José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XXVII
PRESSENTIMENTOS
No dia seguinte, quando acabava de dar
meio-dia no relógio do Trianon, foi Nicola gritar à porta de Andreia, que ainda não saíra do quarto:
- Menina, está aqui o Sr. Filipe! Este grito vinha do fim da escada. Andreia, muito admirada, mas ao
mesmo tempo alegríssima, conchegou o penteador de cassa e correu ao encontro do mancebo, que na realidade acabava de se apear do cavalo no pátio do Trianon, e perguntava a alguns criados a que horas poderia falar a sua irmã.
Andreia abriu pessoalmente a porta, e
deu logo de cara com Filipe, que a oficiosa Nicola fora buscar ao pátio, e conduzira pela escada.
Andreia lançou-se ao pescoço do irmão
e ambos entraram no quarto, seguidos por Nicola.
Só então Andreia notou que Filipe vinha
mais sério que de costume; que o seu sorriso era triste; que vinha completamente uniformizado, e que no braço esquerdo trazia a sua capa de jornada muito bem dobrada.
- O que é isso, Filipe? - perguntou ela
com esse instinto das almas sensíveis, para quem um olhar é uma grande revelação.
- Minha irmã - disse Filipe - recebi esta
manhã ordem de ir para o meu regimento.
- E partes?
- Certamente.
- Oh! - exclamou Andreia exalando
nesse grito doloroso toda a sua coragem e grande parte das suas forças.
Conquanto aquela partida fosse
naturalíssima e ela devesse já esperá-la, tal impressão lhe fez recebê-la, que se viu obrigada a agarrar-se ao braço do irmão para não cair.
- Meu Deus! - disse Filipe admirado -
pois esta partida aflige-te a esse ponto, Andreia? Na vida militar, bem sabes, que é isto um dos acontecimentos mais vulgares.
- Sim, sim, não há dúvida - murmurou
Andreia; - e para onde vais, meu irmão?
- Agora vou para Reims; bem vês que
não é uma jornada muito longa. É verdade que dali, segundo todas as probabilidades, o regimento voltará a Estrasburgo.
- Ah! E quando partes?
- A ordem é para partir imediatamente. - Vens então para te despedir de mim? - Venho, sim, minha irmã. - Despedidas!
- Tens alguma coisa particular a dizer-
me, Andreia? - perguntou Filipe inquieto por aquela tristeza, demasiado profunda para que não tivesse outra causa além da partida.
Andreia compreendeu que aquelas
palavras aludiam a Nicola, a qual olhava para esta cena com uma admiração, que a extrema dor de Andreia motivava.
Efectivamente, a partida de Filipe, isto é,
de um oficial para o seu regimento, não era catástrofe que devesse provocar tantas lágrimas.
Andreia compreendeu pois ao mesmo
tempo o sentimento de Filipe e a admiração de Nicola; pegou num mantelete que pôs nos ombros, e dirigindo o irmão para a escada, disse:
- Acompanho-te até à grade da quinta,
Filipe, e iremos pela rua do arvoredo. Tenho efectivamente muitas coisas que te contar, meu irmão.
Estas palavras equivaliam para Nicola a
uma ordem de afastar-se; portanto retirou-se, caminhando encostada à parede e entrou no quarto da ama, enquanto esta descia a escada com Filipe.
Andreia desceu pela escada que fica
junto da capela, e seguiu pelo caminho que ainda hoje conduz para o jardim, apesar de ser incessantemente interrogada pelo olhar inquieto de Filipe, foi por muito tempo apoiada no braço dele, com a cabeça inclinada sobre o ombro, sem pronunciar uma única palavra.
Depois, de repente, o coração palpitou-
lhe dolorosamente, as feições cobriram-se com uma palidez mortal, assomou-lhe aos lábios um suspiro, e rios de lágrimas lhe vendaram os olhos.
- Minha querida irmã, minha boa
Andreia – bradou Filipe - em nome de Deus, diz o que tens?
- Meu amigo, meu único amigo - disse
Andreia - partes, deixas-me só neste mundo em que entro, e perguntas-me por que choro? Ai! Pensa bem, Filipe, minha mãe morreu dando-me à luz; e, é horroroso confessá-lo, nunca tive pai! Todas as penas que o meu coração sentiu, todos os segredos que a minha alma conhece, a ti, só a ti os tenho confiado. Quem me sorriu na aflição? quem me acariciou na tristeza? Quem me embalou quando criança? Foste tu. Quem me protegeu depois de criada? Foste tu. Quem me fez crer que as criaturas de Deus não estavam neste mundo só para padecer? Foste tu, Filipe, sempre tu. Porque, enfim, nunca tive amor nem a coisa nem a pessoa alguma, desde que estou no mundo, excepto a ti, e também não fui ainda amada por outra pessoa. Oh! Filipe! Filipe! - continuou melancolicamente Andreia - desvias o rosto e eu leio no teu pensamento. Dizes contigo que sou moça, que sou formosa, e que devo contar com o futuro e com o amor. E todavia, bem vês, Filipe, que não basta ser formosa e moça, porque ninguém repara em mim. A senhora delfina é boa, me dizes tu, meu amigo. Certamente, é perfeita, pelo menos aos meus olhos assim é, e olho para ela como para uma divindade. Mas é principalmente porque a considero nessa esfera sobre-humana que tenho por ela muito respeito, mas não amizade. Ora, a amizade, Filipe, é um sentimento tão necessário ao meu coração que, nele incessantemente recalcado, o despedaça. Nosso pai... Ai, meu Deus! Nosso pai, não é novo para ti o que digo, Filipe, não só não é para mim um protector, um amigo, senão que nunca olha para mim que me não cause medo. Sim, sim, tenho medo, Filipe, tenho medo dele, principalmente desde que sei que te vais. Medo de quê? Nem eu sei. Ai, meu Deus, não têm também as aves que fogem, os rebanhos que balem, medo da tempestade, quando ela está próxima? Dirás que é instinto; mas por que não há-de a nossa alma imortal ter o instinto da desgraça? Há algum tempo que tudo é favorável à nossa família, bem o sei. Estás feito capitão; eu, estou empregada na casa real e quase na intimidade da delfina; nosso pai ceou ontem, segundo dizem, quase a sós com el-rei. Pois bem, Filipe, torno a repetir, ainda que te pareça insensata, tudo isto me assusta mais do que a nossa tranqüila miséria e a nossa obscuridade de Taverney.
- E contudo, lá, querida irmã - disse
Filipe com tristeza - estavas também só, lá também eu não estava ao teu lado, para te consolar.
- É verdade, mas ao menos estava só, só
com as minhas recordações de infância: parecia-me que aquela casa, onde tinha vivido, onde tinha respirado, onde tinha morrido minha mãe, me devia a protecção natal, se é permitido exprimir-me assim; tudo ali me era grato. Via-te partir com sossego, via-te voltar com prazer. Mas, partisses ou voltasses, não te seguia por toda a parte o meu coração? Tinha amor àquela casa, aos meus jardins, às minhas flores, àquele todo de que outrora eras só uma parte; hoje és tu o todo, Filipe, e quando me deixas, tudo me deixa.
- E todavia, Andreia - disse Filipe - hoje
tens uma protecção muito mais poderosa do que a minha.
- É verdade.
- Um belo futuro.
- Quem sabe?...
- Por que duvidas?
- Não sei.
- É ser ingrata para com Deus, minha
irmã.
- Oh! não, graças ao Céu, não sou
ingrata para com Deus, e noite e dia lhe rendo graças pelos seus benefícios; mas parece-me que em lugar de receber as minhas orações, cada vez que ajoelho, uma voz lá de cima me diz: “Toma cuidado, pobre menina, toma cuidado!”
- Mas de que tens tu que acautelar-te,
responde? Não posso admitir que te ameace alguma desgraça. Tens algum pressentimento dessa desgraça? Sabes o que deves fazer para a combater afrontando-a, ou para a evitar?
- Nada sei, Filipe, a não ser que me
parece estar a minha vida presa por um fio, que para mim já nada luz além deste momento que vai marcando a tua partida. Numa palavra, parece-me que durante o meu sono me largarão no declive de um precipício, em que não poderei parar quando acordar; que estou acordada; que vejo o abismo, e que entretanto vou caindo nele, e que estando tu ausente, não te tenho junto de mim para me protegeres, vou sumir-me e despedaçar-me.
- Querida irmã, boa Andreia - disse
Filipe, a seu pesar comovido por aquela expressão cheia de um terror tão verdadeiro - exageras uma ternura, que te agradeço. Sim, perdes um amigo, mas momentaneamente; não estarei tão longe que me não possas chamar se te for preciso; e daí pensa que, exceptuando as tuas quimeras, nada te ameaça.
Andreia parou diante do irmão. - Então, diz-me por que é que tu, que és
um homem, tu que tens mais força do que eu, estás neste momento mais triste que eu mesma? Vamos, como explicas isso, meu irmão?
- É fácil, querida irmã - disse Filipe
fazendo parar Andreia, que cessando de falar tinha continuado a caminhar. - Não somos só irmãos pela alma e pelo sangue, somo-lo também pela alma e pelos sentimentos; por isso vivíamos numa inteligência que, para mim sobretudo, desde a nossa chegada a Paris, se tornou em gratíssimo costume. Quebro esse laço, querida amiga, ou por melhor dizer, quebram-no, e o golpe fez-se sentir no meu coração. Estou portanto triste, mas momentaneamente; nada mais. Eu, Andreia, eu, vejo para além da nossa separação; não creio em desgraça nenhuma, salvo a de nos não vermos durante alguns meses, durante um ano, talvez; resigno-me portanto e não te digo adeus, mas até à vista.
Apesar daquelas palavras consoladoras,
Andreia só respondeu com lágrimas...
- Minha querida irmã - bradou Filipe,
vendo a expressão daquela tristeza, que lhe parecia incompreensível; minha querida irmã, não me disseste tudo, ocultas-me alguma coisa; fala, em nome de Deus, fala!
E abraçou-a, apertando-a contra o
coração para lhe ler nos olhos.
- Não, não, Filipe - disse ela - juro que te
disse tudo, que te abri o meu coração.
- Pois bem, então, por piedade, Andreia,
ânimo; estás-me afligindo assim.
- Tens razão - disse ela - e estou louca.
Ouve, sabes melhor que ninguém, que nunca tive o espírito muito forte, sempre temi, sempre meditei, sempre suspirei; mas não tenho direito para associar às minhas dolorosas quimeras um irmão que amo com tanta ternura, principalmente quando me assegura e me prova que não tenho razão de assustar-me. Tens razão, Filipe, é verdade, é bem verdade; tudo aqui é perfeito para mim, Filipe, perdoa-me; bem vês que enxugo as lágrimas, já não choro, sorrio, Filipe; também eu não te digo adeus, digo-te apenas: até à vista.
E Andreia abraçou ternamente o irmão,
ocultando dele uma última lágrima, que ainda lhe corria dos olhos e que foi cair como uma pérola sobre as agulhetas de ouro do moço oficial.
Filipe olhou para ela com essa ternura
infinita que participa ao mesmo tempo do carinho do pai e do afecto do irmão.
- Andreia - disse ele - assim é que gosto
de te ver. Tem ânimo! Vou partir, mas todas as semanas o correio te trará uma carta minha. O que te peço é que faças com que todas as semanas eu receba também letras tuas.
- Sim, Filipe - disse Andreia; - sim, e será
essa a minha única felicidade. Mas preveniste o pai, não é verdade?
- De quê?
- Da tua partida.
- Querida irmã, foi o barão mesmo que
esta manhã me trouxe a ordem de casa do ministro. O senhor de Taverney não é como tu, Andreia, e segundo parece passará facilmente sem mim: parecia estimar a minha partida, e a falar verdade, tinha razão; aqui nada adiantaria, ao passo que lá, pode deparar-se uma ocasião...
- O pai estima a tua partida! - murmurou
Andreia. - Não estarás enganado, Filipe?
- Ele virá consolar-te - respondeu Filipe,
iludindo a resposta.
- Julgas isso, Filipe? Ele poucas vezes me
vê!
- Minha irmã, ele encarregou-me de te
dizer que hoje mesmo, depois da minha partida, viria ao Trianon. Ele é teu amigo, acredita-o; com a diferença que é teu amigo a seu modo.
- Que tens, Filipe? Pareces perturbado. - Querida Andreia, é porque já deu a
hora. Vê que horas são?
- Falta um quarto para a uma. - Pois bem, querida irmã, o que causa a
minha perturbação, é que há uma hora que eu deveria estar a caminho, e estamos ao pé da grade onde o cavalo me espera. Portanto...
Andreia mostrou o rosto sereno, e
pegando na mão do irmão, disse com expressão demasiado firme para que na voz se não conhecesse a afectação:
- Portanto, adeus, meu irmão... Filipe abraçou-a pela última vez. - Até à vista! - disse ele; - lembra-te da
tua promessa.
- Qual?
- Pelo menos uma carta cada semana. - Oh! Escusas lembrar-mo! E pronunciou estas palavras com
supremo esforço: a pobre criança já não tinha voz.
Filipe disse ainda adeus com um gesto e
afastou-se.
Andreia seguiu-o com a vista, sustendo
a respiração para reprimir os suspiros.
Filipe montou a cavalo, disse-lhe mais
uma vez adeus do outro lado da grade e partiu.
Andreia ficou de pé e imóvel durante
todo o tempo que o pôde ver.
Depois, assim que desapareceu, voltou-
se e correu para um pequeno bosque, viu um banco e teve apenas forças para se arrastar para ele e cair-lhe em cima quase sem sentidos.
Depois, soltando do mais íntimo do
peito um suspiro profundo, exclamou:
- Oh! Meu Deus! Meu Deus! Por que me
deixais assim só na Terra?
E ocultou o rosto com as mãos, deixando
correr por entre os claros dedos as grossas lágrimas, que já não tentava reprimir!
Naquele momento fez-se um leve rumor
entre os arbustos; Andreia julgou ouvir um suspiro. Voltou-se assustada e viu um rosto triste diante dela; era Gilberto.