José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XIX
A ALMA E O CORPO
Os circunstantes olhavam para o doente
com espanto, para o médico com admiração.
Houve quem dissesse que estavam
ambos doidos.
Marat traduziu essa opinião ao ouvido
de Bálsamo.
- O terror fez perder o espírito a este
pobre diabo – disse ele; - e aí está porque ele já não sofre.
- Parece-me que não - respondeu
Bálsamo - e bem longe de ter perdido o espírito, estou certo que se o interrogasse, ele nos diria, se deve morrer, o dia da sua morte; se deve viver, o tempo que a sua convalescença deverá durar.
Marat esteve a ponto de participar da
opinião geral, isto é, de julgar Bálsamo tão doido como o enfermo.
Entretanto, o cirurgião laqueava
activamente as artérias de onde corriam rios de sangue.
Bálsamo tirou da algibeira um frasco,
vazou sobre um chumaço de fios algumas gotas da água que o frasco continha, e pediu ao cirurgião em chefe que o aplicasse sobre as artérias.
Este obedeceu com certa curiosidade. Era um dos mais hábeis facultativos
daquela época, um homem realmente amador da ciência, que não repudiava nenhum dos seus mistérios, e para quem o acaso era a fraca explicação da dúvida.
Aplicou o chumaço sobre a artéria, que
estremeceu, borbulhou, e não deixou correr mais sangue senão gota a gota.
Então pôde o cirurgião ligar a artéria
com a maior facilidade.
Desta vez alcançou Bálsamo um
verdadeiro triunfo, e todos lhe perguntaram onde tinha estudado e a que escola pertencia.
- Sou um médico alemão da escola de
Goettingue – disse ele - e a descoberta que vêem é feita por mim. Entretanto, meus senhores e caros colegas, desejo que esta descoberta seja ainda um segredo, porque tenho muito medo da fogueira, e o parlamento de Paris talvez se decidisse a funcionar ainda uma vez, só pelo prazer de mandar queimar um feiticeiro.
O cirurgião em chefe ficou pensativo. Marat meditava e reflectia. Este foi o primeiro a tomar a palavra. - Afirmava há pouco - disse ele - que se
interrogasse este homem sobre o resultado da operação, ele responderia com exactidão, conquanto esse resultado esteja escondido no denso véu do futuro?
- E ainda afirmo - disse Bálsamo. - Pois bem, vejamos.
- Como se chama esse pobre diabo? - Chama-se Havard - respondeu Marat.
Bálsamo voltou-se para o enfermo, o
qual ainda murmurava as últimas notas da canção.
- Então, meu amigo - lhe perguntou ele -
o que augura do estado do pobre Havard?
- O que auguro do seu estado? -
respondeu o enfermo; - espere, é preciso que eu volte da Bretanha, onde estava, para o hospital, onde ele agora está.
- É isso; entre, olhe para ele, e diga-me a
verdade a seu respeito.
- Oh! Está doente, muito doente! Tanto,
que lhe cortaram a perna.
- Realmente? - disse Bálsamo. - Sim, senhor.
- E a operação teve bom êxito? - Óptimo; mas...
O rosto do enfermo tornou-se carregado. - Mas - continuou o enfermo - tem que
passar por uma terrível prova, a febre.
- E quando virá a febre?
- Esta noite, às sete horas. Todos ficaram admirados.
- E a febre?... - perguntou Bálsamo. - Ai! Há-de fazê-lo sofrer muito; contudo
vencerá o primeiro acesso.
- Tem a certeza disso?
- Tenho.
- Mas depois desse primeiro acesso
estará salvo?
- Ainda não - disse o infeliz suspirando. - Então a febre voltará?
- Volta, sim, e mais terrível que dantes;
pobre Havard! - prosseguiu ele - pobre Havard, tem mulher e filhos!
E arrasaram-se-lhe os olhos de lágrimas. - Então a mulher dele ficará viúva, os
filhos ficarão órfãos? - perguntou Bálsamo.
- Espere! Espere!
Juntou as mãos.
- Não, não - disse ele.
O rosto brilhou-lhe com uma fé sublime. - Não, a mulher e os filhos oraram tanto,
que alcançaram para ele a graça de Deus.
- Então há-de curar-se?
- Há-de, sim, senhor.
- Ouviram, meus senhores? - disse
Bálsamo - há-de curar-se.
- Pergunte-lhe em quantos dias - disse
Marat.
- Em quantos dias?
- Sim, porque o senhor disse que ele
mesmo indicaria as fases e o termo da sua convalescença.
- Estimo muito interrogá-lo sobre isso. - Interrogue-o, então.
- E quando julga que Havard estará
curado? – perguntou Bálsamo.
- Oh! A convalescença há-de ser longa;
espere; um mês, seis semanas, dois meses; há cinco dias que para aqui entrou, há-de sair dois meses e quinze dias depois do dia em que entrou.
- E sairá curado?
- Completamente curado. - Mas - disse Marat - incapaz para
trabalhar, e por conseqüência, como poderá desse modo sustentar a mulher e os filhos?
Bálsamo repetiu esta pergunta.
Havard juntou as mãos.
- Oh! Deus é bom, e Deus proverá a isso. - E de que modo proverá Deus nesse
caso? – perguntou Marat. - Enquanto estou disposto hoje para aprender, desejava também saber isso.
Bálsamo interrogou-o.
- Deus mandou para junto do seu leito
um homem caritativo que se compadeceu dele, e que disse consigo: “Quero que nada falte ao pobre Havard”.
Olharam todos admirados uns para os
outros; Bálsamo sorriu.
- Realmente estamos assistindo a um
espectáculo bem extraordinário - disse o cirurgião em chefe enquanto pegava na mão do enfermo, lhe observava o peito e lhe apalpava a fronte; - este homem está sonhando.
- Julga isso? - disse Bálsamo. E lançando sobre o enfermo um olhar
cheio de autoridade e energia, disse:
- Acorde, Havard!
O mancebo abriu os olhos com
dificuldade e olhou com profunda surpresa para todos os que o rodeavam, que, de ameaçadores que dantes estavam, eram agora para ele inofensivos.
- Então! - disse ele dolorosamente -
ainda me não fizeram a operação? Vão ainda fazer-me padecer?
Bálsamo tomou vivamente a palavra.
Receava a comoção do doente.
Não era preciso apressar-se. Ninguém
teria falado primeiro; a surpresa de todos era muito profunda.
- Meu amigo - lhe disse ele - sossegue; o
senhor cirurgião em chefe fez uma operação na sua perna, que satisfez a todas as exigências da sua posição. O que parece, meu rapaz, é que tem o espírito algum tanto fraco, porque desmaiou diante do primeiro ataque.
- Oh! Ainda bem - disse alegremente o
bretão – nada senti, o meu sono foi doce e reparador. Que felicidade, não me cortaram a perna!
Mas neste momento o desgraçado olhou
para si mesmo: viu a cama ensangüentada, e a perna cortada.
Soltou um grito, e desta vez perdeu os
sentidos deveras.
- Interrogue-o agora - disse Bálsamo
para Marat e veja se ele lhe responde.
Depois chamando o cirurgião em chefe
para um canto da casa, enquanto os enfermeiros levavam o desgraçado rapaz para outra cama:
- Senhor - lhe disse Bálsamo - ouviu o
que o doente disse?
- Sim, senhor, disse que havia de curar-
se.
- Disse ainda outra coisa: disse que Deus
se compadeceria dele, e lhe mandaria com que sustentar a mulher e os filhos.
- E depois?
- Depois, senhor, disse a verdade, tanto
neste ponto como no outro; só o que lhe peço, é que se encarregue de ser intermediário de caridade entre o seu enfermo e Deus: aqui está um brilhante que vale aproximadamente vinte mil libras; quando vir que o seu doente está curado, venderá, o brilhante e entregar-lhe-á o dinheiro; entretanto, como a alma, conforme mui judiciosamente disse o seu discípulo, o Sr. Marat, como a alma tem grande influência sobre o corpo, diga a Havard, logo que tornar a si, diga-lhe que o seu futuro e o de seus filhos está seguro.
- Mas, senhor - disse o cirurgião
hesitando em receber o anel que Bálsamo lhe oferecia - se ele não se curar?
- Há-de curar-se!
- Contudo devo dar-lhe um recibo. - Senhor!...
- É só com essa condição que receberei
uma jóia de semelhante valor.
- Faça o que lhe aprouver, senhor. - O seu nome?
- O conde de Fénix.
O cirurgião entrou para o quarto
contíguo, enquanto Marat, admirado, confuso, mas lutando ainda contra a evidência, se aproximou de Bálsamo.
Ao cabo de cinco minutos o cirurgião
voltou, trazia na mão um papel, que entregou a Bálsamo.
Era um recibo concebido nestes termos:
“Recebi do Sr. Conde de Fénix um anel
de brilhantes, que ele mesmo declarou valer vinte mil libras, cujo valor deve ser entregue a Havard, no dia em que sair do hospital.
15 de Dezembro de 1771. Guillotin D. M.”
Bálsamo cortejou o doutor, pegou no
recibo e saiu acompanhado por Marat.
- Esqueceu-se de trazer a cabeça - disse
Bálsamo, para quem a distracção do cirurgião era um triunfo.
- Ah! É verdade - disse este. E foi buscar o fúnebre embrulho. Assim que se acharam na rua,
caminharam ambos muito depressa e sem dizer palavra; depois, quando chegaram à Rua dos Cordoeiros, subiram juntos pela íngreme escada que conduzia à água-furtada.
Diante do quarto da porteira, se todavia
é permitido dar o nome de quarto ao cubículo que ela habitava, Marat, que se não esquecera da desaparição do seu relógio, tinha parado e perguntado pela Srª. Grivette.
Uma criança de sete para oito anos,
magra, fraca e amarela, respondeu-lhe com voz aguda:
- A mamã saiu; disse que, se o senhor
viesse, lhe entregasse esta carta.
- Não, meu amiguinho - disse Marat -
quando ela vier diz-lhe que ma leve ela mesma lá acima.
- Sim, senhor.
Marat e Bálsamo subiram a escada. - Ah! - disse Marat, indicando a Bálsamo
uma cadeira, e sentando-se ele num banco - vejo que o mestre tem belos segredos.
- É porque mais que ninguém, talvez,
tenho entrado na confidência da natureza e de Deus - respondeu Bálsamo.
- Oh! - bradou Marat - como a ciência
prova a omnipotência do homem, e como deve encher de orgulho o ser homem!
- É verdade, e médico - deveria ter
acrescentado.
- Também, estou orgulhoso do senhor,
mestre – disse Marat.
- E entretanto - disse Bálsamo sorrindo -
não sou mais que um pobre médico da alma.
- Oh! Não falemos disso, senhor, o
mestre que vedou o sangue da amputação por meios materiais!
- Eu julgava que a minha cura mais bela
tinha sido evitar os sofrimentos ao doente; verdade é que me assegurou que ele estava doido.
- Esteve-o algum tempo, por certo. - A que chama loucura? Não é a uma
abstracção da alma?
- Ou do espírito - disse Marat.
- Não façamos questão de palavras; a
alma serve-me para designar o termo que procuro. Uma vez achada, pouco me importa o nome que lhe queira dar.
- Ah! Senhor, aí está em que diferem as
nossas opiniões; o senhor pretende ter achado a coisa em si e não lhe faltar senão o nome dela; e eu sustento que procura tudo ao mesmo tempo, a coisa e o nome que lhe pertence.
- Voltaremos logo a isso. Dizia então que
a loucura é uma abstracção momentânea do espírito?
- Certamente.
- Involuntariamente, não é verdade? - Sim... Vi um doido em Bicêtre, que
mordia as grades de ferro da prisão, gritando: “Cozinheiro, os teus faisões estão tenros, mas mal assados”.
- Mas, enfim, admite que essa loucura
passe como uma nuvem sobre o espírito, e que, uma vez dissipada a nuvem, o espírito readquira a sua primitiva limpidez?
- Isso raras vezes acontece. - Contudo viu o amputado em seu juízo
perfeito depois do seu sono de doido?
- Vi-o, mas não compreendi o que via; é
um caso excepcional, uma dessas coisas estranhas a que os hebreus chamavam milagres.
- Não, senhor - disse Bálsamo - é
unicamente a abstracção da alma, o duplo isolamento da matéria e do espírito: da matéria, coisa inerte, pó, que tornará novamente a ser pó; da alma, centelha divina fechada um instante nessa lanterna de furta-fogo chamada corpo, e que, filha do Céu, depois da queda do corpo, subirá ao Céu novamente.
- Então, tirou momentaneamente a alma
do corpo.
- Sim, senhor, ordenei-lhe que saísse do
miserável lugar em que estava; tirei-a do abismo da dor, onde o padecimento a detinha, para a fazer divagar nas regiões livres e puras. O que ficou então para o cirurgião? O mesmo que ficou ao seu escalpelo quando tirou à mulher morta a cabeça que aí traz, isto é, a carne inerte, a matéria, e nada mais.
- E em nome de quem dispôs assim
daquela alma?
- Em nome d’Aquele que criou todas as
almas com um sopro: almas do mundo, almas dos homens; em nome de Deus.
- Então - disse Marat - nega o livre
arbítrio?
- Pelo contrário - disse Bálsamo - que
faço eu neste momento? Mostro-lhe de um lado o livre arbítrio, do outro a abstracção. Expondo-lhe um moribundo entregue a todos os padecimentos; é um homem com uma alma estóica, encara a operação, pede-a, suporta-a, mas padece. Aí tem o livre arbítrio. Mas se passo junto desse moribundo, eu, o enviado de Deus, eu, o profeta, eu, o apóstolo, e se, apiedando-me desse homem, meu semelhante, pelo poder que o Senhor me conferiu, tiro a alma desse corpo que padece, esse corpo, cego, inerte, insensível, torna-se para a alma um espectáculo que ela contempla piedosa e misericordiosamente do alto da sua ímpida esfera. Não ouviu Havard? Quando falava de si mesmo, dizia: “O pobre Havard!” Já não falava de si. É que efectivamente a alma já nada tinha que fazer com aquele corpo, ela que estava no meio caminho para o Céu.
- Mas, sendo assim, o homem não é coisa
alguma – disse Marat - e já não posso dizer aos tiranos da terra: “Tendes poder sobre o meu corpo, mas não o tendes sobre a minha alma”.
- Ah! Aí passa da verdade ao sofisma,
senhor, e já lho disse, é o seu defeito. Deus empresta a alma ao corpo, é verdade, mas também não é menos verdade que durante o tempo que a alma possui esse corpo há união entre eles, influência de um sobre o outro, supremacia da matéria, conforme, para fins que desconhecemos, Deus tiver permitido que o corpo seja rei ou que a alma seja rainha; mas não é por isso menos verdade que o sopro que anima o mendigo é tão puro como o que mata o rei. Eis o dogma que o senhor, apóstolo da igualdade, deve pregar. Prove a igualdade das suas essências espirituais, pois que essa igualdade pode estabelecê-la sem nome de todo quanto há de sagrado no mundo, os livros sagrados e as tradições, a ciência e a fé. Que lhe importa a igualdade de duas matérias? Com a igualdade dos corpos, não voais até Deus. Ainda há pouco, aquele infeliz doente, aquele ignorante filho do povo disse-lhe, a respeito da sua doença, coisas que ninguém, entre os melhores médicos, se teria atrevido a dizer. E por quê? Porque a sua alma, livre momentaneamente das ligações do corpo, pairou acima da Terra, e viu de cima um mistério que a nossa opacidade nos oculta.
Marat virava e revirava sobre a mesa a
sua cabeça de defunto, procurando uma resposta que não achava.
- Sim - murmurou ele - há nisso, decerto,
alguma coisa de sobrenatural.
- Pelo contrário, senhor, é naturalíssimo;
cesse de chamar sobrenatural a tudo quanto provém das funções e destino da alma. As funções são naturais; conhecidas, é outra coisa.
- Desconhecidas para nós, mestre, não
devem essas funções ser para o senhor um mistério. O cavalo, que os peruvianos não conheciam, era familiar aos espanhóis, que o tinham domado.
- Seria muito orgulho da minha parte
dizer: “Eu sei”. Sou mais humilde, senhor: digo “Creio”.
- Pois bem, o que crê?
- Creio que a lei do mundo, a primeira, a
mais poderosa de todas, é a do progresso. Creio que Deus nada criou senão com um fim de bem-estar ou de moralidade. Como porém a vida deste mundo é inoculada e incalculável, o progresso é lento. O nosso planeta contava, no dizer das Escrituras, sessenta séculos, quando a imprensa veio como imenso farol reflectir o passado e alumiar o futuro; com a imprensa cessou a escuridão, cessou o esquecimento; a Imprensa é a memória do mundo. Pois bem! Guttenberg inventou a Imprensa, e eu achei a confiança.
- Ah! - disse ironicamente Marat -
chegará talvez a ler nos corações?
- Por que não?
- Então fará praticar no peito do homem
a janelinha, que tanto lhe desejavam ver os antigos?
- Não há necessidade disso, senhor; hei-
de isolar a alma do corpo; e a alma, filha pura, filha imaculada de Deus, há-de dizer-me todas as torpezas do invólucro mortal, que está condenada a animar.
- Revelará segredos materiais? - Por que não?
- Dir-me-á por exemplo, quem me
roubou o meu relógio?
- O senhor rebaixa a ciência a um triste
nível. Mas é o mesmo, a grandeza de Deus tanto se prova pelo grão de areia como pela montanha, pelo insecto como pelo elefante. Sim, eu direi quem lhe roubou o relógio.
Neste momento bateram timidamente
na porta. Era a porteira de Marat, que chegara, e conforme a ordem dada pelo jovem cirurgião, trazia a carta.