José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 9 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo XII

 

EM QUE O LEITOR ENCONTRA

UMA ANTIGA CONHECIDA, QUE

JULGAVA PERDIDA, E DE QUEM

TALVEZ NÃO TENHA MUITAS

SAUDADES

O leitor certamente não perguntará por

que motivo mestre Flageot, que tão majestoso papel vai representar, era chamado procurador em vez de advogado e como nesta pergunta tem o leitor toda a razão, satisfaremos a sua exigência.

Os feriados eram desde algum tempo

muito repetidos nos parlamentos, e os advogados falavam tão pouco que nem valia a pena pensar nisso.

Mestre Flageot, prevendo o momento

em que não haveria mesmo nada que advogar, fez alguns contratos com mestre Guildou, procurador, que lhe cedeu escritório e freguesia pela soma de vinte e cinco mil libras dadas por uma só vez. Eis aqui o modo pelo qual vemos mestre Flageot feito procurador. Se nos perguntarem de que modo pagou as vinte e cinco mil libras, responderemos que foi casando com a Srª. Margarida, que herdou essa soma pelos fins do ano de 1770, três meses antes do exílio do senhor de Choiseul.

Havia muito tempo que mestre Flageot

se tornava saliente pela sua perseverança em sustentar o partido da oposição. Assim que se viu procurador, dobrou de violência, com a qual ganhou alguma celebridade, e foi essa celebridade, junta à publicação de uma memória incendiária sobre o conflito do senhor de Aiguillon com o senhor de La Chalotais, que atraiu a atenção do Sr. Rafté, o qual tinha necessidade de estar ao facto dos negócios do parlamento.

Mas, apesar da sua nova dignidade e

crescente importância, mestre Flageot não se mudou da Rua do Petit-Lion-Saint-Sauveur. Teria sido muito duro para a Srª. Margarida não ouvir as vizinhas chamarem-lhe a Srª. Flageot, e não ser respeitada pelos escreventes de mestre Guildou, agora ao serviço do novo procurador.

Pode-se imaginar o que sofreria o senhor

de Richelieu ao atravessar Paris, a nauseabunda Paris daquela zona, para chegar àquele buraco mal cheiroso a que a edilidade parisiense concedia o nome de rua.

Diante da porta de mestre Flageot, a

carruagem do senhor de Richelieu teve de parar por causa de outra carruagem que aí estava.

O marechal viu uma senhora que se

apeava daquela carruagem, e como os seus setenta e cinco anos não o tinham demitido do seu ofício de elegante, apressou-se em sujar os pés na lama para ir oferecer a mão àquela senhora que se apeava sozinha.

Mas, era um dia aziago para o marechal;

uma perna seca e rugosa, que se estendeu para o estribo, denunciou que era uma velha. Um rosto enrugado, pintado de vermelho, acabou de lhe provar que aquela mulher não só era velha, mas também decrépita.

Contudo não era possível recuar, o

marechal havia feito o movimento, que tinha sido visto; além disso, o senhor de Richelieu não era moço. Entretanto a demandista - e qual seria a mulher, possuindo carruagem, que entrasse em semelhante rua a não ser uma demandista? - entretanto, dizemos nós, a demandista não imitou a hesitação do duque; pôs com um sorriso horrível a sua pata na mão de Richelieu.

- Já vi esta cara nalguma parte - disse o

marechal em voz baixa.

E em voz alta acrescentou: - A senhora sobe também para a casa de

mestre Flageot?

- Sim, senhor duque - redargüiu a velha. - Oh! Tenho a honra de ser seu

conhecido, minha senhora?! - exclamou o duque, desagradavelmente surpreendido, parando no limiar do sombrio corredor.

- Quem não conhece o senhor marechal,

duque de Richelieu? - lhe respondeu ela. - Seria preciso para isso não ser mulher.

- Pelo que parece este mono conta-se no

número das mulheres! - murmurou em voz baixa o vencedor de Mahon.

E cortejou-a o mais amavelmente que

pôde.

- Perdoe-me a liberdade que tomo -

acrescentou ele - de perguntar com quem tenho a honra de falar?

- Sou a condessa de Béarn, uma sua

criada – respondeu a velha fazendo uma mesura da corte no sobrado lamacento do corredor, a três polegadas de distância de um alçapão que estava aberto no chão, e pelo qual o duque esperava maldosamente vê-la desaparecer, quando fizesse a sua terceira mesura.

- Estou encantado, minha senhora,

muito encantado de o saber, e dou mil agradecimentos ao acaso; tem também demandas, senhora condessa?

- Ah! Senhor duque, tenho uma só; mas

que demanda! Decerto terá ouvido já falar nela?

- É verdade, é verdade, aquela grande

demanda... é verdade, perdoe-me. Como diacho tinha eu esquecido semelhante coisa?

- Contra os Salúcios.

- Contra os Salúcios, sim, senhora

condessa; aquela demanda a respeito da qual fizeram aquela canção...

- Uma canção!... - disse a velha sentida –

que canção?

- Cuidado, minha senhora, há aqui um

recanto – disse o duque, que decididamente viu que a velha não se deixaria cair para dentro do alçapão; - agarre-se ao corrimão... Isto é, à corda.

A velha condessa subiu os primeiros

degraus. O duque seguiu-a.

- Sim, uma canção bem esquisita - disse

ele.

- Uma canção esquisita a respeito da

minha demanda...

- Ora! Ajuíze a senhora mesmo... Mas

talvez a conheça já?

- Nada, não.

- É para se cantar no tom da

Bourbonnaise; há uma copla que diz assim:

Minha rica condessinha,

Que me sirvais de madrinha. Vos venho suplicar...

- É a senhora du Barry quem fala,

percebe?

- É uma impertinência contra ela... - O que se lhe há-de fazer! Os

cançonetistas... A nada têm respeito. Santo Deus! Como esta corda está gordurenta!

Então a senhora responde isto:

Sou velha e teimosa,

Tenho uma demanda ruinosa. Quem ma vencerá?

- Ah! Senhor, isso é horrível! - exclamou

a condessa; - não se ultraja assim uma pessoa de bem.

- Desculpe, minha senhora, se cantei

desafinado; é porque venho cansado de subir esta maldita escada... Ah! estamos chegados; dê-me licença de tocar.

A velha demandista, resmungando,

deixou passar o duque adiante.

O marechal tocou, e a Srª. Flageot, que,

por ser procuradora não tinha deixado de ser porteira e cozinheira, veio abrir a porta.

Os dois demandistas, introduzidos no

gabinete de mestre Flageot, acharam um homem furioso que se esgrimia, de pena entre dentes, ditando um factum terrível ao seu primeiro escrevente.

- Meu Deus, mestre Flageot, o que é

isso? – bradou a condessa, cuja voz fez voltar o procurador.

- Ah! Minha senhora, sou seu humilde

servo. Uma cadeira à Srª. Condessa de Béarn. Aquele senhor vem consigo, minha senhora?... Ah! Mas não me engano; o Sr. Duque de Richelieu em minha casa!... Outra cadeira, Bernadete, outra cadeira!

- Mestre Flageot - disse a condessa - em

que alturas vai a minha demanda?

- Ah! Minha senhora, estava agora

justamente ocupando-me de si.

- Muito bem, mestre Flageot, muito bem. - E de um modo, senhora condessa, que

há-de dar que falar, assim o espero.

- Ah! Cuidado...

- Oh! minha senhora, já não há

necessidade de cautela...

- Se se ocupa de mim, então pode dar

audiência ao senhor duque.

- Senhor duque, desculpe - disse mestre

Flageot - mas é bastante delicado para não compreender...

- Compreendo perfeitamente, mestre

Flageot.

- Agora, estou inteiramente às suas

ordens.

- Sossegue, que eu não abusarei. Sabe o

que me traz aqui?

- Os sacos que o Sr. Rafté me entregou o

outro dia.

- Alguns documentos relativos à minha

demanda de... à minha demanda do... Com os diabos! Deve saber de que demanda pretendo falar, mestre Flageot.

- Da sua demanda da fazenda de

Chapenat.

- Sim, é essa; e far-ma-á ganhar,

saibamos? Seria uma bela acção da sua parte.

- Senhor duque, isso é negócio adiado

indefinidamente.

- Ora! Por quê?

- É negócio que se não há-de discutir

antes de um ano, pelo menos.

- Mas por que razão?

- As circunstâncias, senhor duque, as

circunstâncias... Viu o decreto de Sua Majestade?

- Creio que sim... Qual deles? Sua

Majestade promulga tantos decretos!

- O que anula o nosso.

- Muito bem. E depois?

- E depois, senhor duque,

responderemos a isso, queimando as nossas embarcações.

- Queimando as suas embarcações, meu

caro? Quer queimar as embarcações do parlamento? Isso é que eu não acho muito claro, mesmo porque ignorava que o parlamento tivesse embarcações.

- Talvez a primeira câmara se recuse a

registrar? – perguntou a condessa de Béarn, a quem a demanda do senhor de Richelieu não distraía por forma alguma.

- Melhor do que isso.

- A segunda também?

- Isso seria uma bagatela... As duas

câmaras tomaram a resolução de não julgar coisa alguma enquanto o senhor de Aiguillon não for retirado por el-rei.

- Ora adeus! - bradou o marechal

batendo as palmas.

- Não julgar mais... O quê? - perguntou a

condessa um tanto assustada.

- As demandas, minha senhora. - Pois não hão-de julgar a minha?! -

exclamou a senhora de Béarn possuída do maior terror.

- Nem a sua, minha senhora, nem a do

senhor duque.

- Mas é uma iniqüidade, é uma rebelião

às ordens de Sua Majestade!

- Minha senhora - respondeu

majestosamente o procurador - Sua Majestade El-rei cometeu um erro... Nós cometemos outro.

- Sr. Flageot, vai fazer com que o metam

na Bastilha, leu bem o aviso.

- Para lá irei cantando, minha senhora, e

se eu for, todos os meus colegas me seguirão levando palmas.

- Está doido! - disse a condessa para

Richelieu.

- Todos nós somos assim - redargüiu o

procurador.

- Oh! Oh! - disse o marechal - o caso é

curioso.

- Mas, senhor, ainda há pouco me disse

que se estava ocupando de mim - atalhou a condessa.

- Disse-o, é verdade... É o primeiro

exemplo que cito na minha narração; eu vou ler-lhe o parágrafo que lhe diz respeito.

E arrancou das mãos do seu escrevente o

factum começado, pôs os óculos e leu com ênfase:

“Perdido o seu estado, comprometidas

as suas fortunas, seus deveres calcados aos pés... Sua Majestade compreenderá quanto devem ter sofrido... Assim, o expositor tinha entre mãos um negócio importante, negócio do qual depende a fortuna de uma das primeiras casas do reino; por seus cuidados, por sua indústria, por seu talento, ouso dizê-lo, caminhava este negócio o mais favoravelmente que se podia esperar, e o direito da muito alta e muito poderosa Srª. Angélica Carlota Verónica, condessa de Béarn, ia ser reconhecido e proclamado, quando o sopro da discórdia... engolfando-se...”

- Estava neste ponto, minha senhora -

disse o procurador dando-se certos ares de importância - e parece-me que a figura de retórica é bela.

- Sr. Flageot - disse a condessa de Béarn -

há quarenta anos que pela primeira vez fiz advogar um negócio meu pelo senhor seu pai, digno e santo homem; continuei a ser sua cliente, tem ganho dez ou doze mil libras com os meus negócios, e talvez tivesse ganho outro tanto.

- Escreva, escreva isso tudo - disse

vivamente Flageot ao seu escrevente - é uma testemunha, é uma prova: será inscrita na confirmação.

- Ora - interrompeu a condessa - retiro-

lhe os meus autos; o começar neste momento, perdeu toda a minha confiança.

Mestre Flageot, assombrado com esta

notícia como se um raio lhe caíra em cima, ficou alguns momentos estupefacto; mas levantando-se logo como um mártir que confessa o seu Deus, disse:

- Está dito! Bernadete, restitua à senhora

condessa os seus autos, e consigna este facto - acrescentou ele que o expositor preferiu a consciência à fortuna.

- Perdão, condessa - disse o marechal ao

ouvido da senhora de Béarn - mas parece-me que não reflectiu.

- Em quê, senhor duque? - Retira os seus autos das mãos daquele

valente protestador? Para quê?

Mestre Flageot ergueu os olhos para o

céu com um fúnebre sorriso de abnegação, de resignação estóica.

- Mas - continuou o marechal, falando

sempre ao ouvido da condessa de Béarn - como está decidido que as câmaras nada julgarão, minha querida senhora, um outro procurador não poderá ocupar-se mais de si do que mestre Flageot...

- Então é uma liga?

- Pudera! Julga que mestre Flageot seria

tão tolo que fosse protestar sozinho para perder ele só o seu estabelecimento, se os seus colegas não fizessem como ele, e por conseqüência o não ajudassem?

- E o senhor duque, o que faz? - Eu declaro que mestre Flageot é um

procurador muito honrado, e que os meus autos tão bem estão em casa dele como em minha casa... Por conseqüência deixo-lhos, pagando-lhe sempre, já se sabe, como se a demanda prosseguisse.

- É com muita razão, senhor marechal,

que dizem que é um espírito generoso e liberal! - exclamou mestre Flageot; - eu propagarei essa fama que tem, senhor duque.

- Muito agradecido, meu caro

procurador – respondeu Richelieu inclinando-se.

- Bernadete! - bradou entusiasmado o

procurador ao escrevente - insira na peroração o elogio do Sr. Marechal de Richelieu.

- Não, não! Mestre Flageot, peço-lhe... –

redargüiu vivamente o marechal; - diacho! O que vai o senhor fazer? Gosto muito que se guarde segredo para aquilo a que se convencionou chamar uma boa acção... Não me queira desgostar, mestre Flageot, eu negaria tudo, desmentiria: a minha modéstia é susceptível... Vamos, condessa, que dizia a senhora?

- Digo que a minha demanda há-de ser

julgada... Que preciso um julgamento e que hei-de tê-lo.

- E eu digo-lhe que se a sua demanda for

julgada, minha senhora, é porque el-rei terá mandado os suíços, a cavalaria ligeira e vinte peças de artilharia para a sala grande - respondeu mestre Flageot com um ar bélico, que acabou por consternar a demandista.

- Não lhe parece então que Sua

Majestade possa desfazer essa liga? - disse Richelieu em voz baixa a Flageot.

- É impossível, senhor marechal; é um

caso inaudito; acabou-se a justiça em França, é como se se acabasse o pão.

- Julga isso?

- Verá.

- Mas el-rei há-de enfadar-se. - Estamos decididos a tudo! - Mesmo ao desterro?

- Mesmo à morte! Senhor marechal, a

saia que trazemos não nos tirou o coração.

E o Sr. Flageot bateu no peito um murro

vigoroso.

- Com efeito - disse Richelieu para a sua

companheira - parece-me este um mau negócio para o ministério.

- Oh! Sim - respondeu a velha condessa

depois de um instante de silêncio - e bem triste para mim, que me não importa com semelhantes coisas, ver-me presa neste conflito.

- Parece-me, minha senhora - disse o

marechal – que há alguém que a auxiliaria neste negócio, uma pessoa muito poderosa... Mas essa pessoa quererá?

- Será curiosidade de mais, senhor

duque, perguntar-lhe o nome dessa potência?

- É a sua afilhada - disse o duque. - Oh! Oh! A senhora du Barry? - Ela mesma.

- Efectivamente, é verdade... A sua idéia

é excelente.

O duque mordeu os lábios. - Pois quereria ir a Luciennes? - disse ele. - Sem hesitar.

- Mas a condessa du Barry não poderá

quebrar a oposição do parlamento.

- Hei-de dizer-lhe que quero ver a minha

demanda julgada, e como nada me pode recusar, depois do serviço que lhe prestei, ela dirá a el-rei que deseja isso. Sua Majestade falará com o chanceler, que é poderoso, senhor duque... Mestre Flageot, faça sempre o favor de estudar bem o meu negócio; há-de ser julgado mais cedo do que pensa: sou eu que lho afirmo.

Mestre Flageot virou a cabeça com uma

incredulidade que não fez desdizer a condessa.

Durante este tempo o duque tinha

reflectido.

- Então, como vai a Luciennes, minha

senhora, quereria fazer-me a honra de apresentar lá os meus sinceros respeitos?

- De muito boa vontade, senhor duque. - Somos companheiros de infortúnio; a

sua demanda está em perigo, a minha também; pedindo por si, trabalharia por mim... Além disso, poderia lá mostrar o desprazer que me causam aquelas cabeças duras do parlamento; acrescentará que foi a instâncias minhas que recorreu à divindade de Luciennes.

- Conte com isso, senhor duque. Adeus,

meus senhores.

- Faça-me a honra de aceitar a minha

mão para a conduzir à carruagem. Adeus, mestre Flageot, deixo-o entregue às suas ocupações...

O marechal conduziu a condessa para a

carruagem.

- Rafté tinha razão - disse ele - os Flageot

vão fazer uma revolução. Graças a Deus, estou especado por dois lados. Sou da corte e do parlamento. A senhora du Barry vai envolver-se na política e cair sozinha; se resiste, tenho a minha pequena mina do Trianon. Decididamente, aquele diabo de Rafté é da minha escola, e hei-de nomeá-lo chefe do meu gabinete no dia em que eu for ministro.