José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 25 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XXX

 

O QUE ALTHOTAS PRECISAVA

PARA COMPLETAR O SEU ELIXIR

DA VIDA

No dia seguinte, pelas quatro horas da

tarde, estava Bálsamo ocupado no seu gabinete da Rua de Saint-Claude a ler uma carta que Fritz acabava de lhe entregar.

A carta não tinha assinatura, e ele

virava-a entre as mãos.

- Conheço esta letra - dizia ele -

comprida, irregular, um pouco trémula e com muitos erros de ortografia.

E tornou a ler:

“Senhor conde:

Uma pessoa que o consultou algum

tempo antes da queda do último ministério, e que já muito tempo antes o tinha consultado, há-de procurá-lo hoje, porque deseja falar-lhe. Consentirão as suas numerosas ocupações que conceda a essa pessoa meia hora das quatro para as cinco da tarde?”

Concluída assim a leitura pela segunda

ou terceira vez, Bálsamo voltava a cismar quem seria.

- Não vale a pena consultar Lorenza por

tão pouca coisa: e demais, não sei eu já adivinhar? A letra é comprida, sinal de velhice, a carta cheia de erros de ortografia: é de um cortesão... Ah! que louco eu sou, é do Sr. Duque de Richelieu. Certamente, meu caro duque, hei-de ter não só meia hora para lhe dar, mas até uma hora, um dia inteiro. Tome o meu tempo e disponha dele como se fosse seu. Não é o duque, sem o saber, um dos meus demónios familiares? Não trabalhamos nós na mesma obra? Não abalamos com iguais esforços a monarquia, o duque como amigo, eu como inimigo? Ah! Venha! Senhor duque! Venha!

E Bálsamo puxou pelo relógio para ver

quanto tempo deveria ainda esperar pelo duque.

Naquele momento soou uma campainha

na cornija do tecto.

- O que será? - disse Bálsamo

estremecendo; - Lorenza chama-me! Lorenza! Quer ver-me! Ter-lhe-á acontecido alguma desgraça? Ou será alguma dessas fantasias do seu carácter, de que tantas vezes tenho sido testemunha e algumas vezes vítima! Ontem, estava bem pensativa, bem resignada, bem doce; ontem, estava como gosto de a ver. Pobre criança! Vamos lá.

Então abotoou a camisa bordada,

escondeu os bofes de renda debaixo do chambre, viu-se ao espelho para certificar-se do penteado, não estivesse em demasiado desalinho, e caminhou para a escada depois de ter respondido a Lorenza com um toque de campainha semelhante ao dela.

Mas, segundo o seu costume, Bálsamo

parou no quarto que precedia o de Lorenza, e voltando-se com os braços encruzados para o lado onde supunha que ela devia estar, com essa força de vontade que não conhece obstáculos, ordenou-lhe que dormisse.

Depois olhou por uma fenda

imperceptível feita na parede, como se duvidasse de si mesmo ou precisasse dobrar de precauções.

Lorenza estava adormecida num canapé,

onde, cambaleando sem dúvida sob a vontade do seu dominador, buscara apoio. Um pintor não teria certamente podido achar para ela atitude mais poética. Abatida e arquejante com o peso do rápido fluido que Bálsamo lhe mandara, Lorenza parecia-se com uma dessas belas Arianas de Vanloo, cujo peito está entumecido, o torso cheio de ondulações e estremecimentos, e a cabeça perdida de fadiga ou de desespero.

Bálsamo entrou portanto pelo seu

habitual caminho e parou diante dela para a contemplar; mas logo a acordou: como estava era perigosíssima.

Apenas abriu os olhos, Lorenza desferiu

deles como que um raio; depois, como para assentar idéias, alisou os cabelos com as mãos, limpou os lábios úmidos de amor, e procurando profundamente na memória, pareceu reunir todas as suas recordações.

Bálsamo olhava para ela com uma

espécie de ansiedade. Estava havia muito acostumado à repentina passagem da doçura amorosa para um arrebatamento de raiva e de ódio. A reflexão daquele dia, reflexão a que não estava habituado, o sangue-frio com que Lorenza o recebia, em lugar dos acostumados arrebatamentos de raiva, anunciaram-lhe, desta vez, alguma coisa porventura mais séria do que quanto até àquele dia se passara.

Lorenza endireitou-se portanto, e

abanando a cabeça dirigiu para Bálsamo o olhar profundo.

- Sente-se junto de mim - disse-lhe -

peço-lho eu.

Bálsamo estremeceu ao som daquela voz

de tão desusada doçura, e disse:

- Sentar-me? Bem sabes, minha Lorenza,

que só tenho um desejo, e é de passar a minha vida a teus pés.

- Senhor - continuou Lorenza no mesmo

tom - rogo-lhe que se sente, posto que não leve muito tempo o que tenho para dizer-lhe; mas, enfim, parece-me que lhe falarei melhor se estiver sentado.

- Hoje, como sempre, minha adorada

Lorenza – disse Bálsamo - cumprirei os teus desejos.

E sentou-se numa poltrona ao pé de

Lorenza, que estava sentada num canapé.

- Senhor - disse ela fitando em Bálsamo

os olhos de uma expressão angélica - chamei-o para lhe pedir um favor.

- Oh! Minha Lorenza - exclamou

Bálsamo cada vez mais encantado - tudo quanto quiseres, diz, tudo te darei.

- É só uma coisa, mas previno-o que a

desejo ardentemente.

- Fala, Lorenza, custe ela toda a minha

fortuna, ou metade da minha vida, tê-la-ás.

- Nada lhe custará, senhor, senão um

minuto do seu tempo - respondeu a romana.

Bálsamo, encantado com o aspecto

sossegado que tomava a conversa, formava já consigo, graças à sua activa imaginação, um programa dos desejos que Lorenza podia ter formado, e principalmente dos que ele poderia satisfazer.

- Vai pedir-me alguma criada ou

companheira – dizia ele consigo. - Pois bem, esse imenso sacrifício, que pode comprometer os meus amigos e o meu segredo, fá-lo-ei, porque a pobre criança é bem infeliz neste isolamento.

- Fala depressa, minha Lorenza -

prosseguiu em voz alta e com um sorriso cheio de amor.

- Senhor - disse ela - sabe que morro de

tristeza e aborrecimento?

Bálsamo inclinou a cabeça suspirando

em sinal de assentimento.

- A minha juventude - continuou

Lorenza - consome-se, os meus dias são um longo sofrimento, as noites um perpétuo terror. Envelheço na solidão e na angústia.

- Foi a vida que criou, Lorenza - disse

Bálsamo – e não depende de mim que o viver, que de tal modo a entristece, não se torne digno de causar inveja a uma rainha.

- Seja assim; mas vê que reconheço o

meu erro.

- Agradecido, Lorenza.

- É bom cristão: tem-me dito isso

algumas vezes, se bem que...

- Se bem que me julga uma alma

perdida, quer dizer. Completo a sua idéia, Lorenza.

- Não atenda senão ao que eu lhe disser,

senhor; peço-lhe que não faça suposições.

- Continue então.

- Pois bem, em lugar de me deixar

abismar nestas raivas e desesperos, conceda-me, já que lhe não sou de utilidade nenhuma...

Deteve-se, a fim de olhar para Bálsamo;

mas este já tinha tomado império sobre si, e ela só encontrou um olhar frio e um sobrolho austero.

Animou-se com aquele olhar quase

ameaçador.

- Conceda-me - prosseguiu ela - não

digo a liberdade, pois sei que um segredo de Deus, ou antes a sua vontade, que me parece omnipotente, me condena ao cativeiro durante a vida; conceda-me que veja algum rosto humano, que ouça o som de outra voz que não seja só a sua; conceda-me enfim a liberdade de sair, de andar, de existir.

- Eu tinha previsto esse desejo, Lorenza -

disse Bálsamo pegando-lhe na mão - e desde muito que, bem o sabe, é igualmente esse o meu desejo.

- Então! - bradou Lorenza. - Mas - redargüiu Bálsamo - a Lorenza

preveniu-me; como um insensato que era, e todo o homem que ama é insensato, deixei-lhe penetrar parte dos meus segredos em ciência e em política. Sabe que Althotas achou a pedra filosofal e procura o elixir da vida; esta a parte científica. Sabe que eu e os meus amigos conspiramos contra as monarquias do mundo; esta a parte política. Um dos segredos pode levar-me à fogueira como feiticeiro, o outro pode conduzir-me ao cadafalso como réu de alta traição. Ora, a Lorenza ameaçou-me, disse-me que tudo empreenderia para cobrar a sua liberdade, e que uma vez conquistada, o primeiro uso que dela faria seria denunciar-me ao senhor de Sartines. Disse isto?

- Ora! Algumas vezes exaspero-me e

então... então enlouqueço.

- Está sossegada, está tranqüila agora,

Lorenza, e podemos conversar?

- Assim o espero.

- Se lhe restituir a liberdade que pede,

acharei em si uma mulher submissa e obediente, uma alma constante e dócil? Sabe que é este o meu mais ardente desejo, Lorenza?

A pobre mulher calou-se. - Finalmente, amar-me-á? - continuou

Bálsamo suspirando.

- Não quero prometer senão o que posso

cumprir - disse Lorenza - e nem o amor, nem o ódio dependem de nós. Espero que Deus, em troca dos bons procedimentos da sua parte para comigo, há-de permitir que se extinga o ódio e que venha o amor.

- Infelizmente não basta semelhante

promessa, Lorenza, para que eu confie em si. Preciso um juramento solene, cuja ruptura seja um sacrilégio, um juramento que ligue neste mundo e no outro; que importe a sua morte neste mundo e a sua condenação no outro.

Lorenza não respondeu.

- Quer prestar esse juramento? Lorenza deixou pender a cabeça entre as

mãos e o seio arquejou-lhe com a oposição de sentimentos opostos.

- Preste esse juramento, Lorenza, tal qual

eu lho ditar, com a solenidade de que eu o revestir, e fica livre.

- O que deverei jurar, senhor? - Jure que nunca, sob pretexto algum,

sairá da sua boca palavra alguma a respeito do que sabe da ciência de Althotas.

- Sim, jurarei isso.

- Jure que nunca divulgará coisa alguma

do que surpreendeu relativamente às nossas reuniões políticas.

- Também jurarei isso.

- Com o juramento e forma que eu

indicar?

- Sim; é só isso?

- Não; jure, e este é o juramento

principal, Lorenza, porque aos outros está só ligada a minha vida, a este que vou dizer-lhe está ligada a minha felicidade; jure que nunca, seja por instigação de vontade estranha, seja por instigação da sua própria vontade, jure que nunca se separará de mim, Lorenza; jure, e dou-lhe a liberdade.

A infeliz estremeceu como se um ferro

em brasa lhe tivesse chegado ao coração.

- E sob que forma deverá ser prestado

esse juramento?

- Iremos juntos a uma igreja, Lorenza;

comungaremos juntos com a mesma hóstia. Sobre essa hóstia inteira, jurará nunca revelar coisa alguma a respeito de Althotas, nem relativa aos meus companheiros. Jurará também que nunca se separará de mim. Dividiremos a hóstia ao meio, tomaremos cada um metade, e confirmaremos esse juramento perante Deus, a Lorenza que nunca me atraiçoará, eu, que a farei sempre feliz.

- Não - disse Lorenza - semelhante

juramento é um sacrilégio.

- Um juramento só é um sacrilégio,

Lorenza – redargüiu Bálsamo tristemente - quando é feito com intenção de o quebrar.

- Não farei semelhante juramento -

repetiu Lorenza; - teria medo de perder a minha alma.

- Não é jurando que perderá a sua alma -

disse Bálsamo; - é traindo esse juramento.

- Não jurarei.

- Então, é preciso ter paciência, Lorenza -

disse Bálsamo sem cólera, mas com profunda tristeza.

A fronte de Lorenza anuviou-se como

um prado esmaltado de boninas quando entre ele e o céu passa uma nuvem.

- Assim, recusa? - disse ela. - Não, Lorenza, é a senhora que rejeita. Um movimento nervoso indicou toda a

impaciência que ela comprimia ao ouvir estas palavras.

- Ouça, Lorenza - disse Bálsamo - ouça o

que por si posso fazer, e já é muito, acredite-o.

- Diga - respondeu a romana com

amargo sorriso. - Vejamos até que ponto chegará essa generosidade que tanto faz valer.

- Deus, o acaso ou a fatalidade, como

quiser, Lorenza, ligou-nos um ao outro por meio de nós indissolúveis; não tentemos portanto quebrá-los nesta vida, pois que só a morte pode despedaçá-los.

- Isso sei eu -disse Lorenza com a mais

pronunciada impaciência.

- Pois bem, dentro de oito dias, Lorenza,

custe o que custar, e arrisque o que arriscar no que vou fazer, dentro de oito dias terá uma companheira.

- Onde? - perguntou ela.

- Aqui.

- Aqui! Dentro destas grades, fechada

com estas pesadas portas de ferro, uma companheira de prisão! Oh! Não repara no que diz, senhor; não é isso o que lhe peço.

- Contudo, Lorenza, é quanto posso

conceder.

A pobre mulher fez um gesto de

impaciência ainda mais acentuado.

- Minha amiga! Minha amiga! - atalhou

Bálsamo com doçura - pense bem, se tiver uma companheira, ser-lhe-á mais suportável esta vida.

- Está enganado, senhor, até hoje só

tenho padecido pelo meu próprio mal e não pelo mal de outrem. Faltava-me essa prova, e não me admira que me queira fazer passar por ela. Sim, colocará junto de mim uma vítima como eu, que verei emagrecer, empalidecer, expirar de dor como eu; que ouvirei bater, como eu tenho feito, contra esta muralha, porta odiosa, que mil vezes por dia interrogo para saber onde se abre quando lhe dá passagem, e quando a vítima minha companheira tiver como eu gasto as unhas contra o pau e o mármore, tentando arrombá-lo ou abri-lo; quando tiver, como eu, gasto as pálpebras com as suas lágrimas; quando estiver morta como eu, e que tenha dois cadáveres em lugar de um só, na sua infernal bondade dirá: “Estas duas crianças divertem-se, fazem sociedade, são felizes.” Oh! não, não, mil vezes não!

E bateu violentamente o pé no chão. Bálsamo tentou ainda sossegá-la.

- Vamos, Lorenza - disse ele - sossegue,

seja dócil, raciocinemos.

- Ele pede-me sossego, pede-me

raciocínio! O carrasco pede doçura ao padecente, que tortura, sossego ao inocente, que martiriza!

- Sim, peço-lhe sossego e doçura, minha

querida Lorenza, porque as suas iras em nada mudam o seu destino; servem só para torná-lo mais doloroso, e nada mais. Aceite o que lhe ofereço, Lorenza, eu lhe darei uma companheira, que há-de apreciar a escravidão, porque essa mesma escravidão lhe terá granjeado a sua amizade. Não verá um rosto triste e lacrimoso como parece recear, mas, pelo contrário, encontrará o sorriso e a alegria, que lhe desenrugarão a fronte. Vamos, minha boa Lorenza, aceite o que lhe ofereço, porque, juro-lho, não posso oferecer-lhe mais.

- Sim, quer dizer que colocará junto de

mim uma mercenária, a quem dirá que há aqui uma pobre mulher doente e condenada a morrer; inventará a doença: “Encarcere-se com esta doida, consinta neste cativeiro, e pagarei os seus cuidados logo que a doida tenha morrido”.

- Oh! Lorenza, Lorenza! - murmurou

Bálsamo.

- Não, não é isso, eu engano-me, não é

verdade? - prosseguiu Lorenza com ironia - adivinho mal; que lhe hei-de fazer? Sou tão ignorante, conheço tão mal o mundo e o coração humano! Dirá a essa mulher: “Vigie-a bem, a doida é perigosa; dê-me conta de todas as suas acções, de todos os seus pensamentos; vele-a tanto acordada, como durante o sono.” E dar-lhe-á quanto ouro ela quiser; o ouro nada lhe custa, pois que o sabe fazer!

- Lorenza, perde a cabeça; em nome de

Deus, Lorenza, leia melhor no meu peito. Dar-lhe uma companheira, minha amiga, é comprometer interesses tão grandes, que estremeceria se me não odiasse... Dar-lhe uma companheira, já lho disse, é pôr em perigo a minha segurança, a minha vida, e entretanto, tudo isso eu quero arriscar para lhe evitar o aborrecimento.

- Aborrecimento! - bradou Lorenza,

rindo com o riso selvagem e assustador que fazia estremecer Bálsamo. – Chama a isto aborrecimento?

- Pois bem! Sofrimentos, sim, tem razão,

Lorenza, são cruéis sofrimentos. Sim, Lorenza; pois bem, eu lho repito, tenha paciência e um dia virá em que todos esses sofrimentos terão fim, em que terá a sua liberdade, em que será feliz.

- Ouça-me - disse ela - quer deixar-me

retirar para um convento? Professarei.

- Para um convento!

- Para orar; hei-de orar pelo senhor em

primeiro lugar e depois por mim. Estarei bem fechada, é verdade, mas terei um jardim, ar, espaço, um cemitério para passear entre os túmulos e procurar um lugar para minha sepultura. Terei companheiras que serão infelizes do seu próprio mal e não do meu. Deixe-me retirar para um convento, e farei quantos juramentos quiser. Um convento, Bálsamo, um convento, Peço-lhe de mãos postas!

- Lorenza, não nos podemos separar.

Estamos ligados para sempre neste mundo; compreende? Tudo quanto exceder os limites desta casa, é escusado pedir-mo.

E Bálsamo pronunciou estas palavras

com voz tão fraca, e ao mesmo tempo tão reservada no seu absolutismo, que Lorenza nem sequer continuou a insistir.

- Portanto não quer?... - disse ela

descoroçoada.

- Não posso.

- É irrevogável?

- Irrevogável, Lorenza.

- Pois então, outra coisa... - disse ela com

um sorriso.

- Oh! Minha boa Lorenza, sorria, sorria

outra vez, que com mais um sorriso assim fará de mim o que quiser.

- Sim, não é verdade, fará o que eu

quiser, contanto que eu faça o que lhe agradar. Pois bem, seja. Serei razoável, o mais possível.

- Fala, Lorenza, fala!

- Ainda há pouco me disse: “Um dia,

Lorenza, deixarás de padecer, um dia serás livre, um dia serás feliz”.

- Oh! Eu disse-o, e juro pelo Céu que

espero por esse dia com impaciência igual à tua.

- Pois bem, esse dia pode ser

imediatamente, Bálsamo - disse a romana com uma expressão tão doce como nunca o marido lhe vira senão durante o sono. – Estou cansada, oh! muito cansada; facilmente o compreenderá: tão moça ainda, tenho padecido tanto! Pois bem, meu amigo, diz que me estima, ouça-me: esse dia de felicidade, dê-mo imediatamente.

- Fala - disse Bálsamo na maior

perturbação.

- Concluo por onde deveria ter

começado, Acharat.

E a jovem senhora estremeceu. - Fala, minha amiga.

- Pois bem! Muitas vezes notei, que

quando fazia experiências sobre pobres animais, dizendo-me que eram experiências necessárias à humanidade, notei muitas vezes que tinha o segredo da morte, fosse com uma gota de veneno, fosse por meio de uma veia aberta, e que essa morte era bem suave e tinha a rapidez do raio, e que as desgraçadas e inocentes criaturas, condenadas como eu à infelicidade do cativeiro, viam-se repentinamente libertadas pela morte, primeira ventura que depois do nascimento tinham conhecido. Pois bem...

Empalideceu e deteve-se. - Depois, Lorenza? - disse Bálsamo. - Depois, o que por vezes pratica com os

desgraçados animais no interesse da ciência, pratique-o comigo para obedecer às leis da humanidade; faça-o por uma amiga que o abençoará com toda a sua alma; por uma amiga que lhe beijará as mãos com agradecimento infinito, se lhe conceder o que lhe pede. Faça-o, Bálsamo, por mim, que lhe prometo, na minha hora derradeira, mais amor e mais prazer do que tem podido despertar em mim durante a vida inteira; por mim que lhe prometo um sorriso franco e radiante no momento de deixar a terra. Bálsamo, por alma de sua mãe, pelo sangue do nosso Deus, por tudo quanto há de mais grato e mais solene, de mais sagrado, no mundo dos vivos e no mundo dos finados, eu o conjuro, mate-me! Mate-me!

- Lorenza! - bradou Bálsamo agarrando

entre os braços a pobre senhora, que a essas últimas palavras se tinha erguido - Lorenza, tu deliras! Eu matar-te? Tu, meu amor! Tu, minha vida!

Lorenza com um violento esforço

arrancou-se dos braços de Bálsamo e caiu de joelhos.

- Não me levantarei - disse ela -

enquanto me não conceder o que lhe peço. Mate-me sem violência, sem dor, sem agonia; conceda-me o que lhe suplico. Diz que me ama, pois adormeça-me como tantas vezes me tem adormecido; mas não me deixe acordar: a vida é o desespero.

- Lorenza, minha amiga - disse Bálsamo

- meu Deus! não vês que me feres a alma? Como! pois és tão desgraçada como isso? Vamos, Lorenza, sossega, não te entregues assim ao desespero. Ah! Odeias-me então muito?

- Odeio a escravidão, as algemas; e visto

que me faz escrava, desgraçada e solitária, saiba que o odeio!

- Mas eu amo-te muito para que te veja

morrer, Lorenza; não morrerás portanto, e eu farei a cura mais difícil de quantas tenho feito, minha Lorenza; hei-de fazer-te amar a vida.

- Não, não, é impossível; tem-me feito

desejar a morte!

- Lorenza, por piedade, minha Lorenza,

prometo-te que em pouco tempo...

- A morte ou a vida! - bradava a italiana,

que se inebriava gradualmente com a raiva. - Hoje é o dia supremo: quer dar-me a vida, isto é, a liberdade? Ou quer dar-me a morte, isto é, o repouso?

- A vida, minha Lorenza, a vida. - Então é a liberdade.

Bálsamo conservou-se silencioso. - Então a morte suave, a morte com um

veneno, com uma agulha, a morte durante o sono, o repouso! O repouso! O repouso!

- A vida e a paciência, Lorenza. Lorenza soltou uma gargalhada terrível,

e dando um salto para trás, tirou do seio uma faca de folha fina e aguda, que, semelhante ao raio, lhe fuzilou na mão.

Bálsamo soltou um grito; mas já era

tarde: quando acudiu, quando pôde agarrar-lhe o braço, Lorenza tinha já cravado a arma no peito; Bálsamo ficara deslumbrado com o brilho da faca, o sangue cegou-o.

Por sua vez soltou um grito terrível e

tomou Lorenza nos braços, agarrando ao mesmo tempo a arma, que pela segunda vez ela ia cravar no peito.

Lorenza, com um esforço violento,

puxou pela faca, e a folha afiada escorregou entre os dedos de Bálsamo.

O sangue correu-lhe logo da mão

mutilada.

Então, em vez de continuar na luta,

Bálsamo estendeu sobre Lorenza a mão ensangüentada, e com voz irresistível, disse:

- Durma, Lorenza, durma, ordeno-o! Mas a irritação desta vez era tal, que a

obediência foi menos pronta que de costume.

- Não, não! - murmurou Lorenza

cambaleando e procurando ferir-se novamente. - Não, não quero dormir.

- Durma! - bradou Bálsamo pela

segunda vez - durma, ordeno-lho!

Desta vez, foi tal o poder de vontade em

Bálsamo, que toda a reacção foi vencida, Lorenza suspirou, deixou cair a faca, cambaleou, e foi tombar sobre umas almofadas.

Só os olhos se lhe conservaram abertos,

mas o fogo sinistro que deles irradiava tornou-se gradualmente pálido e fecharam-se. O pescoço, que estava erecto, curvou-se; a cabeça inclinou-se para o ombro, como a cabeça de uma ave ferida, e um estremecimento nervoso lhe percorreu o corpo todo. Lorenza estava adormecida.

Foi só então que Bálsamo pôde abrir-lhe

a roupa e sondar a ferida, que lhe pareceu ligeira. Entretanto, o sangue corria dela com abundância.

Bálsamo carregou sobre o olho de leão e

a porta abriu-se; depois, desatando o contrapeso que fazia descer o alçapão do quarto de Althotas, colocou-se sobre a tábua e subiu ao laboratório do ancião.

- Ah! És tu, Acharat - disse este sempre

sentado na sua poltrona - sabes que é dentro de oito dias que completo cem anos? Sabes que daqui até lá preciso o sangue de uma criança ou de uma virgem?

Mas Bálsamo não lhe dava atenção;

correu ao armário onde estavam os bálsamos mágicos, pegou num dos frascos de que tantas vezes tinha experimentado a eficácia; depois tornou a colocar-se na tábua, bateu com o pé e desceu.

Althotas fez rodar a sua poltrona até ao

orifício do alçapão, com tenção de o agarrar pelo fato.

- Ouves, desgraçado - lhe disse ele -

ouves, se dentro de oito dias não tenho uma criança ou uma virgem para completar o meu elixir, estou morto.

Bálsamo voltou-se; os olhos do ancião

pareciam chamejar naquele rosto de músculos imóveis; dir-se-ia que só os olhos viviam.

- Sim, sim - respondeu Bálsamo; - sim,

descanse, eu lhe darei o que pede.

Depois, soltando o peso fez novamente

subir a tábua, que semelhante a um ornamento, foi adaptar-se ao tecto.

Em seguida correu ao quarto de

Lorenza, onde, apenas entrou, ouviu tocar a campainha de Fritz.

- O senhor de Richelieu - murmurou

Bálsamo; - oh! Por minha vida, que apesar de duque e par, há-de esperar!