José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XXXIII
DUPLA VISTA.
Ao ficar só, Andreia fora gradualmente
saindo do entorpecimento moral que dela se tinha apoderado; e enquanto Nicola fugia na garupa do cavalo de Beausire, ajoelhava ela pedindo a Deus por Filipe, o único ser no mundo a quem amava com afeição verdadeira e profunda.
Orava, absorta na sua confiança em
Deus.
As orações de Andreia não se limitavam
a uma seqüência de palavras ligadas umas às outras; eram uma espécie de êxtase divino, em que a sua alma se elevava até ao Senhor e se confundia nele.
Naquelas súplicas apaixonadas do
espírito separado da matéria não havia sombra de egoísmo. Andreia como que se abandonava a si mesma, semelhante ao náufrago que perdida toda a esperança já não pede a Deus por si, mas pela mulher e pelos filhos, que vão ficar ao desamparo.
Aquela dor íntima assaltara Andreia
depois da partida do irmão; como a oração, compunha-se de dois elementos distintos, um dos quais não era para ela muito inteligível.
Era como que um pressentimento, como
que a aproximação perceptível de uma desgraça iminente. Era uma sensação análoga à dor que por vezes se sente em uma ferida cicatrizada. A força da dor está extinta, mas a impressão sobrevive muito tempo e dá sinal da presença do mal como outrora o fazia a própria ferida.
Andreia não tentou sequer examinar o
que sentia; entregue inteiramente a pensar em Filipe, era só no irmão estremecido que empregava todas as impressões que a agitavam.
Levantou-se, escolheu um livro entre os
que guarneciam a sua modesta biblioteca, pôs a luz onde lhe pudesse chegar com a mão e meteu-se na cama.
O livro em que pegara ao acaso era um
dicionário de botânica. Um tal livro, como é fácil de compreender, não era feito para absorver-lhe a atenção, pelo contrário ia-a adormecendo. Pouco tardou que se lhe espalhasse por sobre a vista uma nuvem, de princípio transparente, mas que gradualmente se foi condensando. Andreia lutou ainda um instante contra o sono, duas ou três vezes prendeu o pensamento fugitivo, que de novo se lhe escapou; depois, inclinando a cabeça para apagar a luz, viu o copo de água preparado por Nicola, estendeu o braço, pegou nele com uma das mãos, com a outra mexeu com a colher o açúcar meio dissolvido, e já sob a impressão do sono, chegou o copo à boca.
De repente, quando já tocava com os
lábios a bebida, uma comoção estranha lhe fez tremer a mão, um peso úmido e ardente ao mesmo tempo lhe caiu no cérebro. Reconheceu com terror, pelos impulsos dos fluidos que lhe percorriam os nervos, aquela invasão sobrenatural de sensações desconhecidas, que, já por mais vezes, lhe triunfara das forças aniquilando-lhe a razão.
Apenas teve tempo para colocar o copo
no prato, e quase no mesmo instante, sem outra queixa mais que um suspiro que se lhe escapou do peito, perdeu a fala, a vista, a inteligência, e caiu na cama como fulminada, entregue a um mortal entorpecimento.
Mas aquela espécie de aniquilação foi só
a passagem momentânea de uma existência para outra.
De morta como estava, com os olhos que
pareciam fechados para sempre, ergueu-se repentinamente, tornou a abri-los com aterradora fixidade, e semelhante a uma estátua de mármore que baixasse do túmulo, desceu do leito.
Não havia que duvidar, Andreia dormia
o sono maravilhoso que já várias vezes lhe suspendera a vida.
Atravessou o quarto, abriu a porta de
vidraças e passou ao corredor com a atitude rígida e firme de um mármore animado
Diante dela abria-se a escada, desceu-a
degrau por degrau, sem precipitação, e foi aparecer nos degraus da escada exterior.
Quando Andreia punha o pé no degrau
mais alto para descer, punha Gilberto o pé no mais baixo para subir.
Gilberto viu portanto aquela mulher
branca e solene avançar como se viesse ao seu encontro.
Recuou diante dela, e recuando sempre,
foi entranhar-se no centro de um maciço de flores.
Fora assim, lembrava-se muito bem, que
já em Taverney vira Andreia.
Esta passou diante de Gilberto,
chegando a roçar a roupa por ele, mas não o viu.
O mancebo, assustado, aterrado, baixou-
se todo trémulo: tinha medo.
Não sabendo a que atribuir a estranha
saída de Andreia, seguiu-a com os olhos; mas a sua razão estava confusa, o sangue fervia-lhe com impetuosidade, batendo-lhe nas fontes, e Gilberto estava mais perto da loucura que do frio bom senso que é preciso ao observador.
Ficou portanto agachado no meio da
folhagem, e espreitando, como costumava fazer desde que em seu peito entrara aquele fatal amor.
De repente foi-lhe explicado o mistério
daquela saída: Andreia nem estava louca, nem perdida, como ele pensava. Andreia, com aquele passo frio e sepulcral, concorria a uma entrevista.
Acabava de fuzilar um relâmpago. Gilberto, àquela luz azulada, viu um
homem escondido debaixo da sombria avenida de tílias, e por mais rápido que fosse o clarão, viu destacar-se no fundo negro o rosto pálido e o fato em desalinho do desconhecido.
Andreia caminhava para aquele homem,
que estava com um braço estendido como para a atrair a si.
Alguma coisa semelhante à queimadura
de um ferro em brasa mordeu o coração de Gilberto e fê-lo erguer-se sobre os joelhos para melhor ver.
Naquele momento, cortou as trevas
outro relâmpago.
Gilberto reconheceu Bálsamo que, com o
auxílio de alguma inteligência misteriosa, penetrara no Trianon; Bálsamo enfim, que atraía Andreia a si tão invencivelmente, tão fatalmente como a serpente atrai a pobre avezinha.
Dois passos distante dele, Andreia
parou.
Ele pegou-lhe na mão: o corpo todo de
Andreia estremeceu.
- Vê? - perguntou.
- Vejo - respondeu Andreia; - mas
chamando-me assim, por pouco me não matou.
- Perdão, perdão - respondeu Bálsamo -
é que estou com a cabeça perdida, é que já me não pertenço, é que enlouqueço e morro.
- Efectivamente está aflito - disse
Andreia, a quem pelo contacto da mão facilmente se transmitira a aflição de Bálsamo.
- Estou aflito, estou, e venho procurar a
consolação junto de si. Só a senhora me pode salvar.
- Interrogue-me.
- Segunda vez pergunto: vê? - Oh! Perfeitamente.
- Quer seguir-me até minha casa, é-lhe
possível?
- Posso, se pelo pensamento me quiser lá
conduzir.
- Venha.
- Ah! - disse Andreia - entramos em
Paris, seguimos pelo bulevar, entramos numa rua que é alumiada por um único lampião.
- É isso: entremos, entremos.
- Estamos numa antecâmara. Há uma
escada do lado direito; mas leva-me de encontro à parede: a parede abre-se; vê-se uma escada...
- Suba, suba - bradou Bálsamo - é o
nosso caminho.
- Ah! Estamos numa sala: há peles de
leão, armas... Ah! A chapa do fogão abre-se.
- Entremos; onde está?
- Numa casa bem singular, que não tem
saída, cujas janelas têm grades; ah! Como tudo está em desordem nesta casa!
- Mas está vazia, vazia, não é verdade? - Está, sim.
- Pode ver a pessoa que a habitava? - Sim, se me derem um objecto que tenha
estado em contacto com ela, que lhe pertença ou tenha pertencido.
- Aqui tem alguns cabelos dela. Andreia pegou nos cabelos e chegou-os
a si.
- Oh! Eu conheço-a - disse ela - já vi
aquela mulher; fugia então para Paris.
- É isso, é isso; pode dizer-me o que fez
nestas últimas duas horas e de que modo fugiu?
- Espere... espere... sim... está deitada
num sofá, tem o peito meio nu, e uma ferida debaixo do seio.
- Olhe bem, Andreia, olhe, não a deixe. - Estava adormecida; acorda e procura
em torno de si; puxa por um lenço, sobe para uma cadeira, ata o lenço às grades da janela. Oh! Meu Deus!
- Então quer realmente morrer? - Quer, sim, está decidida. Mas aquela
morte assusta-a. Deixa o lenço atado às grades... Desce... Ai! Pobre mulher!
- O que é?
- Oh! Como ela chora, como padece,
como torce os braços! Procura uma esquina da parede para esmigalhar a cabeça.
- Oh! Meu Deus! Meu Deus! -
murmurou Bálsamo.
- Oh! Lá corre para a chaminé! A
chaminé representa dois leões de mármore; vai quebrar a cabeça contra a cabeça do leão!
- Depois... Depois... Olhe, Andreia, olhe
bem, que ordeno eu.
- Sustém-se.
Bálsamo respirou.
- Aplica a vista.
- E a que aplica ela a vista? - perguntou
Bálsamo.
- Viu uma nódoa de sangue no olho do
leão.
- Meu Deus! Meu Deus! - murmurou
Bálsamo.
- Sim, sangue, e contudo ela não chegou
a bater com a cabeça contra o fogão! Oh! Isto é muito singular, o sangue não é dela, é seu!
- Esse sangue é meu? -bradou Bálsamo. - É seu. Feriu-se no dedo com uma faca
ou com um punhal e carregou com o dedo ensangüentado no olho do leão. Estou-o vendo.
- É verdade, é verdade. Mas como fugiu
ela?
- Espere... espere... vejo-a examinar o
sangue, reflectir, depois carregar com o dedo no mesmo lugar em que o senhor tinha carregado com o seu. Ah! O olho do leão cede, solta-se uma mola. A chapa da chaminé abre-se.
- Imprudente! - bradou Bálsamo; -
miserável imprudente, miserável louco que eu sou. Traí-me a mim mesmo.
Andreia calou-se.
- E ela saiu... fugiu? - prosseguiu
Bálsamo.
- Oh! Deve perdoar-lhe; pobre mulher,
era bem desgraçada!
- Onde está? Onde vai ela? Siga-a,
Andreia, eu ordeno-o!
- Espere; ela pára um instante na sala
das armas e das peles; está aberto um armário; uma caixa geralmente fechada naquele armário está agora em cima de uma mesa. Ela conhece a caixa e pega nela.
- O que contém a caixa?
- Os seus papéis, creio eu. - Como é ela?
- É de veludo azul com pregos de prata e
fechos e fechadura também de prata.
- Oh! - disse Bálsamo batendo o pé com
raiva – foi então ela que me levou a caixa?
- Sim, sim, foi ela. Desce a escada que dá
para a antecâmara, abre a porta, puxa pela corrente que faz abrir a porta da rua; sai.
- É muito tarde?
- Deve ser tarde, porque é alta noite. - Ainda bem, terá partido pouco antes
de eu ter voltado, e talvez tenha ainda tempo de encontrá-la; siga-a, siga-a, Andreia.
- Saiu de casa, corre como uma louca,
chega ao bulevar... Corre... Corre sem parar...
- Para que lado?
- Para o lado da Bastilha. - Continua a vê-la?
- Continuo! Parece uma insensata; bate
de encontro à gente que transita pelas ruas. Afinal pára, procura conhecer onde está... Pergunta.
- Que diz ela? Escute, Andreia, escute, e
em nome do céu, não perca uma só palavra. Disse que ela perguntava?
- Sim, a um homem vestido de preto. - O que lhe pergunta ela? - A morada do chefe da polícia. - Oh! Não era então uma vã ameaça. E
ele diz-lha?
- Diz.
- E ela o que faz?
- Volta para trás, mete por outra rua,
atravessa uma grande praça.
- A Praça Real, é o caminho. Pode ler por
que intenção é guiada?
- Apressa o passo, corre, depressa,
depressa, vai denunciá-lo! Se chega primeiro que o senhor, se vê o senhor de Sartines, está perdido.
Bálsamo soltou um terrível grito, correu
para o pequeno bosque, saiu por uma porta que um vulto oculto na sombra abriu e fechou, e num salto montou Djérid, que se impacientava à porta.
O animal, aguilhoado ao mesmo tempo
pela voz e pelas esporas, partiu veloz como um raio na direcção de Paris, e por algum tempo não se ouviu mais que a bulha das ferraduras na calçada.
Quanto a Andreia, ficara fria, imóvel,
muda, pálida e de pé. Mas como se Bálsamo lhe tivesse levado a vida, foi gradualmente desfalecendo até que caiu.
Bálsamo, com a pressa de perseguir
Lorenza, esquecera-se de acordar Andreia.