José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 26 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XXXI

 

AS DUAS GOTAS DE AGUA DO

SR. DUQUE DE RICHELIEU

O duque de Richelieu saiu às quatro

horas e meia da casa da Rua de Saint-Claude.

O que fora fazer a casa de Bálsamo vai

ser muito naturalmente explicado na narrativa que segue.

O senhor de Taverney jantara com a

filha; naquele dia a senhora delfina dispensara Andreia por todo o dia, para que pudesse receber o pai nos seus aposentos.

Estavam à sobremesa quando entrou o

senhor de Richelieu: sempre portador de boas novas, ia anunciar ao seu amigo que naquela mesma manhã el-rei declarara, que já não era uma companhia que contava dar a Filipe, mas sim um regimento.

Taverney manifestou estrondosamente a

sua alegria, e Andreia agradeceu com efusão ao marechal.

A conversa foi o que devia ser depois do

que se passara. Richelieu falou sempre do rei, Andreia sempre do irmão, Taverney sempre da filha.

No decurso da sua conversação, Andreia

disse que estava dispensada do serviço pela senhora delfina; que Sua Alteza Real recebia dois príncipes alemães da sua família, e que, para passar algumas horas de liberdade que lhe recordassem a corte de Viena, não quisera conservar dama alguma junto de si, nem sequer a sua dama de honor, o que tinha por tal forma feito estremecer a senhora de Noailles, que se fora lançar aos pés de el-rei.

Taverney estava, dizia ele, encantado

com aquela liberdade de Andreia, para conversar com ela sobre muitas coisas que interessavam a fortuna e o nome da família.

Ao ouvir esta observação, Richelieu

propôs retirar-se para deixar o pai e a filha em maior intimidade, o que a menina de Taverney não quis permitir. Portanto, Richelieu ficou.

O duque estava na sua veia de

moralidade: pintou com muita eloqüência a desgraça em que caíra a nobreza de França, obrigada a afrontar o jugo ignominioso de favoritas do acaso, de rainhas de contrabando, em vez de ter que incensar as favoritas de outro tempo, quase tão nobres como seus augustos amantes, mulheres que reinavam sobre o príncipe pela formosura e pelo amor, e sobre os súbditos pelo nascimento, pelo espírito e pelo patriotismo leal e puro.

Andreia ficou admirada de encontrar

tanta analogia entre as palavras de Richelieu e as que o barão de Taverney havia alguns dias lhe fazia ouvir.

Richelieu apresentou depois uma teoria

da virtude, teoria tão cheia de espírito, tão pagã, tão francesa, que a menina de Taverney viu-se obrigada a convir que não era de maneira nenhuma virtuosa conforme as teorias do senhor de Richelieu, e que a verdadeira virtude, como a entendia o marechal, era a da senhora de Chateauroux, da menina de Lavallière e da menina de Fosseuse.

De deduções em deduções, de provas

em provas, o duque tornou-se tão claro, que Andreia não percebeu coisa nenhuma.

A conversa permaneceu naquele pé até

cerca das sete horas da tarde.

Às sete horas levantou-se o marechal;

via-se obrigado, dizia ele, a ir fazer a corte ao rei, a Versalhes.

Nas voltas que deu pelo quarto para

procurar o chapéu, o duque encontrou Nicola, que sempre tinha que fazer onde estava.

- Pequena - disse-lhe ele batendo-lhe no

ombro hás-de acompanhar-me, quero que me tragas um ramalhete que a senhora de Noailles mandou apanhar no seu jardim e que manda de presente à Srª. Condessa de Egmont.

Nicola inclinou-se como as aldeãs das

óperas cómicas de Rousseau.

Depois disso, o marechal despediu-se do

pai e da filha, trocou um olhar significativo com Taverney, fez uma cortesia de rapaz a Andreia e saiu.

Permita-nos o leitor que deixemos o

barão e Andreia conversando sobre a nova mercê concedida a Filipe, e que acompanhemos o marechal. Será meio de sabermos o que tinha ido fazer à Rua de Saint-Claude, onde entrara conforme sabemos, num momento terrível.

E depois a moral do barão requintava

comparada com a do seu amigo o marechal, e era capaz de espavorir ouvidos, que menos puros que os de Andreia, percebessem alguma coisa.

Richelieu desceu portanto a escada

encostando-se ao ombro de Nicola, e assim que se achou fora de casa com ela:

- Então, pequena - disse ele parando e

olhando para ela - temos amante?

- Eu! Senhor marechal - bradou Nicola

corando e dando um passo para trás.

- Ora! - disse ele - não és porventura

Nicola Legay?

- Sou, sim, senhor marechal. - Pois bem! Nicola Legay tem um

amante.

- Ora essa!

- É verdade; um certo velhaco que não é

mal parecido, que ela recebia na Rua Coq-Héron, e que a seguiu até Versalhes.

- Senhor duque, juro-lhe... - Uma espécie de oficial, que se chama...

Queres que te diga, pequena, como se chama o amante da Srª. Nicola Legay?

A última esperança de Nicola era que o

marechal ignorasse o nome daquele feliz mortal.

- Por quem é, diga, senhor marechal -

respondeu ela - uma vez que já começou...

- Que se chama o Sr. Beausire -

continuou o marechal - e que na realidade não desmente muito o nome?

Nicola pôs as mãos com uma afectação

de virtude, que não enganou o velho marechal.

- Parece - disse ele - que se lhe dão

entrevistas no Trianon. Diacho! Num palácio real, é caso muito sério; minha menina, aqui põem na rua as que fazem semelhante coisa, e o senhor de Sartines tem o maldito vício de mandar para a Salpêtrière todas as raparigas que são expulsas dos palácios reais.

Nicola começou a mostrar-se inquieta. - Senhor - disse ela - juro-lhe que se o Sr.

Beausire se gaba de ser meu amante, é um mentiroso, um presumido, porque na realidade estou inocente.

- Não digo o contrário - disse Richelieu -

mas vamos a saber: tiveste ou não entrevistas com ele?

- Senhor duque, uma entrevista não é

uma prova.

- Tiveste ou não entrevistas? Responde. - Senhor!

- Tiveste, muito bem; não te censuro,

minha pequerrucha; e demais, gosto das raparigas bonitas que fazem gala da sua formosura, e tenho sempre rendido homenagem à beleza do melhor modo que tenho podido; mas agora, como teu amigo e como teu protector, previno-te caritativamente.

- Mas então viram-me? - perguntou

Nicola.

- Naturalmente, visto que o sei. - Senhor - disse Nicola, em tom decidido

– ninguém me viu, é impossível.

- Não sei, mas corre essa fama, e isso dá

muito mau ar à tua senhora; e bem deves entender que, sendo eu muito mais amigo da família de Taverney do que da família Legay, é do meu dever dizer ao barão duas palavras a respeito do que se passa; e não posso nem quero deixar de cumprir esse dever.

- Ah! senhor - bradou Nicola aterrada

com o aspecto que a conversa ia tomando - olhe que me perde; mesmo inocente, bastará a suspeita para eu ser despedida.

- Pois bem! Pobre rapariga, então já te

previno que hás-de ser despedida, porque a estas horas, não sei que mau espírito foi que tendo achado más essas entrevistas, inocentes como são, deu parte de tudo à senhora de Noailles.

- À senhora de Noailles? Santo Deus! - Sim, bem vês que o caso não está bem

figurado.

Nicola juntou as mãos com desespero. - És uma desgraçada, bem sei - disse

Richelieu; - mas que diabo hás-de fazer?

- E o senhor, que ainda há pouco dizia

que era o meu protector, o senhor, que me provou sê-lo, já me não pode proteger? - perguntou Nicola com a meiguice que teria empregado uma mulher de trinta anos.

- Decerto, posso.

- E então, senhor?...

- Posso, mas não quero.

- Oh! Senhor duque.

- Sim, és bonita, bem sei, e os teus olhos

úmidos dizem-me muita coisa; mas começo a não ver bem, minha pobre Nicola, e já não entendo a linguagem dos olhos. Outrora não teria hesitado em te oferecer asilo no palácio de Hanôver, mas hoje, de que serviria? Nem sequer falariam em tal coisa.

- Contudo já me levou ao palácio de

Hanôver – disse Nicola com despeito.

- Ah! Nicola, como é feio lançar-se assim

em rosto o ter-te conduzido ao meu palácio, quando fiz isso para te prestar um serviço; porque, enfim, confessa que se não fosse a água do Sr. Rafté, que fez de ti uma linda morena, não entravas no Trianon, o que na verdade era melhor talvez do que ser expulsa; mas por que diabo vais tu dar entrevistas ao Sr. Beausire? E nas grades da cavalariça, de mais a mais!

- Então, também sabe isso? - disse

Nicola, que entendeu ser melhor mudar de táctica e entregar-se à discrição do marechal.

- Pudera! bem vês que o sei, e a senhora

de Noailles também. Olha, esta noite tinhas tu uma entrevista com ele...

- É verdade, senhor duque, mas à fé de

Nicola que não vou lá.

- Tu certamente, porque estás prevenida;

mas o Sr. Beausire, que não está prevenido, há-de ir e hão-de prendê-lo. Então, como naturalmente não há-de querer passar por ladrão, que se leva à forca, ou por um espião que se açouta, preferirá dizer, tanto mais que a coisa não é desagradável de confessar: “Deixem-me, que sou amante de Nicola”.

- Vou mandá-lo avisar.

- É impossível, pobre pequena, e daí por

quem havia de ser? Talvez pelo mesmo que te denunciou.

- Ah! É verdade - disse Nicola,

mostrando-se desesperada.

- Que bela coisa é o remorso! - bradou

Richelieu.

Nicola escondeu a cara entre as mãos,

tendo cuidado de deixar bastante intervalo entre os dedos, para não perder sequer um gesto, um movimento de Richelieu.

- És adorável, na verdade - disse o

duque, a quem não escapava nenhuma daquelas espertezas femininas; - porque não havia eu de ter cinqüenta anos de menos! Mas não importa! Com os diabos! Nicola, quero livrar-te desta.

- Oh! Senhor duque, se fizer o que diz, a

minha gratidão...

- Não a quero, Nicola. Prestar-te-ei o

serviço sem interesse.

- Ah! Será uma bela acção da sua parte,

senhor; e do íntimo do coração lhe agradeço.

- Não agradeças ainda. Nada sabes.

Ouve primeiro, com os diabos!

- Tudo me há-de agradar, senhor duque,

contanto que a menina Andreia me não ponha na rua.

- Ah! Mas tens pelo que vejo grande

empenho em ficar no Trianon?

- É o que eu mais desejo, senhor duque. - Pois, minha linda Nicola, risca da tua

lista esse primeiro desejo.

- Mas se eu não for descoberta, senhor

duque?

- Descoberta ou não, hás-de partir. - Oh! E por quê?

- Eu to digo: porque se fores descoberta

pela senhora de Noailles, não há empenhos, nem de el-rei, que te possam salvar.

- Ah! Se eu pudesse falar a el-rei! - Pois não! É o que faltava! E daí, se não

fores descoberta, sou eu quem te fará pôr fora.

- O senhor!

- Imediatamente.

- Na verdade, senhor marechal, não

entendo uma palavra do que diz.

- Pois é como tenho o gosto de to contar. - E é assim que me protege?

- Se não queres, ainda é tempo, é dizer

uma palavra, Nicola.

- Oh! Se quero, senhor duque! Eu quero,

não me abandone!

- Queres a minha protecção? Está dito,

concedo-ta.

- E depois?

- Depois, hei-de fazer isto, ouve! - Diga, senhor.

- Em lugar de te deixar despedir e meter

na cadeia, faço-te livre e rica.

- Livre e rica?

- Sim.

- E o que será preciso fazer para eu ser

livre e rica? Diga depressa, senhor marechal.

- Quase nada.

- Mas...

- O que te vou ordenar.

- É coisa difícil?

- Não.

- Então - disse Nicola - sempre é preciso

fazer alguma coisa.

- Ah!... Deves conhecer o ditado, Nicola:

de graça nem pancadas...

- E o que há para fazer, é para mim, ou é

para o senhor duque?

O duque olhou para Nicola. - Com os diabos! - disse ele - é bem

ladina esta velhaca.

- Enfim, senhor duque, acabe. - Pois bem, é para ti - respondeu o

duque.

- Ah! Ah! - disse Nicola, que conhecendo

que o marechal precisava dela, já não o temia, e dava tratos à imaginação para descobrir a verdade no meio das palavras de Richelieu; - que farei eu então para mim, senhor duque?

- Ouve: o Sr. Beausire vem às sete horas

e meia?

- Sim, senhor marechal, é a hora dele. - São sete horas e dez minutos. - Também é verdade.

- Se eu quiser, é preso.

- Sim, mas o senhor duque não quer. - Não; vais ter com ele e dizes-lhe...

- Digo-lhe?...

- Mas, vamos primeiramente a saber, tu

gostas dele, Nicola?

- Eu que lhe dou entrevistas... bem vê... - Isso não é uma razão; podias querer

casar com ele: as mulheres têm caprichos tão singulares!

Nicola soltou uma gargalhada. - Eu casar com ele! - disse ela. - Ah! Ah!

Ah!

Richelieu ficou estupefacto, nunca tinha

encontrado, nem na corte, mulheres de semelhante género.

- Pois bem, seja, não queres casar com

ele; mas tens-lhe amor? Melhor ainda.

- Pois sim, tenho amor ao Sr. Beausire,

assentemos nisso, senhor, e vamos adiante.

- Apre! Que salto.

- Certamente. Bem sabe o que me

interessa mais.

- O que é?

- É saber o que ainda tenho que fazer.

- Primeiramente, Nicola, como o amas,

hás-de fugir com ele.

- Diabo! Enfim, se o senhor duque o

quiser por força, que remédio haverá!

- Oh! Oh! Eu não quero coisa nenhuma;

espera um pouco, pequena.

Nicola viu que ia caminhando com

demasiada presteza, e que não tinha ainda nas mãos nem o segredo nem o dinheiro do seu antagonista.

Curvou-se portanto, reservando para si

o direito de erguer-se depois.

- Estou esperando as ordens do senhor

duque – disse ela.

- Muito bem! Vais ter com o Sr. Beausire,

e dizes-lhe: “Descobriu-se tudo; mas tenho um protector que nos livra de irmos parar o senhor a S. Lázaro, e eu à Salpêtrière. Fujamos”.

Nicola olhou para Richelieu. - Fujamos? - repetiu.

Richelieu percebeu o olhar frio e

expressivo da rapariga.

- Pois está claro - respondeu-lhe; - as

despesas da viagem faço-lhas eu.

Nicola não pediu mais esclarecimentos;

por força lhe haviam de dizer tudo, visto que lhe pagavam.

O marechal percebeu Nicola, apressou-

se efectivamente a dizer quanto tinha para dizer, como homem que perdeu ao jogo, e que se apressa em pagar, para evitar o desgosto de pagar depois.

- Sabes em que pensas, Nicola? - disse

ele.

- Palavra que não - respondeu a

rapariga; - mas o senhor marechal, que sabe tanta coisa, aposto que o adivinhou?

- Nicola - disse ele - estás pensando que,

se fugires, a tua ama poderá precisar de ti, por acaso, e chamar-te de noite, e não te achando, mandar-te procurar, e dar isso lugar a seres agarrada?

- Não - disse Nicola - eu não pensava

nisso, por que reflectindo bem, senhor marechal, prefiro ficar aqui.

- Mas se prenderem o Sr. Beausire? - Pois bem! Que o prendam. - Mas se confessar?

- Deixá-lo confessar.

- Ah! - disse Richelieu principiando a

inquietar-se – ficarás então perdida.

- Não fico, porque a menina Andreia é

muito boa, e como no fundo do coração é minha amiga, há-de falar por mim a el-rei, e não me hão-de fazer mal nenhum.

O marechal mordeu os beiços. - E eu, Nicola - redargüiu ele - digo que

és uma pateta; que a menina Andreia não está bem com el-rei, e que se me não ouvires, como desejo, vou-te fazer levar daqui imediatamente; ouviste, minha viborazinha?

- Oh! Senhor, não sou tola, nem teimosa;

ouço, mas faço as minhas observações.

- Bem. Então vai já combinar o teu plano

de fuga com o Sr. Beausire.

- Mas como quer que me exponha a

fugir, senhor marechal, quando o senhor mesmo me diz que a senhora pode chamar-me, procurar-me, e não sei que mais? Mil coisas em que eu não tinha pensado logo de princípio, mas de que me preveniu o senhor, que é um homem de muita experiência?

Richelieu mordeu outra vez os beiços,

desta vez porém com mais força que da primeira.

- Pois bem! Se pensei nisso, velhaca,

também pensei no meio de evitar o acontecimento.

- E como impedirá que a menina me

chame?

- Impedindo que ela acorde. - Ora! Ela acorda dez vezes cada noite; é

impossível impedir isso.

- Tem então a mesma doença que eu

tenho? – disse Richelieu tranquilamente.

- Que o senhor? - repetiu Nicola rindo. - Certamente, porque também acordo

dez vezes cada noite. Mas tenho um remédio excelente para essas insónias. Ela há-de fazer o mesmo que eu faço, e se o não fizer, tu lho farás.

- Vamos a saber como é isso, senhor? -

disse Nicola.

- O que costuma tomar tua ama ao

deitar?

- O que toma?

- Sim, hoje é moda prevenir assim a

sede: uns tomam laranjada ou limonada, outros água de melissa, outros...

- A menina Andreia, à noite, antes de se

deitar, só bebe um copo de água pura, e algumas vezes com açúcar e água de flor de laranja, se está atacada dos nervos.

- Muito bem! - disse Richelieu - é

exactamente como eu; o meu remédio há-de portanto convir-lhe perfeitamente.

- Como?

- É como te digo; deito uma gota de

certo licor na água, e durmo toda a noite.

Nicola cismava, procurava adivinhar a

que se dirigia toda aquela diplomacia do marechal.

- Não respondes? - disse ele.

- Estou pensando que a menina Andreia

não tem desse licor que o senhor duque usa.

- Pois eu to darei.

- Ah! Ah! - murmurou Nicola, que afinal

via brilhar um raio de luz naquelas trevas.

- Deitarás duas gotas no copo de água

da tua ama, duas gotas, ouves, nem mais, nem menos, que ela há-de dormir, de modo que não chamará por ti e por conseqüência terás tempo de fugir.

- Oh! Se é só isso, não vejo a dificuldade. - Deitarás então as duas gotas? - Certamente.

- Prometes?

- Mas - disse Nicola - parece-me que é

do meu interesse deitá-las; e daí, à cautela fecharei também a porta do quarto da senhora...

- Não, não - disse vivamente Richelieu. -

É isso exactamente o que não deves fazer. Pelo contrário, hás-de deixá-la aberta.

- Ah! - exclamou Nicola, fazendo um

gesto significativo.

Tinha percebido; Richelieu conheceu-o

perfeitamente.

- É tudo? - perguntou ela. - Tudo. Agora podes dizer ao Sr.

Beausire que apronte as malas.

- Infelizmente, senhor, que não terei de

lhe dizer que apronte a bolsa.

- Isso é da minha conta.

- Sim, lembro-me que teve a bondade... - Quanto precisas, Nicola? - Para quê?

- Para deitares as duas gotas de água. - Para deitar as duas gotas de água,

nada, senhor duque, visto que me assegura que é no meu interesse que as deito; não seria justo que pagasse o que é do meu interesse. Mas para deixar aberta a porta do quarto da senhora, oh! para isso desde já o previno de que preciso uma soma redonda.

- Vamos, diz a soma.

- Preciso vinte mil francos, senhor. Richelieu estremeceu.

- Hás-de ir longe, Nicola - suspirou o

marechal.

- Que remédio haverá, senhor! Começo a

crer como o senhor duque, que hão-de correr atrás de mim; mas com os seus vinte mil francos, poderei ir andando.

- Vai prevenir o Sr. Beausire, Nicola, que

eu depois te contarei o dinheiro.

- O Sr. Beausire é muito incrédulo, e não

há-de acreditar o que eu lhe disser, se lhe não der provas.

Richelieu meteu a mão na algibeira e

tirou dela uma porção de notas do banco.

- Aqui tens por conta - disse ele - e nesta

bolsa há cem duplos luíses.

- Então faça a sua conta e entregar-me-á

o resto depois de eu falar com o Sr. Beausire.

- Não, com os diachos! Quero dar-te já

tudo. És uma rapariga económica, Nicola, isso há-de trazer-te felicidade.

E Richelieu completou a soma

prometida, com luíses, meios luíses e notas.

- Bem - disse ele - é isso?

- Creio que sim - disse Nicola; - agora

falta-me o principal.

- O licor?

- Sim, tem-no naturalmente nalgum

frasco?

- Tenho-o num frasquinho, que trago

sempre comigo.

Nicola sorriu.

- O pior - disse ela - é que todas as noites

fecham o Trianon e eu não tenho a chave.

- Mas eu, na minha qualidade de

primeiro gentil-homem, tenho uma chave.

- Realmente?

- Aqui a tens.

- Que felicidade! - disse Nicola; - pode

dizer-se que é uma enfiada de milagres. Agora, adeus, senhor duque.

- Como adeus?

- Decerto, porque eu hei-de partir

durante o primeiro sono da senhora.

- É justo; adeus, Nicola.

E Nicola rindo consigo mesma,

desapareceu por entre as trevas.

- Ainda venço - disse Richelieu; - mas

dir-se-ia que a fortuna me encontra já muito velho e me serve de má vontade. Fui batido pela rapariga; mas isso que importa, se eu restituir os golpes?