José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 24 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XXIX

 

O PAI E A FILHA

Efectivamente Andreia avistou no fim

da rua o pai e o marechal, que passeavam diante do vestíbulo, esperando por ela.

Os dois amigos pareciam alegríssimos;

estavam de braço dado, e nunca na corte se vira Orestes e Pílades tão exactamente representados.

À vista de Andreia, os dois velhos

redobraram de júbilo, e fizeram-se mutuamente notar a radiante formosura, que a cólera e a rapidez do passo tinham ainda aumentado.

O marechal cortejou Andreia como o

fizera a uma Pompadour declarada. Aquele modo não escapou a Taverney, que ficou encantado; mas causou estranheza a Andreia pelo misto de respeito e galanteria um pouco livre; porque o hábil cortesão sabia reunir tantas minúcias num só cumprimento quantas frases francesas reunia Covielle numa palavra única turca.

Andreia correspondeu com uma

mesura, tão cerimoniosa para o pai como para o marechal; depois, com infinita graça, convidou-os a subir ao seu quarto.

O marechal admirou o asseio elegante,

único luxo de mobília e de arquitectura daquele quarto. Com flores e uma pouca de cassa branca transformara Andreia o triste aposento, não num palácio, mas num templo.

O duque sentou-se numa poltrona

coberta de fazenda verde, com grandes ramagens, junto de um enorme vaso do Japão, de onde caíam cachos perfumados de acácias e lilás misturados com rosas de Bengala.

Taverney sentou-se noutra igual;

Andreia tomou lugar num banquinho e encostou-se ao piano, guarnecido também de flores, que se ostentavam num vaso de Saxónia.

- Venho, minha senhora - disse o

marechal - da parte de Sua Majestade apresentar-lhe todos os cumprimentos que a sua encantadora voz e o seu talento musical arrancaram ontem dos lábios a quantos tiveram a fortuna de assistir ao ensaio. Sua Majestade não lhe fez os seus cumprimentos de viva voz, porque teve receio de acarretar-lhe invejosos e invejosas. Encarregou-me, portanto, de lhe exprimir todo o prazer que lhe causou.

Andreia, estava tão formosa na

vermelhidão que lhe assomou às faces, que o marechal continuou como se falasse por conta própria:

- Afirmou-me el-rei não ter visto ainda

na corte senhora que reunisse em tão subido grau os tons de espírito e os da formosura.

- Esqueces os do coração - disse

Taverney com desvanecimento; - Andreia é a melhor das raparigas.

O marechal pensou que o amigo ia

chorar, e cheio de admiração por aquele esforço de sensibilidade paternal, exclamou:

- O coração! Ai! Meu caro, tu és o único

juiz da ternura que pode haver no coração da menina de Taverney. Se eu tivesse vinte e cinco anos, deporia a seus pés a minha vida e a minha fortuna.

Andreia não sabia ainda acolher

ligeiramente a homenagem de um cortesão. Richelieu só obteve dela um murmúrio sem significação.

- Minha senhora - disse ele - el-rei houve

por bem rogar que lhe permitisse oferecer-lhe uma prova da sua satisfação, e encarregou o senhor barão, seu pai, de lha transmitir. Que deverei responder em seu nome a Sua Majestade?

- Senhor - disse Andreia, que na sua

resposta só pensou no respeito que toda a súdita deve ao seu rei; digne-se certificar a Sua Majestade o meu profundo agradecimento. Diga a Sua Majestade que me torna felicíssima dignando ocupar-se de mim, e que me considero bem indigna de atenção de tão poderoso monarca.

Richelieu pareceu entusiasmado com

aquela resposta, que a donzela pronunciou com voz firme e sem a mais leve hesitação.

Pegou-lhe na mão, que beijou

respeitosamente, e demorando nela a vista, disse:

- Mão de rainha, pé de fada... espírito,

vontade, candura... Ah! Barão, que tesouro!... Não é uma filha que tens aqui, é uma rainha...

E despediu-se, deixando junto de

Andreia o barão, que insensivelmente se entumecia de orgulho e de esperança.

Quem visse aquele filósofo das antigas

teorias, aquele céptico, aquele desdenhoso aspirar a longos tragos o ar da protecção real no seu lodaçal menos respirável, diria que Deus fizera do mesmo limo o espírito e o coração do senhor de Taverney.

A única resposta que o barão podia dar

a propósito de tal mudança era:

- Não fui eu que mudei, foi o tempo. Conservou-se ao pé de Andreia,

sentado, mas um tanto perturbado, porque a filha, com a sua inesgotável serenidade, fitava nele os olhos tão profundamente como o faria se quisesse penetrar o mar no seu mais profundo abismo.

- O senhor de Richelieu não disse,

senhor, que Sua Majestade lhe tinha confiado uma prova da sua satisfação? Qual é?

- Ah! - pensou Taverney - é interesseira...

Não o sabia. Melhor. Satanás, eu to agradeço!

Tirou lentamente da algibeira o estojo

dado na véspera pelo marechal, como os pais tiram um saco de bolos ou um brinquedo, que os olhos das crianças, se pudessem, lhes arrancariam da algibeira antes deles lhe tocarem.

- Aqui está - disse ele.

- Ah! São jóias... - disse Andreia. - São do teu gosto?

Era um adereço de pérolas de subido

valor. Doze grandes brilhantes ligavam outros tantos fios de pérolas; um broche de brilhantes, brincos e um diadema também de brilhantes, davam ao presente um valor não inferior a trinta mil escudos.

- Jesus, meu pai! - exclamou Andreia. - Então!

- É rico demais... el-rei enganou-se. Eu

tinha vergonha de pôr isto... Terei porventura vestuário que possa aliar-se com a riqueza desses brilhantes?

- Queixa-te, se te parece! - disse

ironicamente Taverney.

- Senhor, não me compreende... Tenho

pena de não poder usar estas jóias, porque são ricas de mais.

- O rei que te deu o adereço, Andreia, é

generoso bastante para te dar também os vestidos...

- Mas, senhor... tanta bondade da parte

de el-rei...

- Não julgas que a tenho merecido por

meus serviços? - disse Taverney.

- Ah! Perdão, senhor; é verdade -

redargüiu Andreia baixando a cabeça, mas sem ficar bem convencida.

Passado um momento de reflexão,

fechando de novo o adereço, disse:

- Não usarei estes brilhantes! - Por quê? - exclamou Taverney com

inquietação.

- Porque tanto meu pai, como meu

irmão têm falta do necessário, e este supérfluo fere-me os olhos desde que penso na pobreza de ambos.

Taverney apertou-lhe a mão sorrindo, e

disse-lhe:

- Oh! Não penses nisso, minha filha. El-

rei fez isto mais por mim do que por ti. Estamos no agrado de el-rei, minha filha. Não seria próprio de uma súdita respeitosa nem de uma mulher agradecida aparecer diante de Sua Majestade sem o adereço com que se dignou presentear-te.

- Obedecerei, senhor.

- Sim, mas é preciso que obedeças com

satisfação... Parece-me que te não agrada o adereço?

- Não entendo de brilhantes, senhor. - Sabe pois que só as pérolas valem

cinqüenta mil libras.

Andreia uniu as mãos em sinal de

espanto.

- Senhor - disse ela - é singular que Sua

Majestade me faça um tal presente! Rogo-lhe que pense bem nisto, meu pai.

- Não te entendo, minha filha - disse

Taverney em tom seco.

- Se eu usar estas jóias, senhor, asseguro-

lhe que todos se hão-de admirar.

- Por quê? - disse Taverney no mesmo

tom, com um olhar frio e imperioso, que fez baixar o da filha.

- Tenho escrúpulo!

- Menina, hás-de confessar que é

singularíssimo que encontres escrúpulos numa coisa que eu acho naturalíssima. Ora vivam as raparigas cândidas e inocentes, que sabem conhecer o mal e descobri-lo, por mais oculto que esteja, quando ninguém ainda deu por ele! Viva a mocinha singela e virgem, que faz corar os velhos granadeiros como eu!

Andreia ocultou a sua perturbação,

encobrindo o rosto com as lindas mãos.

- Oh! Meu irmão - murmurou ela em

voz baixa - porque estás tu já tão longe!

Taverney ouviria estas palavras,

adivinhá-las-ia com a maravilhosa perspicácia que lhe conhecemos? É o que não podemos dizer; mas mudando de tom no mesmo instante, e pegando nas mãos de Andreia, disse:

- Ora vamos, minha filha, parece-te que

teu pai não te consagra nenhuma espécie de amizade?

Grato sorriso despontou por entre as

sombras que encobriam a bela fronte de Andreia.

- Não estou eu presente para amar-te,

para aconselhar-te? Não te sentes orgulhosa de contribuir para a fortuna de teu irmão e para a minha?

- Oh! sim - disse Andreia. O barão concentrou na filha um olhar

cheio de carícias.

- Pois bem - disse ele - a menina será

como há pouco dizia o senhor de Richelieu, a rainha de Taverney... El-rei distinguiu-a... E a senhora delfina também – acrescentou com vivacidade; - portanto, na intimidade de tão augustas personagens, construirá o nosso futuro, tornando-lhes feliz a vida... Amiga da delfina, amiga... de el-rei, que glória!... É dotada de um talento superior e de uma formosura sem rival; tem um espírito são, isento de avareza e de ambição... Oh! Minha filha, que papel poderá representar! Está lembrada da graciosa criança que suavizou os últimos momentos de Carlos VI?... O seu nome foi abençoado pela França. Lembra-se de Inês Sorel, que restituiu a honra à coroa de França?... Todos os bons franceses veneram a sua memória... Andreia, será o arrimo da velhice do nosso glorioso monarca... Há-de amá-lo como sua filha, e reinará em França pelo direito da beleza, da coragem e da fidelidade...

Andreia abriu muito os olhos em sinal

de admiração.

O barão continuou sem lhe dar tempo

para reflectir:

- Essas mulheres perdidas, que

desonram o trono, serão pela menina afastadas com um único olhar; a sua presença há-de purificar a corte, e será à sua generosa influência que a nobreza do reino há-de dever a restauração dos bons costumes, da civilidade e da pureza. Minha filha, pode e deve ser um astro regenerador para este país, e uma coroa de glória para o nosso nome.

- Mas - disse Andreia - o que será

preciso fazer para isso?

O barão ficou alguns momentos

pensativo.

- Andreia - disse ele - muitas vezes lhe

tenho dito que neste mundo, para obrigar a gente a ser virtuosa, é preciso fazer com que a virtude seja amável. A virtude carrancuda, triste e sentenciosa, faz fugir até os que mais ardentemente desejariam aproximar-se dela. Junte à sua virtude todos os engodos do galanteio, do vício até. É coisa fácil para uma menina tão espirituosa e tão forte. Faça-se tão formosa, que a corte não fale senão da sua formosura. Torne-se tão agradável aos olhos de el-rei, que el-rei não possa passar sem a menina. Mostre-se muito secreta, muito reservada para todos, excepto para Sua Majestade, que logo lhe atribuirão todo o poder, que não deixará de alcançar.

- Não compreendo bem o último aviso -

disse Andreia.

- Deixe-me guiá-la, e executará sem

compreender, o que é melhor para uma criatura tão boa e generosa como a menina. A propósito, para executar o primeiro ponto, minha filha, devo rechear-lhe a bolsa. Receba pois estes cem luíses, e ostente uma maneira digna da posição a que é chamada desde que el-rei nos fez a honra de distinguir-nos.

Taverney deu cem luíses à filha, beijou-

lhe a mão e saiu.

Dirigiu-se rapidamente pela rua por

onde viera, e não viu, no fundo do bosque dos Amores, Nicola, que estava em grande palestra com um senhor, que lhe falava ao ouvido.