José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XXVIII
O ROMANCE DE GILBERTO
Era Gilberto, dissemos, tão pálido como
Andreia, tão desolado, tão abatido como ela.
A vista de um homem, à vista de um
estranho, Andreia deu-se pressa em enxugar as lágrimas, como se a altiva donzela se envergonhasse de chorar. Compôs o semblante e restituiu a imobilidade às faces de mármore, que o frémito do desespero agitara.
Gilberto levou mais tempo a acalmar-se,
e as feições conservavam-lhe a expressão dolorosa, que a menina de Taverney notou logo que, erguendo os olhos, o viu diante de si.
- Ah! Outra vez o Sr. Gilberto - disse
Andreia com o tom ligeiro que afectava todas as vezes que o acaso, como ela julgava, a aproximava do mancebo.
Gilberto não respondeu; estava ainda
muito comovido.
A dor, que fizera estremecer o corpo de
Andreia, abalara violentamente o dele.
Foi portanto Andreia que prosseguiu,
querendo decifrar aquele enigma:
- Mas o que tem, Sr. Gilberto? -
perguntou ela; - por que olha para mim com esse modo triste? Tem coisa que o aflija, decerto, o que é, senhor?
- Deseja sabê-lo? - perguntou
melancolicamente Gilberto, que sob aquela aparência de interesse descobria a ironia.
- Desejo, sim.
- Pois bem, o que me entristece é vê-la
aflita, minha senhora - redargüiu Gilberto.
- E quem lhe disse que eu estava aflita,
senhor?
- Vejo-o eu.
- Está enganado, senhor, que não estou
aflita – disse Andreia passando pela segunda vez o lenço pelos olhos.
Gilberto sentia aproximar-se a
tempestade; resolveu desviá-la com a sua humildade.
- Perdão, minha senhora - disse ele - é
que ouvi os seus queixumes.
- Ah! Estava escutando? É melhor
então...
- Minha senhora, foi o acaso - balbuciou
Gilberto, sentindo mentir.
- O acaso! É-me muito desagradável, Sr.
Gilberto, que o acaso o conduzisse junto de mim; mas fosse como fosse, em que puderam entristecê-lo as queixas que ouviu, peço-lhe que mo diga?
- Não gosto de ver chorar uma mulher –
disse Gilberto num tom que desagradou soberanamente a Andreia.
- Serei eu por acaso uma mulher para o
Sr. Gilberto? - redargüiu a altiva senhora. - Eu não mendigo a compaixão de pessoa alguma, e a do Sr. Gilberto ainda menos que a de qualquer outro.
- Minha senhora - disse Gilberto
abanando a cabeça - faz mal em me tratar assim; vi-a triste, e afligi-me ouvindo-lhe dizer que partindo o Sr. Filipe ficava só no mundo! Oh! Não, não, minha senhora, porque fico eu; e nunca palpitou por si coração mais afeiçoado. Repito-o, não, nunca a menina de Taverney estará só no mundo enquanto eu tiver cabeça para pensar, coração para bater, braço para obrar.
Gilberto estava realmente belo de vigor,
nobreza e dedicação pronunciando aquelas palavras, conquanto o fizesse com toda a simplicidade que ordenava o respeito mais profundo.
Mas estava decidido que tudo, no infeliz
mancebo, havia de desagradar a Andreia, havia de ofendê-la e impeli-la a dar respostas humilhantes, como se cada um dos respeitos do pobre moço fosse um insulto, cada um dos seus rogos uma provocação. Quis primeiro levantar-se para achar um gesto mais severo com uma palavra mais livre; mas um estremecimento nervoso a prendeu ao banco. Depois pensou que, de pé, seria vista de mais longe conversando com Gilberto. Por isso, deixou-se ficar sentada, porque uma vez por todas queria esmagar com o pé o insecto que se lhe tornava importuno.
Respondeu portanto:
- Eu julgava ter-lhe já dito, Sr. Gilberto,
que me era soberanamente desagradável, que a sua voz me irritava, que me repugnavam os seus modos filosóficos. Por que motivo, tendo-lhe eu dito isto, teima em falar-me?
- Minha senhora, mostrar simpatia por
uma mulher honrada, não é coisa que irrite - disse Gilberto pálido, mas contendo-se. - Um homem honrado é igual de toda a criatura humana, e eu a quem maltrata tão desumanamente, mereço talvez mais que outro qualquer a simpatia que me pesa não lhe ver sentir por mim.
Andreia, ouvindo a palavra simpatia
repetida duas vezes, abriu muito os olhos e cravou-os impertinentemente em Gilberto.
- Simpatia! - disse ela - simpatia entre si
e mim, Sr. Gilberto! Realmente eu estava enganada a seu respeito. Julgava que era um insolente, mas é ainda menos que isso: é um doido.
- Nem sou insolente nem doido - disse
Gilberto com aparente tranqüilidade, que muito devia custar a manter à soberba que lhe conhecemos. - Não, minha senhora, porque a natureza fez-me seu igual, e o acaso fez-lhe ser-me obrigada.
- Outra vez o acaso! - disse Andreia com
ironia.
- A Providência, devera talvez ter dito.
Nunca lhe teria falado nisso, mas as suas injúrias avivam-me a lembrança.
- Sua obrigada, eu? Sua obrigada, foi o
que disse? Como é isso, Sr. Gilberto?
- Gorarei por si de tanta ingratidão,
minha senhora; Deus, que tão formosa a fez, deu-lhe, além desse defeito, muitos outros, para compensar essa formosura.
Desta vez Andreia levantou-se.
- Perdoe-me - disse Gilberto - mas às
vezes irrita-me de mais, e então esqueço o interesse que me inspira.
Andreia pôs-se a rir às gargalhadas, a
ponto de levar a cólera de Gilberto ao seu paroxismo; mas, com grande admiração sua, Gilberto não se inflamou. Cruzou os braços no peito, conservou a expressão hostil e obstinada do seu olhar de fogo, e esperou com paciência o fim daquela rajada ultrajante.
- Minha senhora - disse friamente
Gilberto - digne-se responder a uma só pergunta: respeita seu pai?
- Na verdade, parece que me está
interrogando, Sr. Gilberto?! - exclamou Andreia com altivez.
- Sim, respeita seu pai - prosseguiu
Gilberto - e não por causa das qualidades, nem das virtudes dele; não, é unicamente porque lhe deu a vida. Um pai, desgraçadamente, deve saber isso, minha senhora, um pai não é respeitável senão por esse título, mas enfim é um título. Há mais: por esse único benefício da vida - e Gilberto ia por sua vez assumindo um ar de desdenhosa compaixão; - por esse único benefício - prosseguiu ele - há obrigação de amar o benfeitor. Pois bem, minha senhora, posto isto em princípio, por que motivo me ultraja? Por que me repele? Por que me odeia, a mim que lhe não dei a vida, é verdade, mas que lha salvei?
- O senhor! - bradou Andreia - o senhor
salvou-me a vida?
- Ah! Nem sequer pensou nisso - disse
Gilberto - ou talvez se tenha esquecido; é muito natural, já lá vai quase um ano. Será, portanto, preciso que lho torne a lembrar, minha senhora. Sim, salvei-lhe a vida sacrificando a minha.
- Ao menos, Sr. Gilberto - disse Andreia
muito pálida - há-de fazer-me a mercê de dizer onde e quando?
- No dia, minha senhora, em que cem
mil pessoas, esmagando-se umas às outras, fugindo dos cavalos fogosos, das espadas que ceifavam a multidão, deixaram na Praça de Luís XV grande número de feridos e de cadáveres.
- Ah! No dia 31 de Maio.
- Sim, minha senhora.
Andreia sossegou e mostrou o seu
sorriso irónico.
- E diz o Sr. Gilberto que nesse dia
arriscou a sua vida para salvar a minha?
- Já tive a honra de lho dizer. - É portanto o Sr. Barão de Bálsamo?
Peço-lhe perdão, porque o ignorava.
- Não - disse Gilberto com os olhos
inflamados e os lábios trémulos - não sou o Sr. Barão de Bálsamo, sou um pobre filho do povo, sou Gilberto, que tem a loucura, a desgraça de amar; que, por amá-la como um insensato, como um louco, como um desesperado, a segui por entre a multidão; sou Gilberto, que, separado um instante da senhora, tornei a encontrá-la por causa do grito terrível que soltou quando caiu; sou Gilberto, que caí ao pé de si e a envolvi com os meus braços até que vinte mil braços, pesando sobre os meus, me tivessem aniquilado as forças; sou Gilberto, que me lancei sobre o pilar de pedra, contra o qual ia ser esmagada, para lhe oferecer o apoio mais brando de meu cadáver; sou Gilberto, que vendo na multidão o homem singular que parecia dominar os outros homens, e cujo nome acaba de pronunciar, reuni as minhas forças, e a ergui nos meus braços extenuados para que aquele homem a pudesse ver, agarrar e salvar; sou Gilberto, finalmente, que da senhora, que cedi a um salvador mais feliz do que eu, só guardei um pedaço do vestido, que levei logo aos lábios, e era tempo, porque o sangue afluiu-me ao coração, às fontes, à cabeça, e a onda movediça dos carrascos e das vítimas, rolando sobre mim, cobriu-me, e enquanto, semelhante ao anjo da ressurreição, a senhora subia para o céu, ficava eu no abismo!
Gilberto acabava de se dar a conhecer,
isto é selvagem, lhano, sublime, na sua resolução como no seu amor. Por isso Andreia, apesar do seu desprezo, não podia olhar para ele sem admiração. Por um momento pensou o triste que a sua história fora irresistível como a verdade, como o amor. Mas o pobre Gilberto não contava com a incredulidade, essa má fé do ódio. Ora, Andreia, que odiava Gilberto, não se deixara levar por nenhum dos argumentos vencedores daquele amante desprezado.
Primeiramente não deu resposta e olhou
para Gilberto; mas via-se que no seu espírito se passava uma luta tremenda.
O desditoso mancebo, pouco à vontade
em presença de tão frio silêncio, viu-se obrigado a acrescentar em guisa de peroração:
- Portanto, agora, minha senhora, não
continue a odiar-me tanto, porque seria não só injustiça mas também ingratidão, como eu lho dizia há pouco e torno a repeti-lo.
Mas a essas palavras, Andreia ergueu a
cabeça altiva, e no tom mais indiferentemente cruel, disse:
- Sr. Gilberto, quanto tempo esteve de
aprendizagem em casa do Sr. Rousseau?
- Minha senhora - disse novamente
Gilberto – três meses, creio eu, sem contar os dias que estive doente em conseqüência do desastre de 31 de Maio.
- Engana-se - disse ela - eu não lhe
pergunto se esteve doente ou não... Desastres!... Isso remata artisticamente talvez o seu conto... Mas pouco me importa. Queria só dizer-lhe, que, tendo apenas permanecido três meses em casa do ilustre escritor, aproveitou muito, e que o discípulo faz assim de improviso romances quase dignos dos que publica o mestre.
Gilberto, que a escutara com sossego,
julgando que Andreia ia responder coisas sérias às coisas apaixonadas que lhe dissera, caiu de toda a altura da sua sinceridade sob o golpe daquela asquerosa ironia.
- Um romance! - murmurou ele
indignado - trata de romance o que acabo de lhe dizer?
- Sim, senhor - disse Andreia - um
romance, repito o termo; só me não obrigou a lê-lo e eu agradeço-lho; mas, infelizmente, tenho muita pena de não o poder pagar pelo seu valor; ainda que eu quisesse, é um romance impagável.
- É então isso o que me responde? -
murmurou Gilberto com o coração opresso e os olhos amortecidos.
- Faço mais, nem sequer lhe respondo,
senhor – disse Andreia repelindo-o para passar diante dele.
Neste momento, Nicola, chegando à
entrada da rua do jardim, chamou pela ama para não interromper repentinamente a conversa, cujo interlocutor não conhecia, porque, por entre a folhagem não pudera conhecer Gilberto.
Mas aproximando-se, viu o mancebo,
conheceu-o e ficou estupefacta. Então arrependeu-se de não ter dado outra volta, a fim de ouvir o que Gilberto dissera à senhora de Taverney.
Esta, dirigindo-se então a Nicola
brandamente, como para melhor fazer sentir a Gilberto a altivez com que lhe falara:
- O que é, minha filha? - perguntou. - O Sr. Barão de Taverney e o Sr. Duque
de Richelieu vieram procurar a menina - respondeu Nicola.
- Onde estão eles?
- No jardim, próximo da escada. - Vem comigo.
Andreia retirou-se.
Nicola acompanhou-a, mas não sem
lançar um olhar irónico para Gilberto, que, menos pálido que lívido, menos agitado que louco, menos enraivecido que desesperado, estendera o punho na direcção da rua por onde se afastara a sua inimiga, e rangendo os dentes, murmurava:
- Criatura sem coração, corpo sem alma;
salvei-te a vida, concentrei o meu amor, fiz calar todos os sentimentos que podiam ofender o que eu chamarei a tua candura, porque, para mim, no meu delírio, eras uma virgem santa, como a Virgem que está no Céu... Agora, vi-te de perto, não és mais que uma mulher, e eu sou um homem... Oh! Mais dia, menos dia, eu me vingarei, Andreia de Taverney; já duas vezes te tive em meu poder, e duas vezes te respeitei; cuidado com a terceira, Andreia de Taverney!... Até outra vez, Andreia!... Veremos a tua soberba...
E afastou-se, saltando por entre os
arbustos, como um lobo ferido, que se revira mostrando os dentes agudos e os olhos chamejantes.