José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XVII
RELATÓRIO
Depois da saída dos membros de
segunda e terceira ordem ficaram na loja sete associados. Eram sete chefes.
Reconheceram-se entre si por meio de
sinais, que provavam as suas iniciações num grau superior.
O seu primeiro cuidado foi de fecharem
as portas, revelando-se depois o presidente pela exibição de um anel em que estavam gravadas as letras misteriosas L. P. D.
O presidente era encarregado da
correspondência suprema da ordem. Estava em relações com os seis outros chefes, que habitavam a Suíça, a Rússia, a América, a Suécia, a Espanha e a Itália.
Trazia alguns papéis muito importantes,
que recebera dos seus colegas, para os comunicar à junta dos iniciados superiores, colocados acima dos outros e abaixo dele.
Já reconhecemos esse chefe; era
Bálsamo.
A mais importante dessas cartas
continha um aviso tremendo; vinha da Suécia, e era escrita por Swedenborg.
“Velai no Sul, irmãos, dizia ele; sob a
sua ardente influência foi-se criando um traidor. Esse traidor há-de perder-vos.
Velai em Paris, irmãos, o traidor reside
lá; os segredos da ordem estão nas suas mãos, e é impelido por um sentimento de ódio.
Ouço a denúncia do seu vôo surdo, na
sua voz de murmúrio. Vejo uma terrível vingança, mas talvez chegue muito tarde. Entretanto velai, irmãos! velai! Muitas vezes basta uma língua traiçoeira, ainda que mal instruída, para destruir os planos mais habilmente urdidos.”
Os irmãos olharam uns para os outros
em silenciosa surpresa; a linguagem do fogoso iluminado, a sua presciência, a que muitos exemplos frisantes davam uma autoridade imponente, não contribuíram pouco para impressionar a reunião presidida por Bálsamo.
Nem ele, que depositava fé na lucidez
de Swedenborg, pôde resistir à impressão grave e dolorosa que se lhe apoderou do ânimo depois de semelhante leitura.
- Irmãos - disse - o profeta inspirado
raras vezes se ilude. Velai portanto, como vo-lo recomenda. Sabeis agora tão bem como eu, que a luta está travada. Não sejamos vencidos por aqueles inimigos ridículos, cujo poder minamos com toda a segurança. Não esqueçais que dispõem de dedicações mercenárias. É uma arma poderosa neste mundo entre as almas que não vêem mais longe que os limites da vida terrestre. Irmãos, desconfiemos dos traidores assalariados.
- Esses receios parecem-me pueris - disse
uma voz; - cada dia ganhamos mais força, e somos dirigidos por brilhantes génios e por mãos vigorosas.
Bálsamo inclinou-se para agradecer o
elogio do lisonjeiro.
- Sim; mas conforme disse o nosso
ilustre presidente, a traição penetra por todos os lados - redargüiu um irmão, que não era outro senão o cirurgião Marat, promovido, apesar da sua mocidade, a um grau superior, graças ao qual pela primeira vez tomava assento na junta consultiva. - Lembrai-vos, irmãos, que dobrando a isca, a presa é mais importante. Se o senhor de Sartines, com um saco de dinheiro, pode comprar a revelação de um dos nossos irmãos obscuros, o ministro, com um milhão ou com a esperança de uma dignidade, pode comprar um dos nossos superiores. Ora, entre nós, o irmão obscuro nada sabe, e quando conhece os nomes de alguns dos seus colegas, esses nomes não significam coisa alguma. É uma ordem admirável esta da nossa constituição, mas é eminentemente aristocrática: os inferiores nada sabem, nada podem; reúnem-nos para lhes dizer ou fazer-lhes dizer futilidades; e contudo concorrem com o seu tempo e o seu dinheiro para a consolidação do nosso edifício. Pensai nisso, o operário só traz a pedra e a cal; mas sem pedra e sem cal faríeis vós a casa? Ora, o operário recebe um pequeno salário, e contudo eu considero-o igual ao arquitecto, cujo plano cria e vivifica todo o trabalho; e considero-o como seu igual, porque é um homem, e todo o homem vale outro homem aos olhos do filósofo, visto que carrega com a sua parte de miséria e de fatalidade como qualquer outro, e que, mais até que outro qualquer, está exposto à queda de uma pedra ou à quebra de um andaime.
- Interrompo-vos - disse Bálsamo. -
Abandonais a questão de que só nós devemos ocupar. O vosso defeito, irmão, consiste em exagerar o zelo e generalizar as discussões. Não se trata hoje de saber se é boa ou má a nossa constituição, senão de manter a firmeza e a integridade dessa constituição. Se eu quisesse discutir convosco, responderia: Não, o órgão que recebe o movimento não é igual ao génio do criador; não, o obreiro não é igual ao arquitecto; não, a cabeça não é igual ao braço.
- Se o senhor de Sartines lançar a mão a
um dos nossos irmãos dos últimos graus - bradou Marat com vivacidade - deixará de o mandar apodrecer na Bastilha tal qual como o faria a vós ou a mim?
- Concordo; mas, prendendo um desses
irmãos, só haverá dano para o indivíduo e não para a ordem, que para nós deve ser a primeira coisa. Se o chefe for preso, a conjuração há-de parar; se faltar o general, perder-se-á a batalha. Irmãos, velai pela salvação dos chefes!
- Sim, mas eles que velem também da
sua parte pela nossa.
- É o seu dever.
- E tenham os seus erros dobrado
castigo.
- Eu o repito, meu irmão, afastais-vos
das regras da ordem. Ignorais que o juramento que liga todos os membros da nossa associação é o mesmo, e aplica a todos as mesmas penas?
- Os grandes acharão sempre meio de se
subtraírem a elas, irmão.
- Não é essa a opinião dos grandes,
irmão; ouvi o final da carta do nosso profeta Swedenborg, um dos grandes entre nós; eis o que diz:
“O mal virá dos grandes, de um dos
maiores da ordem, ou, se não vier exactamente dele, não deixará por isso de lhe ser imputada a falta; lembrai-vos que o fogo e a água podem ser cúmplices: um dá a luz, outro as revelações.
Velai, irmãos, sobre tudo e sobre todos,
velai.”
- Então - disse Marat tomando do
discurso de Bálsamo e da carta de Swedenborg o lado de que queria tirar partido - repitamos o juramento que nos liga, e obriguemo-nos a mantê-lo em toda a sua integridade, qualquer que seja aquele que nos tiver atraiçoado ou for causa de traição.
Bálsamo pensou um instante, e
levantando-se da sua cadeira, pronunciou as palavras consagradas, que os nossos leitores já viram uma vez, com voz vagarosa, solene e terrível.
“Em nome do Filho crucificado, juro
quebrar os laços carnais que me ligam a pai, mãe, irmãos, irmãs, mulher, parentes, amigas, amantes, reis, benfeitores, e a todo ente, qualquer que seja, a quem eu tenha prometido fé, obediência ou serviço.
Juro revelar ao chefe, que reconheço,
segundo os estatutos da ordem, tudo quanto tiver feito, visto, lido ou ouvido, sabido ou descoberto e até procurar e espiar tudo o que se me não oferecer à vista.
Respeitarei o veneno, o ferro e o fogo
como meio de purificar o globo pela morte ou pela loucura dos que procuram aviltar a verdade ou arrancá-la das nossas mãos.
Subscrevo à lei do silêncio; consinto em
morrer como fulminado no dia em que tiver merecido castigo, e espero, sem me queixar, a punhalada que me há-de ferir em qualquer parte da terra em que me ache.”
Então os sete homens que compunham a
sinistra assembléia repetiram palavra por palavra este juramento, conservando-se de pé, e descobertos.
Depois, acabadas as palavras
sacramentais:
- Estamos garantidos - disse Bálsamo; -
não cortemos com mais incidentes a nossa discussão. Tenho que dar à junta conta dos principais acontecimentos do ano.
“A minha gerência dos negócios de
França não deixará de apresentar algum interesse a espíritos esclarecidos e zelosos como os vossos.
Eu começo.
A França está situada no centro da
Europa, como o coração no centro do corpo; vive e faz viver. É nas suas agitações que se deve procurar a causa de todo o mal que perturbe o organismo geral.
Vim portanto à França, e aproximei-me
de Paris como o médico se aproxima do coração: auscultei, apalpei, experimentei. Quando há um ano me acerquei dela a monarquia estava cansada; hoje os vícios matam-na. Julguei dever precipitar o efeito dessas mortais devassidões, e para isso protegi-as.
Um obstáculo se apresentava no meu
caminho: esse obstáculo era um homem, e esse homem não era o primeiro, mas era o mais poderoso do Estado, depois do rei.
Era dotado de algumas dessas
qualidades que agradam aos outros homens. É verdade que era muito orgulhoso, mas esse orgulho aplicava-o aos seus trabalhos; sabia adoçar a servidão do povo, fazendo-lhe crer, e até ver algumas vezes, que é uma parte do Estado, e consultando-o não raro sobre as suas próprias misérias, e arvorava um estandarte em volta do qual sempre as massas se reúnem: o espírito nacional.
Odiava os Ingleses, inimigos naturais da
França; odiava a favorita, natural inimiga das classes laboriosas. Ora, se tal homem tivesse sido um usurpador, se tivesse sido um dos nossos, se tivesse trilhado o nosso caminho, trabalhado no nosso sentido, tê-lo-ia poupado, tê-lo-ia conservado no poder, tê-lo-ia sustentado com quantos recursos posso criar para os meus protegidos, porque, em vez de escorar a realeza arruinada, tê-la-ia derrubado connosco no dia aprazado. Mas era da classe aristocrática, nascera com os respeitos da primeira ordem, a que não queria prejudicar; da monarquia, contra a qual não ousava atentar; poupava a realeza e desprezava o rei; fazia mais, servia de escudo a essa realeza contra a qual se dirigiam os nossos golpes. O parlamento e o povo, cheios de respeito por aquele dique vivo oposto à invasão da prerrogativa real, mantinha-se numa resistência imoderada, na certeza de, chegado o momento, encontrarem um poderoso auxiliar.
Compreendi a situação. Empreendi a
queda do senhor de Choiseul.
Essa obra poderosa, na qual havia dez
anos se empenhavam tantos ódios e tantos interesses, comecei-a e concluí-a dentro de poucos meses, por meios que é inútil dizer-vos. Por um segredo, que é uma das minhas forças, força tanto maior quanto há-de eternamente conservar-se oculta aos olhos de todos, manifestando-se apenas pelo efeito, derrubei e expulsei o senhor de Choiseul, e fiz que se lhe ligasse um cortejo de saudades, despeites, lamentações e cóleras.
O trabalho está produzindo os seus
frutos; a França inteira pede Choiseul e erguem-se para o reaver como os órfãos erguem ao céu as mãos quando Deus lhes arrebata os pais.
Os parlamentos usam do único direito
que lhes resta, a inércia: cessaram de funcionar. Num corpo bem organizado, como deve ser um Estado de primeira ordem, a paralisia de um órgão essencial é imortal; ora, o parlamento é para o corpo social o mesmo que o estômago para o corpo humano; deixando os parlamentos de trabalhar, o povo, essas entranhas do Estado, não trabalhará, e por conseqüência, não poderá pagar: e portanto o ouro, isto é, o sangue há-de faltar-lhe.
Quererão lutar sem dúvida; mas quem
há-de lutar contra o povo? Não há-de ser o exército, esse filho do povo, que come o pão do lavrador, que bebe o vinho do vinhateiro. Restam a casa do rei, os corpos privilegiados, os guardas, os suíços, os mosqueteiros, cinco ou seis mil homens, se tanto! O que poderá fazer esse punhado de pigmeus quando o povo se levantar como um gigante?”
- Que se levante então, que se levante! –
bradou Marat.
- Mancebo, ainda não vos consultei -
disse friamente Bálsamo. - Essa sedição das massas - prosseguiu – essa revolta dos fracos tornados fortes pelo seu número contra o poderoso isolado, espíritos menos sólidos, menos maduros e menos experientes provocá-la-iam imediatamente e consegui-la-iam até com pasmosa facilidade; mas eu reflecti, estudei... Desci até ao povo, e debaixo dos seus trajos, com a sua perseverança, com a sua rudez, que eu afectava, vi-o de tão perto que me fiz povo também. Hoje, portanto, conheço-o. Não me enganarei mais a seu respeito. É forte, mas é ignorante; é irritável, mas não rancoroso; numa palavra, não está maduro para a sedição como eu a entendo e como a quero. Falta-lhe a instrução, que lhe mostre os acontecimentos sob o duplo aspecto do exemplo e da utilidade; falta-lhe a memória da sua própria experiência. Parece-se com aqueles ousados mancebos que vi na Alemanha, nas festas públicas, treparem ardentemente até ao cimo de um mastro de navio, onde o bailio mandara colocar um presunto e um copo de prata; iam ardentes de desejos e ganhavam caminho com uma rapidez admirável, mas, chegados ao termo, quando se tratava de estender o braço para agarrar o prémio, abandonava-os a força e deixavam-se escorregar até abaixo, no meio das assuadas da multidão. Da primeira vez acontecia como acabo de vo-lo dizer; da segunda vez, poupavam as forças e o fôlego, mas tomando mais tempo, falhavam por irem com demasiado vagar, como antes tinham falhado pela demasiada precipitação; mas à terceira vez, tomavam um meio termo entre a precipitação e o vagar, e venciam. Tal é o plano que medito. Experiências, sempre experiências, que incessantemente nos aproximam do fim desejado até ao dia em que o êxito infalível nos permita alcançá-lo.
Bálsamo cessou de falar e considerou o
auditório, onde ferviam todas as paixões da mocidade e da inexperiência.
- Falai, irmão - disse ele a Marat, que
acima de todos se agitava.
- Serei breve - disse ele; - as tentativas
adormecem os povos quando os não desanimam. As tentativas, são a teoria de Rousseau, cidadão genebrês, grande poeta, mas génio lento e tímido, cidadão inútil, que Platão expulsaria da sua república! Esperar! Sempre esperar! Desde a emancipação dos comuns, há sete séculos que esperais! Contai as gerações que têm morrido à espera, e atrevei-vos a tomar ainda por divisa do futuro essa fatal palavra: esperar! O Sr. Rousseau fala-nos da oposição, como se fazia antigamente, como se fazia junto dos marqueses e ajoelhado aos pés dos reis. Molière com as suas comédias, Boileau com as suas sátiras, La Fontaine com as suas fábulas. Pobre e débil oposição, que não adiantou sequer um passo a causa da humanidade! As crianças aceitam essas teorias encobertas sem as compreender e adormecem recitando-as. Rabelais também faz política, conforme a entendeis, mas é uma política que faz rir e não emenda. Ora de trezentos anos a esta parte, tendes visto corrigir algum abuso? Basta de poetas! Basta de teóricos! Venham obras, acções! Há três séculos que deixamos a França nas mãos da medicina, é tempo que por sua vez entre com ela a cirurgia com os seus instrumentos afiados. A sociedade tem gangrena, tratemos de a dissipar. O que cercado de luxo e opulência se levanta da mesa para ir deitar-se em fofas almofadas, de que manda varrer as folhas de rosas pelos escravos, pode esperar, porque o estômago satisfeito comunica ao cérebro certos vapores, que o recreiam e beatificam; mas a fome, a miséria, o desespero não se satisfazem nem consolam com estrofes, sentenças e contos. Soltam os agudos gritos dos grandes padecimentos; surdo é aquele que não ouve estas lamentações! Maldito aquele que lhes não responde! Uma revolta, ainda quando devesse ser abafada, levará mais luzes aos espíritos do que mil anos de preceitos, mais do que três séculos de exemplos; esclarecerá os reis, se os não derrubar; é muito, é bastante!
Um sussurro lisonjeiro saiu dos lábios
de alguns.
- Onde estão os nossos inimigos? -
prosseguiu Marat. - Acima de nós, guardam a porta dos palácios, cercam os degraus do trono; nesse trono está o Paládio, que eles guardam com mais cuidados e receios do que o faziam os Troianos. Esse Paládio, que os torna poderosos, ricos, insolentes, é a realeza a que só se pode chegar passando por cima do corpo dos que a guardam, do mesmo modo que para chegar a um general é preciso aniquilar os batalhões que o protegem. Pois bem! De muitos batalhões nos fala a história, que foram aniquiladas, muitos generais têm sido tomados, desde Dario até ao rei João, desde Régulo até Duiguesclin. Derrubemos a guarda, e chegaremos ao ídolo; é necessário bater primeiro as sentinelas, para depois bater os chefes. Aos cortesãos, aos padres, aos aristocratas, seja o primeiro ataque; o derradeiro aos reis. Contai as cabeças privilegiadas: são apenas duzentas mil; passeai com uma espada na mão nesse belo jardim chamado a França, e cortai essas duzentas mil cabeças, como Tarquínio fazia às papoilas do Latium, estará tudo feito; já não tereis senão duas potências em presença uma da outra: povo e realeza. Então que a realeza experimente a luta com o povo, esse gigante, e vereis! Quando os anões querem abater um colosso, começam pelo pedestal, quando os lenheiros querem deitar por terra o carvalho, cortam-no pela raiz. Eia! Peguemos no machado, ataquemos o carvalho pela raiz, e essa árvore anosa, copada, soberba, virá beijar o chão aos nossos pés.
- E caindo sobre vós há-de esmagar-vos
como pigmeus, desgraçados! - bradou Bálsamo com uma voz forte. - Ah! Desenfreais-vos contra os poetas, e falais por metáforas mais poéticas e mais figuradas do que as deles! Irmão! Irmão! - prosseguiu ele dirigindo-se a Marat – aprendestes essas frases, eu vo-lo digo, nalgum romance que estudais na vossa água-furtada.
Marat corou.
- Sabeis o que é uma revolução? -
continuou Bálsamo. - Tenho visto duzentas, eu, e posso dizer-vo-lo. Vi a do Egipto antigo, vi a da Assíria, as da Grécia, as de Roma, as do Baixo Império. Vi as da Idade Média, em que os povos se deitavam uns aos outros, Oriente sobre o Ocidente, Ocidente sobre o Oriente, despedaçando-se uns aos outros sem se entenderem. Desde a dos reis pastores até aos nossos dias, tem havido cem revoluções talvez. E ainda há pouco vos queixáveis de ser escravos. Então não servem as revoluções de coisa nenhuma. E por quê? Porque aqueles que faziam as revoluções tinham todos a mesma enfermidade; apressavam-se demasiado. Deus, que preside às revoluções do mundo, como o génio preside às revoluções dos homens, nunca se apressa! Derrubai! Derrubai o carvalho, a árvore frondosa! Bradais vós. - E não calculais que o carvalho, ao qual basta um segundo para cair, cobre tanto terreno quando está no chão, que um cavalo a galope não a andaria em menos de trinta segundos. Ora, os que derrubassem o carvalho, não tendo tempo de fugir, estavam perdidos, esmagados, aniquilados debaixo desse imenso corpo. É isso o que pretendeis, não é verdade? Não o alcançareis de mim. Como Deus, tenho sabido viver vinte, trinta, quarenta vezes a vida de um homem. Como Deus, também eu sou eterno. Terei paciência como Deus. O meu destino, o vosso, o do mundo inteiro tenho-o fechado nesta mão. Ninguém me obrigará a abrir contra minha vontade esta mão-cheia de verdades espantosas. É o raio, que ela contém, bem o sei; pois bem! o raio permanecerá nela como na destra omnipotente de Deus. Meus senhores, abandonemos essas alturas demasiado sublimes, e desçamos à Terra.
- Meus senhores, digo-vo-lo com
simplicidade e convicção, ainda não é tempo; o raio que está sobre o trono é um último reflexo do grande rei que o povo ainda venera; e nessa majestade que se apaga há alguma coisa que ainda deslumbra bastante para opor aos raios dos vossos pequenos ressentimentos. Este nasceu rei, rei há-de morrer; a sua raça é insolente, mas pura. A sua origem, podeis lê-la na sua fronte, no seu gesto, na sua voz. Há-de sempre ser o rei. Derrubamo-lo e acontecerá o que aconteceu a Carlos I; os seus algozes virão prostrar-se diante dele, e os cortesãos da sua desgraça, como Lorde Capell, beijarão a mão que tiver cortado a cabeça do seu amo.
Ora, meus senhores, vós todos sabeis, a
Inglaterra apressou-se. O rei Carlos I morreu no cadafalso, é verdade, mas o rei Carlos II, seu filho, morreu no trono.
Esperai, meus senhores, esperai, porque
os tempos vão ser propícios.
Quereis destruir as flores-de-lis? É a
divisa de todos nós: Lilia pedibus destrue. Mas é necessário que não fiquem raízes que permitam à flor de S. Luís conservar a esperança de florescer novamente. Quereis destruir a realeza? Esperai que ela deixe de ser um sacerdócio, para ser um ofício; que se não exerça num templo, mas sim numa repartição. Ora, o que há de mais sagrado na realeza, isto é, a legítima transmissão do trono autorizado por Deus e pelos povos desde muitos séculos, está perdido para sempre! Escutai! Escutai! Essa invencível barreira colocada entre nós, que nada somos, e essas criaturas quase divinas, esse limite que nunca os povos ousaram ultrapassar e que chamam a legitimidade, essa palavra brilhante como um farol, e que, até hoje, tem garantido a realeza do naufrágio, essa palavra vai apagar-se com o sopro da misteriosa fatalidade.
A delfina, Chamada à França para
perpetuar a raça dos reis pela mistura do sangue imperial, a delfina, casada há um ano com o herdeiro do trono de França... Aproximai-vos, meus senhores, porque receio que o rumor das minhas palavras passe além do nosso círculo.
- Então? - perguntaram com ansiedade
os seis chefes.
- Então, senhores, a delfina é ainda
virgem!
Um sinistro murmúrio, que teria feito
fugir todos os reis do mundo, tanto era o júbilo odiento e o triunfo vingador que encerrava, subiu como um vapor mortal daquele círculo estreito de seis cabeças, que quase se tocavam, dominadas como estavam pela de Bálsamo inclinado sobre elas do alto do seu estrado.
- Neste estado de coisas - prosseguiu
Bálsamo - apresentam-se duas hipóteses, ambas igualmente aproveitáveis para a nossa causa:
A primeira é que a delfina fique estéril, e
nesse caso extingue-se a raça, e o porvir não deixa aos nossos amigos nem combates, nem dificuldades, nem desordens. Hão-de acontecer a essa raça, já marcada para a morte, o mesmo que aconteceu em França todas as vezes que três irmãos se têm sucedido; o que aconteceu aos filhos de Filipe, o Belo, Luís de Hutin, Filipe, o Longo e Carlos IV, mortos sem posteridade, depois de haverem reinado todos três; o que aconteceu aos filhos de Henrique II, Francisco II, Carlos IX e Henrique III, mortos sem posteridade depois de haverem reinado todos três. Como eles, o delfim, o conde de Provença e o conde de Artois hão-de reinar todos três, e todos três hão-de morrer sem filhos, como os outros morreram: é a lei do destino.
E daí, como depois de Carlos IV, o
último da raça Capeto, veio Filipe de Valois, colateral dos reis precedentes; como depois de Henrique III, o último da raça dos Valois, veio Henrique IV de Bourbon, colateral da raça precedente; depois do conde de Antois, inscrito no livro da fatalidade como o último dos reis do ramo mais velho, virá talvez algum Cromwell ou algum Guilherme de Orange, estranho, quer à raça, quer à ordem natural de sucessão.
Eis o que a primeira hipótese nos dá.
A segunda, é ,que a delfina não seja
estéril. E é nesse laço em que os nossos inimigos vão cair julgando que somos nós os que cairemos. Oh! Se a delfina não fica estéril, se a delfina for mãe, então, quando todos se regozijarem na corte, e julgarem consolidada a realeza em França, poderemos também regozijarmos, porque possuiremos um segredo de tal modo terrível, que nenhum prestígio, nenhum poder, nenhuns esforços poderão suster-se contra os crimes que esse segredo conterá, em vista das desgraças que dessa fecundidade resultarão para a rainha futura; porque esse herdeiro, que ela der ao trono, facilmente o faremos ilegítimo, porque com essa fecundidade facilmente a declararemos adúltera. Tanto que junto dessa fecundidade factícia, que o Céu parecerá ter-lhe concedido, a esterilidade teria sido uma mercê do Céu. Eis aí, meus senhores, o motivo por que me abstenho; eis aí, meus irmãos, o motivo por que espero; eis aí finalmente o motivo por que julgo inútil desenfrear hoje as paixões populares que empregarei eficazmente quando o tempo for chegado.
Agora, meus senhores, sabeis qual foi o
trabalho deste ano; vedes o progresso das nossas minas. Ficai portanto persuadidos que só venceremos com o génio e o ânimo de uns, que serão os olhos e a cabeça, a perseverança e o trabalho de outros ainda, que representarão os braços, a fé e a dedicação de outros ainda, que serão o coração.
Penetrai-vos e convencei-vos
principalmente da necessidade de uma obediência cega, que faz com que o vosso próprio chefe se imole à vontade dos estatutos da ordem, no dia em que assim o exigirem esses estatutos.
Com isto, meus senhores e amados
irmãos, fecharia a sessão, se não tivesse ainda um bem que fazer, um mal que indicar.
O grande escritor que esteve entre nós
esta noite, e que seria dos nossos se não fosse o intempestivo zelo de um dos nossos irmãos, que aterrou aquela alma tímida, esse grande escritor, dizia eu, teve razão diante da nossa assembléia, e deploro como grande desgraça que um estranho tenha razão na presença de uma maioria de irmãos que mal conheçam as nossas regras e que não conhecem o nosso fim.
Rousseau, triunfando com os sofismas
dos seus livros das verdades da nossa associação, representa um vício fundamental, que eu extirparia a ferro e fogo, se não nutrisse ainda a esperança de o curar pela persuasão. O amor-próprio de um dos nossos irmãos desenvolveu-se desastrosamente. Fez-nos ser vencidos na discussão; nenhum outro caso semelhante se tornará a apresentar, eu o espero, senão ver-me-ei obrigado a recorrer às vias da disciplina.
Agora, meus senhores, propagai a fé
pela doçura e a persuasão; insinuai-a, não a imponhais, não a queirais fazer entrar nas almas rebeldes a golpes de malho e de machado, como fazem os inquisidores, por meio dos carrascos. Lembrai-vos que só poderemos ser grandes depois de ser tidos por bons, e só nos considerarão bons se formos melhores do que quanto nos cerca; lembrai-vos ainda que entre nós, os grandes, os bons e os melhores nada são sem a ciência, a arte e a fé; nada, enfim, ao pé daqueles que Deus marcou para dominar os homens e reger um império.
Meus senhores, está fechada a sessão.” Assim que pronunciou estas palavras,
Bálsamo cobriu-se e embuçou-se na sua capa.
Então cada um dos iniciados foi saindo
por sua vez, só e silencioso, para não causar suspeitas.