José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 11 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XIV

 

A SESSÃO REAL

Verificou-se aquela famosa sessão real,

com todo o cerimonial que tinham exigido, por uma parte o orgulho real, pela outra as intrigas que levavam o senhor àquele golpe de Estado.

A casa do rei foi posta em armas; uma

profusão de archeiros de saios curtos, soldados e agentes da polícia foram destinados para proteger o senhor chanceler, que, semelhante a um general em dia de batalha, devia expor a sua pessoa para o bom êxito da empresa.

O senhor chanceler era muito odiado;

ele sabia-o, e se a sua vaidade lhe pudesse fazer recear um assassínio, as pessoas melhor instruídas dos sentimentos do público a seu respeito podiam sem exagerar profetizar-lhe ou uma boa afronta, ou pelo menos uma assuada.

Os mesmos favores podiam ser

assegurados ao senhor de Aiguillon, que repelia ocultamente o instinto popular, um pouco aperfeiçoado pelos debates dos parlamentos. El-rei afectava serenidade, e todavia não estava tranqüilo. Mas viram-no admirar o seu magnífico trajo real, e fazer imediatamente a reflexão que coisa nenhuma protege como a majestade.

Poderiam ter acrescentado: “E o amor

dos povos”. Mas era esta uma frase que lhe tinham repetido tanto em Metz, quando esteve doente, que não julgou poder dizê-la, sem ser argüido de plagiário.

De manhã, a senhora delfina para quem

era novo este espectáculo, e que, talvez no íntimo, desejava vê-lo, tomou o seu ar tímido, e conservou-o durante todo o caminho para a cerimónia, o que dispôs a opinião pública muito a seu favor.

A senhora du Barry era valente. Tinha a

confiança que dão a mocidade e a formosura. Demais, não se havia dito tudo a seu respeito? O que haveria que acrescentar? Apareceu radiosa, como se o augusto esplendor do seu amante reflectisse nela.

O senhor de Aiguillon caminhava

desembaraçadamente entre o número dos pares que precediam el-rei. O seu rosto cheio de nobreza não acusava vestígio algum de cuidados nem de descontentamento. Não mostrava ares de triunfador. Ao vê-lo assim, ninguém teria adivinhado a batalha renhida que o rei e os parlamentos tinham travado por seu respeito.

Entre a multidão apontavam para ele; os

membros do parlamento lançaram-lhe uns olhares terríveis... E nada mais.

A sala grande do palácio comportava

para mais de três mil pessoas.

Da parte de fora, a chusma, contida

pelas varas dos alcaides e as maças dos archeiros, apenas dava sinal da sua presença por esse intraduzível sussurro que não é uma voz, que não articula palavras, mas que se faz ouvir, entretanto, e que se poderia chamar com bastante propriedade o rumor dos fluidos populares.

Continuou o mesmo silêncio na sala

grande quando o ruído dos passos cessou, quando cada um tomou o seu lugar, e que el-rei, majestoso e triste, ordenou ao chanceler que tomasse a palavra.

Os membros do parlamento já de

antemão sabiam o que lhes estava reservado na sessão real. Compreendiam perfeitamente o motivo porque os tinham convocado. Deveria ser para lhes fazer ouvir vontades pouco suaves; mas conheciam a longanimidade, para não dizer a timidez de el-rei, e se tinham medo, era antes pelas conseqüências da sessão real, do que pela sessão em si mesma.

O chanceler tomou a palavra. Era bom

orador. O seu exórdio foi hábil, e os amadores de estilo demonstrativo acharam nele um campo vasto.

Todavia, o discurso degenerou numa

repreensão tão áspera, que o sorriso assomou aos lábios da nobreza e os membros do parlamento começaram a não se achar bem à vontade.

El-rei ordenava, pela boca do chanceler,

que se acabasse por uma vez com todos os negócios da Bretanha, de que estava já farto. Ordenava ao parlamento que se reconciliasse com o Sr. Duque de Aiguillon, cujo serviço lhe agradava; que não tornasse a interromper o serviço da justiça, e que deste modo tudo se passaria como no feliz tempo da idade de ouro, em que os ribeiros corriam murmurando discursos em cinco pontos, do género deliberativo ou judiciário, em que as árvores estavam carregadas de autos e de demandas a que podiam chegar os senhores advogados e procuradores, que tinham direito de os apanhar como frutas que lhes pertenciam.

Estas iguarias não concertaram o

parlamento com o senhor de Maupeou, nem com o senhor de Aiguillon. Mas o discurso estava feito, e não tinha resposta possível.

Os parlamentários, no cúmulo do

despeito, tomaram todos, com esse admirável espírito de corporação que tanta força dá aos corpos constituídos, uma atitude tranqüila e indiferente, que desagradou soberanamente a Sua Majestade e às pessoas aristocráticas das tribunas.

A senhora delfina empalideceu de raiva.

Era a primeira vez que se achava em frente da resistência popular. Calculava-lhe friamente o poder.

Tinha vindo à sessão real com tenção de

estar muito oposta, no aspecto pelo menos, à resolução que se ia tomar ou notificar, e a pouco e pouco sentiu-se arrastada para fazer causa comum com os da sua raça e casta; e tanto assim que, quanto mais o chanceler mordia na carne dos membros do parlamento, mais aquela jovem soberba se indignava de lhe ver dentes tão pouco agudos; parecia-lhe que teria achado palavras que fizessem saltar aquela assembléia como uma manada de bois com o aguilhão. Enfim, achou o chanceler muito fraco e os membros do parlamento bastante fortes.

Luís XV era fisionomista como o seriam

todos os egoístas se, algumas vezes, não fossem preguiçosos ao mesmo tempo que egoístas. Relanceou os olhos em torno de si para observar o efeito da sua vontade traduzida por palavras que achava bastante eloqüentes.

A palidez e os lábios cerrados da delfina

revelaram-lhe logo o que naquela alma se passava.

Como contrapeso, observou a fisionomia

da senhora du Barry, e em lugar do sorriso de triunfo que contava achar, só viu uma grande vontade que ela tinha de atrair sobre si os olhares de el-rei, como para julgar o que ele pensava.

Nada intimida os espíritos fracos como

ser prevenidos pelo espírito e vontade de outrem. Se se vêm observados por uma resolução já tomada, concluem que não fizeram bastante, que vão ser ou que foram ridículos, que tinham direito de exigir mais do que fizeram.

Então passam para os extremos, o

tímido torna-se furioso, e uma súbita manifestação denuncia o efeito dessa reacção produzida pelo medo sobre um medo menos forte.

El-rei não precisava acrescentar uma

única palavra às do chanceler; não era isso da etiqueta, nem mesmo era necessário; mas, naquela ocasião, tentou-o o demónio tagarela, e, fazendo um sinal com a mão, deu a entender que ia falar.

A atenção tornou-se então mais

profunda.

Os membros do parlamento voltaram-se

para o lado do trono com tanta uniformidade como se fosse uma fileira de soldados muito bem instruídos.

Os príncipes, os pares e militares

sentiram-se comovidos. Não era possível que, depois de tanta coisa boa que se tinha dito, Sua Majestade Cristianíssima deixasse de dizer alguma grande sensaboria. O respeito vedava-lhes designarem por outra forma o que pudesse sair da boca de el-rei.

Foi visto o senhor de Richelieu, que

tinha afectado estar separado de seu sobrinho, aproximar-se naquele momento dos membros de mais forte oposição, aproximar-se deles principalmente pelo golpe de vista e afinidade misteriosa da inteligência.

Mas o seu olhar, que começava a tornar-

se rebelde, encontrou o olhar claro da senhora du Barry. Richelieu possuía melhor do que ninguém a preciosa arte das transições; passou do tom irónico para o tom admirativo, e escolheu a formosa condessa como ponto de intersecção entre as diagonais desses dois extremos.

Foi portanto um sorriso de felicitações e

galanteio que dirigiu de passagem à senhora du Barry; mas esta não se deixou lograr, tanto mais que o velho marechal, que começara a encetar a sua correspondência com os parlamentários e os príncipes da oposição, viu-se obrigado a continuá-la para não parecer o que na realidade era.

Quantas perspectivas não oferece uma

gota de água, um oceano para o observador! Quantos séculos se não passam num segundo, uma eternidade indescritível! Tudo quanto aqui dizemos passou-se no lapso de tempo que Sua Majestade Luís XV empregou em se preparar para falar e abrir a boca.

- Ouvistes - disse ele com uma voz firme

- qual é a minha vontade, como o senhor chanceler acaba de vo-lo dizer. Tratai portanto de a executar, porque tais são as minhas intenções e não as mudarei!

Luís XV deixou cair estas últimas

palavras com o estrépito e vigor do trovão.

Assim ficou toda a assembléia

literalmente fulminada.

Um estremecimento passou sobre todos

os parlamentários, estremecimento de terror que imediatamente se comunicou à multidão como uma faísca eléctrica. Esse mesmo frémito chegou também aos partidistas de el-rei. A surpresa e admiração pintavam-se em todos os rostos, em todos os corações.

A delfina agradeceu involuntariamente

a el-rei com um raio de fogo despedido dos seus lindos olhos.

A senhora du Barry, electrizada, não

pôde impedir de se levantar, e teria batido as palmas se não fosse o seu bem natural receio de ser apedrejada quando saísse, ou de receber no dia seguinte cem quadras qual delas mais insultante.

Naquele momento começou Luís a

gozar do seu triunfo.

Os membros do parlamento inclinaram

as frontes sempre com a mesma uniformidade.

El-rei ergueu-se um pouco sobre as suas

almofadas com flores-de-lis.

Imediatamente se levantaram o capitão

das guardas, o comandante da casa militar e todos os fidalgos.

O tambor rufou, soaram as trombetas.

Esse estremecimento, quase silencioso à chegada do povo, tornou-se num sussurro que foi apagar-se ao longe, abafado pelos soldados e archeiros.

El-rei atravessou soberbamente a sala,

sem ver outra coisa mais na sua passagem do que frontes humilhadas.

O senhor de Aiguillon continuou a

preceder Sua Majestade, sem abusar do seu triunfo.

O chanceler, chegado à porta da sala,

viu ao longe todo aquele povo, assustou-se com todos esses raios, que apesar da distância lhe feriam os olhos, e disse aos archeiros:

- Cerquem-me.

O senhor de Richelieu, a quem o duque

de Aiguillon cumprimentava, disse para o sobrinho:

- Eis aí umas frontes bem baixas, duque;

mais tarde ou mais cedo não podem deixar de se elevar a grande altura. Cautela!

A senhora du Barry passava naquele

momento pelo corredor com seu irmão, a marechala de Mirepoix e várias outras senhoras. Ouviu a conversa de Richelieu, e como era mais de dar resposta do que de reserva, disse:

- Oh! Não há que temer, marechal; não

ouviu as palavras de Sua Majestade? El-rei disse, se me não engano, que nunca mudaria.

- Terríveis palavras, com efeito, minha

senhora – respondeu o velho duque com um sorriso; - mas aqueles pobres senhores do parlamento não viram, felizmente para nós, que dizendo que nunca mudaria, el-rei olhava para a senhora.

E acabou este madrigal com uma dessas

inimitáveis mesuras que hoje ninguém já sabe fazer, nem mesmo no teatro.

A senhora du Barry era mulher, e por

forma nenhuma política. Viu só um cumprimento onde o senhor de Aiguillon sentiu perfeitamente o epigrama e a ameaça.

Também foi com um sorriso que ela

respondeu enquanto o seu aliado mordeu os lábios e empalideceu por ver durar esse ressentimento do marechal.

O efeito da sessão real foi

imediatamente favorável à causa real. Mas muitas vezes um grande golpe não faz mais do que atordoar, e nota-se que depois do atordoamento o sangue gira com mais pureza e vigor.

Tal foi pelo menos a reflexão que fez,

vendo partir el-rei com a sua pomposa comitiva, um pequeno grupo de pessoas simplesmente vestidas e colocadas em posição de observadores no canto do Cais das Flores e da Rua Barillerie.

Eram três homens... O acaso havia-os

juntado naquele ângulo, e dali, pareciam ter seguido com interesse as impressões da multidão; e sem se conhecerem, uma vez entabuladas as relações por alguma palavra, tinham avaliado a sessão, antes mesmo que estivesse terminada.

- Bem maduras estão as paixões - disse

um deles, ancião de olhos vivos, de rosto suave e honesto. – Uma sessão real é obra de desengano.

- Sim - respondeu um mancebo sorrindo

amargamente - sim, se a obra realizasse exactamente as palavras.

- Senhor - redargüiu o ancião voltando-

se - parece-me que o conheço... Creio que já o vi?

- Viu-me na noite de 31 de Maio. Não se

engana, Sr. Rousseau.

- Ah! É aquele jovem cirurgião, meu

patrício, o Sr. Marat?...

- Sim, senhor, para o servir.

Os dois homens cortejaram-se

reciprocamente.

O terceiro não tinha ainda tomado a

palavra. Era um homem também moço, de fisionomia nobre, que, durante a cerimónia toda, não fizera mais que observar a atitude da multidão.

O cirurgião foi o primeiro em se retirar,

metendo-se pelo meio do povo, que menos lembrado do que Rousseau, já o tinha olvidado, mas à memória de quem tinha esperança de se recomendar algum dia.

O outro mancebo esperou que ele tivesse

partido, e dirigindo-se a Rousseau, perguntou-lhe:

- Não se retira ainda, senhor? - Oh! Sou muito velho para me arriscar a

atravessar aquela chusma.

- Nesse caso - disse o desconhecido em

voz baixa - até esta noite, na Rua Platrière, Sr. Rousseau... Não falte!

O filósofo estremeceu como se diante

dele se levantasse um fantasma. O seu rosto, geralmente pálido, tornou-se lívido. Quis responder àquele homem, mas já tinha desaparecido.