José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XXVI
A CEIA PARTICULAR DE EL-REI
LUÍS XV
O marechal encontrou Sua Majestade na
pequena sala para onde o haviam seguido alguns cortesãos, que preferiam ficar sem ceia a deixar outros aproveitarem o olhar distraído do soberano.
Mas nessa noite Luís XV parecia ter mais
que fazer que olhar para aqueles senhores. Despediu todos, dizendo ao mesmo tempo que não cearia ou que cearia só.
Então despedindo-se todos de Sua
Majestade, e receando desagradar ao senhor delfim se não assistissem à festa que ele dava depois do ensaio, voaram logo como uma nuvem de pombos parasitas, e dirigiram-se para aquele que lhes permitiam ver, prontos para afirmarem que por ele desertavam das salas de Sua Majestade.
Luís XV, que tão rapidamente deixavam,
estava bem longe de pensar neles. A pequenez daquela chusma de cortesãos tê-lo-ia feito sorrir noutras circunstâncias; mas desta vez não despertou sentimento algum no monarca, tão motejador, que não poupava coisa alguma nem ao moral nem ao físico do seu melhor amigo, supondo que Luís XV tivesse algum amigo.
Naquele momento prestava Luís XV
toda a sua atenção a um coche dourado, que estacionava diante da porta dos comuns do Trianon. O cocheiro parecia esperar com impaciência que chegasse o amo para fustigar os cavalos e partir.
Aquele coche, alumiado com archotes,
era da senhora du Barry. Zamora, sentado ao pé do cocheiro, divertia-se em balancear as pernas para trás e para diante.
Afinal a senhora du Barry, que sem
dúvida se demorara nos corredores esperando receber alguma mensagem de el-rei, apareceu pelo braço do Sr. Duque de Aiguillon. Conhecia-se-lhe visivelmente a raiva, ou pelo menos o despeito, não só pelo rosto, mas também pela rapidez dos passos, apesar da diligência que fazia para encobrir a grande perturbação.
João, muito lúgubre, e com o chapéu
esmagado pela pressão distraída do braço, acompanhava a irmã; não assistira ao espectáculo porque o senhor delfim não se tinha lembrado de o convidar; mas estivera na antecâmara como um lacaio, todo pensativo, com os bofes descuidadamente caídos sobre a véstia bordada de prata e flores cor-de-rosa, e não olhando sequer para os punhos rotos, que pareciam conformar-se com o seu triste pensamento.
João vira a irmã pálida e distraída, do
que havia concluído que o perigo era grande.
João não era valente em diplomacia
senão contra os vivos; contra os fantasmas nunca.
Luís XV viu pela janela, escondido com
a cortina, desfilar a lúgubre procissão, que semelhante a frades de cartas entrou toda na carruagem da condessa; depois, fechado o postigo, o lacaio saltou na traseira, o cocheiro sacudiu as rédeas, e os cavalos partiram a galope.
- Oh! Oh! - disse el-rei - a condessa
partiu sem procurar ver-me, sem tentar falar-me! Está furiosa!
E repetiu em voz alta:
- Sim, a condessa está furiosa! Richelieu, que acabava de se introduzir
na câmara como quem era esperado, ouviu as últimas palavras:
- Furiosa, senhor - disse ele - e por quê?
Porque Vossa Majestade se diverte um instante, oh! isso não está bem da parte da condessa.
- É que - respondeu Luís XV - eu não me
divirto; pelo contrário, estou cansado e procuro descansar. A música fez-me mal; era preciso, se desse ouvidos à condessa, ir cear a Luciennes, comer e sobretudo beber; os vinhos da condessa são ingratos, não sei de que uva são fabricados, derrancam a gente; por minha vida que prefiro ficar aqui.
- E Vossa Majestade tem muitíssima
razão – disse o duque.
- E demais, a condessa se distrairá! Sou
eu porventura uma companhia agradável? Ela tem-mo dito, mas não lhe dou crédito.
- Ah! Desta vez não tem Vossa
Majestade razão – disse o marechal.
- Não, duque, não, realmente; eu conto
os meus dias e penso um pouco.
- Senhor, a condessa conhece que por
forma alguma poderia ter melhor companhia, e é isso o que a torna furiosa.
- Realmente, duque, não sei como faz
isso; conserva a arte de levar as mulheres, como se tivesse vinte anos. Nessa idade é o homem quem escolhe, mas na época em que eu estou, duque...
- Então, senhor?!
- Ah! É a mulher que faz o seu cálculo. O marechal soltou uma gargalhada.
- Vamos, senhor - disse ele - mais uma
razão, e se Vossa Majestade julga que a condessa se distrai, consolemo-nos.
- Não digo que ela se distrai, duque;
digo que há-de acabar por procurar distracções.
- Ah! Não ousarei dizer a Vossa
Majestade que isso não se tenha visto nunca.
El-rei levantou-se muito agitado. - Quem tenho eu ainda aí fora? -
perguntou ele.
- Todos os seus criados, meu senhor. El-rei pensou um instante. - Mas o duque - disse ele - tem aí
alguém?
- Tenho Rafté.
- Bom.
- Que deve ele fazer, meu senhor? - Ai, duque, seria preciso que se
informasse se a senhora du Barry volta realmente para Luciennes.
- A condessa já partiu, parece-me. - Ostensivamente, sim.
- Mas onde quer Vossa Majestade que
ela vá?
- Quem sabe? O ciúme torna-a louca,
duque.
- Senhor, não seria antes Vossa
Majestade?
- Como, o quê?
- O ciúme...
- Duque!
- Na verdade, seria uma humilhação
para todos nós, meu senhor.
- Ciúmes, em mim? - bradou Luís XV
com um riso forçado; - pois na realidade, duque, fala seriamente?
Efectivamente Richelieu não acreditava
o que dizia. É preciso mesmo confessar que se aproximava muito da verdade pensando, pelo contrário, que el-rei não desejava saber se a senhora du Barry estava realmente em Luciennes senão para estar certo de que não voltaria ao Trianon.
- Então - disse ele em voz alta - está
tratado, meu senhor, mando Rafté à descoberta?
- Mande, sim.
- Agora, o que deseja Vossa Majestade
fazer antes de cear?
- Nada, vamos cear imediatamente.
Avisou aquela pessoa?
- Avisei, está na antecâmara de Vossa
Majestade.
- O que disse?
- Desfez-se em agradecimentos. - E a filha?
- Ainda se lhe não falou.
- Duque, a senhora du Barry é ciumenta
e poderia lembrar-se de voltar.
- Ah! Senhor, seria isso de muito mau
gosto, e julgo que a condessa não é capaz de semelhante monstruosidade.
- Duque, é capaz de tudo naqueles
momentos, e principalmente quando o ciúme se liga ao ódio. Ela odeia-o: não sei se lhe consta isso?
Richelieu inclinou-se.
- Sei que me faz essa honra, senhor. - Odeia também o senhor de Taverney. - Se Vossa Majestade contar bem, estou
certo que há-de achar uma terceira pessoa que ela odeia ainda mais do que a mim e ao barão.
- A quem é?
- À menina Andreia.
- Ah! - disse el-rei - acho isso
naturalíssimo.
- Então...
- Sim, mas tudo isso não impede, duque,
que se esteja de atalaia para que a senhora du Barry não nos faça alguma surpresa esta noite.
- Pelo contrário, é uma medida muito
necessária.
- Aí vem o mordomo; caluda! Dê as suas
ordens a Rafté e venha ter comigo à casa de jantar com a pessoa que sabe.
Luís XV levantou-se e passou à casa de
jantar, enquanto Richelieu saía pela porta do lado oposto.
Cinco minutos depois, acompanhado
pelo barão de Taverney, entrava na casa onde estava el-rei.
El-rei deu amavelmente as boas noites
ao senhor de Taverney.
O barão era homem de espírito;
respondeu com esse modo particular de certas pessoas, que fazem com que os reis e os príncipes, conhecendo-as como sendo da sua gente, se ponham logo à vontade com quem lhes fala.
Luís XV era um mau rei, mas era um
homem encantador; a sua companhia, quando ele queria, era cheia de atractivos para bebedores, conversadores e voluptuosos.
Numa palavra, el-rei estudara muito o
lado agradável da vida.
Comeu com bom apetite, ordenou aos
seus convivas que bebessem, e dirigiu a conversação para a música.
Richelieu compreendeu-o, e disse: - Meu senhor, se a música põe os
homens de acordo, como diz o nosso mestre de dança e como Vossa Majestade parece pensar, poderá dizer-se o mesmo das mulheres?
- Ora, duque - disse el-rei - não falemos
das mulheres. Desde a guerra de Tróia até nossos dias que as mulheres operaram sempre um efeito contrário ao da música; o duque principalmente, tem contas muito grandes que ajustar com elas para que goste de ouvir discutir semelhante questão; entre outras há uma, e não é a menos perigosa de todas, com quem está a ferro e fogo.
- É a condessa; mas tenho porventura
culpa disso?
- Decerto tem.
-Oh! Oh! Espero que Vossa Majestade se
dignará explicar-me...
- Em duas palavras e com muito prazer -
disse el-rei.
- Queira dizer, meu senhor. - Ela ofereceu-lhe a pasta não sei de que
ministério, e o duque rejeitou-a, porque a condessa, como diz, não é bastante popular.
- Eu? - disse Richelieu bastante
perturbado com o aspecto que a conversa tomava.
- É voz pública - disse el-rei com fingida
bondade. - Nem sei já quem me contou isso... parece-me que o li na gazeta.
- Então, meu senhor - disse Richelieu,
aproveitando a liberdade que aos seus convivas dava a alegria pouco usual do rei - confessarei que desta vez a voz pública e até as gazetas contavam alguma coisa menos absurda que de costume.
- Como! - bradou Luís XV - realmente
recusou fazer parte do ministério, meu caro duque?
Richelieu, como facilmente se conhecerá,
estava numa posição delicada. El-rei sabia melhor que ninguém que ele não tinha recusado coisa nenhuma, mas era preciso que Taverney continuasse a crer no que Richelieu lhe dissera; tratava-se portanto, da parte do duque, de responder com bastante habilidade para fugir da mistificação do rei sem incorrer na pecha de mentiroso, que o barão estava próximo a lançar-lhe em rosto.
- Meu senhor - disse Richelieu - rogo a
Vossa Majestade que não nos ocupemos dos efeitos, mas que remontemos à causa. Que eu tenha ou não rejeitado a pasta, é segredo de Estado que não é próprio ser revelado por Vossa Majestade numa ceia, a causa pela qual eu teria rejeitado a pasta, supondo que me tivesse sido oferecida, é que é o essencial.
- Oh! Oh! Duque, então essa causa não é
segredo de Estado, segundo parece - disse el-rei sorrindo.
- Não, meu senhor, e principalmente
para Vossa Majestade que, para mim e para o meu amigo o barão de Taverney, é, neste momento, peço perdão à divindade, o mais amável anfitrião mortal que se possa ver; não tenho portanto segredos para o meu rei. Entrego-lhe a minha alma toda, porque não quero que se possa dizer que o rei de França não tem um servidor que lhe diga a verdade toda inteira e pura.
- Ouçamos - disse el-rei, enquanto
Taverney bastante desassossegado com receio de que Richelieu dissesse mais do que devia, mordia os lábios e compunha escrupulosamente o rosto pelo de el-rei; - ouçamos a verdade, duque.
- Meu senhor, há no Estado duas
potências a que um ministro deveria obedecer: a primeira é a vontade de Vossa Majestade; a segunda é a dos amigos mais íntimos que Vossa Majestade se digna escolher: a primeira é irresistível, ninguém deve pensar em se lhe subtrair; a segunda é mais sagrada ainda, porque impõe deveres de coração a quem quer que sirva a Vossa Majestade: chama-se a sua confiança; um ministro deve prezar, para lhe obedecer, o favorito ou a favorita do seu rei.
Luís XV riu-se.
- Duque - disse ele - aí está uma bela
máxima, que estimo ver sair da sua boca; mas proíbo-lhe de a ir apregoar com trombetas no Point-Neuf.
- Oh! Bem sei, meu senhor - disse
Richelieu – que os filósofos haviam de protestar; mas não julgo que os gritos deles importem a Vossa Majestade nem a mim. O principal é que as duas vontades preponderantes do reino sejam satisfeitas. Pois bem, a vontade de certa pessoa, meu senhor, di-lo-ei corajosamente a Vossa Majestade, ainda que disso dependesse incorrer no seu desagrado, a vontade da senhora du Barry, enfim, eu não poderia aceder a ela.
Luís XV calou-se.
- Tinha-me ocorrido uma idéia -
prosseguiu Richelieu; - olhava em roda de mim, noutro dia, na corte de Vossa Majestade, via tantas meninas nobres, tantas mulheres distintas, tantas damas radiantes, que se fosse rei de França havia de se me tornar quase impossível fazer escolha.
Luís XV voltou-se para Taverney, que,
ao sentir-se meter em conversa, palpitava de receio e de esperança, auxiliando com os olhos a eloqüência do marechal, como se impelisse para o porto o navio carregado com a sua fortuna.
- Vejamos se também é daquele parecer,
barão?
- Meu -senhor - respondeu Taverney
com o coração cheio de júbilo - o duque parece que tem dito há alguns instantes bocadinhos de ouro a Vossa Majestade.
- Portanto é da mesma opinião sobre o
que ele diz a respeito das raparigas bonitas?
- Meu senhor, parece-me que
efectivamente há algumas na corte de França que são deveras lindas.
- Enfim, é da mesma opinião, barão? - Sou, sim, meu senhor.
- E exorta-me como ele a fazer escolha
entre as formosuras da corte?
- Ousaria confessar que sou da opinião
do marechal, meu senhor, se me atrevesse a crer que é também essa a opinião de Vossa Majestade.
Houve um momento de silêncio,
durante o qual el-rei olhou com afabilidade para Taverney.
- Meus senhores - disse por fim - não
duvidem que seguiria os seus conselhos se tivesse trinta anos. Teria uma inclinação fácil de compreender; mas agora estou um tanto velho para ser crédulo.
- Crédulo! Rogo a Vossa Majestade que
se digne explicar-me essa palavra, meu senhor.
- Ser crédulo, meu caro duque, significa
crer; ora, nada me fará crer em certas coisas.
- Quais são?
- É que se possa inspirar amor na minha
idade.
- Oh! Meu senhor - exclamou Richelieu -
eu tinha pensado até hoje que Vossa Majestade era o gentil-homem mais polido do seu reino; mas agora vejo com dor profunda que me tinha enganado.
- Em quê? - perguntou el-rei, rindo-se. - Em ser eu velho como Matusalém, eu
que nasci em 1694. Digne-se de notar, meu senhor, que tenho dezesseis anos mais do que Vossa Majestade.
Era uma hábil lisonja da parte do duque.
Luís XV admirava sempre a velhice daquele homem, cuja mocidade se perdera ao seu serviço; porque, tendo aquele exemplo debaixo dos olhos, podia esperar que chegasse à mesma idade que ele.
- Seja - disse Luís XV - mas espero que
não terá já a pretensão de ser amado por si mesmo, duque?
- Se eu pensasse nisso, meu senhor,
havia de quebrar no mesmo instante as minhas relações com duas mulheres, que ainda esta manhã me disseram o contrário.
- Então, duque - disse Luís XV -
veremos; veremos, senhor de Taverney; a mocidade remoça, é verdade...
- Sim, sim, meu senhor, e o sangue nobre
é uma salutar infusão, sem contar que na mudança um espírito rico como o de Vossa Majestade ganha sempre, e nunca perde.
- Entretanto - observou Luís XV -
lembra-me que o meu avô, quando envelheceu, deixou de fazer a corte às mulheres com o mesmo desembaraço.
- Ora! Ora! Meu senhor - disse Richelieu
– Vossa Majestade conhece todo o meu respeito pelo falecido rei, que duas vezes me mandou para a Bastilha; mas não deve isso impedir-me de dizer que entre a idade madura de Luís XIV e a idade madura de Luís XV, não se pode fazer comparação alguma. Com os diabos! Vossa Majestade Cristianíssima, sempre honrado o seu título de filho primogénito da Igreja, não leva o ascetismo ao ponto de esquecer a sua humanidade?
- À fé que não - disse Luís XV; - posso
dizê-lo, pois que não está aqui o meu médico nem o meu confessor.
- Pois bem, meu senhor; el-rei Luís XIV
admirava muitas vezes, pelo excesso de zelo religioso e pelas suas mortificações sem-número, a senhora de Maintenon, que todavia era mais velha do que ele. Torno a repetir, meu senhor, pode porventura fazer-se comparação de homem com homem quando se fala de Vossas duas Majestades?
El-rei, naquela noite, estava de boa
maré, e as palavras de Richelieu eram como outras tantas gotas de água caídas da fonte de Juvêncio, Richelieu pensou que era chegado o momento, e tocou com o joelho no de Taverney.
- Meu senhor - disse este - permita Vossa
Majestade que lhe apresente os meus agradecimentos pelo magnífico presente que mandou a minha filha.
- Não tem que agradecer, barão - disse
el-rei; - a menina de Taverney agrada-me pela sua graça honesta e decente. Bem desejava que as minhas filhas tivessem ainda que nomear o pessoal do seu serviço; decerto que a menina Andreia... é assim que se chama, não é verdade?
- É sim, meu senhor - respondeu
Taverney, encantado de que el-rei lhe soubesse o nome de baptismo da filha.
- Lindo nome. Decerto que a menina
Andreia teria sido a primeira na lista; mas tudo está completo na minha casa. Entretanto, barão, fique sabendo, sua filha há-de ter toda a minha protecção; não tem grande dote, creio eu?
- Infelizmente, não, meu senhor. - Pois bem, eu lhe tratarei do casamento. Taverney cortejou respeitosamente. - Nesse caso terá Vossa Majestade
também a bondade de procurar o marido, porque, confesso, na nossa pobreza, que é quase miséria...
- Sim, sim, esteja descansado - disse Luís
XV; - mas é muito nova ainda, creio, e não há pressa em casá-la?
- Não há pressa nenhuma, meu senhor, e
muito menos, tendo Vossa Majestade horror a casamentos.
- Sabe isso?! - disse el-rei esfregando as
mãos e olhando para Richelieu. - Pois bem, em todo o caso, senhor de Taverney, se se vir em algum embaraço, disponha de mim.
Dito isto, Luís XV levantou-se; depois,
dirigindo-se ao duque, disse:
- Marechal!
O duque aproximou-se de el-rei. - A pequena ficou contente? - De quê, meu senhor?
- Do adereço.
- Perdoe-me Vossa Majestade de lhe
falar em voz baixa, mas o pai está escutando, e não deve ouvir o que lhe vou dizer.
- Ora!
- Não, meu senhor.
- Diga.
- Meu senhor, a pequena tem horror ao
casamento, é verdade, mas outra coisa de que também tenho a certeza, é que não tem horror a Vossa Majestade.
Dito isto, com uma familiaridade que
agradou a el-rei pelo excesso mesmo de franqueza, o marechal correu com os seus passos curtos e apressados para Taverney, o qual, em sinal de respeito, se retirara para o limiar da galeria.
Saíram ambos pelos jardins. A noite estava magnífica. Adiante deles
iam dois lacaios com archotes, e ao mesmo tempo que os alumiavam, iam desembaraçando a passagem, afastando os ramos das árvores e de outros arbustos carregados de flores. Viam-se ainda iluminadas as janelas do Trianon através dos vidros cobertos do vapor causado pelos cinqüenta convivas da senhora delfina.
A música de Sua Majestade animava o
minuete porque, depois da ceia, dançara-se e dançava-se ainda.
Numa mata de lilás e acácias, Gilberto,
ajoelhado no chão, olhava para o movimento das sombras por detrás das tapeçarias diáfanas.
Se o Céu desabasse sobre a Terra não
distrairia aquele contemplador, inebriado com a beleza da dança, que seguia em todas as suas voltas.
Entretanto, quando Richelieu e Taverney
passaram roçando pela mata em que estava oculta aquela ave nocturna, o som das vozes, e principalmente certa frase, fizeram erguer a cabeça a Gilberto.
É que aquela frase era para ele muito
importante e significativa. O marechal, de braço dado com o seu amigo, e inclinando-se-lhe ao ouvido, dizia:
- Considerando e pensando bem, barão,
é custoso confessar-to, mas deves quanto antes mandar a tua filha para um convento.
- Por quê? - perguntou o barão. - Porque el-rei, ia apostar - respondeu o
marechal - está loucamente namorado dela.
Gilberto, a estas palavras, empalideceu e
sentiu o sangue afluir-lhe ao coração.