José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 2 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo III

 

DESENCANTO

João, furioso por aquela saída cheia de

provocação, deu ainda dois passos em seguida do barão, depois encolheu os ombros e voltando-se para o marechal, disse:

- Recebe disto em sua casa? - Ah! Meu caro, está enganado; pelo

contrário, acabo de o pôr na rua.

- Sabe quem é aquele senhor? - Oh! Se sei!

- Mas talvez não saiba bem? - É um Taverney.

- É um senhor que quer meter a filha à

cara do rei...

- Ora adeus!

- Um senhor que nos quer suplantar, e

que para isso toma todos os caminhos... Sim, mas João está presente, e João vê bem claro.

- Julga que quer?...

- É bem custoso de perceber, não é

verdade?... Partido do delfim, meu caro... E tem na família um pequeno espadachim...

- Ora!

- Um mancebo muito bem ensinado, que

vem morder as pernas à gente, um brigão que dá golpes de espada no ombro de João... Deste pobre João.

- Em si?... É seu inimigo pessoal, meu

caro conde? - disse Richelieu fingindo-se admirado.

- Sim! É o meu adversário naquela

questão das mudas, bem sabe...

- Ah! Mas veja o que é a simpatia! Eu

ignorava isso, e neguei-lhe tudo quanto me pediu; só o que eu teria feito, se soubesse isso, era expulsá-lo em vez de o descontentar, como fiz... Sossegue, conde, agora está o seu brigão debaixo da minha mão e eu lho farei conhecer.

- Sim, pode fazer-lhe perder o gosto de

atacar a gente no meio da estrada... Porque, enfim... Ainda não lhe fiz os meus cumprimentos.

- Sim, conde; parece que está tudo

arranjado definitivamente.

- Oh! está tudo feito... Quer que lhe dê

um abraço?

- De boa vontade.

- Paciência; não foi tudo como se

desejava, mas esse mal é pouco, quando se consegue o principal. Está contente, não é verdade?

- Quer que lhe fale francamente?... Sim,

estou contente porque me parece que poderei ser útil.

- Não o duvide; mas é um golpe mestre,

e vai dar que falar.

- Por quê? Não gostam de mim no

público?

- Do senhor?... Mas não se trata disso; a

ele é que têm ódio.

- A ele?... - disse Richelieu admirado -

ele, quem?

- Certamente - interrompeu João. - Oh!

Os parlamentos vão insurgir-se, é uma repetição do chicote de Luís XIV; são flagelados, duque, levam deveras!

- Explique-me...

- Mas a explicação é fácil de achar no

ódio do parlamento pelo autor das suas perseguições.

- Ah! Julga que?...

- Tenho essa certeza, como a tem a

França toda. Não importa, duque, fez muito bem em o mandar vir assim, antes que esfriasse o caso.

- Quem?... De quem fala, conde? Estou

em brasa, e não entendo palavra do que me está dizendo.

- Falo do senhor de Aiguillon, de seu

sobrinho.

- Bem! E depois?

- Digo que andou avisado em o mandar

vir.

- Ah! Muito bem! Muito bem! Quer dizer

que me há-de auxiliar?

- Há-de auxiliar-nos a todos... Sabe que

está na melhor harmonia com Joaninha?

- Sim, realmente?

- O melhor possível. Já conversaram, e

aposto que se entendem às mil maravilhas.

- Sabe isso?

- É bem fácil. Joaninha é a rapariga mais

preguiçosa que eu conheço.

- Ah!

- Não há quem a faça levantar antes das

nove, dez ou onze horas.

- Sim, e daí?...

- Pois bem! Esta manhã, seriam quando

muito seis horas, vi sair de Luciennes a carruagem de Aiguillon.

- Às seis horas? - exclamou Richelieu

sorrindo.

- Sim.

- Pela manhã?... Esta manhã?... - Esta manhã, sim, esta manhã. Bem

deve conhecer que para ser tão madrugadora, e dar audiência a semelhante hora, Joana deve estar doida por seu sobrinho.

- Sim, sim - continuou Richelieu

esfregando as mãos - às seis horas. Bravo, de Aiguillon!

- A audiência deve ter começado às

cinco horas... De noite! É milagroso!...

- Milagroso!... - reflectiu o marechal. -

Milagroso, com efeito, meu caro João!

- E eis aí três pessoas numa posição

semelhante à de Orestes, Pílade, e ainda outro Pílade.

Neste momento, e quando o marechal

esfregava alegremente as mãos, de Aiguillon entrou na sala.

O sobrinho cortejou o tio com um modo

triste que bastou a Richelieu, se não para compreender toda a verdade, pelo menos para adivinhar a melhor parte.

Tornou-se pálido como se fosse ferido

mortalmente: logo lhe ocorreu a idéia que na corte não há amigos nem parentes e que cada um trata primeiro de si.

- Andei bem desassisado - disse ele

consigo. - Então, de Aiguillon? - continuou ele em voz alta, reprimindo um suspiro.

- Então, senhor marechal? - É um belo golpe nos parlamentos -

disse Richelieu repetindo pouco mais ou menos as palavras de João.

De Aiguillon corou.

- Já sabe? - perguntou ele. - O senhor conde disse-me tudo -

redargüiu Richelieu - mesmo a tua visita a Luciennes, esta manhã antes de ser dia: a tua nomeação é um triunfo para a minha família.

- Acredite, senhor marechal, no pesar

que isso me causa.

- Que diabo diz ele? - perguntou João

encruzando os braços.

- Nós entendemo-nos - interrompeu

Richelieu - entendemo-nos.

- Isso é diferente, mas não o compreendo

eu... Pesar!... Pesar, de quê?... Ah! Sim... Sim, agora me lembro; é porque não é por ora nomeado ministro; Sim, sim... bem percebo.

- Ah! Deve haver um interino - disse o

marechal, que sentiu renascer-lhe a esperança no coração... a esperança, esse eterno hóspede do ambicioso e do namorado.

- Um interino, sim, senhor marechal. - Mas, entretanto - bradou João - está

bem pago assim... O melhor comando de Versalhes!

- Ah! - disse Richelieu novamente ferido

- há um comando?

- O senhor du Barry exagera talvez um

pouco – disse o duque de Aiguillon.

- Mas enfim, que comando é esse? - A cavalaria ligeira do rei. Richelieu sentiu novamente a palidez

invadir-lhe as faces.

- Oh! Sim - disse ele com um sorriso que

não há palavras que o possam explicar - sim, ainda é bem pouco para um homem tão encantador; mas que quer, duque? A mais formosa mulher do mundo não pode dar senão aquilo que tem, ainda mesmo sendo a amante do rei.

Desta vez foi de Aiguillon quem

empalideceu.

João admirava os belos quadros de

Murillo da sala do marechal.

Richelieu bateu no ombro do sobrinho,

dizendo-lhe:

- Felizmente que te prometeram um

próximo adiantamento. Os meus parabéns, duque... Os meus sinceros parabéns... A tua perícia, a tua habilidade nos negócios igualam a tua felicidade... Adeus, tenho alguns negócios urgentes; não me olvides na tua protecção, meu caro ministro.

De Aiguillon só respondeu: - O marechal e eu formamos um só

indivíduo.

E, cortejando seu tio, saiu, conservando

a dignidade que lhe era natural, e fugindo de uma das posições mais difíceis que tinha experimentado em sua vida, semeada de tantas dificuldades.

- O que há de bom - apressou-se em

dizer Richelieu assim que o viu sair, para João que não sabia o que havia de crer no diálogo de cortesias e civilidades do sobrinho e do tio - o que há de admirável em de Aiguillon é a sua lhaneza. É homem de espírito e simples; conhece a corte, e é honrado como se fosse uma rapariguinha.

- E além disso é seu amigo - disse João. - É mesmo um cordeiro.

- Ah! Meu Deus! - disse João - este

parece mais ser seu filho, do que o senhor de Fronsac.

- É verdade, conde... Por minha alma, é

verdade.

E Richelieu respondia a tudo isto

andando com agitação em torno da sua poltrona; procurava uma idéia, mas não a achava.

- Ah! Condessa - murmurava ele - há-de

pagar-mo!

- Marechal - disse João - vamos realizar

entre nós quatro aquela famosa aliança da antiguidade; bem sabe, aquela que se não podia romper.

- Entre nós quatro, meu caro Sr. João?

Como entende o senhor isso?

- Minha irmã o poder, de Aiguillon a

autoridade, o senhor o conselho e eu a vigilância.

- Muito bem! Muito bem! - E deste modo, que venham intrigar

minha irmã. Desafio tudo e todos!

- Pudera! - disse Richelieu cuja cabeça

ardia.

- Que lhe oponham agora rivais! -

exclamou João embriagado com os seus planos e idéias triunfais.

- Oh! - disse Richelieu batendo na fronte. - Como! Caro marechal, que tem? -Nada, acho admirável a sua idéia de

liga.

- Não é verdade?

- E adopto plenamente a sua opinião. - Bravo!

- Taverney vive no Trianon com a filha? - Não, mora em Paris.

- É muito formosa a tal filha, caro conde.

- Fosse ela formosa como Cleópatra ou

como... a minha irmã, já a não temo... uma vez que esteja feita a nossa aliança.

- Disse que Taverney mora em Paris, na

Rua de Saint-Honoré, creio eu?

- Eu não disse que era na Rua de Saint-

Honoré, parece-me que é na Rua Coq-Héron que ele mora. Dar-se-á o caso que achasse uma idéia para castigar os Taverney?

- Parece-me que sim, conde, parece-me

que tive uma boa idéia.

- É um homem incomparável; deixo-o e

desapareço, vou ver o que se diz pela cidade.

- Então adeus, conde... É verdade, não

me disse qual era o novo ministério?

- Oh! São aves de arribação: Terray,

Bertin, não sei quem mais... Enfim, os predecessores de de Aiguillon, que é o verdadeiro ministério adiado.

- Que talvez o seja indefinidamente -

pensou o marechal dirigindo a João um amável sorriso, como para o despedir.

João saiu. Rafté entrou. Tinha ouvido

tudo e sabia o que devia pensar; todas as suas desconfianças acabavam de se realizar. Não disse palavra a seu amo.

Nem mesmo lhe chamou o criado de

quarto; conhecia muito bem o carácter do marechal, despiu-o ele mesmo e conduziu-o à cama, na qual o velho marechal se meteu logo, ardendo em febre, e engolindo umas pílulas que o secretário lhe deu.

Rafté correu as cortinas e saiu. A

antecâmara estava cheia de criados, à espreita. Rafté agarrou pelo braço no primeiro deles.

- Trata bem do senhor marechal - lhe

disse ele; - está doente. Teve esta manhã uma grande contrariedade; viu-se obrigado a desobedecer a el-rei...

- Desobedecer a el-rei - exclamou o

lacaio aterrado.

- Sim. Sua Majestade mandou-lhe uma

das pastas do ministério, o marechal soube que vinha por intervenção da du Barry e recusou-a! Oh! Foi um acto soberbo, e pelo qual os parisienses lhe devem um arco de triunfo: mas a luta foi forte, e nosso amo está doente; trata-o bem!

Rafté, depois destas palavras, cujo poder

circulativo logo calculou, voltou para o seu gabinete.

Um quarto de hora depois, Versalhes

toda sabia do nobre procedimento e do generoso patriotismo do marechal, que dormia um sono profundo sobre a popularidade que seu secretário acabava de lhe promover.