José Bálsamo, Volume IV
Capítulo V
OS CABELOS DA RAINHA
Ao chegar ao patamar da escada, ainda
Andreia vinha pela mão de el-rei, e foi somente ali que este a cortejou tão profundamente, que Richelieu teve tempo de ver a cortesia, de admirar a graça com que fora feita, e de perguntar a si mesmo a que feliz mortal havia sido dirigida.
Não durou muito tempo a sua
ignorância. Luís XV deu o braço à delfina, que tinha visto tudo e que tinha já perfeitamente reconhecido Andreia.
- Minha filha - lhe disse ele - venho sem-
cerimónia cear convosco. Atravessei toda a quinta, e no caminho, encontrando a menina de Taverney, roguei-lhe que me acompanhasse.
- A menina de Taverney! - murmurou
Richelieu, quase atordoado com este inesperado acontecimento - Por minha alma! É muita felicidade!
- De modo que nem só não ralharei com
a menina de Taverney por me ter faltado - respondeu delicadamente a delfina - mas até hei-de agradecer-lhe por nos ter trazido Vossa Majestade.
Andreia, vermelha como uma das belas
cerejas que guarneciam a mesa, no centro das flores, inclinou-se sem responder.
- Com os diabos! É realmente formosa! -
disse consigo Richelieu; - e aquele velho ratão de Taverney não exagerava o que dizia a respeito do seu merecimento.
El-rei, depois de ter sido
cumprimentado pelo senhor delfim, sentou-se à mesa, e com um apetite bem pronunciado, fez honra ao serviço improvisado que, como por encanto, lhe foi apresentado pelo mordomo.
Entretanto, comendo sempre, el-rei que
estava de costas voltadas para a porta, parecia procurar alguma coisa, ou antes alguém.
Com efeito, a menina de Taverney, que
não gozava de privilégio algum, pois que a sua posição junto da senhora delfina ainda não estava bem determinada, a menina de Taverney, dissemos nós, não tinha entrado na casa de jantar, e, depois da sua profunda mesura em resposta à de el-rei, retirara-se para o quarto da senhora delfina, onde, já por duas ou três vezes, esta lhe havia mandado fazer uma leitura, depois de se meter na cama.
A senhora delfina compreendeu que o
olhar de el-rei procurava a sua formosa companheira do caminho.
- Senhor de Coigny - disse ela a um
jovem oficial das guardas, colocado por detrás de el-rei - Peço-lhe o favor de mandar entrar a menina de Taverney; com licença da senhora de Noailles, dispensaremos hoje a etiqueta.
O senhor de Coigny saiu, e um instante
depois introduziu na casa de jantar Andreia, que, não compreendendo esta sucessão de favores tão desusados, entrou toda a tremer.
- Sente-se acolá; menina - disse a delfina
- ao pé da senhora duquesa.
Andreia subiu timidamente para o
estrado, e estava tão perturbada, que teve a audácia de sentar-se a pequena distância da senhora de Noailles.
Também recebeu por isso um olhar tão
fulminante que esta lhe lançou, que a infeliz criança recuou quatro pés pelo menos, como se tivesse sido posta em contacto com uma garrafa de Leyde fortemente carregada.
El-rei Luís XV olhava para ela e sorria. - Ah! Ah! - disse o duque de Richelieu
consigo mesmo - escuso de meter-me nisto, o negócio caminha só por si.
El-rei voltou-se e viu o marechal
preparado para sustentar o seu olhar.
- Bons dias, senhor duque - disse Luís
XV; - então, vive em boa harmonia com a Srª. Duquesa de Noailles?
- Senhor - redargüiu o marechal - a
senhora duquesa faz-me sempre a honra de me maltratar como a um estouvado.
- Também foi à estrada de Chanteloup,
duque?
- Eu, senhor! Por certo que não; a minha
casa tem sido muito favorecida por Vossa Majestade para que eu fizesse semelhante coisa.
El-rei não esperava este ataque;
preparava-se para motejar, mas achou o duque prevenido.
- Que fiz eu então, duque? - Senhor, Vossa Majestade deu o
comando da sua cavalaria ligeira ao Sr. Duque de Aiguillon.
- Sim, é verdade.
- E para isso era mister toda a energia,
toda a habilidade de Vossa Majestade; é quase um golpe de Estado.
Tinha acabado a ceia; el-rei esperou um
instante e levantou-se da mesa.
A conversa teria podido causar-lhe
transtorno, mas Richelieu estava decidido a não largar a sua presa. Por isso, quando el-rei começou a conversar com a senhora de Noailles, a delfina e a menina de Taverney, Richelieu manejou tão sabiamente que se achou metido no mais forte da conversa, a qual ele tinha dirigido à sua vontade.
- Senhor - disse ele - Vossa Majestade
sabe que os sucessos tornam os homens atrevidos?
- Será isso para nos dizer que é atrevido,
duque?
- É para pedir a Vossa Majestade uma
nova mercê, depois da que el-rei se dignou fazer-me; um dos meus amigos, um antigo servidor de Vossa Majestade, tem o seu filho nos gendarmes. É um mancebo de muito merecimento, mas pobre. Recebeu de uma augusta princesa uma patente de capitão, mas faltava-lhe a respectiva companhia para comandar.
- A princesa é minha filha? - perguntou
el-rei voltando-se para a delfina.
- Sim, senhor - disse Richelieu - e o pai
do mancebo chama-se o barão de Taverney.
- Meu pai!... - exclamou
involuntariamente Andreia. - Filipe!... É para Filipe, senhor duque, que pede uma companhia.
Depois, envergonhada por esse
desprezo da etiqueta, Andreia recuou um passo, corando de pejo e com as mãos postas.
El-rei voltou-se para admirar a
vermelhidão e a comoção da formosa criança, mas logo se virou para Richelieu com um olhar de benevolência, que mostrou ao cortesão quanto lhe era agradável o seu pedido, que lhe proporcionava tão belo ensejo para fazer uma mercê.
- Efectivamente - disse a delfina - é um
excelente mancebo, e eu obriguei-me a fazer a sua fortuna; como são infelizes os príncipes! Quando Deus lhes dá a boa vontade, tira-lhes a memória ou o raciocínio; não devia eu ter pensado que aquele mancebo era pobre, que não bastava dar-lhe as dragonas, mas que era preciso também dar-lhe a companhia?
- Ah! Minha senhora, como o poderia
Vossa Alteza ter sabido?
- Oh! Eu sabia-o - redargüiu vivamente a
delfina com um gesto, que trouxe à memória de Andreia a casa tão nua, tão modesta, e contudo tão feliz para a sua infância; - sei-o, ou sabia-o e julguei fazer tudo dando um posto ao Sr. Filipe de Taverney... chama-se Filipe, não é verdade, menina?
- Sim, minha senhora.
El-rei olhou para todas essas fisionomias
tão nobres, tão francas; depois fitou os olhos na de Richelieu, que se iluminava também com um reflexo de generosidade que, sem dúvida, tomava emprestado à sua augusta vizinha.
- Ah! Duque - disse ele em voz baixa -
vou ter questão em Luciennes.
Depois prosseguiu falando com
Andreia:
- Diga só que isso lhe há-de agradar,
menina.
- Ah! Senhor - disse Andreia unindo as
mãos – eu vo-lo suplico.
- Concedido, então - disse Luís XV; -
escolherá uma boa companhia para esse pobre mancebo, duque; e eu fornecerei os fundos dado o caso que ela não esteja já vaga e paga.
Esta boa acção alegrou todas as pessoas
presentes; granjeou a el-rei um celeste sorriso de Andreia, e a Richelieu um agradecimento proferido por essa formosa boca a quem, na sua mocidade, teria pedido mais ainda, ambicioso e avarento como era.
Chegaram sucessivamente algumas
visitas; entre elas vinha o cardeal de Rohan, que, desde a instalação da delfina no Trianon, fazia assiduamente a sua corte.
Mas el-rei, durante a noite toda, só teve
atenções e palavras agradáveis para Richelieu. Fez-se mesmo acompanhar por ele quando se despediu da delfina para voltar ao seu Trianon. O velho marechal seguiu el-rei com visíveis sinais de prazer.
Enquanto Sua Majestade voltava com o
duque e os dois oficiais pelas alamedas sombrias que conduziam ao palácio, Andreia tinha sido despedida pela delfina.
- Precisa mandar dizer esta boa notícia a
seu pai, há-de querer escrever, pode retirar-se, menina.
E, precedida por um criado que levava
uma lanterna, Andreia atravessava a esplanada de cem passos que separava o Trianon do edifício em que ela habitava.
Diante dela, de arbusto em arbusto,
saltava uma sombra por entre a folhagem, seguindo com os olhos chamejantes cada movimento da encantadora menina: era Gilberto.
Quando Andreia chegou ao patim e
começou a subir os degraus de pedra da escada, o criado voltou para as antecâmaras do Trianon.
Então Gilberto, entrando furtivamente
no vestíbulo, chegou ao pátio das cavalariças, e por uns degraus íngremes como uma escada de mão, trepou para o quarto, situado em frente das janelas do quarto de Andreia, num ângulo dos edifícios.
De lá viu Andreia chamar em seu auxílio
uma aia da senhora de Noailles, cujo quarto era no mesmo corredor.
Mas quando essa criatura entrou no
quarto de Andreia, as cortinas da janela caíram como um véu impenetrável entre os seus ardentes desejos e o objecto que as provocava.
No palácio já não havia senão o senhor
de Rohan, dobrando o seu galanteio junto da senhora delfina, que o tratava com bastante frieza.
O prelado acabou por ter medo de ser
indiscreto, tanto mais que havia já visto o senhor delfim retirar-se. Despediu-se portanto de Sua Alteza Real com o sinal do mais profundo e verdadeiro respeito.
No momento em que ele se metia na
carruagem, uma aia da delfina aproximou-se e disse-lhe:
- Eis aqui.
E entregou-lhe nas mãos um papelinho
macio, cujo contacto fez estremecer o cardeal.
- Eis aqui - respondeu ele
apressadamente, pondo nas mãos dessa mulher uma bolsa pesada, e que, se estivesse vazia, teria sido uma recompensa honrosa.
O cardeal, sem perder tempo, ordenou
ao cocheiro que seguisse para Paris e que chegando à barreira esperasse novas ordens.
Durante o caminho todo, na escuridão
da carruagem, apertou e beijou como um amante embriagado o conteúdo desse papel.
Chegando à barreira, disse: - Rua de Saint-Claude.
Pouco depois atravessava o pátio
misterioso, e entrava nessa pequena sala onde estava Fritz, o introdutor de modos silenciosos.
Bálsamo demorou-se um quarto de hora.
Afinal apareceu, e deu por desculpa ao cardeal que a hora adiantada em que se estava o tinha feito persuadir que não teria mais visitas naquele dia.
E, com efeito, eram quase onze horas da
noite.
- É verdade, senhor barão - disse o
cardeal - e peço perdão de o ter vindo incomodar; mas lembra-se de me ter dito uma vez, que para ter a certeza de certos segredos...?
- Precisava cabelos da pessoa de quem
então falávamos - interrompeu Bálsamo que tinha já visto o papelinho nas mãos do lhano prelado.
- Exactamente, senhor barão. - E traz-me esses cabelos, senhor? Muito
bem!
- Ei-los aqui. Julga que será possível tê-
los outra vez depois da experiência?
- Salvo se for necessário recorrer ao
fogo... porque nesse caso...
- Sem dúvida, sem dúvida - disse o
cardeal; - nesse caso poderei haver outros. Posso ter agora uma solução?
- Hoje?
- Sou impaciente, bem o sabe. - É preciso primeiramente experimentar,
senhor.
Bálsamo pegou nos cabelos e subiu
precipitadamente aos quartos de Lorenza.
- Vou então saber - dizia ele consigo no
caminho - o segredo desta monarquia; vou saber a vontade oculta de Deus.
E antes de entrar no quarto, pela porta
misteriosa, adormeceu Lorenza através da parede. A jovem romana portanto recebeu-o abraçando-o ternamente.
Bálsamo arrancou-se a custo dos seus
braços. Teria sido custoso decidir qual das duas coisas era mais dolorosa ao pobre barão, se os maus modos da formosa italiana quando estava acordada, se as suas carícias quando dormia.
Enfim, tendo conseguido desfazer a
cadeia que a formosa rapariga lhe formara ao pescoço com os dois braços, disse-lhe, pondo-lhe nas mãos o papelinho:
- Minha querida Lorenza, podes dizer-
me a quem pertencem esses cabelos?
Lorenza pegou neles e uniu-os ao peito,
depois à fronte; apesar de ter os olhos bem abertos, era pelo peito e pela fronte que ela via durante o seu sono.
- Oh! - disse ela - é uma cabeça muito
ilustre aquela de que foram furtados.
- Não é verdade?... Uma cabeça feliz,
não é assim?
- Pode sê-lo...
- Procura bem, Lorenza.
- Sim, pode sê-lo; ainda não há sombras
na sua vida.
- Todavia é casada...
- Oh! - disse Lorenza sorrindo.
- Então, o que é? O que quer a minha
Lorenza dizer?
- É casada, querido Bálsamo, e todavia... - E todavia?...
- E todavia...
Lorenza também sorriu.
- Eu também sou casada - disse ela. - Certamente.
- E todavia...
Bálsamo olhou para Lorenza com
profunda admiração; apesar do seu sono, a italiana corou de pejo.
- E todavia?... - repetiu ainda Bálsamo. -
Acaba.
Lorenza lançou de novo os braços em
torno do pescoço do seu amante, e escondendo a cabeça no seu peito, disse:
- E todavia sou virgem.
- E essa mulher, essa princesa, essa
rainha – exclamou Bálsamo, - apesar de casada?...
- Essa mulher, essa princesa, essa rainha
– repetiu Lorenza - é tão pura e tão virgem como eu: mais pura, mais virgem ainda, porque ela não ama e eu amo!
- Oh! Fatalidade! - murmurou Bálsamo. -
Obrigado, Lorenza, eu sei tudo quanto queria saber.
Abraçou-a, guardou preciosamente os
cabelos na sua algibeira; e, cortando a Lorenza uma pequena madeixa dos seus cabelos pretos, queimou-a na chama da luz e recolheu as cinzas no papel que tinha servido para os cabelos da delfina.
Então desceu; e, caminhando sempre,
acordou Lorenza do seu sono.
O prelado, comovido e impaciente,
esperava e duvidava.
- Então, senhor conde? - perguntou ele. - Então, senhor...
- O oráculo?...
- O oráculo disse que podia esperar. - Disse isso? - exclamou o príncipe
transportado.
- Tire a conclusão que lhe agradar,
senhor; o oráculo disse que esta mulher não ama o seu marido.
- Oh! - disse o senhor de Rohan com um
transporte de alegria.
- Quanto aos cabelos - disse Bálsamo -
foi-me necessário queimá-los para obter a revelação por meio da essência; aqui estão as cinzas que lhe restituo escrupulosamente depois de as ter apanhado e recolhido, como se cada átomo valesse um milhão.
- Agradecido, senhor, muito agradecido;
nunca poderei pagar-lhe tantos serviços.
- Não falemos nisso, senhor. Uma única
recomendação quero fazer-lhe - disse ele - e é que não vá beber essas cinzas desfeitas em vinho, como algumas vezes o fazem os namorados; isso é de uma simpatia tão perigosa que o seu amor se tornaria incurável, enquanto que o coração da amante esfriaria.
- Ah! Decerto que o não farei - disse o
prelado quase aterrado. - Adeus, senhor conde, adeus!
Vinte minutos depois, a carruagem de
Sua Eminência cruzava-se no recanto da Rua dos Petis-Champs com a carruagem do senhor de Richelieu, que por pouco não tombou numa dessas covas enormes abertas para a construção de uma casa.
Os dois fidalgos conheceram-se. - Olé! Príncipe - disse Richelieu sorrindo. - Olé! Duque! - respondeu o Sr. Luís de
Rohan pondo um dedo na boca.
E foram transportados em sentido
inverso.