José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 20 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XXIV

 

O ENSAIO

Uma vez começado o ensaio, como o

espectáculo excitava a atenção, foi Rousseau abandonado.

Foi então ele que passou a observar em

redor de si. Ouviu alguns fidalgos que cantavam desafinados e algumas senhoras que em trajo de corte namoravam como pastoras.

A senhora delfina não desafinava, mas

era má actriz; tinha tão pouca voz, que mal se ouvia. El-rei, para não intimidar ninguém, tinha-se refugiado num camarote, às escuras, onde conversava com as senhoras.

O senhor delfim servia de ponto na

ópera, que ia realmente mal.

Rousseau tomou o partido de não

escutar mais, mas foi-lhe difícil deixar de ouvir. Tinha contudo uma consolação, porque acabava de ver um rosto encantador entre as ilustres coristas, e a camponesa que o céu tinha dotado com tão belo rosto, cantava com a voz mais deliciosa de toda a companhia.

Rousseau concentrou-se portanto;

absorveu-se por cima da sua estante para contemplar a encantadora figurante, e abriu os ouvidos para escutar toda a melodia daquela voz.

A delfina, que viu assim o autor atento,

persuadiu-se facilmente, graças ao seu sorriso, aos seus olhos moribundos, que achava satisfatória a execução das melhores peças, e para receber um cumprimento, porque era mulher, inclinou-se para a estante dizendo:

- Isto vai mal assim, Sr. Rousseau? Rousseau, de boca aberta e distraído,

não deu resposta.

- Vamos lá, andámos mal - disse a

delfina - e o Sr. Rousseau não se atreve a dizê-lo. Não faça cerimónia, Sr. Rousseau.

Os olhos de Rousseau não se tiravam da

encantadora corista, que não se apercebia da atenção que lhe prestavam.

- Ah! - disse a delfina seguindo a

direcção do olhar do nosso filósofo - foi a senhora de Taverney que não andou bem?

Andreia corou ao ver todos os olhares

dirigirem-se para ela.

- Não! não! - bradou Rousseau - não é

essa senhora, porque canta como um anjo.

A senhora du Barry despediu sobre o

filósofo um olhar mais penetrante que um dardo.

O barão de Taverney, pelo contrário,

sentiu o coração fundir-se-lhe de prazer, e olhou para Rousseau com o seu sorriso mais encantador.

- Acha que aquela menina canta bem? -

perguntou a senhora du Barry a el-rei, a quem as palavras de Rousseau haviam visivelmente impressionado.

- Não entendo... - disse Luís XV - num

coro, são muitas vozes juntas... é preciso ser professor para perceber isso.

Entretanto Rousseau agitava-se na

orquestra para conseguir fazer cantar o coro:

Volta Colin à sua pastora, Celebremos o regresso.

Ao voltar-se depois de uma tentativa,

viu o senhor de Jussieu que o cortejava com amenidade.

Não foi para o genebrês um medíocre

prazer ser visto regendo a corte, por um homem da corte, que o tinha ferido um pouco com a sua superioridade.

Correspondeu cerimoniosamente à

cortesia e continuou a olhar para Andreia, que o elogio tornara ainda mais formosa.

O ensaio continuou, e a senhora du

Barry tornou-se de um humor atroz: duas vezes surpreendera Luís XV distraído pelo espectáculo, apesar das lindas coisas que lhe dizia.

O espectáculo para a ciumenta era

necessariamente Andreia, o que não impediu a senhora delfina de receber muitos cumprimentos e de se mostrar de uma alegria encantadora.

O Sr. Duque de Richelieu voava como

uma borboleta em torno dela com a ligeireza de um mancebo, e tinha conseguido formar no fundo do teatro um círculo de pessoas, cujo centro era a delfina, o que muito desesperava o partido du Barry.

- Parece - disse ele em voz alta - que a

menina de Taverney tem bonita voz.

- Encantadora - disse a delfina; - e se não

fosse o meu egoísmo, ter-lhe-ia dado o papel de Colette; mas, como é para me divertir que me incumbi desse papel, a ninguém o cedo.

- Ah! A menina de Taverney não o

cantaria melhor do que Vossa Alteza Real - disse Richelieu - e...

- Esta menina é uma excelente cantora -

disse Rousseau profundamente sentido.

- Excelente - disse a delfina - e, para o

confessar, é ela quem me ensina o meu papel; além disso dança maravilhosamente, e eu danço muito mal.

Pode-se julgar do efeito daquela palestra

sobre el-rei, sobre a du Barry, e sobre todos os noveleiros, intrigantes e invejosos; cada qual colhia um prazer fazendo uma ferida, ou recebia o golpe com a vergonha e dor. Não havia indiferentes, salvo talvez a própria Andreia.

A delfina, instada pelo duque de

Richelieu, resolveu pedir a Andreia que cantasse a romanza:

Perdi o meu servidor,

Colin abandona-me.

Viu-se el-rei marcar o compasso com a

cabeça, com movimentos de satisfação tão apressados, que o carmim da senhora du Barry caía-lhe em pequenas escamas, como sucede à pintura sob a acção da umidade.

Richelieu, pior que uma mulher,

saboreou a sua vingança. Tinha-se aproximado do barão de Taverney, e os dois velhos formavam um grupo, que se poderia chamar a Hipocrisia e a Corrupção meditando um projecto de união.

A sua alegria tornou-se tanto mais viva

quanto mais se carregava a fronte da senhora du Barry, que deu fim ao seu mau humor levantando-se encolerizada, o que era contra todas as regras, porque el-rei estava sentado.

Os cortesãos perceberam a tempestade

como as formigas, e apressaram-se em buscar abrigo ao pé dos mais fortes. Portanto viu-se a senhora delfina mais cercada pelos seus partidários, e a senhora du Barry afagada pelos seus.

A pouco e pouco ia-se desviando o

interesse do ensaio da sua linha natural e inclinava-se para outro curso de idéias. Não se tratava já de Colin nem de Colette, e muitos dos espectadores pensavam que não tardaria a vez da senhora du Barry cantar:

Perdi o meu servidor,

Colin abandona-me.

- Vês - disse Richelieu em voz baixa a

Taverney; - vês o espantoso efeito que produz a tua filha?

E levou-o para o corredor, abrindo uma

porta de vidraça, de onde fez cair um curioso que estava trepando para melhor ver a sala.

- Os diabos levem o velhaco! -

murmurou o senhor de Richelieu sacudindo a manga, que a pancada contra a porta amarrotara, e principalmente vendo que o curioso estava vestido como os trabalhadores do palácio.

Era com efeito um deles, que, com um

cesto de flores debaixo do braço, conseguira içar-se até à bandeira da porta e mergulhar a vista na sala, de onde vira todo o espectáculo.

Levou um encontrão que o ia fazendo

cair no corredor; mas, se não caiu, o cesto das flores entornou-se.

- Ah! mas eu conheço este velhaco -

disse Taverney com um olhar irritado.

- Quem é? - perguntou o duque. - O que fazes aqui, maroto? - disse

Taverney.

Gilberto, porque, como o leitor já

decerto adivinhou, era ele, redargüiu soberbamente:

- Bem vê, estou olhando.

- Em vez de fazeres o teu trabalho - disse

Richelieu.

- O meu trabalho está concluído - disse

Gilberto humildemente ao duque, sem se dignar olhar para Taverney.

- Está decidido que hei-de encontrar este

mandrião por toda a parte - disse Taverney.

- Alto lá, alto lá, senhor - interrompeu

docemente uma voz. - O meu Gilbertozinho é um assíduo trabalhador e um botânico experiente.

Taverney voltou-se e viu o senhor de

Jussieu, que fazia festas no rosto de Gilberto.

Corou de raiva e afastou-se. - Os lacaios aqui! - murmurou ele. - Caluda! - lhe disse Richelieu - não está

também aqui a Nicola?... Olha... no canto daquela porta, acolá em cima. Ah! Marota! Também não perdes pitada!

Com efeito, Nicola, por detrás de outros

vinte criados do Trianon, erguia acima de todos a encantadora cabeça, e os olhos, dilatados pela surpresa e admiração, pareciam ver tudo duplamente.

Gilberto viu-a e voltou-se para outro

lado.

- Vem daí, vem - disse o duque a

Taverney – desconfio que el-rei te quer falar... Parece procurar-te.

E os dois amigos afastaram-se na

direcção do camarote real.

A senhora du Barry, de pé, conversava

com o senhor de Aiguillon, que também estava de pé. Este não perdia de vista movimento algum do tio.

Rousseau, que ficara só, admirava

Andreia; empregava-se, se nos é permitida a expressão, em apaixonar-se por ela.

Os ilustres actores iam despir-se nos

camarins, onde Gilberto renovara as flores.

Taverney, que ficara só no corredor

desde que o senhor de Richelieu se apartou dele para se dirigir a el-rei, sentia o coração transido e ardente ao mesmo tempo. Afinal o duque voltou e pôs um dedo na boca para recomendar silêncio.

Taverney empalideceu de alegria e foi

ao encontro do seu amigo, que o conduziu ao camarote real.

Ali ouviram o que pouca gente podia

ouvir.

A senhora du Barry dizia ao rei: - Deverei esperar por Vossa Majestade

para cear esta noite?

E el-rei respondia:

- Sinto-me hoje cansado, condessa,

dispense-me.

Neste instante chegava o delfim quase

junto da condessa, e sem parecer vê-la, dirigindo-se a el-rei, disse:

- Vossa Majestade quererá fazer-nos a

honra de cear connosco no Trianon?

- Não, meu filho; o mesmo dizia eu neste

momento à condessa; estou cansado; a sua alegria atordoava-me... Cearei só.

O delfim inclinou-se e saiu. A senhora

du Barry cortejou e retirou-se, trémula de raiva.

El-rei fez então um sinal a Richelieu. - Duque - disse ele - tenho que falar-lhe

de um negócio que lhe diz respeito.

- Senhor...

- Não fiquei contente... Quero que me

explique... Olhe... Eu ceio sozinho, venha acompanhar-me.

E el-rei olhava para Taverney. - Creio que conhece este senhor, duque?

- O senhor de Taverney? Sim, meu

senhor.

- Ah! O pai da linda cantora. - Sim, meu senhor.

- Escute, duque.

El-rei baixou-se para falar ao ouvido de

Richelieu.

Taverney contrafez-se, para não dar

sinal de comoção.

Um momento depois, Richelieu passou

diante de Taverney e disse-lhe:

- Acompanha-me sem afectação. - Onde - disse Taverney do mesmo

modo.

- Vem andando.

O duque saiu dali, e Taverney seguiu-o

na distância de vinte passos até aos quartos de el-rei.

O duque entrou; Taverney ficou só na

antecâmara.

XXV

 

O ADEREÇO

O senhor de Taverney não esperou

muito tempo. Richelieu pedira ao criado de quarto de Sua Majestade o que el-rei deixara sobre o seu toucador, e saiu imediatamente com um objecto, que o barão não pôde logo distinguir por causa da capa de seda que o cobria.

Mas o marechal tirou o seu amigo de

cuidados, chamando-o do lado da galeria.

- Barão - disse ele apenas viu que

estavam sós - algumas vezes tens parecido duvidar da minha amizade.

- Eu não, depois da nossa reconciliação –

redargüiu o barão.

- Então tens duvidado da tua fortuna e

da dos teus filhos?

- Oh! Isso lá, sim.

- Pois, meu amigo, não tens razão. A tua

fortuna e a dos teus filhos progride com uma rapidez capaz de te fazer perder o juízo.

- Ora! - disse Taverney, que percebia

uma parte da verdade, mas que se não entregaria a Deus, e por conseqüência livrara-se bem do diabo; - de que modo se faz tão depressa a fortuna dos meus filhos?

- Parece-me que já está capitão o Sr.

Filipe, e com uma companhia paga por el-rei.

- Oh! Isso é verdade... E a ti devo essa

honra.

- De modo nenhum. Depois vamos ter a

menina de Taverney, talvez marquesa...

- Ora adeus! - bradou Taverney. - Pois a

minha filha...

- Ouve, Taverney, el-rei tem muito

gosto; a formosura, a graça e a virtude, quando as acompanha o talento, encantam Sua Majestade... Ora, a menina de Taverney reúne todas essas vantagens num ponto eminente... El-rei está portanto encantado com a menina de Taverney.

- Duque - redargüiu Taverney tomando

um ar de dignidade mais do que grotesco para o marechal; - duque, como explicas tu essa palavra: encantado?

Richelieu que não gostava de

pretensões, redargüiu secamente ao seu amigo:

- Barão, eu não sou forte em gramática, e

mesmo sei mui pouca ortografia. Encantado, para mim, significou sempre estar extremamente contente, nada mais... Ora se tu estás extremamente pesaroso por veres o teu rei contente com a formosura, talento e mérito dos teus filhos, não temos mais que falar... Eu vou ter com Sua Majestade.

E Richelieu girou nos calcanhares com

um desembaraço perfeitamente juvenil.

- Duque, não me entendeste bem -

bradou o barão fazendo-o parar. - Com os diabos, és bem apressado!

- Por que me dizes tu que não estás

contente?

- Ora! Eu não disse semelhante coisa.

- Pedes-me comentários a respeito dos

favores de el-rei... Que tal está o pateta!

- Temos outra; eu não disse semelhante

coisa. O certo é que estou contente.

- Ah! Tu... Pois bem! Quem será então o

descontente? Tua filha?

- Ah!

- Meu caro, criaste a tua filha como um

grande selvagem que és.

- Meu amigo, minha filha criou-se

sozinha; bem entendes que não me ia eu agora cansar nisso... Já não era pequeno mal ter que viver naquele buraco de Taverney... A virtude nasceu nela naturalmente.

- E dizem ,que a gente do campo sabe

separar o joio do trigo. Enfim, a tua filha é uma presumida.

- Engana-se, é uma pomba. Richelieu fez uma visagem. - Pois bem! O que essa pobre criança

deve fazer é ver se acha um bom marido, porque com aquele defeito as ocasiões de fazer fortuna hão-de ser muito raras para ela.

Taverney olhou desassossegadamente

para o duque.

- Felizmente para ela - prosseguiu o

duque - el-rei está tão loucamente namorado da du Barry, que nunca dará seriamente atenção a outras.

O desassossego de Taverney tornou-se

em angústia.

- Assim - prosseguiu Richelieu - tu e tua

filha podem estar descansados. Vou fazer a Sua Majestade as objecções necessárias, e el-rei desistirá logo.

- Mas desistirá de quê, Santo Deus? -

bradou Taverney pálido, sacudindo os braços do amigo.

- De fazer um presente à menina

Andreia, meu caro barão.

- Um presente!... O que é? - disse

Taverney cheio de cobiça e esperança.

- Oh! Uma bagatela - disse Richelieu

com negligência; - é isto... olha!

E tirou de baixo da capa de seda uma

caixa que abriu.

- Um adereço!

- É uma miséria... Um colar de algumas

mil libras que Sua Majestade, lisonjeado por lhe ter ouvido cantar a sua canção favorita, queria fazer aceitar à cantora; é natural. Mas, já que a tua filha é feroz, não pensemos mais em tal coisa.

- Duque! Não sabes o que dizes, isso

seria uma ofensa a el-rei!

- Decerto seria ofender el-rei; mas não é

próprio da virtude ofender sempre alguém ou alguma coisa?

- Finalmente, duque, lembra-te - disse

Taverney – que minha filha não é tão desarrazoada.

- Isso dizes tu, não o diz tua filha. - Oh! Mas sei muito bem o que ela há-de

dizer ou fazer.

- Os chins são tão felizes! - disse

Richelieu.

- Por quê? -disse Taverney admirado. - Porque têm muitos canais e rios no

país.

- Não mudes de conversa, duque; não

me faças desesperar, e continua a falar-me.

- Estou falando contigo, barão, e não

mudo de conversa.

- Por que me falas então dos chins? Que

relação têm os rios com a minha filha?

- Uma muito grande... Os chins, dizia eu,

têm a fortuna de poder afogar, sem que lhes digam coisa alguma, as raparigas demasiadamente virtuosas.

- Ora vamos, duque - disse Taverney - é

preciso ser justo. Supõe que tens uma filha.

- Por minha vida, tenho uma... E se me

vierem dizer que tem demasiada virtude, essa... Será uma grande maldade!

- Enfim, preferirias que não fosse assim,

não é verdade?

- Oh! Eu não me meto com os meus

filhos desde que completam os oito anos.

- Pelo menos, ouve-me, duque. Ora diz:

se el-rei me encarregasse de ir oferecer um adereço a tua filha, e ela fosse fazer-te queixa?

- Oh! Meu amigo, nada de comparações.

Eu tenho vivido sempre na corte e tu tens vivido como um selvagem; não há paridade entre nós. O que para ti é virtude, para mim é loucura; Olha, digo-to para teu governo, não há nada mais ridículo que vir dizer à gente: “O que faria você em tal ou tal caso?” E daí, enganas-te nas tuas comparações, meu caro. Não se trata de ir eu oferecer um adereço à tua filha.

- Disseste-mo...

- Eu não disse tal coisa. Só te participei

ter-me el-rei ordenado que fosse buscar ao seu quarto um adereço para a menina de Taverney, cuja voz lhe tinha agradado; mas não disse que el-rei me tivesse encarregado de lho ir oferecer.

- Então, realmente - disse o barão

desesperado – não sei o que significa isso. Não percebo palavra, falas por enigmas. Por que te deu el-rei esse adereço, se não é para o dares? Por que te encarregou disso, se não é para o entregares?

Richelieu soltou um grito como se

acabasse de ver uma aranha.

- Ah! - disse ele - Puh! Fora! Que

selvagem!... Oh! Que feio animal!

- Quem?

- Tu, meu bom amigo, tu, meu virtuoso...

Cais da Lua, meu pobre barão.

- Não percebo nada.

- Não, não percebes coisa nenhuma.

Meu caro, quando um rei faz um presente a uma mulher, e encarrega disso o duque de Richelieu, o presente é nobre e o recado bem desempenhado, lembro-te isso... Eu não entrego os adereços, meu caro, isso era da competência do Sr. Lebel. Conheceste o Sr. Lebel?

- Quem encarregas então disso? - Meu amigo - disse Richelieu batendo

no ombro de Taverney e acompanhando o gesto amigável com um riso diabólico - quando tenho que tratar com uma virtude tão admirável como a da menina Andreia, sou de uma moralidade exemplar; quando me chego a uma pomba, como dizes, nada em mim cheira a corvo; quando sou deputado a uma rapariga, falo com o pai... Falo-te, Taverney, e entrego-te o adereço para que o dês a tua filha... Agora, queres?

Richelieu estendeu a mão com a caixa. - Ou não queres?

E retirou a mão.

- Ora, mas por que não te explicaste

logo? – exclamou o barão; - dizes que sou o encarregado por Sua Majestade de entregar este presente: é legítimo e torna-se totalmente paternal, acrisola-se...

- Para isso era preciso que suspeitasses

más tenções a el-rei - disse Richelieu com seriedade. - Ora, não o ousarias, não é verdade?

- Deus me livre! Mas o mundo... Quero

dizer, a minha filha...

Richelieu encolheu os ombros. - Aceitas ou não? - disse ele. Taverney estendeu rapidamente a mão.

- Assim és moral? - disse ele ao duque

com um sorriso gémeo daquele que Richelieu acabava de lhe dirigir.

- Não achas, barão - disse o marechal -

que seja de uma moralidade pura fazer intrometer o pai, o qual purifica tudo, como acabas de dizer, entre o encantamento do monarca e o encanto da tua filha?... Seja nosso juiz o Sr. João Jacques Rousseau, de Genebra, que por aqui andava há pouco; aposto que há-de dizer que o falecido José de que nos fala a história sagrada, comparado comigo era impuríssimo

Richelieu pronunciou estas palavras

com tal fleuma e nobreza, que impuseram silêncio às observações de Taverney, e o ajudaram a crer que devia estar convencido.

Tomou portanto a mão do seu ilustre

amigo, e apertando-a disse-lhe:

- Graças à tua delicadeza, minha filha

poderá aceitar este presente.

- Fonte e origem dessa fortuna de que eu

te falava no começo da nossa enfadonha discussão sobre a virtude.

- Obrigado, caro duque, agradeço-to

com toda a minha alma.

- É verdade, ,toma grande cuidado em

que os afeiçoados da senhora du Barry não saibam disso; a condessa seria capaz de deixar o rei e fugir.

- E el-rei levar-nos-ia isso a mal? - Não sei; mas a condessa não no-lo

havia de levar a bem. Quanto a mim, ficava perdido... Sê discreto.

- Não receies coisa alguma. É verdade, e

apresenta os meus humildes agradecimentos a el-rei.

- E os da tua filha; não faltarei a isso...

Mas ainda não é tudo... Tu mesmo agradecerás a el-rei, meu caro; Sua Majestade convida-te para cear hoje.

- A mim?

- Sim, a ti, Taverney; estaremos em

família. Sua Majestade, tu e eu falaremos da virtude de tua filha. Adeus, Taverney, vejo du Barry com o duque de Aiguillon; não devem surpreender-nos juntos.

E ligeiro como um pajem desapareceu

no fim da galeria, deixando Taverney, com o adereço, semelhante a uma criança saxónia que acorda com os presentes que o Natal lhe pôs nas mãos enquanto dormia.