José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 8 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XI

 

O SENHOR DE AIGUILLON

TOMA A SUA DESFORRA

No dia seguinte àquele em que o terrível

decreto do parlamento havia feito grande barulho em Paris e Versalhes, quando todos estavam à espera de ver as conseqüências desse decreto, o Sr. Duque de Richelieu, que se tinha transportado para Versalhes e tomara novamente a sua vida regular, viu Rafté entrar no seu quarto trazendo uma carta na mão. O secretário cheirava e pesava essa carta com um desassossego que logo se comunicou ao amo.

- Que mais temos, Rafté? - perguntou o

marechal.

- Alguma coisa pouco agradável,

imagino eu, senhor, e que está fechada aqui dentro.

- Por que imaginas isso?

- Porque a carta é do Sr. Duque de

Aiguillon.

- Ah! Ah! - disse o duque - do meu

sobrinho?

- Sim, senhor marechal; ao sair do

conselho de el-rei, veio um meirinho da câmara e entregou-me esta carta para o senhor; há dez minutos que a viro e reviro, e parece-me ver nela alguma má nova.

O duque estendeu a mão. - Dá-ma - disse ele - eu sou valente. - Previno-o - interrompeu Rafté - que o

meirinho quando ma deu, riu-se maliciosamente.

- Diacho! Isso desassossega-me. Dá-ma

sempre – respondeu o marechal.

- E acrescentou: “O Sr. Duque de

Aiguillon recomenda que esta carta seja imediatamente entregue ao senhor marechal”.

- Dor humana! Quanto tu és má! -

exclamou o velho marechal rompendo o selo com mão firme.

E leu.

- Ah! Ah! O senhor faz visagens - disse

Rafté, que estava em observação com as mãos atrás das costas.

- Será possível? - murmurou Richelieu

prosseguindo na leitura.

- É caso sério, segundo parece? - Parece que estás encantado? - Certamente, por ver que não me tinha

enganado.

O marechal continuou a sua leitura. - El-rei é bom - disse ele passado um

instante.

- Nomeia ministro o senhor de

Aiguillon?

- Melhor do que isso.

- Oh! Oh! Então o quê?

- Lê e comenta.

Rafté leu a carta, a qual, escrita pelo

próprio punho do duque de Aiguillon, era concebida nestes termos:

“Meu querido tio.

O seu bom conselho produziu óptimo

efeito: confiei as minhas penas a essa excelente amiga da nossa casa, a Srª. Condessa du Barry, que se dignou depositar a minha confidência no seio de Sua Majestade. El-rei indignou-se das violências que me fizeram aqueles senhores do parlamento, a mim que tão fiel e lealmente me tenho empregado em seu serviço, e no seu conselho de hoje. Sua Majestade houve por bem caçar e anular o decreto do parlamento, e intimou-me a continuar as minhas funções de par de França.

Sabendo o prazer que esta notícia lhe há-

de causar, meu querido tio, mando-lhe o teor da resolução de Sua Majestade tomada em conselho de hoje. Mandei-a copiar por um secretário, e tem a notificação primeiro que qualquer outra pessoa.

Acredite no meu terno respeito, meu

querido tio, e continue a conceder-me a sua protecção e os seus bons conselhos.

Duque de Aiguillon.”

- Ainda em cima escarnece de mim! -

bradou Richelieu.

- Por minha alma, creio que sim, senhor. - O rei! O rei que se lança no vespeiro. - Ontem não o queria acreditar. - Eu não disse que ele não andaria mal,

Rafté, o que eu disse é que se havia de sair bem... Ora bem vês que se saiu menos mal.

- O facto é que o parlamento fica batido. - E eu também!

- Por enquanto, sim.

- Para sempre! Ontem o pressenti eu, e

tanto me quiseste consolar, que não podia deixar de me suceder alguma desgraça.

- Senhor, parece-me que desanima muito

cedo.

- Rafté, tu és um pateta. Fui batido e hei-

de pagar as custas. Talvez não compreendas tudo quanto há para mim de desagradável em ser o alvo das gargalhadas de Luciennes; neste momento o duque está escarnecendo de mim nos braços da senhora du Barry; a Srª. Chon e João du Barry têm-me tomado por assunto das suas gargalhadas, o preto está comendo bolos e fazendo-me negaças. Com os diabos! Tenho um bom génio, mas tudo isso me torna furioso.

- Furioso, senhor?

- É como te digo, furioso! - Então não deveria ter feito o que fez –

redargüiu Rafté filosoficamente.

- Tu assim mo aconselhaste. - Eu?

- Sim, tu.

- Ora! Que me importa a mim que o

senhor de Aiguillon seja ou deixe de ser par de França? Seu sobrinho não me faz mal algum, parece-me.

- Rafté, tu és um impertinente. - Há quarenta e nove anos que mo diz,

senhor.

- E ainda to repetirei.

- Mas não quarenta e nove anos mais, é o

que me sossega.

- Rafté, se é assim que te interessas por

mim...

- Interessar-me pelas suas pequenas

paixões, não, senhor duque, nunca... Homem de espírito como é, faz loucuras que eu não perdoaria a um ignorante como eu.

- Faz o favor de te explicares, Rafté, e se

eu não tiver razão, confessá-lo-ei.

- Precisou ontem de uma vingança, não

é verdade? Quis ver a humilhação de seu sobrinho, quis de alguma maneira levar o senhor mesmo o decreto do parlamento e contar os estremecimentos e as palpitações da sua vítima, como diz o senhor de Crébillon filho. Pois bem, senhor marechal, esses divertimentos custam caros. É rico, pague, senhor marechal, pague!

- No meu lugar o que terias feito, tu,

meu homem de espírito, vejamos?

- Nada... Teria esperado sem dar sinal de

vida; mas morreria por ver o parlamento em oposição à du Barry, no momento em que ela achasse que o senhor de Aiguillon era mais moço do que o senhor.

O marechal resmungou, foi a sua única

resposta.

- Então! - prosseguiu Rafté - o

parlamento estava bastante insinuado por si para fazer o que fez; uma vez publicado o decreto, ofereceria os seus serviços ao senhor de Aiguillon, que nada teria desconfiado.

- Tudo isso é muito bonito e muito bom,

e admito que andei mal; mas então deverias ter-me avisado.

- Eu, impedir de fazer o mal!... Toma-me

por outro, senhor marechal; diz a toda a gente que sou o homem de que precisa, que me educou, e quereria que eu não ficasse encantado de ver fazer uma loucura ou acontecer uma desgraça!... Ora adeus!

- Há-de então suceder alguma desgraça,

senhor feiticeiro?

- Certamente.

- Qual é?

- É que teimará, e que o senhor de

Aiguillon tomará o partido entre o parlamento e a senhora du Barry; nesse dia ele será ministro e o senhor exilado... ou encerrado na Bastilha.

O marechal, enraivecido, entornou sobre

o tapete todo o rapé da sua caixa.

- Na Bastilha! - disse encolhendo os

ombros; - pensas que Luís XV é o mesmo que Luís XIV?

- Não; mas a senhora du Barry, ajudada

pelo senhor de Aiguillon, há-de equivaler à senhora de Maintenon. Tome cuidado, eu não conheço princesas de sangue que lhe fossem agora levar lá bolos e carícias.

- Eis aí fartura de profecias!... -

respondeu o marechal depois de um grande silêncio. - Lês no futuro, mas quanto ao presente, o que me dizes?

- O senhor marechal é muito sábio para

que se lhe devam dar conselhos.

- Ouve, grande garoto, também tu

queres zombar comigo?...

- Repare, senhor marechal, que confunde

as datas; já se não chama garoto a um homem depois dos quarenta anos, e eu tenho sessenta e sete.

- Não importa... Tira-me de uma destas,

e... Já... Depressa!... Depressa!...

- Por um conselho?

- Pelo que tu quiseres.

- Ainda não é tempo.

- Decididamente, fazes-te engraçado. - Prouvera a Deus!... Se eu estivesse

fazendo de engraçado, era porque as circunstâncias o permitiam... Mas desgraçadamente não é assim.

- O que queres tu dizer com essa tua

resposta: “ainda não é tempo?”

- Não, senhor, não é tempo. Se a

notificação do decreto de el-rei tivesse chegado a Paris, não digo... Quer que mandemos um correio ao Sr. Presidente de Aligre?

- Para que escarneçam mais depressa de

nós...

- Que ridículo amor-próprio, senhor

marechal! Será capaz de voltar o juízo a um santo... Olhe, deixe-me acabar o meu plano de desembarque na Inglaterra, e acabe de se afogar nessa intriga ministerial, já que o trabalho está meio feito.

O marechal conhecia bem a acrimónia

do Sr. Rafté; por isso sabia que, uma vez declarada a sua melancolia, se tornava casmurro.

- Vamos, não te amues - disse ele - e se

eu não compreendo, faz-me compreender.

- Então quer que lhe vá traçar um plano

de proceder?

- Certamente, pois que afirmas que não

sei proceder sozinho.

- Pois então ouça!

- Estou ouvindo.

- Mandará ao senhor de Aligre - disse

Rafté com modo rabugento - a carta do senhor de Aiguillon, juntando-lhe a resolução tomada em conselho por Sua Majestade; esperará que se tenha reunido o parlamento e que tenha deliberado, o que deverá verificar-se imediatamente; depois, meter-se-á na sua carruagem e irá fazer uma pequena visita a mestre Flageot, seu procurador.

- O quê? - bradou Richelieu, a quem esse

nome fez estremecer como na véspera; - ainda o Sr. Flageot! Que diabo tem mestre Flageot que fazer nisto tudo, e o que irei eu fazer a casa desse tal mestre Flageot?

- Já tive a honra de lhe dizer, senhor, que

mestre Flageot é um procurador.

- Bem, e depois?

- Depois, sendo o seu procurador, tem

papéis seus... Umas demandas quaisquer... Irá pedir-lhe novas das suas demandas.

- Amanhã?

- Sim, senhor marechal, amanhã. - Mas isso é negócio da sua competência,

Rafté.

- Nada, nada... Isso era bom quando

mestre Flageot não passava de um simples borrador de papéis; então podia eu tratar de igual para igual com ele; mas como a começar de amanhã, mestre Flageot é um Atila, um flagelo dos reis, nada menos, não é muito que um duque, par e marechal de França, vá conferenciar com aquele todo-poderoso.

- Tudo isso é sério, ou estamos nós

representando uma comédia?

- Verá amanhã se é sério, senhor. - Diz-me o que me há-de acontecer em

casa do teu mestre Flageot?

- Muita pena teria eu disso... Havia de

querer amanhã provar-me que tinha adivinhado... Boa noite, senhor marechal. Lembre-se disto: um correio ao senhor de Aligre imediatamente, amanhã uma visita ao mestre Flageot. Ah! A morada... O cocheiro sabe-a, tem-me levado bastantes vezes a casa dele nestes últimos oito dias.