José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 17 de 29

Páginas do PDF

José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XXI

 

O HOMEM E AS SUAS OBRAS

Enquanto Marat empregava tão bem o

tempo, filosofando sobre a consciência e a dupla vida, outro filósofo na Rua Platrière ocupava-se também em reunir na mente, ponto por ponto, quanto lhe sucedera na noite antecedente, e a interrogar-se para saber se era ou não um grande culpado. Com os braços brandamente apoiados na mesa, a cabeça pesadamente inclinada sobre o ombro esquerdo, Rousseau meditava.

Tinha bem abertos diante de si os seus

livros políticos e filosóficos, o Emílio e o Contrato Social.

De vez em quando, se o pensamento o

exigia, curvava-se para folhear os livros que sabia de cor.

- Ai, meu Deus - disse ao ler um

parágrafo do Emílio sobre a liberdade da consciência - aqui estão frases bem incendiárias. Que filosofia, Santo Deus! Houve nunca no mundo um botafogo semelhante?

“Pois quê?! - acrescentou erguendo as

mãos acima da cabeça - fui eu que proferi semelhantes palavras contra o trono, o altar e a sociedade!...”

Já me não admira que algumas paixões

sombrias e concentradas aproveitassem os meus sofismas e se perdessem na senda que eu lhes semeava de flores de retórica. Fui o perturbador da sociedade!...

Ergueu-se muito agitado e deu duas ou

três voltas no pequeno quarto.

- E disse eu mal da gente do poder que

exercia a tirania contra os escritores! Louco, bárbaro, que eu era! Essa gente tem muita razão.

“O que sou eu senão um homem

perigoso para o Estado? Proferi as minhas palavras para alumiar as massas, era pelo menos o que tomava por pretexto: e as minhas palavras são um facho que vai incendiar o universo.

Semeei discursos sobre a desigualdade

das condições, projectos de fraternidade universal, planos de educação, e colho orgulhos tão ferozes que invertem o sentido da sociedade, guerras intestinas capazes de despovoar o mundo, e costumes tão rudes que fariam recuar dez séculos a civilização... Oh! sou um grande culpado!”

Leu uma página do Vigário Saboiano. - Sim, é isso: “Reunamo-nos para tratar

da nossa felicidade...” Escrevi-o eu! “Devemos dar às nossas virtudes a força que os outros dão aos seus vícios”, também fui eu que o escrevi!

E Rousseau, remexendo-se na cadeira,

agitou-se mais desesperado que nunca.

- Aí estão pois, e por culpa minha - disse

ele – os irmãos postos defronte dos irmãos; qualquer dia a polícia invadirá um daqueles subterrâneos, apanhará ninhadas de conspiradores que juram engolir-se uns aos outros em caso de traição, e aparecerá então algum mais arrojado, que puxará da algibeira por um livro, e mostrando-o exclamará:

“- De que vos queixais? Somos adeptos

do Sr. Rousseau; fazemos um curso de filosofia.” Oh! Como Voltaire se há-de rir! Nestas não há receio que aquele cortesão se meta!

A idéia de que Voltaire havia de

escarnecer dele encolerizou violentamente o filósofo genebrês.

- Conspirador, eu! - murmurou ele –

decididamente caí em demência!... E que belo conspirador que eu sou!

Estava neste ponto do seu discurso

quando Teresa entrou sem que ele a visse. Trazia o almoço.

Viu que lia com atenção uma página das

Meditações de Um Solitário.

- Bom - disse ela - pondo-lhe o copo de

leite quente mesmo em cima do livro, - aí está o meu orgulhoso mirando-se no seu espelho. O senhor lê os seus livros; está o Sr. Rousseau revendo-se na sua obra!

- Vamos, Teresa - disse o filósofo - tenha

paciência, deixe-me; não estou brincando.

- É magnífico, não é verdade? -

continuou ela zombando. - O senhor extasia-se! Têm os autores tanta vaidade, tantos defeitos, e a nós, pobres mulheres, tão poucos nos perdoam! Lembre-me eu de ir ver-me ao espelho, que lá está o senhor para ralhar comigo, chamando-me presumida.

E neste tom continuou, tornando-o o

mais infeliz dos homens, como se Rousseau não fosse opulentamente dotado pela natureza.

O filósofo bebeu o leite sem molhar nele

o pão.

Meditava.

- Bom, está pensando - disse ela; - vai

escrever mais algum livro cheio de horrores.

Rousseau estremeceu.

- Ah! Está pensando nas suas mulheres

imaginárias - prosseguiu Teresa - e escreve livros que as meninas solteiras não se atreverão a ler, ou profanações que serão queimadas pela mão do carrasco.

O mártir estremeceu. Teresa adivinhara. - Não - respondeu ele - nada mais

escreverei que suscite maus pensamentos... Quero, pelo contrário, fazer um livro que todos os homens de bem hão-de ler com transportes de júbilo...

- Oh! Oh! - disse Teresa tirando o copo

em que trouxera o leite - é impossível; só tem obscenidades na cabeça... Ainda há poucos dias lhe ouvi ler uma passagem, não me lembra a que respeito, e falava das mulheres que adorava... É um sátiro! Um mágico!

A palavra mágico era uma das mais

horríveis injúrias do vocabulário de Teresa. Fazia sempre estremecer Rousseau.

- Espere - disse ele - espere, minha

amiga, e verá que há-de ficar satisfeita... Quero escrever que achei um meio de regenerar o mundo sem trazer nas transformações, que se efectuarem, o padecimento de um único indivíduo. Sim, sim, vou amadurecer esse projecto. Nada de revoluções! Santo Deus! Minha boa Teresa, nada de revoluções!

- Veremos, veremos - disse ela. - Ah! Lá

estão batendo à porta.

Um momento depois Teresa voltava da

porta acompanhada por um belo mancebo, a quem pediu que esperasse na casa de fora.

Depois, vindo a Rousseau, que já

começava a tomar notas com um lápis, disse:

- Esconda depressa todas essas infâmias.

Está lá fora alguém que deseja falar-lhe.

- Quem é?

- Um fidalgo da corte.

- Não lhe disse o nome?

- Pudera! Eu não recebo desconhecidos. - Diga-mo então.

- O senhor de Coigny.

- O senhor de Coigny? - bradou

Rousseau; - o senhor de Coigny, gentil-homem do senhor delfim?

- Naturalmente é isso; é um belo rapaz,

um homem muito amável.

- Eu vou.

Rousseau apressou-se em olhar um

pouco para o espelho, sacudiu as mangas, limpou as chinelas, que não eram mais que uns sapatos velhos gastos pelo uso, e entrou na casa de jantar, onde o esperava o fidalgo.

Este não se sentara. Olhava com uma

espécie de curiosidade para os vegetais secos pegados pelo Sr. Rousseau sobre o papel, e metidos em molduras de madeira preta.

Ao ruído produzido pela porta de

vidraça, voltou-se, e, cumprimentado com toda a civilidade, disse:

- É ao Sr. Rousseau que tenho a honra de

falar?

- Sim, senhor - respondeu o filósofo num

tom casmurro, que não excluía uma espécie de admiração pela notável formosura e desafectada elegância do seu interlocutor.

O senhor de Coigny era efectivamente

um dos homens mais amáveis e mais belos da França. Para ele tinha sido decerto inventado o trajo daquela época, o mais adequado para lhe fazer brilhar a delicadeza e a perfeição da perna, para mostrar em todo o seu engraçado desenvolvimento aqueles ombros largos, aquele peito bem construído, para lhe dar um ar majestoso à formosa cabeça, e a alvura do marfim às mãos delicadas e de belo desenho.

O exame satisfez Rousseau, que

admirava o que era belo como verdadeiro artista, sempre que encontrava alguma coisa digna disso.

- Senhor - disse ele - tem algumas ordens

a dar-me?

- Decerto lhe disseram já, senhor -

redargüiu o fidalgo - que sou o conde de Coigny. Acrescentarei que venho de mandado da senhora delfina.

Rousseau corou e fez uma cortesia;

Teresa, num canto da casa de jantar, com as mãos nas algibeiras, contemplava com olhos benévolos o belo mensageiro da mais poderosa princesa da França.

- Sua Alteza Real reclama-me... para

quê? – disse Rousseau. - Mas, não se senta?

E Rousseau sentou-se. O senhor de

Coigny puxou uma cadeira e imitou-o.

- O caso é este: Sua Majestade, jantando

no Trianon, um dia destes, manifestou alguma simpatia pela sua música, que é encantadora. Sua Majestade canta as suas árias mais lindas. A senhora delfina, que procura em tudo agradar a Sua Majestade, pensou que daria grande prazer a el-rei se se representasse no teatro do Trianon uma das suas óperas-cómicas...

Rousseau cortejou profundamente. - Venho portanto pedir-lhe, da parte da

senhora delfina...

- Oh! Senhor - interrompeu Rousseau -

para isso não precisava da minha licença. As minhas comédias e as arietas que delas fazem parte pertencem ao teatro que as representou. É aos actores que se devem pedir, e entre eles decerto Sua Alteza Real não encontrará mais oposição do que encontra em mim. Os actores julgar-se-ão muito felizes em representar e cantar diante de Sua Majestade e de toda a corte.

- Não é disso exactamente que eu estou

encarregado de tratar - disse o conde de Coigny. - Sua Alteza Real a Senhora Delfina quer dar a el-rei um divertimento mais completo e mais raro. Sua Alteza conhece todas as suas óperas...

Rousseau fez uma nova cortesia. - E canta-as perfeitamente. - É muita honra - murmurou ele. - Ora - prosseguiu o senhor de Coigny -

como várias senhoras da corte são excelentes comediantes e cantam maravilhosamente, como vários gentis-homens cultivam também a música com bastante habilidade, a ópera que a senhora delfina escolheria entre as suas seria executada e representada por essa sociedade de gentis-homens e senhoras, sendo os principais actores Suas Altezas Reais.

Rousseau deu um salto na cadeira.

- Asseguro-lhe, senhor - disse ele - que é

para mim uma honra insigne, e rogo-lhe que da minha parte apresente à senhora delfina os meus humildes agradecimentos.

- Oh! Não é tudo, senhor - disse o conde

de Coigny com um sorriso.

- Ah!

- A companhia, assim composta, é

seguramente mais ilustre do que a outra, mas menos experiente. A vista, os conselhos do mestre são indispensáveis: é preciso que a execução seja digna do augusto espectador que há-de ocupar a tribuna real, digna também do ilustre autor.

Rousseau levantou-se para cortejar;

desta vez o cumprimento tinha-o sensibilizado; cortejou amavelmente o senhor de Coigny.

- Por isso, senhor - disse o mancebo -

Sua Alteza Real pede-lhe que queira vir ao Trianon assistir ao ensaio geral da ópera.

- Oh! - disse Rousseau. - Sua Alteza Real

não pensou bem... No Trianon, eu!

- Então! - disse o senhor de Coigny com

o ar mais natural possível.

- Oh! O senhor é um homem de gosto e

de espírito, tem mais tacto do que a maior parte das pessoas; ora, com a mão na consciência, responda: Rousseau o filósofo, Rousseau o proscrito, Rousseau o misantropo, na corte, não é motivo bastante para fazer rebentar de riso toda a cabala?

- Não vejo - redargüiu friamente o

senhor de Coigny - em que poderiam as risadas e conversas loucas que o perseguem perturbar o sono de um homem de sociedade como o senhor, e de um escritor que pode passar pelo primeiro do reino. Se tem essa fraqueza, Sr. Rousseau, oculte-a bem, que bastaria ela para dar assunto para rir a muita gente. Quanto ao que poderão dizer, confessará que devem tomar muito cuidado, porque se trata do prazer e desejos pessoais tais como Sua Alteza Real a Senhora Delfina, herdeira presuntiva da coroa de França.

- Certamente - disse Rousseau -

certamente.

- Será - disse o senhor de Coigny

sorrindo - um resto de mal cabida vergonha?... Como foi severo com os reis, receia humanizar-se? Ah! Sr. Rousseau, deu lições ao género humano, mas não o odeia, creio eu?... E daí, em todo o caso, exceptuará as senhoras de sangue imperial.

- O senhor está insistindo com imensa

graça, mas reflicta na minha posição... Vivo retirado, só... Desgraçado.

Teresa fez uma visagem.

- Desgraçado!... - disse ela; - como é

difícil de contentar!

- Por mais que faça, há-de haver sempre

no meu rosto e nos meus modos uma expressão desagradável para os olhos do rei e das princesas, que só buscam a alegria e o contentamento. Que direi eu lá?... Que farei?...

- Dir-se-ia que duvida de si; mas o

homem que escreveu a Nova Heloísa e as Confissões, senhor, não tem mais espírito e mais acção do que todos nós?

- Asseguro-lhe, senhor, que me é

impossível...

- Essa palavra, senhor, não é conhecida

dos príncipes.

- Por isso me deixarei ficar em casa. - Senhor, não me recusará a mim,

mensageiro temerário, que me incumbi de satisfazer o desejo da senhora delfina, não me causará o profundo desgosto de me obrigar a voltar a Versalhes vencido, envergonhado; seria para mim um desgosto tal, que me exilaria imediatamente. Vamos, meu caro Sr. Rousseau, por mim, por um homem cheio de simpatia profunda por todas as suas obras, faça o que o seu coração negaria a reis que o viessem solicitá-lo.

- Senhor, é tão amável e gracioso que me

conquista o coração; a sua eloqüência é irresistível, e tem uma voz que me comove de um modo que não posso explicar...

- Consente então?

- Não, não posso... Não, decididamente;

a minha saúde opõe-se a uma jornada.

- Uma jornada! Oh! Sr. Rousseau, o que

diz? Uma carruagem leva-o lá em cinco quartos de hora.

- Ao senhor, que tem bons cavalos. - Mas todos os cavalos das cavalariças

reais estão às suas ordens, Sr. Rousseau. Estou encarregado pela senhora delfina de lhe dizer que há um quarto preparado para si no Trianon, porque não querem que volte para Paris de noite. Além disso, o senhor delfim, que sabe de cor todas as suas obras, disse diante da corte toda que desejava poder mostrar no seu palácio o quarto que tiver sido ocupado pelo Sr. Rousseau.

Teresa soltou um grito de admiração,

não pelo Sr. Rousseau, mas pelo bom príncipe.

Rousseau não pôde defender-se mais

depois desta última prova de amizade.

- Devo então render-me - disse ele -

nunca fui tão bem atacado.

- Levado pelo coração, senhor -

respondeu o senhor de Coigny; - pelo espírito seria inexpugnável.

- Portanto, senhor, irei, para cumprir as

ordens de Sua Alteza Real.

- Oh! Senhor, receba os meus

agradecimentos pessoais. Permita que eu me abstenha de agradecer pela senhora delfina, levar-me-ia a mal ter feito o que ela pessoalmente quer fazer. E demais, senhor, sabe que é o homem que deve agradecer, quando um convite destes vem da parte de uma senhora formosa e moça.

- É verdade, senhor - respondeu

Rousseau sorrindo; - mas as pessoas velhas têm privilégios iguais aos das mulheres bonitas: fazem-se rogar.

- Então, Sr. Rousseau, terá a bondade de

me designar a hora que lhe convém, eu mandarei a minha carruagem, ou antes virei eu mesmo buscá-lo, e irá comigo.

- Lá isso não, senhor - disse Rousseau. -

Eu irei ao Trianon, mas deixe-me a faculdade de ir a meu modo; a partir deste momento, não se ocupe mais de mim. Eu irei, nada mais; diga-me a que horas há-de ser.

- Como! Senhor, pois não permite que eu

seja o seu introdutor? Serei eu indigno dessa honra ou é por que um nome como o seu por si mesmo se anuncia?

- Eu sei que o senhor é na corte mais do

que eu serei em qualquer parte do mundo... Não rejeito portanto o seu oferecimento, ao senhor pessoalmente, mas gosto dos meus cómodos; quero ir ali como se fosse a um passeio, e finalmente... é este o meu ultimato.

- Obedeço, senhor, Deus me livre de lhe

desagradar seja no que for. O ensaio deverá começar às seis horas da tarde.

- Muito bem, às seis horas menos um

quarto estarei no Trianon.

- Mas de que modo?

- Isso fica por minha conta; as minhas

carruagens são estas.

E apontou para as pernas, que não eram

mal feitas.

- Cinco léguas! - disse o senhor de

Coigny consternado; - mas fica derrancado; olhe que a noite não se há-de passar folgada.

- Nesse caso, tenho também a minha

carruagem e os meus cavalos; carruagem fraternal e popular, que tanto pertence ao vizinho como a mim, assim como o ar, o sol, a água, carruagem que custa quinze soldos.

- Ai, meu Deus! A diligência! Só pensar

nela faz-me estremecer.

- Os bancos que lhe parecem tão duros

são para mim como um leito da sibarita. Parecem-me estofados de penas ou de folhas de rosa. Até à tarde, senhor conde, até à tarde.

O senhor de Coigny, vendo-se assim

despedido, tomou o seu partido, e depois de muitos agradecimentos, de indicações mais ou menos necessárias, desceu a escada, acompanhado até ao patamar pelo Sr. Rousseau, e até ao meio da escada por Teresa.

O senhor de Coigny foi para a

carruagem que na rua o esperava, e sorrindo da sua vitória, voltou a Versalhes.

Teresa entrou e fechou a porta com mau

modo, o que pressagiou a Rousseau uma tempestade.