José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XIII
EM QUE AS COISAS CADA VEZ
MAIS SE COMPLICAM
A senhora de Béarn aproveitou
literalmente o conselho de Richelieu; duas horas e meia depois de se ter separado dele, estava a condessa nas antecâmaras de Luciennes em companhia de Zamora.
Havia já algum tempo que não ia a casa
da senhora du Barry; por isso a sua presença produziu um efeito de curiosidade no toucador da condessa, onde o seu nome foi pronunciado.
O senhor de Aiguillon também não
tinha perdido o seu tempo, e conspirava com a favorita quando Chon veio pedir audiência para a senhora de Béarn.
O duque quis retirar-se, a senhora du
Barry deteve-o.
- Prefiro que esteja presente - disse ela; -
no caso em que a minha velha viesse pedir-me algum dinheiro emprestado, poderá ser-me aqui de grande utilidade, porque me pedirá menos.
O duque ficou.
A senhora de Béarn, com um rosto
adequado à circunstância, sentou-se defronte da condessa du Barry numa poltrona que esta lhe ofereceu, e feitas as primeiras cortesias a senhora du Barry perguntou:
- Posso saber ao que devo a fortuna de a
ver, minha senhora?
- Ah! Minha senhora - disse a velha
demandista sucede-me uma grande desgraça.
- O que é, minha senhora? - Uma notícia que muito há-de afligir
Sua Majestade El-rei.
- Fale depressa, minha senhora. - Os parlamentos...
- Ah! Ah! - resmungou o Sr. Duque de
Aiguillon.
- O Sr. Duque de Aiguillon! - apressou-
se em dizer a condessa apresentando o seu hóspede à sua visitante, com receio de algum dito inconveniente.
Mas a velha condessa era tão esperta
como todos os cortesãos reunidos, e só cometia inconveniências quando lhe convinha e lhe parecia serem úteis.
- Eu sei - disse ela - de todas as torpezas
daqueles samarras, e o pouco respeito que eles têm pelo mérito e pelo nascimento.
Este cumprimento, disparado à queima-
roupa sobre o duque, atraiu uma bela cortesia deste para a demandista, que se levantou e lhe correspondeu.
- Mas - prosseguiu ela - já não é do
senhor duque que se trata, é da população toda inteira; os parlamentos recusam funcionar.
- Realmente! - bradou a senhora du
Barry encostando-se no sofá - já não haverá justiça em França? Pois bem, sendo assim, que mudança poderá isso causar?
O duque sorriu. A senhora de Béarn, em
vez de tomar o dito a boa parte, carregou ainda mais o seu rosto melancólico.
- É um grande desastre, minha senhora -
disse ela.
- Ora! Realmente? - respondeu a
favorita.
- Bem se vê, senhora condessa, que tem a
fortuna de não ter demandas.
O senhor de Aiguillon tossiu para
chamar a atenção da senhora du Barry, que afinal compreendeu a insinuação da demandista.
- Ah! É verdade, minha senhora - disse
ela imediatamente - com isso me faz lembrar que se não tenho demandas, a senhora tem uma demanda muito importante!
- Oh! Sim!... Minha senhora... E toda a
demora me é muito prejudicial.
- Infeliz senhora!
- Seria preciso, senhora condessa, que el-
rei tomasse uma resolução.
- Ora! Minha senhora, Sua Majestade
está disposta a tudo; há-de desterrar os senhores conselheiros, e acaba-se logo tudo.
- Mas então, minha senhora, é um
adiamento infinito.
- Acha algum outro remédio, minha
senhora? Digne-se indicá-lo.
A demandista encobriu-se com a sua
touca, como César expirando se envolveu na sua toga.
- Haveria seguramente um meio - disse
então de Aiguillon - mas Sua Majestade duvidaria talvez empregá-lo.
- Qual é? - perguntou a demandista com
ansiedade.
- O recurso ordinário da realeza em
França, quando não acha outro, é convocar uma sessão real e dizer: “Eu quero!” ainda mesmo quando toda a oposição pensa o contrário.
- Excelente idéia! - exclamou a senhora
de Béarn entusiasmada.
- Mas que seria conveniente não
divulgar – respondeu com finura de Aiguillon fazendo um gesto que a condessa de Béarn compreendeu.
- Oh! Minha senhora - disse então a
demandista - visto ter tanto poder sobre Sua Majestade, faça com que diga: “Quero que seja julgada a demanda da senhora de Béarn.” E demais, bem o sabe, é coisa prometida há muito tempo.
O senhor de Aiguillon mordeu os lábios,
cortejou com o olhar a senhora du Barry e saiu do gabinete. Acabava de sentir no pátio a carruagem de el-rei.
- Aí vem el-rei! - disse a condessa du
Barry erguendo-se para despedir a demandista.
- Oh! Minha senhora, por que não
permitirá que eu me lance aos pés de Sua Majestade?
- Para lhe pedir uma sessão real? De boa
vontade - redargüiu vivamente a condessa. - Demore-se aqui, minha senhora, pois se assim o deseja.
Apenas a senhora de Béarn teve tempo
de endireitar a sua touca, viu el-rei entrar no gabinete.
- Ah! - disse ele - tem visitas, condessa? - É a senhora de Béarn, senhor. - Senhor, justiça! - exclamou a velha
fazendo uma profunda mesura.
- Oh! Oh! - bradou Luís XV com uma
zombaria ininteligível para qualquer que o não conhecesse; - tê-la-iam ofendido, minha senhora?
- Senhor, peço justiça.
- Contra quem?
- Contra o parlamento.
- Ah! Bom!... - disse el-rei batendo as
mãos; - vem fazer queixa dos meus parlamentos. Pois então, nesse caso, obrigue-os a entrar na razão. Tenho também que me queixar deles, e igualmente lhe peço justiça – acrescentou ele imitando a mesura da velha condessa.
- Mas Vossa Majestade é o rei, pode
ordenar.
- Sou rei, é verdade, também posso
ordenar, mas nem sempre me obedecem.
- Senhor, manifeste a sua vontade. - É o que faço todas as noites, minha
senhora; e eles, todas as manhãs manifestam a sua. Ora como estas duas vontades são diametralmente opostas uma à outra, acontece-nos o mesmo que ao Sol e à Lua, que eternamente correm um atrás da outra sem nunca se poderem encontrar.
- Senhor, a sua voz é poderosa bastante
para abafar toda a gritaria daquela gente.
- É no que está enganada. Eu não sou
advogado, e eles são. Se digo sim, eles dizem não; é impossível que nos entendamos... Ah! Se quando eu digo sim, acha um meio de os impedir de dizer não, faço liga consigo.
- Senhor, esse meio, achei-o. - Queira dizer qual é?
- Convocar uma sessão real.
- Aí temos outra! - disse el-rei. - Uma
sessão real, isso é lá possível! É quase uma revolução!
- É um meio para poder dizer na cara
daquela gente rebelde, que é o senhor. Vossa Majestade sabe que o rei, quando assim manifesta a sua vontade, é o único que tem o direito de falar; ninguém responde. Dirá. Eu quero, e eles curvarão a cabeça...
- O facto é que a idéia é pomposa - disse
a condessa du Barry.
- Pomposa, sim - redargüiu Luís XV -
mas boa, não.
- E contudo é belo - prosseguiu
entusiasmada a senhora du Barry - o cortejo, os gentis-homens, os pares, toda a casa militar do rei, depois uma quantidade imensa de povo, depois aquele trono, composto de cinco almofadas com as flores-de-lis de ouro... Seria uma bela cerimónia.
- Julga isso? - disse el-rei, um pouco
abalado nas suas convicções.
- E o magnífico trajo do rei, o manto de
arminhos, os brilhantes da coroa, o ceptro de ouro, todo aquele esplendor que convém a um rosto augusto e belo. Oh! Quanto seria assim esplêndido, senhor!
- Há muito tempo que não há uma
sessão semelhante - disse Luís XV com uma afectada indiferença.
- Desde a vossa infância, senhor--disse a
condessa de Béarn - a lembrança da vossa resplandecente formosura está no coração de todos.
- E daí - acrescentou a senhora du Barry
– seria uma boa ocasião para o senhor chanceler mostrar a sua eloqüência concisa, para esmagar aquela gente com a verdade, a dignidade, a autoridade.
- Será preciso então que eu espere a
primeira culpa do parlamento - disse Luís XV; - verei.
- O que poderá esperar, senhor, que seja
mais condenável do que o que acaba de fazer?
- Então o que fez? Vamos a saber. - Não o sabe?
- Combateu um pouco o senhor de
Aiguillon, não me parece caso de forca... Ainda que - disse el-rei olhando para a senhora du Barry - ainda que este bom duque é dos meus amigos. Ora, se os parlamentos combateram o duque, castiguei a sua maldade com o meu decreto de ontem ou anteontem, já me não lembro. Portanto estamos pagos.
- Pois bem! Senhor - disse vivamente a
senhora du Barry - a senhora condessa vinha anunciar-me que eles esta manhã tornaram de novo a começar a guerra.
- Como? - disse el-rei franzindo as
sobrancelhas.
- Fale, senhora, el-rei permite-lho - disse
a condessa.
- Senhor, os conselheiros resolveram não
funcionar mais enquanto Sua Majestade lhes não desse razão.
- Como assim? - disse el-rei; - engana-se,
minha senhora, seria um acto de rebelião, e o meu parlamento não ousará revoltar-se, assim o espero.
- Senhor, asseguro-lhe...
- Oh! Minha senhora, isso são boatos. - Vossa Majestade quer ouvir-me? - Pode falar, condessa.
- Pois bem! Esta manhã o meu
procurador restituiu-me os autos da minha demanda... Já não advoga, porque já não há julgamentos.
- Asseguro-lhe que são boatos; é alguma
experiência para meter medo.
E dizendo isto passeava el-rei muito
agitado pelo gabinete.
- Senhor, dará Vossa Majestade mais
crédito ao senhor de Richelieu do que a mim? Pois bem, na minha presença foram restituídos ao senhor de Richelieu os autos das suas demandas, como a mim, e o senhor duque retirou-se enfurecido.
- Estão mexendo na porta - disse el-rei
para mudar de conversa.
- É Zamora, senhor.
Zamora entrou.
- Minha senhora, uma carta - disse ele. - Dá licença, senhor? - perguntou a
condessa - Ih! Meu Deus! - disse ela de repente.
- O que é?
- É do chanceler, senhor de Maupeou,
sabendo que Vossa Majestade se dignou visitar-me, solicita a minha intervenção para alcançar um momento de audiência.
- Que mais será?
- Mande entrar o senhor chanceler -
disse a senhora du Barry.
A condessa de Béarn levantou-se e quis
despedir-se.
- Não é aqui de mais, minha senhora -
lhe disse el-rei - Bom dia, senhor de Maupeou, o que há de novo?
- Senhor - disse o chanceler inclinando-
se - o parlamento servia de estorvo a Vossa Majestade, e já não tem parlamento.
- Como assim? Morreram todos?
Tomaram arsénico?
- Prouvera a Deus que assim fosse! Não,
senhor, estão vivos, mas não querem funcionar, e dão as suas demissões. Acabo de os receber todos.
- Os conselheiros?
- Não, senhor, os requerimentos em que
pedem a demissão.
- Não lhe dizia eu, senhor, que o caso era
muito sério? - disse a condessa a meia voz.
- Muito sério - respondeu Luís XV com
impaciência.
- Então, senhor chanceler, o que fez? - Senhor, vim receber as ordens de Vossa
Majestade.
- Exilemos toda essa gente, Maupeou? - Senhor, no exílio não poderão também
julgar.
- Intimem-nos para julgarem... Ora! As
intimações estão gastas... As cartas régias também...
- Ah! Senhor, desta vez é preciso mostrar
vontade.
- Sim, tem razão...
- Ânimo! - disse em voz baixa a senhora
de Béarn à senhora du Barry.
- E mostrar que é o senhor, depois de
haver demasiadas vezes mostrado que era o pai! - bradou a condessa.
- Chanceler - disse lentamente o rei - não
me lembra senão um meio: é grave, mas eficaz. Quero convocar uma sessão real; é preciso que aquela gente trema uma vez.
- Ah! Senhor - exclamou o chanceler -
isso é o que se chama falar; que dobrem ou quebrem!
- Minha senhora - acrescentou el-rei
dirigindo-se à demandista - se não for julgada a sua causa, bem vê que não será por culpa minha.
- Senhor, Vossa Majestade é o maior rei
do mundo todo.
- Oh! Sim!... - repetiram em coro a
condessa, Chon e o chanceler.
- E contudo, não é isso o que o mundo
diz – murmurou el-rei.