José Bálsamo, Volume IV
Capítulo VI
O SENHOR DE RICHELIEU
APRECIA NICOLA
O senhor de Richelieu ia direito à casa
do senhor de Taverney, na Rua Coq-Héron.
Graças ao privilégio que possuímos de
meias com o diabo coxo, e que nos dá a facilidade de penetrarmos em qualquer casa fechada, sabemos, antes que o senhor de Richelieu o saiba, que o barão de Taverney está sentado em frente do seu fogão, com os pés sobre uns imensos ferros que sustentavam uns restos de tições, pregando um sermão a Nicola e pondo-lhe por vezes a mão na barba, apesar dos pequenos amuos da jovem rapariga.
Se Nicola se teria acomodado com a
carícia sem o sermão, ou se teria preferido o sermão sem a carícia, é o que não sabemos afirmar.
A conversa, entre o amo e a criada,
versava sobre um ponto importante, isto é, que nunca, a certas horas da tarde, Nicola chegava exactamente e com prontidão ao toque da campainha, tendo sempre alguma coisa que fazer no jardim ou no caramanchão, e que, em qualquer outro ponto, que não fosse nestas duas partes, o seu serviço era sempre malfeito.
Ao que Nicola voltando-se e tornando a
voltar-se com uma graça encantadora e voluptuosa, respondia:
- Pois não sei!... Eu aqui morro de
aborrecimento: tinham-me prometido que iria ao Trianon com a menina!
Era neste ponto que o senhor de
Taverney havia julgado dever acariciar-lhe caritativamente as faces e a barba, certamente para a distrair.
Nicola, prosseguindo no seu tema e
repelindo toda a consolação, deplorava a sua desgraçada sorte.
- É verdade! - disse ela gemendo - estou
fechada entre quatro paredes; não tenho sociedade, não tenho ar quase nenhum; havia para mim a perspectiva de um divertimento ou de um porvir.
- O que era? - disse o barão. - Trianon! - respondeu Nicola; - Trianon,
onde teria visto gente e luxo, onde eu teria olhado e onde teriam olhado para mim.
- Oh! Oh! Nicoleta! - disse o barão. - Ora! Senhor, sou mulher e sou tão boa
como qualquer outra.
- Apre! Isso é que se chama falar - disse
vagarosamente o barão. - E como estás buliçosa! Oh! Se eu fosse moço e rico!
E não pôde impedir-se de lançar
furtivamente um olhar de cobiça e admiração sobre tanta mocidade, seiva e formosura.
Nicola meditava e algumas vezes
impacientava-se.
- Vamos, deite-se, senhor - disse ela -
para que eu também me possa ir deitar.
- Ainda uma palavra, Nicola.
De repente a campainha da porta da rua
fez estremecer Taverney e saltar Nicola.
- Quem será a tais horas da noite? - disse
o barão; - já deram onze. Vai ver, minha pequena.
Nicola foi abrir a porta, perguntou o
nome ao visitante, e deixou a porta da rua entreaberta.
Por essa feliz abertura se escapou uma
sombra, que vinha do pátio, não sem fazer bastante rumor para que o marechal, porque era ele, deixasse de se voltar para trás e ver a fuga.
Nicola caminhou adiante, com uma luz
na mão, e de um modo todo desvanecido.
- Ah! - disse o marechal sorrindo e
seguindo-a para a sala - aquele velho ratão de Taverney, só me tinha falado de sua filha.
O duque era destes homens que não
precisam de olhar duas vezes para ver, e ver completamente.
A sombra, que fugia, fê-lo pensar em
Nicola, Nicola fê-lo pensar na sombra. Adivinhou, vendo o lindo rosto desta, o que tinha vindo fazer a sombra, e logo depois de ter visto o olhar tão malicioso, os dentes tão brancos e a estatura tão fina da criada, soube tudo quanto queria saber relativamente ao seu carácter e gosto.
Nicola, cujo coração batia, anunciou à
entrada da porta da sala:
- O Sr. Duque de Richelieu! Nessa noite era sina causar sensação o
nome do marechal. Produziu tal efeito no barão, que se levantou da sua poltrona e caminhou direito para a porta sem poder dar crédito ao que ouvia.
Mas antes de chegar à porta viu o
senhor de Richelieu na penumbra do corredor.
- O duque!... - murmurou ele. - Certamente, caro amigo, o duque
mesmo... – redargüiu Richelieu com uma voz muito amável. - Oh! Admira-se disso, depois do que o outro dia se passou? Pois bem! Nada há de mais certo! Agora, dê-me a sua mão, faça-me esse favor.
- Senhor duque, estou confundido. - Já não tens espírito, meu caro - disse o
velho marechal dando a sua bengala e o chapéu a Nicola para poder sentar-se mais comodamente numa poltrona; - dizes tolices, desconchavos... Já não conheces o mundo, segundo parece.
- Entretanto, duque, parece-me -
respondeu Taverney muito comovido - que a tua recepção de outro dia era por tal forma significativa, que não havia meio de eu me enganar.
- Ouve, meu velho amigo - respondeu
Richelieu – o outro dia procedeste como um rapaz da escola e eu como um pedante; de ti para mim só mediava a palmatória. Tu vais falar agora dessas coisas, quero tirar-te semelhante trabalho; terias razão para me dizer uma tolice, e eu para te responder com outra. Saltemos portanto em claro o outro dia. Sabes o que venho hoje aqui fazer?
- Não, certamente.
- Venho trazer-te a companhia que
anteontem foste pedir-me e que el-rei concedeu a teu filho. Com os diabos, meu amigo, é preciso avaliar as posições; anteontem era eu quase um ministro, pedir era uma injustiça; hoje que rejeitei a pasta, e que torno a ser o mesmo simples Richelieu como dantes, cometeria um absurdo se não pedisse. Pedi, alcancei e trago.
- Duque, pois isso é verdade, e... tanta
bondade da tua parte?
- É um efeito muito natural do meu
dever de amigo... O ministro negava, Richelieu solicita e dá.
- Ah! duque, encantas-me; és portanto
um verdadeiro amigo?
- Pudera!
- Mas el-rei, el-rei que me faz semelhante
mercê...
- El-rei nem sequer sabe o que faz, ou
talvez eu me engane e sabe-o maravilhosamente bem.
- Que queres tu dizer?
- Quero dizer que Sua Majestade tem
certamente agora algum motivo para fazer coisa que desagrade à senhora du Barry, e que é muito mais a esse motivo do que à minha influência, que deves a mercê que te concede.
- Julgas isso?
- Tenho essa certeza, e eu ajudo-o. Sabes
que é por causa dessa velhaca que rejeitei a pasta?
- Assim mo disseram; mas... - Mas não acreditas. Vamos, fala
francamente.
- Pois bem! Confesso...
- Isso quer dizer que me conheceste sem
eu ter escrúpulos, não é verdade?
- Quer dizer pelo menos que te conheci
sem prejuízos.
- Meu caro, vou envelhecendo, e já não
gosto das mulheres bonitas senão para mim... E daí, tenho ainda outras idéias... Voltemos ao teu filho. É um moço encantador.
- E que está muito mal com o du Barry,
aquele que estava em tua casa no dia em que eu tive a loucura de apresentar-me.
- Bem sei, e aí tens o motivo porque não
sou ministro.
- Ora!
- Certamente, meu amigo. - Recusaste a pasta para não desagradar
a meu filho?
- Se te dissesse isso, não o acreditarias:
nada, não foi isso. Recusei porque as exigências dos du Barry, que começavam pela exclusão do teu filho, teriam chegado a enormidades de todo o género.
- Então estás mal com essas criaturas? - Sim e não; eles temem-me, eu
desprezo-os, é uma coisa por outra.
- Isso é heróico, mas é imprudente. - Por quê?
- A condessa tem crédito. - Ora! - disse Richelieu.
- Como dizes isso!
- Digo-o como um homem que sente o
fraco da posição, e que, se fosse preciso, saberia levar o mineiro ao lugar melhor para fazer saltar a praça.
- Eu vejo a verdade, fazes um serviço a
meu filho para castigares um pouco os du Barry.
- A tua perspicácia não errou de todo,
parte do que dizes é verdade; o teu filho serve-me de granada, incendeio por intervenção dele... Mas a propósito, barão, não tens também uma filha?
- Sim...
- Moça?
- Tem dezesseis anos.
- Formosa?
- Como Vénus.
- Que vive no Trianon?
- Já a conheces?
- Passei a noite com ela, e conversei com
el-rei mais de uma hora a seu respeito.
- Com el-rei? - exclamou Taverney, cujas
faces se tornaram coradas.
- Em pessoa.
- El-rei falou de minha filha, de Andreia
de Taverney?
- Que devora com os olhos, sim, meu
caro.
- Ah! Realmente?
- Não gostas de ouvir estas coisas? - Eu... Oh! Não... El-rei faz-me muita
honra em olhar para a minha filha... Mas...
- Mas o quê?
- É porque el-rei...
- É um pouco imoral; é isso que queres
dizer?
- Deus me livre de falar mal de Sua
Majestade, tem direito de ser imoral se assim lhe apraz.
- Bem, então o que significa essa tua
admiração? Terás porventura a pretensão de supor que a menina Andreia não é uma formosura perfeita, e que, por conseqüência, el-rei não olha para ela com um olhar amoroso?
Taverney não respondeu, encolheu os
ombros e deixou-se cair numa meditação, em que o perseguiu o olhar desapiedadamente inquisidor de Richelieu.
- Bem, já adivinho o que dirias se, em
vez de pensar em segredo, falasses em voz alta - prosseguiu o velho marechal aproximando a sua poltrona da do barão; - dirias que el-rei está habituado a más companhias, que desce até à canalha, como dizem nos Porcherons, e por conseqüência que se não atreverá a erguer as vistas para tão nobre donzela, de pudico procedimento, de castos amores, nem reparar nesse tesouro de encantos e formosuras de todo o género... ele que só gosta das conversas licenciosas, dos olhares libertinos e dos ditos das costureiras.
- Decididamente, duque, és um grande
homem.
- Por que dizes isso?
- Porque tu adivinhaste tudo com
exactidão – disse Taverney.
- Portanto, confesso, barão - continuou
Richelieu - seria tempo que o nosso amo e senhor não nos obrigasse, a nós, gentis-homens, fidalgos, pares e companheiros do rei de França, a beijar a mão plebéia e vilã de uma mulher de tão baixa espécie; seria tempo que nos fizéssemos respeitar, e evitarmos que el-rei, depois de ter descido da Chateauroux, que era marquesa, e da massa de que se fazem duquesas, à Pompadour, filha e esposa de negociantes; e depois, da Pompadour à du Barry, que se chama simplesmente Joaninha, não desça da du Barry a alguma Maritorne de cozinha ou a alguma Goton dos campos; é humilhante para nós, barão, para nós que temos coroa no brasão, baixar a cabeça diante dessas delambidas.
- Oh! Isso é que são verdades bem puras!
– murmurou Taverney - e prova isso bem que é por esse motivo que todos abandonam a corte!
- Onde não há rainhas, não há mulheres;
onde não há mulheres, não há cortesãos; o rei tem uma modista por sua conta, e o povo está no trono, representado pela menina Joana Vaubernier, fanqueira em Paris.
- E entretanto assim é...
- Vês tu, barão - interrompeu o marechal
– poderia representar um belo papel uma mulher de espírito que quisesse reinar em França actualmente...
- Certamente - disse Taverney, cujo
coração palpitava; - mas infelizmente o lugar não está vago.
- Para uma mulher - continuou o
marechal - que, sem ter os vícios dessas prostitutas, tivesse a mesma ousadia, cálculos e vistas que elas têm; para uma mulher que levaria a tais alturas a fortuna, que dela se falaria ainda, mesmo quando já não existisse a monarquia. Sabes se a tua filha tem espírito, barão?
- Muito, e principalmente muito bom-
senso.
- É muito formosa!
- Não é verdade?
- Formosa com esses contornos
voluptuosos e encantadores que tanto agradam aos homens, bela com essa candura e essa flor de virgindade que impõe o respeito mesmo às mulheres... É preciso tratar cuidadosamente esse tesouro, meu bom amigo.
- Falas dela com um tal entusiasmo!... - Eu! Direi mais, estou loucamente
enamorado dela, e, se não tivesse setenta e quatro anos, desposá-la-ia amanhã. Mas está ela bem em casa da delfina? Tem ela o luxo próprio de uma flor tão mimosa?... Pensa bem, barão, esta noite vi-a voltar sozinha para casa sem criadas, e apenas acompanhada por um lacaio da delfina, o qual a precedia com uma lanterna; isso parece mal, é fazer pouco caso dela.
- Que lhe hei-de fazer, duque? Bem
sabes que não sou rico.
- Rico ou pobre, meu caro, é preciso uma
criada para a tua filha.
Taverney suspirou.
- Bem o sei - disse ele - bem sei que lhe é
precisa uma criada, ou melhor direi, que lhe seria precisa.
- Mas não tens tu uma?
O barão não respondeu.
- O que é aquela rapariga - prosseguiu
Richelieu que há pouco estava aí contigo? Uma rapariga bonita e fina, por minha alma!
- Sim, mas...
- Mas o quê, barão?
- Justamente não posso mandá-la ao
Trianon.
- Por quê? Parece-me, pelo contrário,
que convém perfeitamente para esse emprego; há-de ser uma aia muito boa.
- Não lhe olhaste então para o rosto,
duque?
- Eu! Não fiz outra coisa.
- Viste-lhe bem o rosto, e não notaste a
sua singular semelhança?
- Com quem?
- Com... Pensa um pouco, vamos!...
Nicola, vem cá!
Nicola aproximou-se; como uma
verdadeira criada, tinha escutado à porta.
O duque pegou-lhe nas mãos, e agarrou
entre os seus joelhos os da rapariga a quem o olhar impertinente do fidalgo e libertino não intimidou nem perturbou um único segundo.
- Sim - disse ele - sim, ela parece-se, é
verdade...
- Sabes com quem, e vês, por
conseqüência, que é impossível expor a protecção concedida à nossa casa, a um semelhante capricho da natureza. Será bem agradável que essa velhaquinha de Nicola se pareça com a senhora mais ilustre da França inteira?
- Oh! Oh! - redargüiu amargamente
Nicola soltando-se da prisão em que a tinha o duque para responder melhor ao senhor de Taverney - está bem certo de que me pareço com tão ilustre senhora? Tem ela porventura uns ombros tão bem feitos, uns olhos tão vivos, a perna tão redonda e o braço tão bem torneado como esta velhaquinha? Em todo o caso, senhor barão - continuou ela encolerizada - se assim me deprecia, é só pela amostra que pode falar, porque me parece que não sabe mais nada!
Nicola estava vermelha de raiva, e por
conseqüência de uma formosura esplêndida.
O duque apertou-lhe novamente as
lindas mãos, prendeu-a segunda vez entre os joelhos, e com um olhar cheio de carícias e promessas, disse:
- Barão, decerto na corte não há quem se
pareça com Nicola; eu pelo menos, assim o penso. Quanto ao que diz respeito à tal ilustre senhora com quem, confesso, tem uma pequena semelhança, vamos pôr a coberto todo o amor-próprio... Nicola tem uns cabelos loiros e de um loiro admirável; tem as sobrancelhas e o nariz perfeitamente imperiais; pois bem! Sente-se um quarto de hora diante de um toucador, e essas imperfeições, como o senhor barão lhes chama, hão-de desaparecer. Nicola, minha filha, quereria vir ao Trianon?
- Oh! - exclamou Nicola, cuja alma cheia
de cobiça passou toda neste monossílabo.
- Irá ao Trianon, minha menina; irá lá, e
fará fortuna, e sem prejudicar em coisa alguma a fortuna de quem quer que seja. Barão, uma última palavra.
- Fala, caro duque.
- Vai-te, minha linda pequena - disse
Richelieu – e deixa-nos conversar um instante.
Nicola saiu imediatamente; o duque
aproximou-se do barão.
- Se eu insto para que mandes uma
criada à tua filha - disse ele - é porque sei que isso há-de agradar a el-rei. Sua Majestade não gosta da miséria, e não o assustam as caras bonitas. Enfim, eu cá me entendo.
- Pois que vá Nicola ao Trianon, visto
supores que isso causará prazer a el-rei - redargüiu o barão com o seu sorriso ambicioso.
- Então, como concedes licença, levá-la-
ei: irá na minha carruagem.
- Entretanto, duque, seria bom pensares
bem na sua semelhança com a senhora delfina.
- Já pensei. Essa semelhança há-de
desaparecer entre as mãos de Rafté, em menos de um quarto de hora. Eu respondo por isso... Escreve uma palavra à tua filha, barão, dizendo-lhe a importância que ligas a que ela tenha consigo uma aia, e que essa aia seja Nicola.
- Achas de grande necessidade que a
criada de Andreia se chame Nicola?
- Creio que é melhor.
- E que alguma outra Nicola... - Não preencheria tão bem o seu lugar;
assim o creio, barão.
- Então escrevo imediatamente. E o barão escreveu logo uma carta que
deu a Richelieu.
- E as instruções, duque?
- Encarrego-me de as dar a Nicola. É
inteligente?
O barão sorriu.
- Então confias-ma... Não é verdade? -
disse Richelieu.
- Viva Deus! Isso é contigo, duque;
pediste-ma, eu dou-ta; faz dela o que puderes.
- Menina, venha comigo - disse o duque
levantando-se - e depressa.
Nicola não esperou que lhe repetissem a
ordem. Sem mesmo pedir o consentimento do barão, em cinco minutos reuniu um pequeno embrulho de vestidos, e com um passo tão rápido, que parecia voar, dirigiu-se para a carruagem de Richelieu.
O duque então despediu-se do seu
amigo, que lhe renovou os seus agradecimentos pelo serviço que tinha prestado a Filipe de Taverney.
De Andreia, nem mais uma palavra; era
mais do que se dela falara.
VII
METAMORFOSE
Nicola não cabia em si de prazer; sair de
Taverney para vir a Paris não tinha sido, em seu entender, grande triunfo como sair de Paris para o Trianon.
Foi tão amável com o cocheiro do senhor
de Richelieu, que no dia seguinte a reputação da nova aia estava feita em todas as cocheiras e em todas as antecâmaras um tanto aristocráticas de Versalhes e de Paris.
Quando chegaram ao palácio de
Hanovre, residência do marechal, este levou a rapariga pela mão e pessoalmente a conduziu ao primeiro andar, onde estava o Sr. Rafté, escrevendo grande número de cartas por conta do Sr. Duque de Richelieu.
Em todas as atribuições do senhor
marechal, a guerra tinha um lugar distinto, e Rafté, em teoria pelo menos, tinha-se tornado um homem de guerra tão hábil, que Políbio e o cavalheiro de Folard, se fossem vivos, teriam estimado muito receber uma dessas pequenas memórias sobre fortificações e manobras, como Rafté costumava escrever, pelo menos uma em cada semana.
Estava portanto o Sr. Rafté ocupado em
redigir um projecto de guerra contra os Ingleses no Mediterrâneo, quando o marechal entrou e lhe disse:
- Olha, Rafté, repara nesta criança. Rafté olhou.
- É muito amável, senhor - disse ele com
um movimento de lábios dos mais significativos.
- Sim, mas com quem se parece?... Rafté,
falo da sua semelhança.
- Ah! é verdade; ah! com os diachos! - Achas, não é assim?
- É extraordinário, isso há-de causar a
sua ruína ou a sua fortuna.
- A sua ruína, é o mais provável; mas
vamos remediar isso; ela tem os cabelos loiros, como vês, Rafté; mas, isso é fácil de se emendar, não é verdade?
- Não é mais que fazer-lhos pretos,
senhor – redargüiu Rafté, que havia tomado o costume de completar os pensamentos do seu amo, e muitas vezes mesmo, de pensar inteiramente por ele.
- Vem ao meu toucador, pequena - disse
o marechal; - este senhor, que é um homem hábil, vai-te transformar na aia mais formosa e mais bela da França inteira.
Com efeito, dez minutos depois, Rafté,
por meio de uma composição que servia ao marechal para todas as semanas tingir de preto os cabelos brancos que tinha debaixo da cabeleira, Rafté, dizemos, tingiu de um preto como o azeviche os lindos cabelos loiros de Nicola; depois, sobre as suas sobrancelhas compridas e loiras passou um alfinete denegrido ao fumo de uma luz; deu assim à sua fisionomia folgazã um realce tão fantástico, aos seus olhos vivos e claros um fogo tão ardente, e algumas vezes tão sombrio, que se diria ser uma fada saída, por meio da evocação, de um estojo mágico onde a detinha um feiticeiro.
- Agora, minha formosa - disse Richelieu
depois de ter dado um espelho a Nicola estupefacta - veja como está bonita e como está diferente da Nicola que ainda há pouco era; já não tem rainhas que recear, e só se trata agora de fazer fortuna.
- Oh! Senhor! - exclamou a rapariga. - Sim, e para isso só precisamos
entender-nos.
Nicola corava e baixava os olhos; a
velhaca esperava certamente ouvir essas palavras que Richelieu sabia dizer tão bem.
O duque compreendeu-a, e para
desfazer alguma falsa suposição, disse-lhe:
- Sente-se naquela poltrona, minha
querida, ao pé do Sr. Rafté, e preste toda a atenção ao que vou dizer-lhe... Oh! O Sr. Rafté não nos incomoda, nada receie; pelo contrário, há-de dar-nos algum conselho. Está ouvindo?
- Sim, senhor - murmurou Nicola
envergonhada de se haver assim enganado por vaidade.
A conversa do senhor de Richelieu com
Rafté e Nicola durou mais de uma hora, depois do que o duque mandou a rapariga deitar-se com as criadas do palácio.
Rafté continuou na sua memória militar;
o senhor de Richelieu deitou-se na cama, depois de ter passado pelos olhos as cartas que o avisavam do procedimento de todos os parlamentos da província contra o senhor de Aiguillon e a cabala du Barry.
No dia seguinte pela manhã uma das
carruagens sem brasão do marechal conduziu Nicola ao Trianon, deixou-a ao pé das grades do palácio, com o seu pequeno embrulho debaixo do braço, e desapareceu.
Nicola, com a fronte erguida, o espírito
livre e a esperança no coração, foi bater à porta do edifício contíguo ao Trianon, e que os nossos leitores já conhecem.
Eram dez horas da manhã. Andreia, já
levantada e vestida, escrevia a seu pai para lhe dar a notícia do feliz acontecimento da véspera, de que, como já dissemos, o senhor de Richelieu se havia feito o mensageiro oficioso.
Os nossos leitores não se terão decerto
esquecido que uns degraus de pedra conduzem dos jardins à capela do pequeno Trianon, que do adro dessa capela parte uma escadaria do lado direito que leva ao primeiro andar, isto é, aos quartos das damas de serviço, quartos que dão para um grande corredor com janelas para o jardim.
O quarto de Andreia era o primeiro da
esquerda nesse corredor. Era grande, bem claro, dando as janelas para o pátio das cavalariças, e precedido por um outro quarto com dois gabinetes, um para a esquerda e outro para a direita.
Este quarto, insuficiente se
considerarmos o trem ordinário dos comensais de uma corte brilhante, era todavia uma cela encantadora, muito habitável e alegre como retiro, depois das agitações da gente que povoava o palácio. Ali podia refugiar-se uma alma ambiciosa para devorar as ofensas ou os despeitos do dia; ali podia também repousar, na escuridão e no silêncio, isto é, no isolamento das grandezas uma alma humilde e melancólica.
Com efeito, acabavam-se as
superioridades, os deveres, as representações, ao passar o limiar daquela porta, ao subir a escada da capela. Tanto sossego como no convento, tanta liberdade material como na vida da prisão.
O escravo do palácio voltava para ali
feito senhor. A uma alma doce e altiva como a de Andreia agradavam esses pequenos cálculos, não que ela viesse descansar de uma ambição despeitada ou das fadigas de uma fantasia insaciada, mas Andreia estava mais à vontade para pensar, no estreito quadrilátero do seu quarto do que nas ricas salas do Trianon, sobre essas lágeas que seus pés pisavam com tanta timidez que se diria ser terror.
Dali, daquele canto obscuro em que se
sentia bem no seu lugar, a jovem menina olhava sem perturbação para todas as grandezas que, durante o dia, lhe haviam deslumbrado os olhos. No meio das suas flores, com o seu cravo, cercada de livros alemães, que tão doce companhia são para aqueles que sabem ler com o coração, Andreia desafiava a sorte de lhe mandar um desgosto ou de lhe roubar uma alegria.
- Aqui - dizia ela, quando à noite, depois
de cumpridos os seus deveres, ia vestir o seu roupão largo e respirar o ar com toda a sua alma e com toda a força dos seus pulmões - aqui, possuo pouco mais ou menos tudo quanto hei-de possuir até à morte. Talvez me veja algum dia mais rica, mas nunca me acharei mais pobre; há-de haver sempre flores, música e uma página bem escrita para recrear os isolados.
Andreia tinha alcançado licença para
almoçar no seu quarto quando assim lhe conviesse. Esta mercê era-lhe preciosa. Podia assim ficar até ao meio-dia no seu quarto, salvo se a delfina a mandava chamar para alguma leitura ou algum passeio matinal. Assim livre, nos dias bonitos, partia pela manhã com um livro, e sozinha atravessava os grandes bosques que vão do Trianon a Versalhes; e daí, depois de duas horas de passeio, de meditação e de sonho, voltava para almoçar, não tendo muitas vezes visto nem um único senhor, nem um lacaio, nem qualquer outra pessoa.
Se o calor começava a filtrar-se pela
sombra densa dos arvoredos, Andreia tinha para se abrigar o seu quarto, que estava sempre muito fresco, tanto pelo ar que entrava pela porta como pelo que entrava pela janela. Um sofazinho coberto de chita, quatro poltronas iguais, seu casto leito de armação em forma de coroa, da qual pendiam cortinas da mesma fazenda da coberta do canapé, dois vasos da China sobre a chaminé, uma mesa quadrada com pés de cobre: eis de que se compunha esse pequeno universo, nos confins do qual se limitavam todas as esperanças e todos os desejos de Andreia.
Dizíamos nós que a jovem menina
estava sentada no seu quarto, escrevendo a seu pai, quando duas pancadas, discretamente batidas na porta do corredor, despertaram a sua atenção.
Ergueu a cabeça vendo abrir-se a porta,
e soltou um pequeno grito de admiração, quando o rosto radiante de Nicola lhe apareceu repentinamente saindo da pequena antecâmara.