José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 7 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo IX

 

OS PARLAMENTOS

Enquanto todas estas intrigas de

segunda ordem, chocadas e nascidas entre os arvoredos e nas flores do Trianon, compunham uma existência bastante animada para as abelhas desse pequeno mundo, as grandes intrigas da cidade, temíveis tempestades, abriam as suas grandes asas por cima do palácio de Themis, como mitologicamente o escrevia o Sr. João du Barry a sua irmã.

Os parlamentos, resto degenerado da

antiga oposição francesa, tinham tomado nova vida sob as mãos caprichosas de Luís XV; mas desde que o seu protector, o senhor de Choiseul, tinha caído, sentiam o perigo aproximar-se e aprontavam-se a conjurá-lo com medidas tão enérgicas quanto as circunstâncias o permitiam.

Todas as grandes comoções gerais

começam por uma questão pessoal, como as grandes batalhas começam por um tiroteio isolado.

Desde que o senhor de La Chalotais,

atacando o senhor de Aiguillon, havia personalizado a luta do terço contra a feudalidade, o espírito público estava empenhado na questão e não consentia que fosse adiada.

Ora, el-rei, que o parlamento de

Bretanha e a França inteira tinham inundado com um dilúvio de representações mais ou menos submissas e filiais, el-rei, graças à senhora du Barry, acabava de dar razão contra o terço à feudalidade, nomeando o senhor de Aiguillon comandante da sua cavalaria ligeira.

O Sr. João du Barry tinha-o formulado

com exactidão: era uma boa bofetada na face dos amados e leais conselheiros do parlamento.

Como seria aceite essa bofetada? Tal era

a questão de que se tratava na corte e na cidade, todos os dias pela manhã ao despertar do Sol.

Os membros do parlamento em geral

são homens hábeis, e vêem bem claramente às vezes o que para tantos outros é confuso.

Começaram por entender-se bem entre

si sobre a aplicação e resultado da bofetada; depois do que tomaram a resolução seguinte, bem certos de que a bofetada tinha sido dada:

“A corte do parlamento deliberará sobre

o procedimento do ex-governador da Bretanha, e dará o seu parecer.”

El-rei, porém, evitou o golpe intimando

aos pares e príncipes a proibição de irem ao palácio para assistir a qualquer deliberação, fosse de que natureza fosse, a respeito do senhor de Aiguillon; os quais obedeceram.

Então resolveu o parlamento fazer ele

próprio o seu trabalho, e decretou que o duque de Aiguillon gravemente inculpado e acusado de suspeita, mesmo de factos que lhe diziam respeito à honra, fosse suspenso das suas funções de par, até que, por um julgamento proferido pela câmara dos pares na forma das solenidades prescritas pelas leis e ordenações do reino, que nada pode suprir, ele saísse plenamente absolvido das acusações e suspeitas que lhe manchavam a honra.

Mas um semelhante decreto do

parlamento, proferido contra os interessados e inscrito nos registros, era coisa de pequena importância; era preciso a publicidade, a notoriedade pública; era preciso aquele escândalo, que as canções nunca deixam de apregoar em França, o que faz que a canção seja soberana dominadora dos acontecimentos e dos homens. Era mister elevar esse decreto do parlamento à altura da canção.

Paris estimava muito interessar-se no

escândalo; pouco disposta para a corte, pouco a favor do parlamento, essa cidade de Paris em perpétua ebulição esperava algum bom assunto de riso como transição para todos esses assuntos de lágrimas que lhe forneciam havia cem anos.

O decreto portanto tinha sido

promulgado; o parlamento nomeou comissários para o fazer imprimir debaixo das suas vistas. Fez-se uma tiragem de dez mil exemplares, cuja distribuição foi organizada num momento.

Depois disso, como era do estilo que o

principal interessado fosse informado do que a corte havia deliberado a seu respeito, aqueles mesmos comissários dirigiram-se ao palácio do Sr. Duque de Aiguillon, que acabava de chegar a Paris para um negócio imperioso.

Esse negócio não era outra coisa mais

que uma explicação franca e sincera, que se havia tornado necessária entre o duque e seu tio o marechal.

Graças a Rafté, em menos de uma hora

toda a população de Versalhes tinha sabido da nobre resistência do velho duque às ordens de el-rei, a respeito da pasta do senhor de Choiseul. Graças a Versalhes, toda a cidade de Paris e toda a França tinham sabido a mesma notícia; de modo que desde algum tempo o senhor de Richelieu achava-se no estrado da popularidade, de onde fazia visagens políticas à senhora du Barry e ao seu querido sobrinho.

A posição não era boa para o senhor de

Aiguillon, já muito impopular. O marechal, tão odiado pelo povo, mas temido porque era a expressão viva da nobreza, tão despeitada e respeitável no tempo de Luís XV; o marechal, tão versátil, que depois de ter escolhido um partido viam-no fazer-lhe guerra sem rebuço, quando a circunstância o permitia, ou quando dessa guerra podia resultar um dito agudo para ele proferir; Richelieu, dizemos, era um mau inimigo para conservar; tanto mais que o pior lado da sua intimidade era sempre o que ele reservava para fazer o que chamava surpresas.

Desde a sua entrevista com a senhora du

Barry, tinha de Aiguillon dois grandes defeitos aos olhos do marechal. Adivinhando tudo quanto Richelieu ocultava de rancor e apetites ou vingança, debaixo da aparente igualdade do seu génio, fez o que se deve fazer em caso de tempestade: cortou a tromba com tiros de artilharia, na certeza que o perigo seria menor para quem corresse com ânimo contra ele.

Começou portanto a procurar o tio por

toda a parte para ter com ele uma prática muito séria; mas nada era tão difícil desde que o marechal lhe percebera o desejo.

Começaram as marchas e

contramarchas; apenas o marechal via o sobrinho nalguma parte logo o saudava com um sorriso dos mais agradáveis, e fazia por se achar cercado de grande número de pessoas que tornavam impossível toda e qualquer comunicação; desafiava assim o inimigo como numa fortaleza impenetrável.

O duque de Aiguillon cortou a tromba.

Apresentou-se sem mais nem menos em

casa de seu tio em Versalhes.

Mas Rafté, de sentinela na janelinha do

palácio que dava para o pátio, conheceu as librés do duque e foi prevenir seu amo.

O duque entrou até ao quarto de cama

do marechal; só encontrou Rafté, que, com um riso confidencial, cometeu a indiscrição de contar àquele sobrinho que o seu tio tinha passado a noite fora do palácio.

O senhor de Aiguillon mordeu os lábios

e retirou-se.

Logo que chegou a casa, escreveu ao

marechal pedindo-lhe uma audiência.

O marechal não podia deixar de

responder. Se respondesse não podia negar a audiência pedida, e se a concedesse, como recusaria uma boa explicação? O senhor de Aiguillon parecia-se muito com aqueles espadachins civilizados e encantadores, que ocultam as suas más tenções debaixo de boas aparências, trazem o homem para o campo com todas as cautelas, e então ali é esmagado sem dó nem consciência.

O marechal não tinha bastante amor-

próprio para se iludir, conhecia toda a força do seu sobrinho. Uma vez que estivesse na presença dele, esse terrível antagonista lhe arrancaria, quer um perdão, quer uma concessão. Ora, Richelieu nunca perdoava, e concessões a um inimigo são sempre um erro mortal em política.

Fingiu portanto, ao receber a carta do

senhor de Aiguillon, ter partido de Paris, por alguns dias.

Rafté, que neste ponto foi consultado,

deu-lhe o seguinte parecer:

- Estamos tratando de perder o senhor

de Aiguillon. Os nossos amigos do parlamento obram em nosso sentido. Se o senhor de Aiguillon, que disso desconfia, pode pôr-nos a mão em cima, há-de arrancar-lhe a promessa de o auxiliar em caso de desgraça, porque o seu ressentimento é daqueles que não suplantam o interesse de família; se recusa, pelo contrário, o senhor de Aiguillon sairá nomeando-o seu inimigo, atribuindo-lhe todo o mal, e ficará mais consolado, pois há sempre uma certa consolação em achar a causa de um mal qualquer, ainda que este não esteja curado.

- Tudo isso é muito justo - redargüiu

Richelieu - mas não me posso fechar eternamente. Quantos dias haverá antes da explosão?

- Seis dias, senhor.

- Com certeza?

Rafté tirou da algibeira uma carta de um

conselheiro do parlamento; essa carta continha só as duas linhas seguintes:

“Decidiu-se que seria publicado o

decreto. Fixou-se para isso o dia de quinta-feira.”

- Então, nada mais simples - respondeu

o senhor de Richelieu. - Manda outra vez ao duque a sua carta acompanhada por um bilhetinho escrito pela tua mão.

“Senhor duque.

Deve ter sabido da partida do senhor

marechal para... Esta mudança de ar foi julgada indispensável pelo médico do senhor marechal, que o acha um pouco fatigado. Se, como creio, segundo o que o outro dia fez a honra de me dizer, deseja falar com o senhor marechal, posso certificar-lhe que quinta-feira à noite, o senhor duque, voltando de... virá dormir no seu palácio em Paris; onde sem falta o encontrará.”

- E agora - acrescentou o marechal -

esconde-me nalguma parte até quinta-feira.

Rafté seguiu pontualmente estas

instruções. A cartinha foi escrita e mandada, e o marechal foi escondido; o que não impediu que saísse uma noite para ir ao Trianon falar com Nicola, porque estava aborrecido da sua prisão.

A nada se arriscava, ou pelo menos

assim o julgava, porque sabia que o Sr. Duque de Aiguillon estava em Luciennes.

Resultou dessa manobra que se o senhor

de Aiguillon desconfiava de alguma coisa, não pôde, pelo menos, prevenir o golpe de que era ameaçado, por não encontrar a espada do seu inimigo.

A demora de quinta-feira satisfê-lo;

partiu naquele dia de Versalhes com a esperança de encontrar finalmente e de combater esse invisível antagonista.

Era, como dissemos, no dia em que tinha

sido assinado o decreto do parlamento.

Uma fermentação surda ainda mais

perfeitamente inteligível para o parisiense, que tão bem conhece o nível das suas ondas, reinava nas grandes ruas por onde passou a carruagem do senhor de Aiguillon.

Não fizeram caso dele, porque tinha

tomado a précaução de viajar numa carruagem sem brasão, com dois criados sem libré.

Viu com efeito num ou noutro lugar

alguns grupos de indivíduos muito ocupados em ler um papel, fazendo gestos e trejeitos e apinhando-se em torno do que lia, como as formigas se apinham em torno de um torrão de açúcar caído no chão; mas era o tempo das agitações inofensivas: o povo agrupava-se geralmente assim por causa de um imposto sobre trigos, por um artigo da Gazeta de Holanda, por uma quadra de Voltaire ou por uma canção contra a du Barry ou contra o senhor de Maupeou.

O senhor de Aiguillon seguiu direito ao

palácio do senhor de Richelieu; só encontrou Rafté.

- O senhor marechal - respondeu este - é

esperado a todo o momento; o motivo de não ter ainda chegado será talvez proveniente de alguma demora nas barreiras.

O senhor de Aiguillon propôs-se a

esperar, manifestando todavia a Rafté o seu mau humor, porque tomava a desculpa por uma nova recusa do marechal.

Esse mau humor aumentou muito

quando Rafté lhe disse que o senhor marechal ficaria desesperado, quando voltasse e soubesse que tinham feito esperar o senhor de Aiguillon; que, de mais a mais, virá dormir a Paris, como ao princípio se tinha convencionado; que, sem dúvida, não voltaria sozinho do campo, e apenas atravessaria Paris tocando unicamente no palácio para saber as novidades; que, por conseqüência, seria melhor que o Sr. Duque de Aiguillon voltasse para o seu palácio, onde o senhor marechal o iria procurar.

- Ouça, Rafté - disse de Aiguillon, que se

tinha entristecido muito durante esta réplica obscura; - o senhor é a consciência de meu tio: responda-me como homem honrado. Estão zombando de mim, não é verdade? E o senhor marechal não me quer ver. Não me interrompa, Rafté, muitas vezes tem sido para mim um bom conselheiro, e eu tenho sido para o senhor o que ainda serei, um bom amigo; devo voltar para Versalhes?

- Senhor duque, dou-lhe a minha

palavra de honra, que antes de uma hora receberá em sua casa a visita do senhor marechal.

- Mas, nesse caso, será melhor esperá-lo

aqui, se ele tem de vir a casa.

- Já tive a honra de lhe dizer que talvez

não viesse só.

- Compreendo... e tenho a sua palavra,

Rafté.

Com estas palavras, o duque saiu

pensativo, mas com um modo tão nobre e gracioso quanto o era pouco o rosto do marechal quando saiu de um gabinete, em que estava fechado, logo depois da partida do sobrinho.

O marechal sorria como um daqueles

negros demónios que Callot semeou nas suas Tentações.

- De nada desconfia, Rafté? - perguntou

ele.

- De nada, senhor.

- Que horas são?

- A hora é indiferente, senhor; devemos

esperar que o nosso procuradorzinho do Châtelet nos venha prevenir. Os comissários estão ainda em casa do impressor.

Mal tinha Rafté acabado de falar,

quando um criado fez entrar por uma porta secreta uma personagem bastante sebenta, bastante feia, bastante negra, uma dessas penas vivas pelas quais o senhor du Barry professava uma tão violenta antipatia.

Rafté empurrou o marechal para o

gabinete, e caminhou todo risonho ao encontro daquele homem.

- Ah! É o senhor, mestre Flageot! - disse

ele; - estou encantado de o ver.

- Seu servo, Sr. Rafté; muito bem, o

negócio está feito!

- É impresso?

- Uma tiragem de cinco mil exemplares,

grande parte dos quais já estão distribuídos, e os outros estão enxugando.

- Que desgraça, meu caro Sr. Flageot!

Que desgosto para a família do senhor marechal.

O Sr. Flageot, para se dispensar de

responder, isto é, de mentir, tirou da algibeira uma grande caixa de prata, e tomou uma pitada de tabaco espanhol.

- E depois o que se faz? - perguntou

Rafté.

- A fórmula do estilo, meu caro Sr. Rafté.

Os senhores comissários, seguros da tiragem e da distribuição, entrarão imediatamente na carruagem que os esperará à porta do impressor, e irão significar o decreto ao senhor de Aiguillon, que exactamente, veja que fortuna, quero dizer, que desgraça, Sr. Rafté, se acha no seu palácio em Paris, onde poderão falar-lhe!

Rafté fez um movimento para chegar a

uma mesa e pegar num enorme saco cheio de autos que entregou a mestre Flageot, dizendo-lhe:

- Eis aqui os documentos de que lhe

falei; o senhor marechal tem a mais ilimitada confiança nas suas luzes e entrega-lhe este negócio, que deve ser de grande vantagem para o senhor. Agradeço os seus serviços no deplorável conflito do senhor de Aiguillon com o todo-poderoso parlamento de Paris, e agradeço igualmente os seus bons conselhos.

E empurrou brandamente, mas com

certa pressa, para a porta da antecâmara mestre Flageot, que ia encantado com o peso dos seus autos.

Em seguida, indo soltar o duque da sua

prisão, disse-lhe:

- Vamos, para a carruagem, senhor! Não

tem tempo a perder; se quer assistir à representação, faça com que os seus cavalos caminhem mais depressa que os dos senhores comissários.

X

 

EM QUE SE DEMONSTRA QUE O

CAMINHO DO MINISTÉRIO NÃO

É TODO DE ROSAS

Os cavalos da carruagem do senhor de

Richelieu caminhavam mais depressa que os dos senhores comissários, pois que o marechal foi o primeiro a entrar no pátio do palácio do duque de Aiguillon.

O duque não esperava já seu tio, e

preparava-se para partir para Luciennes, a fim de anunciar à senhora du Barry que o inimigo tinha tirado a máscara; mas o criado, anunciando o marechal, despertou do fundo do seu entorpecimento aquele espírito desanimado.

O duque correu ao encontro de seu tio, e

pegou-lhe nas mãos com uma afectação de ternura medida pelo medo que havia tido.

O marechal imitou o duque: era um

quadro tocante. Via-se todavia que o senhor de Aiguillon apressava o momento das explicações, enquanto que o marechal o retardava o melhor que podia, entretendo-se em olhar para um quadro, uma tapeçaria, ou queixando-se de fadiga.

O duque cortou todas as saídas a seu tio,

fechou-o numa poltrona como o senhor de Villars tinha fechado o príncipe Eugénio em Marchiennes, e para ataque começou por lhe dizer:

- Meu tio, será verdade que o senhor, o

homem mais cheio de espírito da França inteira, me tenha julgado tão mal para crer que eu não seria egoísta por nós ambos?

Não havia que recuar, Richelieu tomou

o seu partido.

- O que estás tu aí dizendo? - redargüiu

ele - e em que vês tu que eu te julguei bem ou mal, meu caro?

- É porque vejo que está indiferente

comigo.

- Eu! A que propósito?

- Oh! Não o negue, senhor marechal;

evita-me sempre que de si necessito, basta dizer-lhe isto.

- Palavra de honra, que não te entendo. - Então vou explicar-lhe tudo. El-rei não

quis nomeá-lo ministro, e como eu aceitei o comando da cavalaria ligeira, supõe talvez por isso não só que o abandonei, mas também que o atraiçoei. Pois não é assim, meu tio, e saiba igualmente que aquela boa condessa o traz no coração!

Neste ponto Richelieu mostrou-se mais

atento, mas, não foi somente às palavras de seu sobrinho.

- Dizes-me que me tem no coração

aquela boa condessa? - acrescentou ele.

- E hei-de prová-lo.

- Mas, meu caro, eu não contesto...

Mandei-te chamar para me ajudar no trabalho. És mais novo, por conseqüência mais forte; tu vences, eu sucumbo; é a ordem natural das coisas, e por minha alma, não sei o que significam os teus escrúpulos; se obraste no meu interesse, és cem vezes aprovado; se obraste contra mim, deixa estar! Não ficarás sem o pago... Vale isto a pena de uma explicação?

- Meu tio, realmente...

- És uma criança, duque. A tua posição é

magnífica: par de França, duque, comandante da cavalaria ligeira, ministro em seis semanas, deves ser superior a toda a fútil mesquinhez; o sucesso absolve, meu caro. Supõe... gosto muito dos apólogos... supõe que somos os dois jumentos da fábula... Mas, que bulha é essa que eu ouço?

- Nada, meu tio; continue. - É alguma coisa, sinto o rodar de uma

carruagem no pátio.

- Meu tio, não se interrompa, suplico-

lhe; a sua conversa interessa-me muito, eu também gosto dos apólogos.

- Pois bem, meu caro, eu queria dizer-te

que nunca, na prosperidade, te dirão de cara a cara os teus erros nem terás de recear o despeito dos invejosos; mas se cambaleias, se vacilas... Ah! Então é outro caso, toma cuidado, é nesse momento que o lobo ataca. Mas, vê tu, eu bem to dizia, sinto bulha na tua ante-sala, é que te vem trazer alguém a pasta do ministério... A condessa terá trabalhado a teu favor na alcova.

Entrou o criado.

- Os senhores comissários do

parlamento - disse ele com desassossego.

- Ah! - disse Richelieu.

- Comissários do parlamento aqui? O

que me querem? - perguntou o duque, pouco sossegado, vendo o sorriso de seu tio.

- Em nome de el-rei! - disse uma voz

sonora, entrando na antecâmara.

- Oh! Oh! - exclamou Richelieu. O senhor de Aiguillon levantou-se

pálido, e veio à porta da sala receber e introduzir ele próprio os dois comissários, por detrás dos quais se viam dois meirinhos impassíveis, depois, nalguma distância, uma legião de lacaios espantados.

- O que pretendem de mim? - perguntou

o duque com uma voz comovida.

- É com o Sr. Duque de Aiguillon que

temos a honra de falar? - disse um dos comissários.

- Sim, senhores, o duque de Aiguillon

sou eu.

E acto contínuo, puxou o comissário, da

sua cintura, um auto em boa e devida forma, do qual fez uma leitura em voz alta e inteligível, tendo previamente cortejado o duque com o mais profundo respeito.

Era o decreto circunstanciado, completo,

que declarava o duque de Aiguillon gravemente culpado e pronunciado por suspeitas mesmo de factos que lhe manchavam a honra, e o suspendia das suas funções de par do reino.

O duque ouviu essa leitura como um

homem fulminado ouve o ribombo do trovão. Não se moveu mais que o faria uma estátua sobre um pedestal, e nem sequer estendeu a mão para receber a cópia do decreto que lhe oferecia o comissário do parlamento.

Foi o marechal que, de pé também, mas

atento e com vivacidade, recebeu esse papel, leu-o, e cortejou os comissários.

Já estes iam longe e ainda o duque de

Aiguillon se conservava no mesmo entorpecimento.

- É este um terrível golpe - disse

Richelieu! - já não és par de França, é uma humilhação.

O duque voltou-se para o tio, como se

nesse momento unicamente cobrara alma e vida.

- Não esperavas por isto? - disse

Richelieu no mesmo tom.

- E meu tio? - redargüiu de Aiguillon. - Como queres tu que alguém pudesse

suspeitar que o parlamento declararia uma semelhante guerra ao favorito do rei e da favorita?... Essa gente há-de fazer-se esmagar.

O duque sentou-se, e encostou à mão o

seu rosto abrasado.

- É que - prosseguiu o velho marechal

cravando cada vez mais o punhal na sua vítima - se o parlamento te demite de par por teres sido nomeado comandante da cavalaria ligeira, é capaz de te mandar prender e queimar no dia em que fores nomeado ministro. Essa gente odeia-te, de Aiguillon; desconfia deles.

O duque sustentou essa horrível

zombaria com uma constância heróica; a sua desgraça o engrandecia, apurava-lhe a alma.

Richelieu julgou que essa constância era

insensibilidade, ininteligência talvez, e que as ferroadelas não tinham sido agudas bastante.

- Não sendo já par - disse ele - estarás

menos exposto ao ódio desses samarras... Refugia-te por alguns anos na obscuridade. Demais, bem vês que a obscuridade, tua salvaguarda, vai chegar mesmo sem que o queiras; caído das funções de par, mais dificilmente chegarás ao ministério, e assim te salvarás; quando pelo contrário, se queres lutar, meu amigo, ah! nesse caso, tens por ti a senhora du Barry, que te protege, e que é um sólido apoio.

O senhor de Aiguillon levantou-se. Nem

mesmo respondeu ao marechal com um olhar de raiva por todos os padecimentos que o velho lhe fizera sofrer.

- Tem razão, meu tio - respondeu ele

sossegadamente - e a sua sabedoria transluz nesse conselho. A Srª. Condessa du Barry, a quem teve a bondade de me apresentar, e a quem disse tanto bem de mim e com tanta veemência, como todos são testemunhas em Luciennes, a senhora du Barry me defenderá. Graças a Deus, ela estima-me, é forte, e tem imenso poder sobre o espírito de Sua Majestade. Obrigado, meu tio, agradeço o seu conselho, abraço-o com toda a minha alma, porque nele acharei a salvação. A minha carruagem! Bourguignon, vamos a Luciennes.

O marechal suspendeu o riso que

começara.

O senhor de Aiguillon cumprimentou

respeitosamente seu tio, e saiu da sala deixando o marechal muito intrigado, e sobretudo confuso e perturbado pela raiva com que tinha mordido naquela carne tão viva e nobre.

Houve alguma consolação para o velho

marechal na louca alegria dos parisienses, quando à noite leram os dez mil exemplares do decreto que se arrancavam uns aos outros nas ruas. Mas não pôde evitar um suspiro, quando à noite Rafté lhe pediu contas do que se tinha passado.

Ele contou-lhe tudo com a maior

exactidão.

- O golpe portanto foi recebido?- disse o

secretário.

- Sim e não, Rafté; mas a ferida não é

mortal, e temos no Trianon coisa muito melhor que estou arrependido de não haver unicamente posto em andamento. Corremos duas lebres, Rafté... É uma grande loucura.

- Por quê, uma vez que agarremos a

melhor?

- Ah! meu caro, a melhor, lembra-te

sempre disto, a melhor é aquela que não se agarra, e por essa estamos sempre prontos a dar a outra, isto é, a que temos em nosso poder.

Rafté encolheu os ombros, e entretanto o

senhor de Richelieu tinha razão.

- Julga - disse ele - que o senhor de

Aiguillon poderá sair-se de uma destas?

- Julgas tu que el-rei se sairá bem,

pateta?

- Oh! El-rei faz um buraco em qualquer

parte e passa; mas parece-me que não estamos tratando de el-rei.

- Onde el-rei passar, há-de passar a

senhora du Barry, que anda tão junta dele... E por onde passar a senhora du Barry, também de Aiguillon poderá passar, ele que... Mas tu nada entendes de política, Rafté.

- Senhor, não é essa a opinião do mestre

Flageot.

- Bom! O que diz então mestre Flageot, e

principalmente quem é esse mestre Flageot?

- É um procurador, senhor. - E depois?

- Depois, mestre Flageot pretende que

el-rei mesmo não se poderá sair bem dali.

- Oh! Oh! Quem porá então obstáculos

ao leão?

- Eu sei, senhor, talvez seja o rato!... - Mestre Flageot, então?

- Diz que sim.

- E crês o que ele diz?

- Sempre creio o que diz um procurador,

quando promete fazer mal.

- Veremos, Rafté, quais são os meios de

mestre Flageot.

- É também o que eu digo, senhor. - Então vem cear, porque me quero

deitar... Estou incomodado por ver que o meu pobre sobrinho já não é par de França e que não há-de ser ministro. Bem vês que um tio, Rafté, sempre se sente destas coisas.

O senhor de Richelieu começou a

suspirar, e depois deu uma gargalhada.

- O senhor tem portanto tudo que lhe é

preciso para ser ministro - redargüiu Rafté.