José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 16 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XX

 

A PORTEIRA DE MARAT

Abriu-se a porta para dar entrada à Srª.

Grivette.

Esta mulher, que não nos demorámos

em esboçar, porque a sua figura é daquelas que o pintor coloca no último plano enquanto não é precisa; esta mulher entra agora no quadro movediço desta história, e pede para tomar lugar no imenso panorama, que empreendemos desenrolar aos olhos dos nossos leitores; panorama em que representaríamos, se o nosso génio igualasse a nossa vontade, desde o mendigo até ao rei, desde Caliban até Ariel, desde Ariel até Deus.

Vamos portanto tentar fazer um esboço

da Srª. Grivette, que se destaca da sombra e se dirige para nós.

Era alta e ressequida, teria trinta e dois

ou trinta e três anos, de cor amarela, olhos azuis orlados de preto, tipo aterrador do definhamento que sofrem na cidade, nas condições de miséria, de asfixia incessante e de degradação física e moral, essas criaturas que Deus fez formosas, e que teriam sido magníficas em seu pleno desenvolvimento, como o são todas as criaturas do ar, do céu e da terra, quando o homem não lhes tornou a vida um longo suplício; isto é, quando lhes não tem cansado os pés com a peia e o estômago com a fome, ou com uma alimentação quase tão fatal como o poderia ser a falta total de alimentação.

A porteira de Marat seria uma formosa

mulher, se não tivesse vivido, desde a idade de quinze anos, numa toca sem ar nem luz; se o fogo dos naturais instintos, alimentado por aquele calor de forno, ou por um frio de gelo, tivesse incessantemente ardido com moderação. Tinha as mãos compridas e magras, que a linha da costura sulcara de pequenos golpes, que a água das barrelas gretara e amolecera, que a brasa da cozinha torrara e endurecera; mas, apesar disso tudo, eram mãos, conhecia-se pela forma, isto é, por esse traço indelével do músculo divino, eram mãos que se teriam chamado mãos reais, se em lugar das empolas da vassoura, tivessem as do ceptro.

Tão verdade é que este pobre corpo

humano não passa de uma tabuleta da nossa profissão.

Naquela mulher, o espírito, que por ser

superior ao corpo resistira melhor do que este, velava como uma lâmpada; alumiava, porque assim digamos, o corpo com um reflexo diáfano, e por vezes via-se-lhe subir aos olhos bestificados e sem brilho um raio de inteligência, da mocidade, da formosura, do amor, de tudo enfim quanto há de sublime na natureza humana.

Bálsamo contemplou por muito tempo

aquela mulher, ou antes aquela natureza singular, que à primeira vista lhe atraíra o olhar observador.

A porteira entrou trazendo a carta na

mão, e com voz adocicada, com voz de velha, porque as mulheres condenadas à miséria são velhas aos trinta anos, disse:

- Sr. Marat, aqui está a carta que pediu. - Não era a carta que eu queria, era a

senhora que eu desejava ver - disse Marat.

- Pois bem, sou uma sua criada, Sr.

Marat, e aqui estou para o servir.

E a Srª. Grivette fez uma cortesia. - O que desejava? - acrescentou. - Desejo notícias do meu relógio - disse

Marat; - bem o deve saber.

- Ora! Eu não sei o que é feito dele. Vi-o

ontem todo dia pendurado no prego, ao pé da chaminé.

- Engana-se; esteve todo o dia na

algibeira; só às seis horas da tarde, como ia para um lugar onde havia muita gente e tive medo que mo roubassem, o meti debaixo do castiçal.

- Se o pôs debaixo do castiçal, lá deve

estar.

E a porteira, com fingida simplicidade,

que estava longe de supor tão poderosamente reveladora, foi justamente levantar dos dois castiçais que ornavam a chaminé, aquele debaixo do qual Marat escondera o relógio.

- Sim - disse o mancebo - o castiçal é

exactamente esse, mas o relógio?

- Já cá não está, é verdade. Não o tinha

aqui posto, Sr. Marat?

- Mas, se acabo de lhe dizer... - Procure bem.

- Oh! Tenho procurado muito bem -

disse Marat, com olhar enfurecido.

- Então, é que o perdeu.

- Mas se lhe digo que eu mesmo ali o

pus ontem.

- Terá aqui entrado alguém - disse a Srª.

Grivette; - recebe tanta gente, tantos desconhecidos!

- Pretexto! Pretexto! - bradou Marat,

encolerizando-se cada vez mais; - bem sabe que desde ontem não entrou aqui ninguém. Não, não, o meu relógio levou o mesmo caminho que o castão de prata da minha última bengala, que aquela colherinha de prata que sabe, e que o meu canivete de seis folhas! Roubam-me, Srª. Grivette, roubam-me. Tenho suportado muita coisa, mas não suportarei esta; tome cuidado!

- Mas, senhor - disse a porteira - está-me

porventura acusando?

- Deve velar pelas minhas coisas. - Não sou eu só que tenho a chave. - Mas é a porteira.

- Dá-me três francos por mês e quer ser

servido como por dez criados!

- Não me importa ser mal servido, o que

me importa é não ser roubado.

- Senhor, sou uma mulher honrada! - Sim, uma mulher honrada, que daqui a

uma hora hei-de entregar nas mãos da justiça, se o meu relógio não tiver aparecido.

- Nas mãos da justiça?

- Sim.

- Nas mãos da justiça uma mulher

honrada como eu?

- Mulher honrada! Mulher honrada! - Honrada, sim, senhor, e em quem não

há que arranhar, ouviu?

- Basta, basta, Srª. Grivette! - Ah! Eu bem desconfiava que o senhor

suspeitava de mim quando saía.

- Desconfio de si desde que me

desapareceu o castão da bengala.

- Pois bem, eu também tenho uma coisa

que lhe dizer, Sr. Marat.

- Qual é?

- É que durante a sua ausência

consultei...

- Quem?

- Os vizinhos.

- A que propósito?

- Do senhor desconfiar de mim. - Ainda lho não tinha dito. - Mas eu bem o percebia. - E os vizinhos? Estou com curiosidade

de saber o que disseram os vizinhos.

- Disseram que se o senhor suspeitava

de mim e o dissesse a alguém, o caso não havia de ficar por aí.

- Então o que havia de fazer? - Havia de provar evidentemente que o

relógio lhe foi tirado.

- E foi tirado, efectivamente, visto que já

lá não está.

- Sim, mas havia de provar que foi tirado

por mim, compreende? Ah! Perante a justiça são precisas provas; não basta a sua palavra, Sr. Marat: o senhor não é mais do que a gente.

Bálsamo, tranqüilo como sempre,

contemplava a cena que diante dele se passava. Via que Marat, apesar de não ter mudado de convicção, ia baixando a voz.

- E se o senhor - continuou a porteira -

não faz imediatamente justiça à minha probidade, se não repara o ultraje que fez à minha honra, eu é que vou buscar a justiça, como ainda há pouco me aconselhava o senhorio.

Marat mordeu os beiços. Sabia que

havia para ele perigo sério na ameaça da porteira. O senhorio era um velho mercador, que se retirara dos negócios com uma sofrível fortuna. Morava num quarto do terceiro andar, e a crónica escandalosa do bairro pretendia que haveria dez anos protegera muito a porteira, que era naquele tempo criada da cozinha em casa dele.

Ora, Marat, que sustentava relações

misteriosas, que era rapaz de vida um tanto desordenada, que se escondia um pouco, que era suspeito aos olhos da polícia, preferia não ter dares nem tomares com a justiça, que poderia levá-lo às mãos do senhor de Sartines, o qual gostava muito de ler a papelada dos rapazes como Marat, e de mandar os autores dos belos escritos para as casas de meditação que tinham por nome Vincennes, a Bastilha, Charenton e Bicêtre.

Marat baixou a voz; porém à proporção

que ele a baixava a porteira levantava a sua. Resultou que aquela mulher, nervosa e histérica, inflamou-se como o fogo que encontra uma corrente de ar.

Ameaças, juramentos, gritos, lágrimas,

tudo empregou: foi uma verdadeira tempestade.

Então julgou Bálsamo que era tempo de

intervir; deu um passo para a mulher, que estava de pé e ameaçadora no meio do quarto, e olhando para ela com um modo sinistro, aplicou-lhe dois dedos ao peito, pronunciando não com os lábios, mas com os olhos, com o pensamento, com toda a vontade, uma palavra, que Marat não pôde ouvir.

Imediatamente a Srª. Grivette se calou,

cambaleando e perdendo o equilíbrio, e com os olhos horrivelmente dilatados, foi recuando e caiu na cama sem pronunciar uma única palavra.

Os olhos fecharam-se-lhe e tornaram a

abrir-se, sem que então se lhe visse a pupila; a língua agitou-se-lhe convulsivamente; o torso não se moveu, e todavia, as mãos tremiam-lhe como se fossem sacudidas pela febre.

- Oh! Oh! - disse Marat - é como o

doente do hospital!

- Tal qual.

- Então dorme?

- Silêncio! - disse Bálsamo. Depois, dirigindo-se a Marat: - Senhor - disse ele - está chegado o

momento de cessarem todas as incredulidades; apanhe a carta que esta mulher lhe trazia e que deixou cair quando a adormeci.

Marat obedeceu.

- Então? - perguntou ele.

- Espere!

E tirando a carta das mãos de Marat: - Sabe de quem vem esta carta? -

perguntou Bálsamo à sonâmbula.

- Não, senhor - redargüiu ela. Bálsamo chegou à mulher a carta,

mesmo fechada.

- Leia-a ao Sr. Marat, que deseja saber o

que ela contém.

- Ela não sabe ler - disse Marat. - Mas o senhor sabe.

- Certamente.

- Pois bem, leia a carta, que ela também

a lerá à medida que as palavras se lhe forem gravando no espírito.

Marat abriu a carta e leu-a ao passo que

a Srª. Grivette, de pé e estremecendo sob a omnipotente vontade de Bálsamo, repetia, à medida que Marat ia lendo, as palavras seguintes:

“Meu caro Hipócrates.

Apeles acabou o seu primeiro quadro,

que vendeu por 50 francos; comem-se hoje esses cinqüenta francos na Rua Saint-Jacques. Apareces?

Escuso de dizer-te que também se bebe

parte deles.

Teu amigo, L. David.”

Era, palavra por palavra, o que estava

escrito.

Marat deixou cair o papel. - Então! - disse Bálsamo - vê que a Srª.

Grivette tem também uma alma, e que essa alma vela enquanto o corpo dorme?

- É uma alma bem singular - disse Marat

– uma alma que sabe ler, quando o corpo não o sabe.

- Porque a alma sabe tudo, porque a

alma pode reproduzir pela reflexão. Veja se quando ela estiver acordada é capaz de ler essa carta, isto é, quando o corpo lhe tiver envolvido a alma com a sua sombra.

Marat não dizia palavra; toda a sua

filosofia material se revolvia nele; mas não achava resposta.

- Agora - prosseguiu Bálsamo -

passemos ao que mais lhe interessa, isto é, vamos saber onde pára o seu relógio.

- Srª. Grivette, quem tirou o relógio do

Sr. Marat?

A sonâmbula fez um violento gesto

negativo.

- Não sei - disse ela.

- Sabe perfeitamente - insistiu Bálsamo -

e há-de dizer-mo.

Depois, com uma vontade ainda mais

forte:

- Quem tirou o relógio do Sr. Marat?

Diga!

- A Srª. Grivette não furtou o relógio do

Sr. Marat. Por que julga o Sr. Marat que foi ela que o furtou?

- Se não foi ela, diga quem foi. - Não sei.

- Bem vê - disse Marat - a consciência é

um refúgio impenetrável.

- Pois bem, senhor - disse Bálsamo -

visto ser essa a sua última dúvida, vai ficar convencido.

Depois, voltando-se para a porteira: - Diga quem foi, assim o quero! - Vamos, vamos - disse Marat - não

queira impossíveis.

- Ouviu? - disse Bálsamo; - eu disse que

assim o queria.

Então, sob a impressão dessa vontade

imperiosa, a desgraçada mulher começou a estorcer-se como doida, um estremecimento semelhante ao da epilepsia lhe percorreu o corpo, e a boca apresentou uma hedionda expressão de terror e fraqueza; deixou-se cair para trás, endireitou-se como numa convulsão dolorosa e caiu de todo na cama.

- Não, não! - disse ela - antes quero

morrer!

- Então - bradou Bálsamo com uma raiva

que lhe fez brilhar o fogo nos olhos - hás-de morrer se tanto for preciso, mas hás-de falar. O teu silêncio e a tua obstinação seriam suficientes indícios para mim; mas, para um incrédulo, é precisa a prova irrefragável. Fala, eu o ordeno! Quem furtou o relógio?

A exasperação nervosa foi levada ao seu

cúmulo; tudo quanto a sonâmbula tinha de força e poder reagia contra a vontade de Bálsamo; soltou gritos inarticulados e franjaram-se-lhe os lábios de uma espuma avermelhada.

- Vai cair numa epilepsia - disse Marat. - Nada receie, é o demónio da mentira,

que está nela e não quer sair.

Depois, voltando-se para a mulher e

lançando-lhe ao rosto tudo quanto a sua mão podia conter de fluido, disse:

- Fala! Quem tirou o relógio? - A Srª. Grivette - respondeu a

sonâmbula com voz quase ininteligível.

- E quando o tirou?

- Ontem à noite.

- Onde estava?

- Debaixo do castiçal.

- E o que fez dele?

- Levou-o à Rua de Saint-Jacques. - E a que parte dessa rua? - Ao n.º 29.

- A que andar?

- Ao quinto.

- A casa de quem?

- A casa de um oficial de sapateiro.

- Como se chama ele?

- Simão.

- O que lhe é esse homem? A sonâmbula calou-se.

- O que lhe é esse homem? A sonâmbula continuou a ficar calada. - O que lhe é esse homem? - repetiu

Bálsamo.

O mesmo silêncio.

Bálsamo estendeu para ela as mãos

impregnadas de fluido, e a desgraçada, esmagada com aquele ataque terrível, apenas teve força para murmurar:

- Seu amante.

Marat soltou um grito de admiração. - Silêncio! - disse Bálsamo - deixe falar a

consciência.

Depois, continuando a dirigir-se à

mulher, que estava toda trémula e coberta de suor, perguntou:

- E quem aconselhou esse roubo à Srª.

Grivette?

- Ninguém. Levantou o castiçal por

acaso, viu o relógio, e então o Demónio tentou-a.

- Foi por necessidade?

- Não, porque não foi vender o relógio. - Deu-o?

- Deu.

- A Simão?

A sonâmbula fez um esforço e disse: - A Simão.

Depois escondeu o rosto com as mãos e

deixou correr uma torrente de lágrimas.

Bálsamo lançou um olhar para Marat,

que, de boca aberta, com os cabelos em desordem, as pálpebras dilatadas, contemplava o aterrador espectáculo.

- Pois bem, senhor! - disse ele - vê enfim

a luta da alma com o corpo? Vê, finalmente, que Deus nada esqueceu neste mundo, e que está tudo em tudo? Não negue portanto a consciência, não negue que lhe é desconhecido, mancebo! Sobretudo não negue a fé, que é o poder supremo; e já que tem ambição, estude, Sr. Marat; fale pouco, pense muito, e não julgue ligeiramente os seus superiores. Adeus, tem um campo bem vasto, aberto pelas minhas palavras; revolva esse campo que encerra tesouros. Adeus. Feliz, bem feliz será se puder vencer o demónio da incredulidade, que vive em si, como eu venci o da mentira, que está naquela mulher.

E saiu dizendo estas palavras, que

fizeram assomar ao rosto do mancebo a cor vermelha da vergonha.

Marat não pensou sequer em despedir-

se dele.

Depois do primeiro momento de

espanto, viu que a Srª. Grivette continuava no seu sono.

Esse sono pareceu-lhe aterrador. Marat

teria preferido ver na sua cama um cadáver, até com o risco de ver o senhor de Sartines interpretar essa morte a seu modo.

Olhou para aquela atonia, aqueles olhos

revirados, aquelas palpitações, e teve medo.

O terror cresceu ainda mais nele quando

o cadáver vivo se levantou, lhe pegou na mão e disse-lhe:

- Venha comigo, Sr. Marat! - Onde?

- À Rua de Saint-Jacques. - Para quê?

- Venha, venha; ele ordena-me que o

conduza lá.

Marat, que se tinha deixado cair numa

cadeira, levantou-se.

Então a Srª. Grivette, sempre

adormecida, abriu a porta, desceu a escada com a ligeireza de um pássaro ou de um gato, isto é, mal tocando nos degraus.

Marat seguiu-a, receando que ela desse

alguma queda desastrosa.

Chegada a baixo, saiu, atravessou a rua,

sempre seguida pelo mancebo, a quem foi assim guiando até à casa designada.

Bateu à porta. Marat sentiu o coração

palpitar com tanta violência, que chegou a parecer-lhe que não devia passar despercebido a quem passava.

Na água-furtada onde a Srª. Grivette

bateu estava um homem; Marat reconheceu nele um operário de vinte cinco a trinta anos, que algumas vezes vira no cubículo da porteira.

A sonâmbula foi direita à cama, e

metendo a mão debaixo do travesseiro, tirou o relógio e entregou-o a Marat, enquanto o sapateiro Simão, pálido de susto, não ousava proferir palavra, e seguia com olhar espantado até o menor gesto daquela mulher, que julgava doida.

Apenas tocou na mão de Marat para lhe

entregar o relógio, soltou um profundo suspiro e murmurou:

- Ele acorda-me! Ele acorda-me! Efectivamente, os nervos estenderam-se-

lhe com um cabo abandonado pela roldana; os olhos readquiriram a centelha vital, e achando-se diante de Marat, com a mão na mão dele, e segurando ainda o relógio, isto é, a prova irrecusável do crime, caiu desfalecida no chão.

- Existirá realmente a consciência?! -

disse consigo Marat saindo do quarto, levando a dúvida no coração e o cismar estampado nos olhos.