José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XXXIV
CATALEPSIA
Conforme dissemos, não foi de súbito
que Andreia se deixou cair, mas por gradações, que vamos tentar descrever.
Só, abandonada, atacada pelo frio
interior que sucede a todos os furiosos abalos do sistema nervoso, Andreia começou a vacilar e a tremer como no princípio de um ataque de epilepsia.
Gilberto continuava no seu posto,
imóvel, inclinado para diante e cobrindo-a com a vista. Mas para Gilberto, e é fácil de compreender, ignorante como era, dos fenómenos magnéticos, não havia ali nem sono, nem violência. Nada ou quase nada ouvira do diálogo com Bálsamo. O que notou foi que, pela segunda vez, tanto no Trianon como em Taverney, Andreia obedecera ao chamamento daquele homem, que sobre ela tomara tão terrível e singular influência; para Gilberto, resumia-se tudo nestas palavras: a menina Andreia tem, quando não seja um amante, pelo menos um homem a quem ama e com quem tem encontros nocturnos.
O diálogo que se verificara entre
Bálsamo e Andreia, conquanto fosse pronunciado em voz baixa, tinha ares de uma disputa. Bálsamo, fugindo, insensato, perdido, parecia um amante desesperado; Andreia, só, imóvel, muda, tinha todo o feitio de amante abandonada.
Foi naquele momento que a viu vacilar,
torcer os braços e girar sobre si; depois soltou dois ou três suspiros, que lhe rasgaram o peito opresso e esforçou-se, ou porque melhor digamos, a natureza fez esforço para lançar fora de si aquela massa mal ponderada de fluido que lhe tinha dado, durante o sono magnético, a dupla vista, cujos fenómenos vimos manifestarem-se no capítulo precedente.
Mas a natureza foi vencida, e Andreia
não pôde repelir aquele resto de vontade, que Bálsamo esquecera nela. Não pôde desatar as cadeias misteriosas, inextricáveis, que a tinham totalmente ligado, e à força de lutar, entrou nas convulsões que outrora as pítias experimentavam diante da chusma de religiosos interrogadores que rumorejavam no peristilo do templo.
Perdeu o equilíbrio, e soltando doloroso
gemido, ia cair por terra como se fora fulminada pelo estrondo do trovão que naquele momento rasgava a abóbada celeste.
Não chegou a tocar no chão, porque
Gilberto, com a agilidade e vigor do tigre, correu a ela, recebeu-a nos braços, e sem pensar no peso do fardo, levou-a para o aposento de onde ela saíra para obedecer ao chamamento de Bálsamo, e no qual se via ainda arder a luz próxima da cama, Gilberto achou todas as portas abertas, como Andreia as deixara.
Dirigiu-se para o sofá, onde deitou
Andreia, fria e inanimada.
Tudo nele era febre ao sentir o contacto
daquele corpo inanimado; os nervos tremiam-lhe e fervia-lhe o sangue.
Contudo, a sua primeira idéia, foi casta e
pura: era preciso primeiro que tudo chamar à vida a formosa estátua; procurou com a vista a garrafa para derramar-lhe algumas gotas de água no rosto.
Naquele momento, porém, quando
estendia a mão trémula para a garrafa de cristal, pareceu-lhe que uns passos, firmes e ligeiros ao mesmo tempo, faziam ranger a escada de madeira e tijolo que conduzia ao quarto de Andreia.
Não era Nicola, visto ter fugido com o
Sr. Beausire; também não era Bálsamo, porque partira a todo o galope no Djérid.
Não podia, portanto, deixar de ser
algum estranho.
Gilberto, surpreendido, seria posto fora
imediatamente; Andreia era para ele como as rainhas de Espanha, em quem um súdito não pode tocar nem para lhes salvar a vida.
Todas estas idéias envolveram como um
turbilhão o espírito de Gilberto em menos tempo do que levou o movimento de cada um dos passos fatais que sentira.
Os passos, que se iam aproximando,
vinham numa distância cuja exactidão Gilberto não podia calcular, tão grande era a bulha que naquele momento produzia a tempestade; mas dotado de um sangue-frio e prudência admiráveis, o mancebo compreendeu que não era ali o seu lugar, e que o mais importante de tudo era não ser visto.
Apagou depressa a luz que alumiava o
quarto de Andreia, e atirou consigo para o gabinete que servia de quarto a Nicola. Assim colocado, através da porta de vidraça daquele gabinete, podia ver ao mesmo tempo o quarto de Andreia e a salinha.
Nessa salinha estava uma lamparina
acesa. Gilberto tivera a princípio idéia de a apagar como apagara a luz do quarto, mas nem teve tempo para isso; sentiu passos no ladrilho do corredor, ouviu-se uma respiração um pouco opressa, apareceu um vulto no limiar da porta, entrou timidamente na salinha e fechou a porta correndo o fecho.
Gilberto teve apenas tempo de fugir
para o gabinete de Nicola, e fechar sobre si a porta de vidraça.
Susteve a respiração, chegou o rosto aos
vidros e prestou toda a sua atenção.
A procela bramia de um modo horrível,
grossas gotas da água açoitavam as vidraças da janela de Andreia e as do corredor, onde outra janela que ficara aberta rangia nos gonzos, e impelida de tempos a tempos pelo vento que soprava no corredor, batia com estrondo no caixilho.
Mas o tumulto da natureza, os rumores
do exterior, por mais terríveis que fossem, nada eram para Gilberto; todo o pensamento lhe estava concentrado no olhar que tinha cravado naquele homem.
O vulto atravessara a antecâmara,
passara dois passos distante de Gilberto, e sem hesitar entrara no quarto.
Gilberto viu aquele homem dirigir-se às
apalpadelas para a cama de Andreia, fazer um gesto de admiração ao achá-la deserta, e quase no mesmo instante tocou com o braço no castiçal que estava em cima da mesa.
O castiçal caiu, e Gilberto ouviu
quebrar-se a dirandela de cristal no mármore da mesa.
Então o homem chamou por duas vezes
em voz baixa:
- Nicola! Nicola!
- Como é isto? Nicola! - perguntou
Gilberto a si mesmo, no esconderijo. - Por que motivo chama aquele homem por Nicola, quando devia chamar por Andreia?
Mas, não tendo voz alguma respondido
à sua, o homem levantou do chão o castiçal, e caminhando no bico dos pés, foi acender a vela à luz da lamparina, que estava na antecâmara.
Foi então que Gilberto concentrou toda a
atenção no estranho e nocturno visitador; naquela ocasião teria visto através de um muro que fosse, tão activa era a vontade que empregava para que nada lhe escapasse.
De repente estremeceu, e apesar de estar
escondido, recuou um passo.
À luz das duas chamas, que se
combinavam, estremeceu, e meio morto de assombro, reconheceu el-rei no desconhecido que segurava o castiçal.
Então percebeu tudo: a fuga de Nicola, o
dinheiro contado entre ela e Beausire, e a porta deixada aberta, e Richelieu, e Taverney, e toda aquela intriga sinistra e misteriosa, cujo centro era Andreia.
Então compreendeu o motivo porque el-
rei acabava de chamar Nicola, medianeira naquele crime, Judas condescendente, que assim vendera e entregara a sua ama.
Mas com a idéia do que el-rei vinha
fazer àquele quarto, com a idéia do que se ia passar debaixo das suas vistas, o sangue subiu-lhe à cabeça e cegou-o.
Teve vontade de gritar, mas o medo,
esse sentimento irreflectido, caprichoso, irresistível, o medo que teve daquele homem, cheio de prestígio, a quem chamavam o rei de França, prendeu-lhe a língua.
Entretanto, Luís XV voltara ao quarto,
com a luz na mão.
Apenas entrou, viu Andreia com um
roupão de cassa branca, mais nua do que vestida, cuja cabeça pendia sobre as costas do sofá, tendo uma das pernas estendida sobre as almofadas, ao passo que a outra, inteiramente nua, lhe pendia sobre o tapete.
El-rei sorriu-se ao vê-la assim. A luz alumiou aquele lúgubre sorriso,
mas quase no mesmo instante um sorriso quase tão sinistro como o de el-rei iluminou o rosto de Andreia.
Luís XV murmurou algumas palavras,
que Gilberto interpretou como palavras de amor, e pondo o castiçal na mesa, voltando-se e lançando um olhar para o céu inflamado, foi ajoelhar diante de Andreia, cuja mão beijou.
Gilberto limpou o suor que lhe corria da
testa. Andreia não se moveu.
El-rei, que sentiu aquela mão gelada,
pegou nela para ver se a podia aquecer entre as suas, e envolvendo com um dos braços aquele corpo tão belo e delicado, inclinou-se para lhe dizer algumas dessas meiguices amorosas que se murmuram ao ouvido das donzelas quando dormem.
Naquele momento el-rei chegou de tal
modo a sua cara à de Andreia, que chegou a tocar nela.
Gilberto apalpou-se e respirou ao sentir
que trazia no bolso da véstia a navalha com que podava as árvores da quinta.
Andreia tinha o rosto tão gelado como
as mãos.
El-rei levantou-se, dirigiu os olhos para
o pé nu de Andreia, branco e formoso como o de uma fada. Tomou-o também entre as mãos e estremeceu.
O pé estava frio como o de uma estátua
de mármore.
Gilberto rangeu os dentes e abriu a
navalha, que até então conservara fechada.
Mas já el-rei tinha abandonado o pé de
Andreia, como fizera da mão, como fizera do rosto, e admirado daquele sono profundo, que primeiro atribuíra a fingida virtude, procurava adivinhar a causa daquele frio mortal que se apoderara das extremidades de tão belo corpo, e perguntava a si mesmo se realmente palpitava ainda o coração, quando a mão, o pé e o rosto estavam de tal modo gelados.
Abriu o roupão de Andreia, descobriu-
lhe o peito virginal, e com a mão cínica e tímida ao mesmo tempo, interrogou o coração mudo debaixo daquele seio gelado como o alabastro, de que tinha a rigidez e a alvura.
Gilberto deitou meio corpo fora da
porta, com o olhar chamejante, os dentes cerrados, resolvido, se el-rei continuasse na sua tentativa, a apunhalá-lo e a apunhalar-se a si.
De repente, um trovão horrível fez
estalar os móveis da casa e até o sofá, diante do qual Luís XV estava ajoelhado; novo relâmpago roxo e sulfúreo lançou sobre o rosto de Andreia uma chama tão lívida e tão viva, que Luís XV, assustado com aquela palidez, aquela imobilidade, aquele silêncio, recuou horrorizado murmurando:
- Mas esta rapariga está morta! No mesmo momento, a idéia de ter
abraçado um cadáver produziu-lhe um calafrio. Foi buscar a luz, voltou a Andreia e olhou para ela alumiada por aquela chama trémula. Ao ver-lhe os lábios roxos, os olhos pisados, os cabelos em desordem, e o seio sem o menor sinal de vida, soltou um grito, deixou cair a luz, cambaleou, e como um homem embriagado, passou tropeçando à saleta, tão espavorido que foi de encontro às paredes.
Depois ouviram-se-lhe os passos
precipitados descendo a escada, depois correrem no saibro do jardim; mas em breve o vento, que soprava no espaço e torcia as árvores, levou rumores e passos na sua corrente forte e procelosa.
Então Gilberto, com a navalha na mão,
saiu mudo e sombrio do seu esconderijo. Avançou até à porta do quarto de Andreia, e contemplou durante alguns segundos a formosa menina, tão profundamente adormecida.
Durante aquele tempo, a vela caída no
chão ardia sobre o tapete, alumiando o pé delicado e a perna formosíssima do adorável cadáver.
Gilberto fechou lentamente a navalha,
ao passo que no rosto se lhe desenhavam invisivelmente os sinais de uma resolução irrevogável. Em seguida foi escutar à porta por onde el-rei saíra.
Escutou por mais de um minuto. Depois, por sua vez também, como
fizera el-rei, fechou a porta e correu o fecho.
Em seguida apagou a lamparina da
saleta.
E, finalmente, com o mesmo vagar, com
o mesmo fogo sombrio nos olhos, voltou para o quarto de Andreia e pôs o pé sobre a vela, que derretida corria pelo tapete.
A súbita escuridão não permitiu ver o
fatal sorriso que se lhe deslizou nos lábios.
- Andreia! Andreia! - murmurou ele -
tinha prometido que a terceira vez que caísses em meu poder não me escaparias como das duas primeiras; Andreia! Andreia! O terrível romance que me acusaste de ter feito precisa um fim terrível.
E com os braços estendidos, caminhou
direito ao sofá onde Andreia se conservava deitada, sempre fria, imóvel, e privada de qualquer sentimento.
XXXV
A VONTADE
Vimos partir Bálsamo.
Djérid levava-o com a rapidez do raio. O
cavaleiro, pálido de impaciência e terror, inclinado sobre o cavalo, aspirava com os lábios entreabertos o ar, que se cortava contra o peito do cavalo como a água se corta contra a proa do barco veloz.
Atrás dele, como visões fantásticas,
desapareciam as árvores e casas. Mas via, ao passar, o pesado carro que gemia no seu eixo e cujos cinco possantes cavalos se espantavam ao ver aproximar aquele meteoro vivo, que não podiam considerar como pertencendo à sua espécie.
Assim percorreu Bálsamo
aproximadamente uma légua com o cérebro de tal modo inflamado, os olhos tão ardentes, a respiração tão abrasada e sonora, que os poetas de agora tê-lo-iam comparado com os terríveis génios cheios de fogo e vapor, que animam as pesadas e fumegantes máquinas, fazendo-as voar sobre um caminho de ferro.
Cavalo e cavaleiro haviam em poucos
segundos atravessado Versalhes; os poucos habitantes que ainda transitavam pelas ruas tinham visto passar um rastilho de faíscas, nada mais.
Bálsamo percorreu assim outra légua;
Djérid não gastara um quarto de hora em andar aquelas duas léguas, e esse quarto de hora tinha parecido um século ao dono.
De repente ocorreu uma idéia a
Bálsamo.
Parou de súbito o cavalo, que parecia ter
músculos de aço.
Ao estacar, Djérid vergou nas pernas e
as mãos enterraram-se-lhe na areia.
Cavalo e cavaleiro puderam então tomar
o fôlego mais à vontade.
Bálsamo, respirando sempre, ergueu a
sua cabeça imponente.
Depois limpou com um lenço as fontes
banhadas de suor, e dilatando as ventas à brisa da noite, pronunciou nas trevas as seguintes palavras:
- Oh! Pobre louco que és! Nem o correr
do teu cavalo, nem o ardor do teu desejo alcançarão nunca a instantaneidade do raio nem a rapidez da faísca eléctrica, e contudo é isso o que precisas para conjurar a desgraça suspensa sobre a tua cabeça; precisas o efeito rápido, o golpe imediato, o choque poderoso que paralise as pernas, cuja acção receias, a língua, cujas palavras temes; precisas, em distância, esse sono vencedor que te restitua a posse da escrava que se evadiu. Oh! Que se ela torna a cair em meu poder!...
E rangendo os dentes, mostrou Bálsamo
um gesto desesperado.
- Oh! É inútil querer, Bálsamo, é inútil
correr – bradou ele - Lorenza há-de já ter chegado; vai falar, talvez já falasse. Oh! Miserável mulher! Oh! Não há suplício bastante para te castigar.
“Vejamos, vejamos - continuou Bálsamo
enrugando a fronte, com os olhos fixos, apoiando a barba sobre a palma da mão - vejamos: a ciência é uma palavra ou um facto? A ciência pode ou não pode? Eu quero! Experimentemos... Lorenza, Lorenza, quero que durmas! Lorenza, em qualquer parte que estejas, dorme, dorme, eu to ordeno e conto com isso!
Oh! Não, não - murmurou ele
desanimado; - não, eu minto, não, eu não o creio; não, eu bem sei que não conto com isso, e entretanto a vontade é tudo. Oh! Contudo eu quero com toda a firmeza, eu quero com todo o poder da minha vida. Fende os ares, minha vontade suprema, atravessa todas essas correntes de vontades antipáticas ou indiferentes; atravessa as muralhas que deves atravessar como uma bala, persegue-a em qualquer parte onde a encontres; vai, fere, anula; Lorenza, Lorenza, quero que sejas muda, ordeno-o eu!”
E empregou por alguns instantes o seu
pensamento nesse fim, imprimindo-o no seu espírito para lhe dar maior força quando voasse para Paris; e depois dessa operação misteriosa, à qual sem dúvida concorreram todos os átomos divinos animados por Deus, senhor de todas as coisas, Bálsamo, com os dentes ainda cerrados, os punhos ainda fechados, abrandou mais as rédeas de Djérid, mas desta vez sem lhe chegar os joelhos nem as esporas.
Dir-se-ia por isto que Bálsamo queria
convencer-se a si mesmo.
Então o nobre animal caminhou
pausadamente segundo a fácil permissão que seu dono lhe concedia, pousando com a delicadeza particular à sua raça os pés quase silenciosos, tão leves eram, sobre as pedras da estrada.
E daí, Bálsamo, durante todo aquele
tempo, que a olhos superficiais pareceria perdido, Bálsamo combinava um plano de defesa; concluía-o no momento em que Djérid chegava à Calçada de Sèvres.
Chegado em frente da grade da quinta,
parou e olhou em torno de si; dir-se-ia que esperava alguém.
Com efeito quase no mesmo instante um
homem se destacou de sob um portal, e caminhou para ele apressadamente.
- És tu, Fritz? - perguntou Bálsamo. - Sou eu, mestre.
- Indagaste?
- Sim, senhor.
- A Srª. Condessa du Barry está em Paris
ou em Luciennes?
- Em Paris.
Bálsamo, satisfeito, ergueu para o céu
um olhar de triunfo.
- Como vieste?
- No Sultão.
- Onde está?
- No pátio desta estalagem. - Aparelhado?
- Aparelhado.
- Está bom, está pronto à primeira voz. Fritz foi desatar Sultão, que estava preso
a uma argola. Era um desses valentes cavalos alemães, de boa raça, que murmuram um pouco nas marchas forçadas, mas que não deixam por isso de andar enquanto têm fôlego nos flancos, e sentem as esporas do cavaleiro.
Fritz voltou a Bálsamo.
Este estava escrevendo à claridade da
lanterna da cavalariça.
- Volta para Paris e entrega, esteja onde
estiver, este bilhete à Srª. Condessa du Barry pessoalmente - disse Bálsamo; - tens para isso meia hora, depois do que voltarás à Rua de Saint-Claude, onde esperarás pela Srª. Lorenza, que não pode deixar de voltar; deixá-la-ás passar sem lhe dizer coisa alguma, e sem lhe opor o menor obstáculo; vai, e lembra-te principalmente que esse recado deve ser feito dentro de meia hora.
- Bem - disse Fritz - há-de ser executado.
E ao mesmo tempo que dava a Bálsamo
esta resposta tranqüilizadora, chegava o chicote e as esporas ao pobre Sultão, que, admirado daquela agressão a que não estava acostumado, partiu rinchando dolorosamente.
Quanto a Bálsamo, serenando a pouco e
pouco, foi seguindo pela estrada de Paris, onde entrou três quartos de hora depois, com o rosto quase sereno, e o olhar sossegado, mas extremamente pensativo.
É porque Bálsamo tinha razão: por mais
veloz que Djérid andasse, aquele filho rinchão do deserto, sempre andaria devagar; e só a sua vontade é que podia caminhar tão depressa como Lorenza evadida da prisão.
Da Rua de Saint-Claude dirigira-se ela
para o bulevar, e voltando à direita, viu em breve os muros da Bastilha; mas Lorenza, sempre fechada, não conhecia Paris: e demais, o seu primeiro intento era fugir da casa maldita em que só via uma prisão; a sua vingança era objecto secundário.
Acabava portanto de entrar no Bairro de
Santo António, toda perturbada e pressurosa, quando a ela se chegou um rapaz que havia minutos a seguia com grande admiração.
Efectivamente, Lorenza, italiana dos
subúrbios de Roma, tendo quase sempre passado uma vida excepcional, fora de todos os hábitos da moda, de todos os costumes e usos da época, Lorenza vestia-se mais depressa como mulher do Oriente do que como européia, isto é, sempre sumptuosamente, não se parecendo em coisa alguma com as encantadoras bonecas apertadas como vespas num cinto comprido e todas frementes de sedas e cassas, debaixo das quais se procuraria quase inutilmente um corpo, tão grande é a ambição de parecerem imateriais.
Portanto Lorenza não tinha conservado,
ou por melhor dizermos, não adoptara do trajo das francesas de então, senão os sapatos de duas polegadas de altura, esse calçado impossível que fazia dobrar o pé, torcer a delicadeza dos tornozelos, e que naquele século, um pouco mitológico, tornava impossível a fuga das Aretusas perseguidas pelos Alfeus.
O Alfeu que perseguia a nossa Aretusa
alcançou-a facilmente; tinha-lhe visto as pernas divinas debaixo das saias de cetim e de rendas, os cabelos sem pós e os olhos, que brilhavam com um fogo vivo debaixo de uma mantilha enrolada pela cabeça e pelos ombros, e julgou ver em Lorenza uma mulher disfarçada, quer para alguma mascarada, quer para alguma entrevista amorosa, que se dirigia a pé, por não poder alugar uma carruagem, para qualquer casa daquele bairro.
Aproximou-se por isso e pondo-se ao
lado de Lorenza, com o chapéu na mão:
- Santo Deus! Minha senhora - disse ele -
não poderá ir muito longe com semelhante calçado, que atrasa o passo; quer aceitar o meu braço até que encontremos uma carruagem, fazendo-me a honra de a acompanhar para onde for?
Lorenza voltou repentinamente a
cabeça, cravou os olhos negros e penetrantes naquele que lhe fazia um oferecimento, que a muitas mulheres pareceria uma impertinência, e parando, disse:
- Aceito.
O rapaz ofereceu-lhe o braço. - Onde quer ir, minha senhora? -
perguntou ele.
- Ao palácio do chefe da polícia. O rapaz estremeceu.
- A casa do senhor de Sartines?! -
perguntou ele muito admirado.
- Não sei se se chama o senhor de
Sartines, mas quero falar com o chefe da polícia.
O rapaz começou a pensar. Aquela mulher, nova e bonita, que em
trajo estrangeiro, às oito horas da noite, corria, pelas ruas de Paris, com uma caixa debaixo do braço e perguntando pelo palácio do chefe da polícia, do qual se afastava, pareceu-lhe deveras suspeita.
- Ah! Diacho! - disse ele - o palácio do
senhor chefe da polícia, não é para este lado.
- Então para que lado é?
- É no Bairro de Saint-Germain. - E por onde se vai para o Bairro de
Saint-Germain? Queira dizer-mo.
- Por aqui, minha senhora - respondeu o
rapaz, secamente, conquanto sempre cortês; - e se quiser, a primeira carruagem que encontrarmos...
- Sim, é verdade, uma carruagem, tem
razão, não me lembrava...
O mancebo conduziu Lorenza ao ponto
de onde viera, e encontrando uma carruagem no caminho, mandou logo parar.
O cocheiro apeou-se e perguntou: - Onde quer ir, minha senhora? - Ao palácio do senhor de Sartines -
respondeu o mancebo.
E com um resto de civilidade, ou antes
de admiração, abrindo a portinhola, cortejou Lorenza, e depois de a ter ajudado a subir, viu-a desaparecer como as visões de um sonho.
O cocheiro, cheio de respeito por tão
terrível nome, como era o do senhor de Sartines, fustigou os cavalos e dirigiu-se para o lugar indicado.
Foi então que Lorenza atravessou a
Praça Real, foi então que Andreia, no seu sono magnético, tendo-a visto e ouvido, a denunciou a Bálsamo.
Em vinte minutos chegou Lorenza à
porta do palácio do senhor de Sartines.
- Deverei esperar, minha formosa
senhora? – perguntou o cocheiro.
- Sim - respondeu Lorenza
maquinalmente.
E com toda a ligeireza entrou pelo
portão do esplêndido palácio.
XXXVI
O PALÁCIO DO SENHOR DE
SARTINES
Assim que entrou no pátio, viu-se
Lorenza rodeada de uma multidão de beleguins e soldados.
Dirigiu-se ao soldado que viu mais perto
de si, e pediu-lhe que a levasse à presença do chefe da polícia; o soldado indicou-lhe um contínuo, que, vendo aquela mulher tão formosa, tão estranha, tão ricamente vestida e trazendo debaixo do braço uma caixa tão rica, conheceu que a visita podia ser importante, e fê-la subir a uma sala, onde os que vinham, podiam, por meio de sagaz inquirição daquele porteiro, entregar ao senhor de Sartines, fosse de dia ou de noite, e a qualquer hora, algum esclarecimento, alguma denúncia ou algum requerimento. Já se sabe que as duas primeiras classes de visitantes eram mais favoravelmente recebidas que a última.
Lorenza, interrogada por um contínuo,
só respondeu por estas palavras:
- É o senhor de Sartines?
O contínuo ficou muito admirado por
ver que alguém pudesse confundir o seu fato preto e a sua corrente de aço com a farda bordada e a cabeleira empoada do chefe de polícia; mas, como um tenente nunca leva a mal que lhe chamem capitão, como pela voz de Lorenza conheceu que era estrangeira, como o olhar firme e seguro não era de doida, ficou convencido que aquela mulher trazia alguma coisa importante no cofre, que com tanto cuidado e segurança levava debaixo do braço.
Entretanto, como o senhor de Sartines
era homem prudente e desconfiado, e como por várias vezes lhe tinham sido armado laços, querendo-o seduzir por meios não menos horríveis que os da formosa italiana, todos em volta dele estavam alerta.
Lorenza teve portanto que passar pelas
investigações, interrogatórios e suspeitas de meia dúzia de secretários e lacaios.
O resultado de todas aquelas perguntas
e respostas foi que o senhor de Sartines não tinha ainda voltado, e que era preciso que Lorenza esperasse.
Então a italiana conservou-se em
completo silêncio e dirigiu os olhos para as paredes nuas da enorme sala em que se achava.
Ouviu-se o toque de uma campainha;
uma carruagem entrou no pátio, e um segundo contínuo veio dizer a Lorenza que o senhor de Sartines a estava esperando.
Lorenza levantou-se e atravessou duas
salas cheias de gente com rostos suspeitos e trajos ainda mais singulares que o seu; finalmente, foi introduzida num gabinete de forma octogonal, alumiado por grande quantidade de velas de cera.
Um homem de cinqüenta a cinqüenta e
cinco anos, de chambre, com uma enorme cabeleira, toda empoada e frisada, estava trabalhando sentado diante de uma secretária alta, cuja parte superior, semelhante a um armário, tinha duas portas feitas de espelhos, nos quais, sem se incomodar, podia muito bem ver aqueles que entravam no seu gabinete, e estudar-lhes a fisionomia antes que tivessem tempo de a harmonizar com a dele.
A parte inferior daquela secretária tinha
uma grande quantidade de gavetas de pau-santo; cada uma daquelas gavetas, que se fechavam pela combinação das letras do alfabeto, continha papéis e segredos, que ninguém em vida dele poderia ler, porque nenhuma outra pessoa podia abrir a secretária, e que ninguém depois da sua morte poderia decifrar, salvo se, em alguma gaveta, ainda mais secreta que as outras achasse o cifrante.
Aquela secretária, ou antes aquele
armário, debaixo dos espelhos da sua parte superior, tinha doze gavetas igualmente fechadas por um mecanismo invisível. Construído este móvel expressamente pelo regente para encerrar segredos químicos ou políticos, fora dado pelo príncipe a Dubois e deixado por Dubois ao Sr. Dombroval, chefe da polícia; fora este último quem o dera ao senhor de Sartines; todavia o senhor de Sartines não tinha querido servir-se dele senão depois da morte do doador, e ainda assim fizera-lhe modificações na fechadura.
Aquele móvel tinha alguma reputação, e
fechava muito bem, segundo diziam os que o conheciam, para que o senhor de Sartines se servisse dele unicamente para guardar as suas cabeleiras.
Os que criticavam naquela época,
diziam que se fosse possível ler através das tábuas daquele móvel, certamente se teriam achado nalguma das suas gavetas os famosos tratados, em virtude dos quais Sua Majestade Luís XV agiotava com os trigos, por intervenção do seu agente, o senhor de Sartines.
O senhor chefe da polícia viu portanto
no espelho reflectir-se o rosto pálido de Lorenza, que para ele caminhava com a caixa debaixo do braço.
Chegada ao meio do gabinete, parou. O trajo, o rosto e o andar da romana
atraíram a atenção do senhor de Sartines.
- Quem é a senhora? - perguntou ele sem
se voltar, mas olhando para o espelho; - o que quer de mim?
- Estou na presença do senhor de
Sartines, chefe da polícia? - perguntou Lorenza.
- Está - respondeu este secamente,. - O que pode assegurar-mo? O senhor de Sartines voltou-se. - Se a mandar prender, será para a
senhora uma prova de que sou a pessoa que procura? - disse ele.
Lorenza não respondeu, mas olhou em
redor de si, com a inexplicável dignidade das mulheres do seu país, para procurar a cadeira que o senhor de Sartines lhe não tinha ainda oferecido.
Ficou vencido com aquele único olhar,
porque era um homem muito bem educado o senhor de Alby de Sartines.
- Sente-se - disse-lhe bruscamente. Lorenza puxou uma poltrona e sentou-
se.
- Fale depressa - disse o magistrado; -
vamos, o que pretende?
- Senhor - disse a mulher - venho
acolher-me à sua protecção.
O senhor de Sartines olhou para ela com
o olhar fino que lhe era particular.
- Ah! Ah! - disse ele.
- Senhor - prosseguiu Lorenza - fui
roubada à minha família e submetida, por um falso casamento, a um homem, que há três anos me oprime e faz morrer de dor.
O senhor de Sartines olhou para aquela
nobre fisionomia, e sentiu-se comovido por aquela voz de um acento tão doce e tão harmonioso.
- De que terra é? - perguntou ele. - Sou romana.
- O seu nome?
- Lorenza.
- Lorenza de quê?
- Lorenza Feliciani.
- Não conheço essa família. É donzela? Donzela, bem se sabe, significava
naquela época menina de alta jerarquia. Em nossos dias, uma mulher julga-se nobre bastante no momento em que se casa, e já não deseja senão que lhe chamem senhora.
- Sou donzela - disse Lorenza. - E pede?...
- Peço justiça contra aquele homem, que
me encarcerou, seqüestrou...
- Isso não é da minha competência -
disse o chefe da polícia. - É esposa dele?
- Ele assim o diz, pelo menos. - Como? Ele assim o diz!
- Sim, mas não me recordo, porque o
casamento foi contratado durante o meu sono.
- Apre! Tem o sono bem pesado! - Como?
- Digo que isso não é da minha
competência: dirija-se a um procurador e intente acção; não gosto de me meter em negócios caseiros.
E com isto fez o senhor de Sartines um
gesto com a mão, que significava: retire-se.
Lorenza deixou-se estar.
- Então? - disse o senhor de Sartines
admirado.
- Não acabei - disse ela - e se venho aqui,
deve compreender que não é para me queixar de uma frioleira, mas para me vingar. Já lhe disse qual era a minha terra; as mulheres do meu país vingam-se, não se queixam.
- Isso é outro caso - disse o senhor de
Sartines; - mas depressa, formosa senhora, o meu tempo é precioso.
- Eu já lhe disse que vinha pedir-lhe
protecção; tê-la-ei?
- Protecção contra quem?
- Contra o homem de quem me quero
vingar.
- Então é ele poderoso?
- Mais poderoso que um rei. - Vamos, minha cara senhora,
expliquemo-nos... para que lhe hei-de eu conceder a minha protecção contra um homem, que, segundo diz, é mais poderoso que el-rei? Para alguma acção, que talvez seja criminosa? Se se quer vingar desse homem, vingue-se, que a mim pouco me importa; o que lhe digo é que se a senhora cometer algum crime, hei-de mandá-la prender, e depois veremos; é esta a marcha.
- Não, senhor - disse Lorenza - não me
mandará prender, porque a minha vingança é de grande utilidade para o senhor, para el-rei, para a França. Vingo-me revelando os segredos desse homem.
- Ah! Ah! Ele tem segredos? - disse o
senhor de Sartines, mostrando interesse mau grado seu.
- E grandes segredos, senhor.
- De que natureza?
- Políticos.
- Diga-os.
- Mas enfim, vejamos, terei a sua
protecção?
- Que qualidade de protecção me pede? -
disse o magistrado com um sorriso profundo; - dinheiro ou afeição?
- Peço, senhor, para entrar num
convento, e viver lá ignorada como se estivesse enterrada. Peço que esse convento seja para mim um túmulo, que nunca há-de ser violado por quem quer que seja.
- Ah! - disse o magistrado - a exigência
não é muito grande. Irá para um convento; fale.
- Dá-me a sua palavra, senhor? - Parece-me ter-lha já dado. - Então - disse Lorenza - receba esta
caixa; contém mistérios que o farão tremer pela segurança de el-rei e de todo o reino.
- Então conhece esses mistérios? - Superficialmente, mas sei que existem.
- E que são de importância? - Que são terríveis.
- Mistérios políticos, diz a senhora? - Nunca ouviu dizer que havia uma
sociedade secreta?
- Ah! A dos pedreiros?
- A dos invisíveis.
- Sim, mas não creio nela. - Quando tiver aberto essa caixa, há-de
crer.
- Ah! - bradou vivamente o senhor de
Sartines – vamos então ver.
E recebeu o cofre das mãos de Lorenza.
Mas de repente, tendo reflectido, pô-lo na secretária.
- Não - disse ele com desconfiança -
abra-o a senhora mesma.
- Mas eu não tenho a chave. - Como não tem a chave? Traz-me uma
caixa que contém o sossego do reino e esquece a chave!
- É coisa tão difícil abrir uma fechadura? - Não, quando se conhece.
Um instante depois, acrescentou: - Temos aqui chaves para todas as
fechaduras, vai dar-se-lhe um molho delas, e a senhora mesma a abrirá.
E dizendo isto olhava fixamente para
Lorenza.
- Dê-me as chaves - disse Lorenza
simplesmente.
O senhor de Sartines tocou-lhe na mão,
estava fria como se fosse de pedra.
- Mas - disse ele - por que não trouxe
consigo a chave do cofre?
- Porque o dono dela nunca a larga. - E o dono do cofre, esse homem mais
poderoso de que um rei, quem é?
- Quem é ele, ninguém o pode dizer; o
tempo que ele tem vivido, só o sabe a eternidade; as acções que pratica, só Deus as vê.
- Mas o seu nome, o seu nome? - Tenho-o visto mudar de nome mais de
dez vezes.
- Enfim, aquele pelo qual o conhece?
- Acharat.
- E mora?...
- Na rua de S...
De repente, Lorenza estremeceu, deixou
cair a caixa que segurava com uma das mãos e as chaves com a outra; fez um esforço para responder, a boca torceu-se-lhe numa convulsão dolorosa; levou as mãos ao peito, como se a afogassem as palavras que estavam próximas a sair: depois, erguendo para o céu os braços trémulos, sem ter podido articular um som, caiu sobre o tapete do gabinete.
- Pobre pequena! - murmurou o senhor
de Sartines; - o que será que a aflige? É que realmente é muito formosa. Bem, bem, nesta vingança há amor e ciúme.
Tocou a campainha e levantou ele
mesmo a italiana que, com o olhar desvairado, os lábios imóveis, parecia morta e já desligada deste mundo.
Entraram dois lacaios.
- Levem daqui cautelosamente esta
senhora – disse ele - e conduzam-na para a sala contígua. Vejam se a podem fazer tornar a si, e nada de violências. Vão!
Os criados obedeceram levando
Lorenza.
FIM DO QUARTO VOLUME
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Alexandre Dumas