José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 18 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XXII

 

O VESTUÁRIO DE ROUSSEAU

Logo que o senhor de Coigny saiu,

Rousseau, a quem a visita alterara as idéias, sentou-se, suspirando, numa poltrona, e disse em tom pausado:

- Ai, que aborrecimento! Como me

incomodam com estas perseguições!

Teresa, que voltava, tomou estas

palavras no ar, e vindo colocar-se em frente de Rousseau, disse:

- Como é soberbo!

- Eu?! - disse Rousseau admirado. - Sim, é um vaidoso, um hipócrita! - Eu?

- Você, sim... Está encantado de ir à

corte, e oculta a alegria com uma falsa indiferença.

- Ah! Meu Deus! - redargüiu Rousseau

encolhendo os ombros e humilhado por ver que assim adivinhavam os seus pensamentos.

- Quer talvez fazer-me acreditar que não

é para você uma grande honra ir fazer ouvir ao rei as músicas, que preguiçosamente arranha aqui no seu cravo?

Rousseau olhou irado para a mulher. - Você é uma toleirona! - disse-lhe; - um

homem como eu não se honra por comparecer diante de um rei. A que deve aquele homem o estar no trono? A um capricho da natureza, que o fez nascer de uma rainha; mas eu, se sou digno de ser chamado à presença do rei para o divertir, devo isso ao meu trabalho e ao meu talento.

Teresa não era mulher que assim se

deixasse vencer.

- Quem dera que o senhor de Sartines o

ouvisse falar de semelhante modo, havia de dar-lhe de presente uma barraca em Bicêtre ou um camarote em Charenton.

- Porque - disse Rousseau - esse senhor

de Sartines é um tirano, e o homem que só possui o seu génio não pode defender-se dos tiranos; mas se o senhor de Sartines me perseguisse...

- O que faria? - disse Teresa. - Ah! Sim - disse Rousseau suspirando -

bem sei que os meus inimigos ficariam satisfeitos...

- E por que tem inimigos? - disse Teresa

– porque ataca toda a gente. Ah! O senhor de Voltaire é que tem amigos, esse sim!

- É verdade - respondeu Rousseau com

um sorriso de expressão angélica.

- Mas, com os diabos! O senhor de

Voltaire é um fidalgo, o rei da Prússia é seu íntimo amigo, tem cavalos, é rico, tem um palácio em Ferney... E tudo isso, deve-o ao seu mérito... Também, quando vai ao paço, não se faz desdenhoso, está lá como em sua casa.

- E julga - disse Rousseau - que não

estarei lá como se estivesse em minha casa? Julga que não sei de onde vem todo o dinheiro que lá gastam, e que creio no respeito que se deve ter ao amo? Ah! Boa senhora, que julga a torto e a direito, saiba pois que se eu desdenho do luxo dos cortesãos, é porque esse luxo é roubado.

- Roubado? - disse Teresa com uma

indignação inexplicável.

- Sim, roubado! A você, a mim, a todos.

Todo o ouro que ostentam nas roupas deveria ser repartido pelos desgraçados que não têm pão. E aí tem porque, eu que penso em tudo isso, não vou lá senão com repugnância.

- Eu não digo que o povo esteja feliz -

disse Teresa; - mas enfim, o rei é o rei.

- Pois bem! Eu obedeço-lhe, que mais

quer ele?

- Ah! Obedece porque tem medo. Não

deve dizer que vai com repugnância a alguma parte e que é um homem corajoso, senão eu responderei, que é um hipócrita e que isso lhe apraz bastante.

- Não tenho medo de coisa nenhuma -

disse soberbamente Rousseau.

- Então vá dizer ao rei a quarta parte do

que acaba de dizer-me a mim.

- E fazia-o, se a minha vontade o

ordenasse.

- Você?

- Sim, eu; porventura já alguma vez

recuei?

- Bravo! Não se atreve a tirar um osso da

boca ao gato com medo que o arranhe... Que será quando se vir cercado de guardas e de homens de espada à cinta?... Bem vê que o conheço como se fosse sua mãe... Vá agora escanhoar-se; apresentará uma boa perna, um certo piscar de olhos muito interessante, porque tem os olhos pequeníssimos e muito redondos, e se os abrisse naturalmente, ver-se-iam, ao passo que piscando-os faz acreditar que são grandes como dois portões; há-de pedir-me as suas meias de seda, vestir a casaca cor de chocolate com botões de aço, pôr a cabeleira nova, e o meu filósofo irá todo repimpado num coche fazer-se adorar pelas damas... E amanhã, ah! amanhã, será um êxtase, um desfalecimento; estará enamorado, escreverá algumas linhas suspirando, e derramará algumas lágrimas na chávena do café. Oh! Como eu o conheço!

- Engana-se - disse Rousseau. - Digo-lhe

que me obrigam a ir à corte. Irei, porque acima de tudo, temo o escândalo, como deve temê-lo todo o cidadão honesto. Além disso, eu não sou daqueles que se recusam a reconhecer a supremacia de um cidadão numa república; porém, quanto a fazer zumbaias, quanto a fazer de cortesão, quanto a roçar a minha casaca nova contra as palhetas desses senhores das bordaduras, não, não! Nada disso farei, e se vir o contrário, zombe de mim à sua vontade.

- Visto isso, não se veste? - disse Teresa

ironicamente.

- Eu não.

- Não põe a sua cabeleira nova? - Não.

- Não há-de piscar os olhitos? - Digo-lhe que hei-de lá ir como homem

livre, sem afectação, sem medo; hei-de ir à corte como hei-de ir ao teatro, e que os cómicos me achem bem ou mal, desprezo isso.

- Oh! Há-de fazer pelo menos a barba -

disse Teresa - porque está muito crescida.

- Digo-lhe que não mudarei coisa

alguma.

Teresa pôs-se a rir com tanta força, que

Rousseau ficou atordoado e passou para outro quarto.

A mulher não havia ainda acabado com

as suas perseguições; arranjava-as de todos os modos e sob qualquer pretexto.

Tirou do armário o fato de cerimónia e a

roupa branca nova, os sapatos lustrados a ovo, com um cuidado minucioso, e foi estender todas aquelas coisas em cima da cama e nas cadeiras de Rousseau.

Porém este não pareceu prestar a isso a

menor atenção.

Teresa disse-lhe então:

- Ora vamos, é tempo de se vestir... Leva

muito tempo um vestuário da corte... Já não chega a Versalhes à hora indicada.

- Já lhe disse - replicou Rousseau - que

me acho assim perfeitamente; hei-de levar o fato com que me apresento todos os dias aos meus concidadãos. Um rei não é outra coisa mais do que um cidadão como eu.

- Vamos, vamos - disse Teresa para

tentá-lo e conduzi-lo por insinuação à sua vontade - não teime, Jacques, e não faça uma tolice... O seu fato está ali... a sua navalha de barba está pronta; e já mandei avisar o barbeiro, para o caso de estar hoje atacado dos nervos...

- Obrigado; - respondeu Rousseau -

apenas darei em mim uma escovadela, e calçarei os sapatos, visto que se não sai à rua de chinelos.

- Talvez que também essa fosse a tua

vontade – disse Teresa consigo mesmo.

E excitou-o pela galanteria, pela

persuasão, ou pela violência dos seus chascos. Porém Rousseau conhecia-a, viu o laço; ele sentia que apenas cedesse, seria desapiedadamente escarnecido por Teresa. Não quis pois ceder, e absteve-se de lançar os olhos para o seu vestuário, que revelava, como ele dizia, a sua boa presença natural.

Teresa espreitava-o. Ela só tinha um

recurso, era o relancear de olhos que Rousseau nunca deixava de dar ao espelho quando saía, porque o filósofo era asseado em excesso, se é possível haver excesso no asseio.

Porém Rousseau continuou a estar de

prevenção, e como tinha surpreendido o olhar atento de Teresa, voltou as costas ao espelho. A hora chegou; o filósofo tinha recheado a cabeça com tudo quanto poderia dizer de desagradavelmente sentencioso ao rei.

Recitou algumas frases latinas,

prendendo as fivelas dos sapatos, pôs o chapéu debaixo do braço, pegou na bengala, e aproveitando um momento em que Teresa não podia vê-lo, alisou a casaca e a véstia com as duas mãos para destruir as pregas.

Teresa tornou a entrar, e ofereceu-lhe

um lenço, que ele escondeu na vasta algibeira, e conduziu-o até ao patamar, dizendo-lhe:

- Ora vamos, Jacques, seja razoável;

assim está terrível, parece um fabricante de moeda falsa.

- Adeus - disse Rousseau. - Parece um garoto - disse Teresa - tome

bem sentido!

- Cuidado com o fogo - retrucou

Rousseau - e não mexa nos meus papéis.

- Parece um espião, posso assegurar-lho

- disse Teresa desesperada.

Rousseau não redargüiu palavra; descia

os degraus cantarolando, e aproveitando a escuridão, escovava o chapéu com a manga, sacudia os bofes de renda com a mão esquerda, e improvisava consigo mesmo um rápido mas inteligente vestuário.

Quando chegou abaixo, afrontou o

lamaçal da Rua Platrière, e nos bicos dos pés dirigiu-se aos Campos Elísios, onde estacionavam aquelas honestas carruagens que por purismo chamaremos pataches, e que transportavam ou antes arrastavam, haverá ainda dez anos, de Paris a Versalhes, os viajantes reduzidos à economia.