal...
- Não me respondes, duque? - disse
Taverney um pouco enfadado com a obstinação do marechal em guardar tão profundo silêncio.
- Isso tudo é impossível, meu caro
Taverney – redargüiu o marechal levantando-se para indicar que a audiência estava acabada.
- Impossível! Uma semelhante bagatela?
E é um antigo amigo que me diz semelhante coisa!?
- Por que não?... Será uma razão, por ser
amigo, como diz, que um faça uma injustiça e que o outro abuse da palavra amizade? Não me têm visto durante vinte anos, eu não era, por assim dizer, coisa nenhuma; agora que sou ministro, chegam-se.
- Senhor, de Richelieu, o injusto, neste
momento, é o marechal.
- Não, meu caro, não, não quero deixá-lo
perder o seu tempo nas antecâmaras; nisto mostro que sou um amigo verdadeiro...
- Entretanto deves ter algum motivo
para me recusar semelhante coisa?
- Eu! - exclamou Richelieu muito
desassossegado pela desconfiança que Taverney poderia ter; - Eu! Um motivo...
- Sim, tenho inimigos...
O duque poderia responder o que
pensava, mas seria descobrir ao barão que fazia a corte à senhora du Barry por gratidão; seria confessar que era ministro feito por uma favorita, e era isso o que o marechal não teria confessado nem a troco de um império; apressou-se portanto em responder ao barão:
- Não tem inimigos, meu caro, mas
tenho-os eu; conceder imediatamente, e sem examinar os documentos, uma semelhante mercê, seria expor-me a que se dissesse que faço o mesmo que Choiseul fazia. Meu caro, quero deixar vestígios da minha ingerência nos negócios. Há vinte anos que medito reformas, progressos; vão agora desabrochar; a protecção perde a França, vou ocupar-me do mérito; os escritos dos nossos filósofos são fachos cuja luz não terá vindo em vão ferir-me os olhos, estão dissipadas todas as trevas dos dias passados, e era já tempo, para a felicidade da nação... Portanto examinarei os documentos de seu filho, com a mesma imparcialidade com que examinaria os de um outro cidadão qualquer; farei esse sacrifício às minhas convicções, sacrifício bem doloroso, sem dúvida, mas que é só de um homem em proveito de trezentos mil talvez... Se seu filho, o Sr. Filipe de Taverney, me parecer que merece a minha protecção, há-de tê-la, não porque o seu pai seja meu amigo, não porque tenha um nome mais ou menos distinto, mas sim porque seja um homem de mérito: é este o meu plano.
- Queres dizer, o teu curso de filosofia -
redargüiu o velho barão, que enraivecido roía as unhas e se arrependia, despeitado, de haver encetado uma conversa que tanta condescendência e tantas pequenas fraquezas lhe havia custado.
- Filosofia, pois seja, senhor; é uma bela
palavra.
- Que dispensa belas coisas, senhor
marechal, não é verdade?
- É um mau cortesão - disse Richelieu
com um sorriso amargo.
- As pessoas da minha qualidade são
cortesãos de el-rei, somente!
- Ora! da sua qualidade! O Sr. Rafté,
meu secretário, recebe mais de mil todos os dias nas minhas antecâmaras - respondeu Richelieu - e vêm não sei de que buraco lá da província, onde se aprende a ser malcriado com os pretendidos amigos, pregando sempre em nome da amizade.
- Oh! Bem sei que um Casa Vermelha,
nobreza saída das cruzadas, não entende tão bem a igualdade como um vinhateiro menestrel!
O marechal teve mais espírito que
Taverney.
Podia mandá-lo deitar pela janela fora.
Contentou-se em encolher os ombros e responder.
- Está muito atrasado, senhor das
cruzadas; apenas está ao facto da memória caluniosa feita pelos parlamentos em 1720, e não leu a dos duques e pares que lhe serve de resposta. Entre na minha biblioteca, meu caro senhor, Rafté lhe fará ler o que ignora.
E dando essa fina resposta ao seu
antagonista, ia-o dirigindo para o lado da porta, quando de repente esta se abriu, e entrou um homem, fazendo grande rumor e dizendo:
- Onde está ele, este bom duque? Este homem radioso, com os olhos
dilatados pela satisfação, com os braços abertos, era nem mais nem menos que João du Barry.
Ao aspecto do recém-chegado, Taverney
recuou de surpresa e despeito.
João viu o gesto, conheceu essa cabeça, e
voltou-lhe as costas.
- Parece-me que entendo - disse o barão
sossegadamente - e retiro-me. Deixo o senhor ministro em perfeita companhia.
E retirou-se muito nobremente.