José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 6 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo VIII

 

COMO A ALEGRIA DE UNS PODE

CAUSAR O DESESPERO DE

OUTROS

- Bons dias, menina; sou eu - disse

Nicola com alegria e fazendo uma mesura, a qual, conhecendo a fundo o carácter de sua ama e senhora, não era por isso isenta de um certo desassossego.

- Tu! E por que acaso? - redargüiu

Andreia largando a pena para seguir melhor a conversa que deste modo se começava.

- Esquecia-se de mim; eu então vim... - Mas se eu me esqueci de ti, é porque

tinha para isso as minhas razões. Quem te autorizou a vir?

- Foi o senhor barão, menina, quem

havia de ser? – respondeu Nicola, encrespando as formosas sobrancelhas pretas que ela devia à generosidade do Sr. Rafté.

- Meu pai precisa de ti em Paris, e eu

não preciso de ti aqui... Podes portanto voltar para casa.

- Oh! - disse Nicola - mas então não me

tem grande amizade... Eu pensava ter-lhe merecido mais estima... Vá lá a gente amar alguém - acrescentou Nicola filosoficamente - para que dêem semelhante pago!

E os seus lindos olhos fizeram quanto

puderam para atrair uma lágrima que pelo menos os umedecesse.

Havia bastante vida e sensibilidade na

admoestação, para excitar a compaixão de Andreia.

- Minha filha - lhe disse ela - aqui

servem-me, e eu não posso tomar a liberdade de sobrecarregar a casa da senhora delfina com mais uma boca.

- Ora adeus! Como se esta boca fosse

enorme! – disse Nicola com riso encantador.

- Não importa, Nicola, a tua presença

aqui é impossível.

- Por causa da tal semelhança? - disse

Nicola. – Então ainda não me olhou para o rosto, minha senhora?

- Efectivamente, pareces-me muito

mudada.

- Pudera não; um fidalgo, aquele que fez

dar uma patente ao Sr. Filipe, esteve ontem em nossa casa, e como notasse que o senhor barão estava triste por ter a menina vindo para aqui sem uma criada, contou-lhe que nada havia mais fácil do que mudar o branco em preto, levou-me consigo, arranjou-me como vê, e eis-me aqui.

Andreia sorriu.

- Tens-me então muita amizade - disse

ela – para vires assim de livre vontade fechar-te no Trianon, onde sou quase uma prisioneira?

Nicola lançou um olhar rápido em torno

de si.

- Este quarto não é muito alegre - disse

ela; - mas nem sempre fica aqui?

- Eu, é verdade - redargüiu Andreia; -

mas tu?

- Ora! Eu?

- Tu que não tens entrada nas salas,

junto da senhora delfina; tu que nem divertimentos, nem passeios terás para te distraíres; que terás de ficar sempre aqui, arriscas-te a morrer de aborrecimento.

- Oh! - disse Nicola - sempre hei-de

achar alguma janela ou uma fenda da porta, para ver um pequeno canto desse mundo. Se chegar a ver, posso talvez ser vista... E é isso tudo quanto preciso; não lhe dê cuidado.

- Não, Nicola, torno a repetir, não te

posso receber sem uma ordem expressa.

- De quem?

- De meu pai.

- É a sua última palavra?

- Sim,

Nicola tirou do seio a carta do barão de

Taverney.

- Nesse caso - disse ela - já que não têm

poder os meus rogos e a minha amizade, vejamos se esta recomendação será mais eficaz.

Andreia recebeu a carta, que era

concebida nestes termos:

“Eu sei, e nota-se, minha querida

Andreia, que não tens no Trianon o estado que a tua posição imperiosamente te ordena; deverias ter duas criadas e um lacaio, tão certo como eu deveria ter vinte mil libras de renda; entretanto, como não tenho remédio senão contentar-me com mil libras, imita-me e recebe Nicola, que só por si vale quantos criados te seriam necessários.

Nicola é ágil, inteligente e activa;

depressa tomará o tom e modo da localidade; terás o cuidado, não de estimular, mas de lhe ganhar a sua boa vontade. Conserva-a, e não julgues que faço um sacrifício. Dado o caso que assim o julgasses, lembra-te que Sua Majestade, que teve a bondade de se lembrar de nós, quando te viu, notou (foi-me isto confiado por um amigo verdadeiro) que te faltava luxo e representação. Lembra-te disto, que é da mais alta importância.

Teu pai muito afeiçoado.”

Esta carta lançou Andreia numa

dolorosa perplexidade.

Assim, ia ser perseguida ainda mesmo

na sua nova prosperidade por uma pobreza que só a ela não parecia ser um defeito, quando tudo lha lançava em rosto como uma nódoa.

Esteve a ponto de quebrar a sua pena

com raiva e de rasgar a carta começada, para responder ao barão com algum belo trecho cheio de desinteresse filosófico, que Filipe teria adoptado com toda a sua alma.

Mas pareceu-lhe ver o sorriso irónico do

barão quando lesse a sua obra-prima, e imediatamente se desvaneceu toda a sua resolução. Contentou-se portanto em responder à missiva do barão, com um parágrafo anexo às novidades que do Trianon lhe mandava.

“Meu pai - acrescentou ela - neste

mesmo instante acaba de chegar Nicola, e recebo-a conforme o seu desejo; mas o que a esse respeito me escreveu desesperou-me. Serei menos ridícula com esta aldeã por criada, do que o era sozinha no meio das opulências da corte? Nicola não gostará de me ver humilhada, há-de levar-mo a mal porque os lacaios são soberbos ou humildes, segundo o luxo ou a simplicidade dos seus amos. Quanto ao reparo de Sua Majestade a meu respeito, meu pai, permita que lhe diga que el-rei tem tão bom-senso que não pode levar-me a mal a minha impossibilidade de ostentar um grande luxo, e que, além disso, Sua Majestade é homem de muita honra para ter notado ou criticado a minha miséria em vez de a mudar numa fortuna melhor, que o seu nome e os seus serviços legitimariam aos olhos de todos.”

Tal foi a resposta da donzela, e é preciso

confessar que essa cândida inocência, que essa nobre soberba tinha bem facilmente razão contra a astúcia e a corrupção dos seus tentadores.

Andreia não falou mais de Nicola.

Conservou-a consigo, de modo que esta, alegre e entusiasmada, e bem sabia ela porquê, foi logo tratar de arranjar uma pequena cama, no gabinete da direita, que dava para a antecâmara, e fez-se pequena, aérea, delicada, para não incomodar a sua ama em coisa alguma com a sua presença naquele modesto recinto; dir-se-ia que se esforçava por imitar a folha de rosa que os sábios da Pérsia tinham deixado cair no copo cheio de água, para provar que se lhe podia acrescentar alguma coisa sem fazer trasbordar o conteúdo.

Andreia partiu para o Trianon pela uma

hora da tarde. Nunca estivera mais bela e graciosamente vestida. Nicola tinha-se excedido: amabilidade, atenções e intenções, nada havia faltado ao seu serviço.

Assim que Andreia saiu, Nicola viu que

estava senhora da praça e passou uma revista minuciosa.

Tudo passou pelo seu exame, desde as

cartas até ao último objecto do toucador, desde a chaminé até aos recantos mais ocultos dos gabinetes.

Depois chegou à janela, para aspirar o

ar.

Em baixo viu um grande pátio, onde os

moços das cavalariças estavam limpando os cavalos de luxo da senhora delfina. Moços de cavalariça, fora! Nicola voltou a cara.

Do lado direito, havia uma correnteza

de janelas na mesma altura das dos quartos de Andreia. Apareceram nelas algumas cabeças de criados e varredores. Nicola passou desdenhosamente para outro exame.

Em frente, alguns mestres de música

estavam numa grande casa, ensaiando coristas e instrumentistas para a missa de S. Luís.

Nicola divertiu-se, limpando a sala, a

cantarolar ao seu modo, por tal forma, que distraiu os professores e fez desafinar os coristas.

Mas esse passatempo não podia

satisfazer por muito tempo as ambições da Srª. Nicola; quando os professores e alunos tinham gritado e ralhado bastante, a rapariga passou revista ao pavimento superior. Todas as janelas das águas-furtadas estavam fechadas.

Nicola começou novamente a limpar;

mas um momento depois apareceu aberta uma dessas janelas, sem que ela tivesse podido ver por que modo, pois não aparecia pessoa alguma.

Alguém contudo a tinha aberto; esse

alguém tinha visto Nicola e não ficara a olhar para ela; era algum impertinente de mau gosto!

Era isto pelo menos o que pensou

Nicola; também, para não perder a ocasião de estudar a fisionomia de um impertinente, ela que estudava tão conscienciosamente, resolveu, a cada volta que dava no quarto de Andreia, vir à janela relancear os olhos para a água-furtada, isto é, para esse outro olho aberto, que lhe faltava ao respeito, privando-a do seu olhar, naturalmente por falta de meninas. Uma vez, julgou perceber que alguém fugia quando ela se aproximava... Isso porém não era crível, e ela não o acreditou.

Outra vez teve quase uma certeza disso,

ao ver as costas do fugitivo, surpreendido por uma volta de Nicola mais rápida do que ele a esperava.

Então ela empregou a astúcia; ocultou-se

com a cortina, deixando a janela de todo aberta, a fim de não causar suspeita.

Esperou muito tempo, mas afinal

apareceram uns cabelos pretos, depois umas mãos temerosas que seguravam em forma de arco um corpo inclinado com precaução, enfim o rosto apareceu todo distintamente. Nicola esteve quase para desmaiar e amarrotou a cortina toda.

Era o rosto de Gilberto, que olhava do

alto daquela água-furtada.

Gilberto, vendo agitar a cortina,

compreendeu a astúcia e não tornou a aparecer.

Fez mais ainda, a janela da água-furtada

fechou-se.

Não havia que duvidar, Gilberto tinha

visto Nicola; ficara estupefacto, quisera convencer-se da presença da sua inimiga, e vendo que o tinham descoberto, fugira todo perturbado e enraivecido.

É assim pelo menos como Nicola

interpretou a cena, e tinha razão; pois era deste modo que lhe convinha interpretá-la.

Com efeito, Gilberto teria preferido ver

o Demónio a ter visto Nicola; forjou mil terrores com a chegada dessa vigia. Tinha contra ela um antigo motivo de raiva; ela sabia o seu segredo do jardim da Rua Coq-Héron.

Gilberto fugiu não só perturbado, mas

também enraivecido, mordendo as mãos com despeito.

- Que me importa agora a mim - dizia

ele – com aquela descoberta de que eu estava tão soberbo?!... Se Nicola teve lá um amante, o mal está feito e não é por isso que a mandarão embora daqui; enquanto ela, se disser o que fiz na Rua Coq-Héron, pode fazer com que me expulsem do Trianon... Não sou eu que tenho Nicola em meu poder, é ela que me tem a mim. Oh! Raiva!

E todo o amor-próprio de Gilberto,

servindo de estímulo ao seu ódio, lhe fez ferver o sangue com uma violência espantosa.

Parecia-lhe que ao entrar naquele

quarto, Nicola havia afugentado dele com um riso diabólico todos os sonhos de felicidade que para lá mandava todos os dias da sua água-furtada, com o seu ardente amor e com as suas flores. Tinha Gilberto muito em que pensar, para ter vivido até então sem se lembrar de Nicola, ou havia ele afastado de si esse pensamento pelo terror que lhe inspirava? É o que não decidiremos. Mas o que podemos afirmar com a maior certeza, é que a vista daquela rapariga foi para ele uma surpresa essencialmente desagradável.

Ele bem conhecia que mais tarde ou

mais cedo se havia de declarar guerra entre os dois; mas, como Gilberto era homem prudente e político, não queria que essa guerra começasse enquanto ele não se achasse habilitado para torná-la boa e enérgica.

Resolveu portanto fingir-se morto até

que o acaso lhe desse uma ocasião favorável para ressuscitar, ou até que Nicola, por fraqueza ou necessidade, se aventurasse a dar algum passo para ele, que lhe fizesse perder parte da sua superioridade e vantagem.

É por isso que, tendo só olhos e ouvidos

para Andreia, mas circunspecto e vigilante sem cessar, continuou a estar ao facto dos negócios interiores do primeiro quarto do corredor, sem que uma única vez Nicola o pudesse encontrar nos jardins.

Desgraçadamente para ela, Nicola não

se podia dizer irrepreensível, e ainda que assim o fosse pelo que respeita ao presente, havia sempre no seu passado a esquadrinhar algum tropeço em que facilmente poderiam fazê-la cambalear.

Foi o que aconteceu ao cabo de oito dias.

Gilberto, à força de espreitar de dia e de noite, acabou por ver pelas grades um penacho que lhe não era desconhecido, e que causava contínuas distracções a Nicola, porque era do Sr. Beausire, que imitando a corte, havia emigrado de Paris para o Trianon.

Por muito tempo Nicola foi cruel:

deixava o Sr. Beausire tiritar com o frio ou derreter com o Sol, e essa virtude desesperava Gilberto: mas uma vez, tendo o Sr. Beausire sem dúvida ultrapassado todos os limites da eloqüência mímica e achado a persuasão, Nicola aproveitou o momento em que Andreia jantava com a senhora de Noailles, para descer ao pátio das cavalariças e ir ao encontro do Sr. Beausire, que ajudava o seu amigo, o intendente das cavalariças, a ensinar um poldro irlandês.

Do pátio passaram para o jardim, e do

jardim para a avenida sombria que conduz a Versalhes.

Gilberto seguiu o par amoroso com a

feroz alegria do tigre que segue a sua presa. Contou-lhes os passos, os suspiros, aprendeu de cor o que lhes pôde ouvir dizer, e devemos crer que o resultado o satisfez, porque no dia seguinte, livre de todo o embaraço, apareceu na janela da sua água-furtada, alegre, cantarolando e resoluto, sem recear a vista de Nicola, mas pelo contrário, parecendo desafiar o seu olhar.

A rapariga estava tomando umas redes

numas luvas de seda da sua ama; ao som da cantiga, levantou a cabeça e viu Gilberto.

A sua primeira manifestação foi um

certo modo de desdém que muito pendia para o azedume e cheirava a hostilidade a uma légua de distância... Mas Gilberto sustentou esse olhar e esse modo com um sorriso tão singular, tanta provocação mostrou nos seus gestos e na sua maneira de cantar, que Nicola baixou a cabeça e corou.

- Compreendeu-me - disse Gilberto

consigo; - é o que eu queria.

Depois, começou de novo o manejo, e foi

então Nicola quem tremeu; chegou ao ponto de desejar uma entrevista para aliviar o seu coração do peso que sobre ele havia lançado o olhar irónico do jovem jardineiro.

Gilberto notou que se procurava ocasião

para essa entrevista. Não o enganavam aquela tosse seca, que soava ao pé da sua janela, quando Nicola sabia que ele estava na água-furtada, as idas e vindas da rapariga pelo corredor, quando podia supor que ele ia descer ou subir.

E bem feliz se sentiu por esse triunfo,

que totalmente atribuía à força do seu carácter e ao seu procedimento. Nicola tanto o espreitou que o viu uma vez subir a escada; chamou-o, mas ele não respondeu.

A rapariga levou mais adiante a sua

curiosidade e o seu receio. Uma tarde, descalçou os sapatinhos de salto, herança de Andreia, e trémula e rápida dirigiu-se, para o corredor, no fundo do qual sabia que era o quarto de Gilberto.

Ainda era dia bastante para que este,

sentindo a rapariga aproximar-se, pudesse distintamente ver Nicola pelas fendas das tábuas.

Ela foi bater-lhe na porta, sabendo muito

bem que ele estava no quarto.

Gilberto não respondeu.

Era contudo para ele uma perigosa

tentação; podia humilhar à sua vontade aquela que vinha assim pedir o seu perdão. Estava só, ardente e estremecia todas as noites com as recordações de Taverney; com os olhos fitos na porta, devorava a fascinadora formosura dessa voluptuosa rapariga, e excitado pela sensação preliminar do seu amor-próprio, já tinha levantado a mão para puxar o ferrolho, que com a costumada previsão e circunspecção tinha corrido para se livrar de alguma surpresa.

- Não - disse ele consigo - nela tudo é

cálculo; é por temor e interesse que vem procurar-me; portanto, alguma coisa poderia ganhar, enquanto que eu, quem sabe o que perderia?

E, com este arrazoado, deixou outra vez

pender a mão que tinha erguido. Nicola, depois de ter batido duas ou três vezes na porta, afastou-se enfadada e franzindo as sobrancelhas.

Gilberto conservou portanto todas as

suas vantagens; Nicola então dobrou de astúcia para não perder de todo as que possuía. Enfim todos os planos e projectos reduziram-se a estas palavras, que as duas partes beligerantes proferiram uma tarde, à porta da ermida onde o acaso as fizera encontrar:

- Ah! Boa tarde, Sr. Gilberto; então está

aqui?

- Ah! boa tarde, Srª. Nicola; então está no

Trianon?

- Como vê, sou aia da senhora. - E eu ajudante do jardineiro. E com isto fez Nicola uma bela mesura a

Gilberto, que a cortejou como um homem da corte; e separaram-se.

Gilberto ia para o seu quarto; fingiu que

continuava no seu caminho.

Nicola saía, prosseguiu no seu caminho;

com a diferença que Gilberto tornou a descer com pés de lã e seguiu Nicola, contando quase com certeza que ela ia ao encontro de Beausire.

Efectivamente, por entre o arvoredo da

alameda, viu um homem que esperava; Nicola aproximou-se dele; estava já muito escuro para que Gilberto pudesse conhecer se era o Sr. Beausire, e a ausência do penacho, por tal modo o intrigou que deixou Nicola voltar a casa e seguiu o homem da entrevista até às grades do Trianon.

Não era o Sr. Beausire, mas sim um

homem de certa idade, ou melhor diremos, de idade certa, ademanes de fidalgo e andar desembaraçado, apesar da velhice; ao aproximar-se, Gilberto que passou muito perto desse personagem com uma audácia impudente, conheceu o Sr. Duque de Richelieu.

- Apre! - disse ele; - depois do Sr.

Beausire um duque e marechal de França; a Srª. Nicola vai subindo em postos!