José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 14 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XVIII

 

O CORPO E A ALMA

O último que não saiu, conservando-se

ao pé do mestre, foi Marat, o cirurgião.

Aproximou-se humildemente e muito

pálido do terrível orador, cujo poder era ilimitado.

- Mestre - perguntou ele - acaso cometi

algum erro?

- Um grande erro, senhor - disse

Bálsamo; - e, o que há de pior, é supor não o ter cometido.

- Pois confesso, que não só creio não ter

cometido erro, senão que suponho ter falado como cumpria.

- Orgulho! Orgulho! - murmurou

Bálsamo; - orgulho, demónio destruidor! Os homens combatem a febre nas veias do enfermo, a peste nas águas e no ar; mas deixam por tal forma arraigar-se-lhes o orgulho nos corações, que lhes não é possível arrancá-lo.

- Oh! Mestre - disse Marat - forma bem

triste opinião de mim. Sou eu porventura tão pouca coisa que não me possa contar entre os meus semelhantes? Tão mal colhi eu o fruto dos meus trabalhos, que seja incapaz de dizer uma palavra sem ser tachado de ignorante? Sou eu um adepto tão desastrado que se suspeite da minha convicção? Quando mais não fosse, existo pela minha dedicação à santa causa do povo.

- Senhor - redargüiu Bálsamo - é que o

princípio do bem luta ainda no seu ânimo contra o princípio do mal, que me parece dever um dia vencê-lo; é por isso, que hei-de tentar emendar esses defeitos. Se tenho de o conseguir, se o orgulho não suplantou já todos os outros sentimentos, há-de ser no breve espaço de uma hora que o consiga.

- Dentro de uma hora? -disse Marat. - Sim. Quer conceder-me essa hora? - Certamente.

- Onde poderei encontrá-lo? - Mestre, é a mim que cabe procurá-lo no

lugar que se dignar designar-me.

- Pois então - disse Bálsamo - irei a sua

casa.

- Repare a que se obriga, mestre; moro

numa água-furtada na Rua dos Cordoeiros. Uma água-furtada, ouve? - disse Marat com afectação de orgulhosa simplicidade, com uma fanfarronada de miséria, que não escapou a Bálsamo - ao passo que o senhor...

- Ao passo que eu?...

- Ao passo que o senhor, mora, segundo

dizem, num palácio.

Bálsamo encolheu os ombros, como faria

um gigante, que da sua altura medisse as iras de um anão.

- Pois sim, senhor - respondeu - irei

procurá-lo à sua água-furtada.

- Quando, senhor?

- Amanhã.

- A que horas?

- De manhã.

- É que ao despontar do dia vou ao meu

anfiteatro, e dali ao hospital.

- É exactamente o que eu preciso. Havia

de pedir-lhe para me levar lá, se mo não tivesse proposto.

- Mas há-de ser cedo; eu durmo pouco -

disse Marat.

- E eu não durmo - respondeu Bálsamo. -

Então ao amanhecer.

- Lá o espero.

E separaram-se, porque tinham chegado

à porta da rua, tão sombria e solitária à hora da saída quanto povoada e tumultuosa no momento da entrada.

Bálsamo tomou para a esquerda e

desapareceu rapidamente.

Marat imitou-o, dirigindo-se para a

direita.

Bálsamo foi exacto: no dia seguinte, às

seis horas da manhã, batia à porta do patamar que, dentro de um extenso corredor com seis portas, formava o último pavimento de uma casa antiga da Rua dos Cordoeiros.

Conhecia-se que Marat preparara tudo

para receber mais dignamente o seu ilustre visitante. O modesto leito de nogueira e a cómoda brilhavam sob o forte esfregar de uma mulher, que sem descansar ,se afadigava com aquela mobília carunchosa.

Marat prestava activo auxílio à mulher e

refrescava num pequeno vaso de louça azul as flores pálidas e estioladas, principal ornamento da humilde trapeira.

Conservava ainda debaixo do braço um

pano, o que indicava que só tinha ido tratar das flores depois de ter ajudado à limpeza dos trastes.

Como a chave estava na porta e Bálsamo

entrou sem bater, surpreendeu Marat nessa ocupação.

Marat, à vista do mestre, corou muito

mais do que era permitido a um estóico verdadeiro.

- Vê, senhor - disse ele atirando

disfarçadamente para trás de uma cortina o pano revelador - sou amo e ajudo esta boa criatura. Mas escolho o trabalho, o que se não é de bom plebeu, também não é de fidalgo.

- Isso é próprio de um rapaz pobre e

asseado – disse Bálsamo friamente - nada mais. Está pronto, senhor? Sabe que não tenho tempo a perder.

- Vou vestir a minha casaca, senhor... Srª.

Grivette, dê-me a minha casaca... Esta mulher é minha porteira; serve-me de aia, de cozinheira, de mordomo, e dou-lhe três francos cada mês.

- Louvo muito a economia - disse

Bálsamo; - é a riqueza dos pobres e a prudência dos ricos.

- O meu chapéu e a bengala - pediu

Marat.

- Estenda o braço - disse Bálsamo; - está

aí o seu chapéu, e a bengala que está ao pé dele deve ser a sua.

- Oh! Perdão, senhor, estou tão confuso... - Está pronto?

- Estou, sim, senhor; o meu relógio, Srª.

Grivette.

A Srª. Grivette voltou-se de um lado

para o outro, mas não respondeu.

- Para ir ao anfiteatro e ao hospital,

senhor, não precisa de relógio; talvez levem muito tempo antes de o achar e demorar-nos-íamos demasiado.

- Entretanto, senhor, estimo muito o meu

relógio, que é excelente e eu comprei muito em conta.

- Durante a nossa ausência a Srª.

Grivette o procurará - respondeu Bálsamo sorrindo; - e se procurar bem, quando voltar já o terá achado.

- Oh! Certamente - disse a Srª. Grivette -

há-de achar-se, se porventura o senhor não o tiver deixado nalguma parte; aqui nada se perde.

- Ouviu? - disse Bálsamo. - Vamos,

senhor, vamos.

Marat não quis insistir e seguiu Bálsamo

resmungando.

Assim que saíram a porta, Bálsamo

perguntou:

- Onde vamos nós primeiro? - Ao anfiteatro, se o mestre não manda

outra coisa; vi um exemplar que deve ter morrido esta noite com uma meningite; tenho que lhe fazer algumas observações no cérebro, e não quero que os colegas mo tirem.

- Pois vamos ao anfiteatro. - E demais, é a dois passos de distância

daqui: o anfiteatro fica ao pé do hospital, é só entrar e sair; pode até esperar por mim à porta.

- Pelo contrário, desejo entrar com o

senhor; ouvir a sua opinião sobre o exemplar.

- Quando ele era corpo?

- Não, desde que é cadáver. - Oh! Cuidado - disse Marat sorrindo; -

talvez lhe ganhe um ponto, porque conheço essa parte da minha profissão, e dizem que sou hábil bastante em anatomia.

- Orgulho, orgulho e mais orgulho! -

murmurou Bálsamo.

- Que diz? - perguntou Marat.

- Digo que vamos ver isso, senhor -

redargüiu Bálsamo.

- Entremos.

Marat foi o primeiro que entrou no

estreito corredor, que conduzia ao anfiteatro situado no fim da Rua Hautefeuille.

Bálsamo seguiu-o sem hesitar até à sala

comprida e estreita onde, sobre uma mesa de mármore, se viam estendidos dois cadáveres, um de mulher, outro de homem.

A mulher morrera muito moça. O

homem era velho e calvo; um mau sudário lhes cobria o corpo, deixando-lhes os rostos meios descobertos.

Estavam ambos deitados costas com

costas sobre aquele leito gelado, eles que talvez nunca em vida se tivessem visto neste mundo, e cujas almas, peregrinando então na eternidade, bem admiradas deviam estar de ver semelhante intimidade entre os seus restos mortais.

Marat levantou e pôs de parte num só

movimento a coberta ordinária e grosseira que cobria os dois desgraçados, que a morte tornara iguais perante o escalpelo do cirurgião.

Os dois cadáveres estavam nus. - A vista dos mortos não lhe repugna? –

perguntou Marat com a costumada fanfarronice.

- Entristece-me - redargüiu Bálsamo. - É por falta de costume - disse Marat. -

Eu, como todos os dias vejo esse espectáculo, não me causa tristeza nem repugnância. Nós os cirurgiões, como vivemos com os mortos, não interrompemos por causa deles nenhumas das funções ordinárias da nossa vida.

- É esse um dos tristes privilégios da sua

profissão, senhor.

- E daí - acrescentou Marat - por que

entristeceria eu, por que me repugnaria isto? Para o primeiro caso tenho a reflexão; para o segundo o costume.

- Explique-me as suas idéias - disse

Bálsamo – porque não as compreendo bem. Explique-me primeiramente a reflexão.

- Pois sim. Por que havia eu de assustar-

me? Por que teria medo de um corpo inerte, de uma estátua que é de carne em lugar de ser de mármore ou de granito?

- E não há efectivamente nada num

cadáver?

- Nada, absolutamente.

- Parece-lhe isso?

- Tenho essa certeza.

- E num corpo vivo?

- Há o movimento - disse Marat

triunfantemente.

- E a alma, não fala dela, senhor? - Nunca a vi nos corpos que tenho

retalhado com o meu escalpelo.

- Porque só tem retalhado cadáveres. - Oh! não, senhor, tenho feito muitas

operações em corpos vivos.

- E nada mais tem encontrado neles, do

que nos cadáveres?

- Sim, encontrei a dor. É porventura à

dor que chama a alma?

- Então não crê nela?

- Em quê?

- Na alma.

- Creio, porque estou no meu direito de

lhe chamar o movimento, se assim me aprouver.

- Muito bem; crê na alma, é quanto eu

queria saber; estimo que tenha essa crença.

- Espere um pouco, mestre, entendamo-

nos, e sobretudo, não exageremos - disse Marat com o seu sorriso de víbora. - Nós cá, os cirurgiões, somos um pouco materialistas.

- Estes corpos estão bem frios - disse

Bálsamo pensativo - e esta mulher era bem formosa.

- Sim, sim.

- Uma bela alma teria certamente ficado

bem em tão belo corpo.

- Ah! Aí está onde reside o erro do que a

criou. Bela bainha, má folha. Este corpo, senhor, era de uma meretriz, que saiu de S. Lázaro para vir morrer de uma inflamação do cérebro no hospital. A sua crónica é longa e sofrivelmente escandalosa. Se chama alma ao movimento, que punha em acção esta criatura, ofende as nossas almas, que devem ser da mesma essência, visto que provêm da mesma origem.

- Alma que se deveria ter curado - disse

Bálsamo e que se perdeu por falta do único médico indispensável, o médico da alma.

- Ai, mestre, aí está mais uma das suas

teorias! Médicos só há os do corpo - redargüiu Marat com um amargo sorriso. - E repare, mestre, que tem neste momento nos lábios uma palavra que Molière empregou muitas vezes nas suas comédias, e é essa palavra que o faz sorrir.

- Não - disse Bálsamo - engana-se, e não

pode saber o motivo deste sorriso. Por agora, o que concluímos é que estes cadáveres estão vazios, não é verdade?

- E insensíveis - disse Marat levantando

um pouco a cabeça da mulher e deixando-a de novo cair no mármore, sem que o corpo se movesse nem estremecesse.

- Muito bem - disse Bálsamo - vamos

agora ao hospital.

- Um momento, mestre, deixe-me

primeiro separar do tronco esta cabeça que desejo possuir para certas observações, porque foi a sede de uma enfermidade muito curiosa. Dá licença?

- Pois não - disse Bálsamo. Marat abriu o seu estojo, tirou dele um

bisturi e foi buscar a um canto da casa um grande malho de pau todo cheio de nódoas de sangue.

Então, com mão segura, fez um grande

corte circular, que separou toda a carne e todos os músculos do pescoço; e daí, chegado ao osso, meteu o bisturi entre duas juntas da coluna vertebral, e bateu em cima com o malho uma pancada forte.

A cabeça rolou por sobre a mesa e caiu

para o chão; Marat viu-se obrigado a ir apanhá-la com as mãos úmidas de sangue.

Bálsamo voltou a cara para o lado para

não regozijar o triunfador.

- Algum dia - disse Marat, que julgava

apanhar o mestre em fraqueza - algum dia aparecerá algum filósofo que se há-de ocupar da morte como os outros se ocupam da vida; há-de achar uma máquina que há-de assim desligar a cabeça com um só golpe, e que tornará a aniquilação instantânea, o que se não consegue com nenhum dos outros géneros de morte; a roda, o esquartejamento, a forca, são suplícios próprios de bárbaros e não de homens civilizados. Uma nação esclarecida como a França, deve castigar e não vingar-se. Porque a sociedade que roda, enforca ou esquarteja vinga-se do criminoso com o padecimento, antes de o castigar com a morte, o que é de mais, segundo a minha opinião.

- E segundo a minha também, senhor.

Mas que espécie de instrumento quer dizer?

- Uma espécie de máquina fria e

impassível como a lei; o homem encarregado de castigar, impressiona-se à vista do seu semelhante, e muitas vezes erra o golpe como aconteceu com Chalais e com o duque de Moramouth. Não aconteceria isso com uma máquina formada de dois braços, que fizessem mover um cutelo, por exemplo.

- E o senhor julga que pelo motivo de

passar esse cutelo com a rapidez do raio entre a base do occipital e os músculos trapézios, julga que por isso a morte seria instantânea e a dor rápida?

- A morte seria instantânea, não há

dúvida, pois que o ferro cortaria com um só golpe os nervos que dão o movimento. A dor seria rápida, porque o ferro separaria o cérebro, que é a sede dos sentimentos, do coração, que é o centro da vida.

- Senhor - disse Bálsamo - o suplício da

decapitação existe na Alemanha.

- Sim, mas com a espada, e eu já lhe

disse que a mão do homem pode tremer.

- Na Itália existe uma máquina

semelhante; uns braços de pau fazem-na mover e chamam-lhe a mannaja.

- E então?

- Então, senhor, vi criminosos

decapitados pelo carrasco levantaram-se do banco em que estavam sentados, e cambaleando irem cair a dez passos de distância. Apanhei as cabeças que caíam da mannaja, como ainda há pouco caiu de cima da mesa de mármore essa cabeça que tem segura pelos cabelos, e pronunciando-lhe ao ouvido o nome com que em vida tinha sido baptizada, vi abrirem-se os olhos e revolverem-se nas órbitas, procurando ver quem era que da terra os chamava nessa transição da vida para a eternidade.

- É um movimento nervoso, nada mais. - Não são os nervos os órgãos da

sensibilidade?

- O que pretende concluir daí, senhor? - Concluo que seria preferível, em lugar

de inventar uma máquina que mate para castigar, que o homem inventasse um meio de castigar sem matar. Há-de ser a melhor e a mais ilustrada das sociedades, acredite no que lhe digo, a que descobrir esse meio.

- Utopia! Sempre utopia! - disse Marat. - Desta vez tem talvez razão - disse

Bálsamo; - o tempo nos esclarecerá... Não me tinha falado do hospital?... Vamos lá!

- Vamos! - disse Marat.

E embrulhou cuidadosamente a cabeça

da mulher no lenço de assoar, atando-o pelas pontas.

- Agora - disse Marat saindo - tenho a

certeza de que os meus condiscípulos só apanharão os caídos.

Dirigiram-se para o hospital,

caminhando um a par do outro.

- Cortou essa cabeça com muita frieza e

habilidade, senhor - disse Bálsamo; - tem menos comoção quando se trata dos vivos do que com os mortos? O padecimento condói-o mais do que a imobilidade? Tem mais piedade dos corpos que dos cadáveres?

- Não, porque seria uma fraqueza, como

a seria no carrasco que se deixasse impressionar. Tanto se mata um homem cortando-lhe mal uma perna, como cortando-lhe mal a cabeça. Um bom cirurgião deve operar com a mão e não com o coração, porque tem a consciência de que por um instante de sofrimento dá anos de vida e saúde, e é esse o lado bom da nossa profissão, senhor.

- Muito bem; mas nos vivos encontra a

alma, não é assim?

- Sim, se quer concordar comigo que a

alma seja o movimento ou a sensibilidade; sim, decerto que a encontro, e bem incómoda mesmo, porque mata mais doentes do que o meu escalpelo.

Tinham chegado à porta do hospital.

Entraram. Pouco depois, guiado por Marat, que não abandonara o sinistro fardo, pôde Bálsamo penetrar na sala das operações, invadida pelo cirurgião em chefe e pelos discípulos de cirurgia.

Os enfermeiros acabavam de trazer um

rapaz, que na semana antecedente tinha sido atropelado por uma carruagem, a qual, passando-lhe sobre um pé, lho esmagara.

Uma primeira operação feita à pressa no

membro adormecido pela dor não fora bastante, porque o mal desenvolvera-se rapidamente e fora julgada inevitável a amputação da perna.

Aquele desgraçado, estendido no seu

leito de angústias, olhava com um terror capaz de abrandar tigres para aquele bando de esfaimados, que esperavam o momento do seu martírio, da sua agonia talvez, para estudar a ciência da vida, fenómeno maravilhoso, por detrás do qual se oculta o sombrio fenómeno da morte.

Parecia pedir a cada cirurgião, a cada

discípulo, a cada enfermeiro uma consolação, um sorriso, uma carícia; mas só via por toda a parte a indiferença com o seu coração, o aço com os seus olhos.

Um resto de ânimo e de orgulho

conservava-o mudo. Reservava todas as suas forças para os gritos que a dor ia em breve arrancar-lhe.

Entretanto, quando sentiu nos ombros a

mão pesadamente amável do enfermeiro, quando sentiu os braços dos ajudantes enroscarem-se em torno do seu corpo como as serpentes de Lacoonte, quando ouviu a voz do operador dizer-lhe: ânimo! atreveu-se o infeliz a interromper o silêncio e a perguntar com voz tímida:

- Padecerei muito?

- Não! Esteja sossegado - respondeu

Marat com um sorriso falso, suave para o enfermo, irónico para Bálsamo.

Marat viu que Bálsamo o tinha

percebido; aproximou-se dele, e em voz baixa disse-lhe:

- É uma operação terrível; o osso está

todo partido é de uma sensibilidade aterradora. Não morre do mal, mas da dor; e aí está de que serve a alma àquele ser vivo.

- Então por que motivo lhe faz a

operação? Por que não o deixa morrer sossegadamente?

- Porque é obrigação tentar a cura, ainda

que pareça impossível.

- E diz que há-de padecer? - Horrivelmente.

- Por causa da alma?

- Por causa da alma, sim, que tem muita

ternura pelo corpo.

- Então por que não opera sobre a alma?

O sossego da alma seria talvez a cura do corpo.

- É o que acabo de fazer - disse Marat,

enquanto continuavam a ligar o corpo do infeliz.

- Preparou-lhe a alma?

- Sim.

- De que modo?

- Como se faz, com palavras. Falei à

alma, à inteligência, à sensibilidade, à coisa que fez dizer ao filósofo grego: “Dor, tu não és um mal” que é a linguagem que convém a essa coisa. Eu disse-lhe: “Não sofrerás”. Depende agora da alma não sofrer, é da sua competência. É este o remédio até hoje conhecido, quanto às questões da alma: mentira! Também não sei porque há-de o diabo da alma andar ligada ao corpo! Há pouco, quando cortei aquela cabeça, o corpo nada disse, e contudo a operação era grave. Mas, como não havia de ser assim! O movimento tinha cessado, tinha-se apagado a sensibilidade, a alma tinha voado, como dizem os espiritualistas. Aí está, porque se não queixou a cabeça que cortei, aí está porque o corpo que há pouco decapitei não me opôs resistência; ao passo que este, em que a alma habita ainda, verdade é que por pouco tempo, mas enfim em que ainda habita, vai, dentro de alguns instantes, soltar gritos terríveis. Tape bem os ouvidos, mestre. Tape-os bem, o senhor, que é sensível a essa conexidade das almas e dos corpos, que há-de matar sempre a sua teoria, até ao dia em que ela tiver conseguido isolar o corpo da alma.

- E julga que nunca se conseguirá esse

isolamento?

- Experimente - disse Marat - a ocasião é

óptima.

- Pois bem, sim, tem razão - disse

Bálsamo - a ocasião é óptima, e eu vou experimentar.

- Pois experimente.

- Experimento, sim.

- E como?

- Não quero que aquele rapaz padeça,

interessa-me muito.

- É um ilustre chefe - disse Marat - mas

nem é o Deus padre, nem o Deus filho, e não poderá impedir que aquele homem padeça.

- E se ele não padecesse, julga que seria

possível curar-se?

- Seria provável, mas não é certo. Bálsamo lançou sobre Marat um

inexplicável olhar de triunfo, e colocando-se diante do jovem enfermo, cujos olhos espantados e já exprimindo angústia e terror se encontraram com os dele, disse-lhe:

- Durma!

Esta ordem não foi dada só com a boca,

senão também com o olhar, com a vontade, com todo o calor do seu sangue, com todo o fluido do seu corpo.

Neste momento o cirurgião principal

começava a apalpar a perna do doente, e a fazer observar aos discípulos a intensidade do mal.

Mas, à ordem de Bálsamo, o rapaz, que

se tinha sentado na cama, oscilou um instante nos braços dos ajudantes, inclinou a cabeça e fechou os olhos.

- Perde os sentidos - disse Marat. - Não, senhor.

- Pois não vê que perdeu os sentidos? - Não perdeu, dorme.

- Como, dorme?

- Dorme, sim.

Voltaram-se todos para o estranho

médico que tomaram por doido.

Um sorriso de incredulidade passou

pelos lábios de Marat.

- É costume falar-se durante um

desmaio? – perguntou Bálsamo.

- Não, senhor.

- Pois então, interrogue-o, que ele lhe

responderá.

- Eh! Rapaz! - bradou Marat. - Oh! Não precisa gritar tanto - disse

Bálsamo-; fale em tom natural.

- Diga-nos o que tem?

- Mandaram-me dormir, e eu durmo -

respondeu o enfermo.

A voz era perfeitamente sossegada e

fazia contraste com a que pouco antes se tinha ouvido.

Os que estavam presentes olharam uns

para os outros.

- Agora - disse Bálsamo - tire-lhe todas

as ligaduras.

- Isso não pode ser - disse o cirurgião em

chefe – um único movimento que ele faça pode prejudicar a operação.

- Não se há-de mover.

- Quem me dá essa certeza?

- Eu e ele. Perguntem-lho. - Podem deixá-lo sem ligaduras, meu

amigo?

- Podem.

- Promete não fazer movimento algum? - Prometo, se assim o ordenam. - Ordeno-o eu.

- Por minha alma - disse o cirurgião em

chefe – fala com uma tal certeza, que estou tentado a fazer a experiência.

- Faça, e não receie coisa alguma. - Tirem as ligaduras - disse o cirurgião

em chefe.

Os ajudantes obedeceram. Bálsamo foi colocar-se à cabeceira do

leito.

- A começar deste momento - disse ele -

não faça movimento algum sem que eu lho ordene.

Uma estátua deitada sobre um túmulo

não seria mais imóvel do que ficou o enfermo depois desta ordem.

- Agora, faça a operação, senhor - disse

Bálsamo; - o enfermo está perfeitamente disposto.

O cirurgião pegou no escalpelo; no

momento porém de servir-se dele, hesitou.

- Corte, senhor, corte, digo-lho eu -

bradou Bálsamo com o modo de um profeta inspirado.

Aquele, dominado como Marat, como o

doente, como todos os circunstantes, chegou o aço à carne.

A carne rangeu, mas o enfermo não

soltou um suspiro, não fez um movimento.

- De que terra é, meu amigo? -

perguntou Bálsamo.

- Sou bretão, senhor - respondeu o rapaz

sorrindo.

- E gosta da sua terra?

- Oh! Senhor, a Bretanha é tão formosa! Durante este tempo o cirurgião dava os

golpes circulares por meio dos quais, nas amputações, se começa por descobrir o osso.

- Veio de lá muito novo? - perguntou

Bálsamo.

- Tinha dez anos, senhor. Os golpes estavam dados, o cirurgião

aproximava a serra do osso.

- Meu amigo - disse Bálsamo - cante

aquela canção que os trabalhadores das marinhas de Batz costumam cantar à noite, quando recolhem a casa. Só me lembro do primeiro verso:

“Meu sal d’escuma coberto.”

A serra mordia o osso.

Mas ao convite que Bálsamo lhe fizera, o

enfermo sorriu e começou a cantar melodiosa e lentamente, em êxtase, como um amante ou um poeta:

Meu sal descuma coberto, Meu lago da cor do céu,

Meu forno ardente aberto; Meu pão que Deus me deu;

Minha esposa e meu pai, Meus filhos muito amados; Os manes de minha mãe

De giestas perfumados;

Eu vos saúdo! Do dia

Terminou a lida, a dor:

Depois da pena, alegria,

Depois da ausência, amor.

Já a perna caía cortada na cama, e ainda

o pobre rapaz cantava.