José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XXXII
A FUGA
Nicola era uma rapariga de consciência.
Recebera o dinheiro do senhor de Richelieu, recebera-o adiantado, e tinha que corresponder àquela confiança, ganhando-o.
Correra portanto direita à grade, onde
chegou às sete horas e quarenta minutos, em vez das sete horas e meia, que ajustara com o amante.
Ora, o Sr. Beausire, acostumado como
estava à disciplina militar, era pontual, e havia dez minutos que a esperava.
Havia também pouco mais ou menos
dez minutos, que o senhor de Taverney deixara sua filha, que ficou só. Ora, como se achasse só, a formosa menina fora fechar as cortinas.
Gilberto olhava, ou melhor diremos,
segundo o seu costume, devorava Andreia da sua trapeira. Seria contudo difícil dizer se o olhar que nela fitava brilhava de amor, se de ódio.
Fechadas as cortinas, Gilberto não tinha
mais que ver; portanto dirigiu a vista para outro lado.
Como olhasse para outro lado, viu o
penacho do Sr. Beausire e ouviu uma ária que ele assobiava, para enganar o tédio da espera.
Passados dez minutos, isto é, às sete
horas e quarenta minutos, apareceu Nicola; disse algumas palavras ao Sr. Beausire, que fez um movimento com a cabeça em sinal de que percebia perfeitamente, e afastou-se na direcção da rua, que conduz ao pequeno Trianon.
Nicola, ligeira como um passarito,
voltou para trás.
- Ah! Ah! - observou Gilberto - o Sr.
Beausire e a Srª. Nicola têm alguma coisa que dizer ou que fazer, e receiam testemunhas: bom!
A curiosidade de Gilberto a respeito de
Nicola tinha passado, mas como visse na rapariga uma inimiga natural, procurava reunir contra a moralidade dela tal quantidade de provas que lhe servisse para repelir o ataque, se Nicola o atacasse.
Não duvidava que tarde ou cedo a luta
principiaria e como soldado previdente, juntava quantas munições de guerra podia haver à mão.
Uma entrevista de Nicola com um
homem dentro do Trianon era arma que um inimigo tão inteligente como Gilberto não podia desprezar, principalmente quando, como Nicola, se cometia a imprudência de a deixar cair aos pés. Gilberto quis por conseqüência colher as provas de ouvido para as juntar às dos olhos e apanhar no ar alguma frase, que a comprometesse bem, e que pudesse vitoriosamente repetir à rapariga no momento do combate.
Desceu por isso apressadamente do
sótão, meteu pelo corredor das cozinhas, e pela pequena escada da capela desceu ao jardim. Chegado ali, Gilberto não tinha que recear, conhecia todos os recantos, como a raposa conhece o mato.
Meteu-se portanto entre as tílias, seguiu
junto da latada, chegou a um bosque, que apenas distava uns vinte passos do sítio onde contava encontrar Nicola.
E lá estava ela com efeito. Instalado Gilberto, chegou-lhe aos
ouvidos um ruído estranho: era a bulha do ouro sobre a pedra, era o som metálico, de que nada pode dar idéia exacta, senão a realidade.
Arrastou-se como uma serpente até ao
muro do terraço onde havia uma barreira de lilás, que, no mês de Maio, espalhava o seu perfume e sacudia as suas flores sobre quem passava naquela pequena rua que separa o Trianon grande do pequeno.
Chegado ali, os olhos de Gilberto,
habituados à escuridão, viram Nicola, que vazava sobre uma pedra, para aquém da grade, e prudentemente colocada fora do alcance da mão do Sr. Beausire, a bolsa dada pelo senhor de Richelieu.
Os belos luíses caíam saltando e luzindo,
enquanto o Sr. Beausire, com o olho vivo e a mão trémula, olhava atentamente para Nicola e para os luíses, sem compreender como ela os possuía.
Nicola dizia:
- Mais de uma vez me tem proposto
fugir consigo, meu caro Sr. Beausire.
- E mesmo casar com a menina -
exclamou ele todo entusiasmado.
- Oh! Quanto a esse último ponto, meu
caro senhor - disse a rapariga - depois o discutiremos; por enquanto, o principal é fugir. Podemos fugir dentro de duas horas?
- Dentro de dez minutos, se quiser. - Não; tenho que fazer antes disso, e o
que tenho que fazer leva duas horas.
- Dentro de duas horas ou de dez
minutos, estou às suas ordens, terna amiga.
- Bem; receba estes cinqüenta luíses.
A rapariga contou cinqüenta luíses, e
pela grade passou-os ao Sr. Beausire, que os meteu na algibeira sem contar.
- Daqui a hora e meia - prosseguiu ela -
quero encontrá-lo aqui com uma carruagem.
- Mas... - disse Beausire.
- Oh! Se não quer, façamos de conta que
de nada se falou, e restitua-me os meus cinqüenta luíses.
- Eu não recuo, minha querida Nicola,
mas tenho medo do futuro.
- Por quem?
- Pela menina.
- Por mim?
- Sim. Logo que se gastem os cinqüenta
luíses, e não há-de levar muito tempo, ficaremos sem recursos; e então há-de ter saudades do Trianon, há-de ter...
- Oh! Como é delicado, meu caro Sr.
Beausire; vamos, vamos, não receie coisa alguma; não sou dessas mulheres a quem podem fazer infelizes; não tenha escrúpulo; e daí, acabados esses cinqüenta luíses, veremos.
E Nicola fez tinir os outros que lhe
ficavam na bolsa.
Os olhos de Beausire estavam
fosforescentes.
- Pela menina - disse ele - seria eu capaz
de me meter num forno em brasa.
- Ora adeus! Não lhe peço tanto, Sr.
Beausire. Então, está tratado, dentro de hora e meia a carruagem, dentro de duas horas a fuga.
- Está dito - bradou Beausire pegando na
mão de Nicola, e puxando-a pela grade para lhe dar um beijo.
- Silêncio! - disse Nicola - está doido?... - Não, estou namorado.
- Ora! - disse Nicola.
- Não me acredita, meu bem? - Acredito, sim... Olhe! Traga bons
cavalos, que é o principal.
- Oh! Esteja descansada.
E separaram-se,
Mas, um momento depois, voltou
Beausire muito perturbado.
- Psiu! Psiu! - disse ele.
- O que é? - perguntou Nicola já longe
bastante e levando as mãos à boca em guisa de buzina, a fim de levar a voz mais longe sem fazer muita bulha.
- E a grade? - perguntou Beausire - salta
por cima dela?
- Forte estúpido! - murmurou Nicola,
que naquele momento estava apenas distante de Gilberto uns dez passos.
E continuou em voz alta: - Tenho a chave!
Beausire soltou um ah! cheio de
admiração, e desta vez desapareceu deveras.
Nicola voltou cabisbaixa e
apressadamente para junto da ama.
Gilberto, ao ficar só, propôs a si mesmo
os quatro quesitos seguintes:
- Por que foge a Nicola com o Beausire,
de quem não gosta? Por que tem a Nicola em seu poder tão grande soma de dinheiro? Por que tem a Nicola a chave da grade? Por que volta Nicola para junto de Andreia, quando podia fugir desde já?
Quanto a este quesito: “Por que tem a
Nicola em seu poder tão grande soma de dinheiro?” Gilberto achava-lhe uma solução fácil; mas quanto aos outros não podia resolvê-los.
Àquela negação da sua perspicácia, a
curiosidade natural ou a desconfiança adquirida, como quiserem, foi nele tão poderosamente excitada, que se decidiu, apesar da excessiva friagem da noite, a ficar debaixo das árvores úmidas, para esperar o desfecho da cena, cujo princípio acabava de entrever.
Andreia, que acompanhara o pai até às
barreiras do grande Trianon, voltava só e pensativa, quando Nicola desembocou a correr da rua que conduzia à famosa grade, onde acabava de dispor tudo com o Sr. Beausire.
Parou ao ver a ama, e a um sinal que
esta lhe fez, subiu imediatamente atrás dela e acompanhou-a ao quarto.
Seriam oito horas e meia da noite.
Anoitecera mais depressa que de costume, porque uma grande nuvem negra, que corria do sul para o norte, cobrira o espaço, de modo que para além de Versalhes, por cima dos grandes bosques, em toda a distância que a vista podia alcançar, via-se a lúgubre mortalha envolver a pouco e pouco todas as estrelas que um instante antes brilhavam na abóbada azul. Um vento pesado e rasteiro soprava por entre os arbustos, levando ardentes baforadas às flores secas, que curvavam a cabeça como para implorar do céu a esmola da chuva ou do orvalho.
Aquela ameaça da atmosfera não tinha
por forma alguma acelerado o passo de Andreia; pelo contrário, a gentil menina, triste e profundamente pensativa, punha como a custo o pé sobre cada degrau da escada que conduzia ao seu quarto, e parava junto de cada janela a fim de olhar para o céu, que em tanta harmonia estava com a sua tristeza, e retardar desse modo a sua entrada para o quarto.
Nicola, impaciente, desesperada, e
receando que alguma fantasia da ama a demorasse além da hora, resmungava em voz baixa as imprecações que os criados nunca poupam aos amos que têm a imprudência de se atreverem a satisfazer uma fantasia à custa das fantasias dos seus criados.
Finalmente, Andreia empurrou a porta
do quarto, e mais depressa caindo do que sentando-se sobre uma cadeira, ordenou vagarosamente a Nicola que entreabrisse a janela que dava para o pátio.
Nicola obedeceu.
Depois, voltando para junto da ama,
com o ar de interesse que a lisonjeira tão bem sabia afectar, disse:
- Receio bem que a menina esteja doente;
acho-lhe esta noite os olhos pisados e vermelhos, apesar de brilhantes. Creio que a menina faria muito bem em descansar.
- Parece-te isso, Nicola? - disse Andreia,
que nem ouvira o que lhe diziam.
E estendeu os pés sobre um tapete
bordado.
Nicola tomou aquela posição por uma
ordem para despi-la, e começou a desatar-lhe e a despregar-lhe as fitas e as flores do toucado, edifício que a mais hábil não demolia em menos de um quarto de hora.
Durante este tempo Andreia não disse
palavra. Entregue ao seu livre arbítrio, Nicola apressou-se, e sem fazer gritar a ama, tão profundamente preocupada estava, arrepelou-lhe muito à vontade os cabelos. Terminados os preparativos da noite, Andreia deu as suas ordens para o dia seguinte. Era preciso ir a Versalhes buscar uns livros, que Filipe lhe havia de ter mandado, e avisar o afinador para ir ao Trianon afinar o cravo.
Nicola respondeu com toda a serenidade
que, se a menina não acordasse de noite, havia de erguer-se cedíssimo, e que antes que ela acordasse tudo estaria feito.
- Amanhã também hei-de escrever -
prosseguiu Andreia falando consigo mesma; - sim, escreverei a Filipe, servir-me-á isso de alguma consolação.
- Em todo o caso - disse Nicola também
consigo não serei eu que leve a carta.
E fazendo esta reflexão, a moça, que
ainda não estava totalmente depravada, começou a pensar tristemente que ia, pela primeira vez, deixar aquela excelente ama junto da qual se lhe desenvolveu o espírito e o coração. A lembrança de Andreia prendia-se nela a tantas recordações, que, despedaçar esta, era abalar toda a cadeia que ligava aquele ao primeiro dia da sua infância.
Enquanto as duas moças, de carácter e
condição tão diferentes, pensavam assim ao lado uma da outra, sem que nas suas idéias houvesse conexão, o tempo fugia, e o relógio de Andreia, sempre mais adiantado que o do Trianon, dava nove horas.
Beausire devia estar no lugar aprazado,
e apenas faltava meia hora para Nicola ir ter com o amante.
Acabou de despir a ama o mais depressa
que pôde não sem deixar escapar alguns suspiros, aos quais Andreia nem sequer deu atenção. Vestiu-lhe um roupão de dormir, e como Andreia, sempre pensativa, permanecesse imóvel e com os olhos fitos no tecto, Nicola tirou do seio o frasco de Richelieu, e deitou dois torrões de açúcar num copo e a água necessária para os dissolver, e sem hesitação, pela omnipotência daquela vontade já tão forte em coração tão novo ainda, vazou duas gotas da água do frasco no copo de água, que logo se turvou, tomando uma ligeira cor opaca, que em breve se desvaneceu.
- Minha senhora - disse então Nicola - o
copo de água está pronto, o fato dobrado, a lamparina acesa. Sabe que preciso levantar-me cedo; posso ir agora deitar-me?
- Podes - respondeu Andreia distraída. Nicola fez a sua mesura, soltou um
último suspiro, que se perdeu como os outros, e fechou atrás de si a porta de vidraça que dava para a pequena antecâmara. Mas, em lugar de entrar no seu quarto, que era a pequena cela contígua, como já sabemos, ao corredor a que recebia luz da antecâmara de Andreia, fugiu ligeiramente, deixando entreaberta a porta do corredor, de modo que foram executadas à risca as instruções de Richelieu.
E daí, para não despertar a atenção dos
vizinhos, desceu em bicos de pés a escada que conduz ao jardim, saltou o patamar, e foi a correr encontrar o Sr. Beausire ao pé da grade.
Gilberto não abandonara o seu
observatório. Ouvira dizer a Nicola que voltaria dentro de duas horas, e estava-a esperando. Como porém já passassem dez minutos da hora aprazada, começava a recear que não aparecesse.
De repente viu-a correndo como se
alguém a seguisse.
Chegou à grade, passou a chave a
Beausire, que abriu a porta; Nicola fugiu para o outro lado, e a grade fechou-se com estrondo.
Depois atiraram a chave para o meio das
ervas de um fosso, que ficava mesmo por baixo do sítio onde estava Gilberto; o mancebo ouviu-a cair, e reparou no lugar onde fora parar.
Durante aquele tempo iam Nicola e
Beausire caminhando. Gilberto ouviu-os afastar, e não tardou que sentisse, não o ruído de uma carruagem como Nicola pedira, mas o passo de um cavalo; passados alguns momentos, naturalmente gastos com as recriminações de Nicola, que quisera partir de carruagem como uma duquesa, ouviu-se o cavalo meter a galope e afastar-se.
Estava livre; ficava sem Nicola, isto é,
sem a sua inimiga. Andreia ficara só; talvez que ele pudesse agora chegar até junto dela: é o que Gilberto pensava.
Aquele pensamento sobressaltou o
ardente moço com todos os furores do receio e da incerteza, da curiosidade e do desejo.
E seguindo caminho oposto ao de
Nicola, dirigiu-se para as casas do Trianon, onde ficavam os aposentos de Andreia.