José Bálsamo, Volume IV
Capítulo XV
INFLUÊNCIA DAS PALAVRAS
DO DESCONHECIDO SOBRE J. J.
ROUSSEAU
Depois de ouvir aquelas palavras
singulares, pronunciadas por um homem que não conhecia, Rousseau, trémulo e desgostoso, atravessou os grupos, e sem se lembrar que era velho e que temia a multidão, abriu caminho; em pouco tempo chegou à ponte de Nossa Senhora; depois, continuando a pensar e a interrogar-se a si mesmo, atravessou o bairro da Grève, pelo qual chegava mais depressa ao seu.
- Assim - disse ele - este segredo que
todo o iniciado guarda ao perigo da sua vida, está na boca de qualquer. Eis aí o que as associações misteriosas ganham em passar pela peneira popular... Um homem conhece-me, sabe que hei-de ser seu associado, e talvez seu cúmplice acolá. Um semelhante estado de coisas é absurdo e intolerável.
E dizendo estas palavras, Rousseau
caminhava apressadamente, cheio de precauções, principalmente desde o seu desastre da Rua Mepilmontant.
- Assim - continuava o filósofo - terei
querido saber o fundo desses planos de regeneração humana que propõem certos espíritos que tomam o título de iluminados; terei feito a loucura de crer que da Alemanha podem vir idéias boas, da Alemanha! Uma terra de cerveja e de névoa; terei comprometido o meu nome com o de alguns loucos ou intrigantes aos quais servirá de capa para abrigarem as suas loucuras! Oh! Não, não será assim; não, um raio mostrou-me o abismo, não irei lançar-me nele com o coração nas mãos.
E Rousseau tomava o fôlego, apoiado na
sua bengala, de pé e um instante imóvel no meio da rua.
- Era portanto - prosseguiu o filósofo -
uma bela quimera: a liberdade na escravidão, o futuro conquistado sem abalos nem tumultos, a meada misteriosamente urdida durante o sono dos tiranos da terra... Era belo demais, fui louco em lhe dar crédito. Não quero receios, suspeitas, sombras, que são indignas de um espírito livre e de um corpo independente.
Estava nisto e começava a prosseguir
novamente no seu caminho, quando a vista de alguns agentes do senhor de Sartines, passeando com os seus olhos de lince, espantou o espírito livre, e tal impulso deu ao corpo independente, que foi sumir-se no mais profundo da sombra dos pilares por entre os quais caminhava.
Dos pilares à Rua Platrière a distância
não é grande. Rousseau andou esse caminho com rapidez, subiu as escadas respirando como um gamo perseguido pelos caçadores, e foi cair sobre uma cadeira no seu quarto, sem poder responder uma única palavra a todas as perguntas de Teresa.
Acabou finalmente de senhorear a sua
comoção: era o caminho, o calor, a nova da cólera de el-rei na sessão real, uma comoção do terror popular, um recochete do que acabava de se passar.
Teresa respondeu resmungando, que
não era isso uma razão para deixar esfriar o jantar, e que demais, um homem não devia ser um maricas e intimidar-se por qualquer coisa.
Rousseau não teve resposta para opor a
este último argumento, que tantas vezes ele mesmo tinha proclamado em outros termos.
Teresa acrescentou que esses filósofos,
essa gente de imaginação eram todos os mesmos... que não cessam, nos seus escritos, de pregar a desordem; que anunciam não terem medo de coisa alguma; que têm Deus e os homens em pequena conta... mas que ao mais pequeno sinal do cão, bradam: “Socorro!”, que ao mais leve ataque da febre, gritam: “Meu Deus! Estou morto”.
Era este um dos temas favoritos de
Teresa, o que mais fazia brilhar a sua eloqüência, aquele para que Rousseau, naturalmente tímido, achava piores respostas. Também Rousseau embalava ao som dessa áspera música o seu pensamento, que por certo valia mais que o de Teresa, apesar de todos os ralhos desta mulher.
- A felicidade compõe-se de perfumes e
sussurros - dizia ele; - ora, a bulha e o cheiro são coisas de convenção... Quem quererá decidir que a cebola não cheira tão bem como a rosa, e que o pavão não tem o canto tão harmonioso como o rouxinol?
Com este axioma que podia passar por
ser um belo e bom paradoxo, foram para a mesa e jantaram.
Rousseau, depois de jantar, não foi
sentar-se ao piano, como costumava. Deu cinqüenta voltas pelo quarto, e olhou mais de cem vezes pela janela fora para estudar a fisionomia da Rua Platrière.
Teresa teve então um ataque de ciúme
como o costumam ter por contrariedade as pessoas desinquietas, isto é, as pessoas da terra que realmente são menos ciosas.
Porque, se há uma afectação que seja
desagradável, é a de um defeito; ainda se pode desculpar quando essa afectação é de qualidades boas.
Teresa, que desprezava profundamente
a virilidade, a compleição, o espírito de Rousseau, Teresa, que o achava velho, doente e feio, não tinha medo que lhe seduzissem o marido; não supunha que as mulheres o pudessem ver com melhores olhos do que ela. Entretanto, como para uma mulher, o suplício do ciúme é um dos mais deliciosos bocados, Teresa regalava-se com isso algumas vezes.
Vendo Rousseau chegar tão amiudadas
vezes à janela, pensar e não estar quieto, disse-lhe:
- Bom! Compreendo o motivo da tua
agitação... Separaste-te ainda agora de alguém.
Rousseau olhou para Teresa com um
modo espantado, o que foi mais um indício para ela.
- Alguém que queres tornar a ver -
prosseguiu ela.
- Como? - disse Rousseau. - Temos entrevistas, segundo parece? - Oh! - disse Rousseau que conheceu que
era uma cena de ciúmes; - entrevistas! Estás doida, Teresa?
- Eu bem sei que seria uma loucura, mas
és capaz de tudo - disse ela. - Vai, vai fazer conquistas, com essa cor de papel mastigado, com as tuas palpitações no coração, com a tua tosse seca: é um excelente meio para abreviares a existência.
- Mas, Teresa, sabes muito bem que isso
não é assim - disse Rousseau enfadado; - deixa-me pensar sossegadamente.
- És um libertino - disse Teresa com a
maior seriedade.
Rousseau corou como se acabassem de
lhe dizer uma verdade, ou de lhe dirigir um cumprimento.
Então julgou Teresa que devia mostrar
um rosto terrível, a ponto de perturbar a ordem da casa, fazer estalar as portas e divertir-se com a tranqüilidade de Rousseau, como as crianças se divertem com esses anéis de metal que metem dentro de caixas e que sacodem para fazer bulha.
Rousseau refugiou-se no seu gabinete.
Este tumulto tinha enfraquecido um pouco as suas idéias.
Pensou que haveria certamente perigo
em não assistir à cerimónia misteriosa de que lhe falara o estranho.
- Se há castigos contra os reveladores,
deve igualmente havê-los contra os que são desleixados – pensou ele. - Ora, sempre notei que os grandes perigos nada são, nem as grandes ameaças; os casos de aplicação de castigos em tais circunstâncias são muito raros; mas, para as pequenas vinganças, os ataques ocultos, as mistificações e outras coisas assim, é preciso muita cautela. Algum dia os irmãos maçónicos se vingariam do meu desprezo, atravessando-me uma corda na escada; eu quebraria uma perna e os oito ou dez dentes que ainda tenho... ou terão uma pedra pronta, para ma deixar cair sobre a cabeça quando eu passar junto de alguns andaimes... Melhor do que isso, há-de haver lá na loja algum panfletário que viva perto de mim, talvez no mesmo patamar onde moro, mergulhando as suas vistas pela janela do meu quarto. Não é impossível, pois que as reuniões têm lugar mesmo na Rua Platrière... Sim, e esse velhaco escreverá a meu respeito tolices que me hão-de tornar ridículo na cidade inteira... Não tenho eu inimigos por toda a parte?
Um instante depois, Rousseau mudava o
seu modo de pensar, e dizia consigo:
- Então, onde está a coragem, a honra?
Terei medo de mim mesmo? Não verei no meu espelho senão o rosto de um velhaco e de um medroso? Não, não será assim... Ainda que se coligasse todo o Universo para minha desgraça, ou tivesse de cair sobre a minha cabeça o subterrâneo desta rua, hei-de ir... Bela razão, que só nasce do medo. Desde a minha volta, por causa do encontro com aquele homem, vejo que não faço mais que girar num círculo de inépcias. Eis que duvido de todos e de mim mesmo! Isto não é lógico... Eu conheço-me, não sou um entusiasta; se julguei ver maravilhas na projectada associação é porque efectivamente há maravilhas. Quem me diz que não serei eu o regenerador do género humano? Eu, que vieram procurar, eu, que os agentes misteriosos de um poder sem limites vieram consultar sobre a fé dos meus escritos, recuarei quando se trata de prosseguir na minha obra, de substituir a aplicação à teoria?
Rousseau animava-se.
- Como isto é belo! As idades
progridem... Os povos saem do embrutecimento, o passo segue o passo na escuridão, a mão segue a mão na sombra: está-se erguendo a imensa pirâmide em cima da qual, para coroa, hão-de os séculos futuros pôr o busto de Rousseau, cidadão de Genebra, que, para fazer como disse, arriscou a sua liberdade, a sua vida, isto é, foi fiel à sua divisa: Vitain impendere vero.
Rousseau, transportado com isto, foi
sentar-se ao piano, e acabou de exaltar a sua imaginação com melopeias as mais sonoras e guerreiras que dele pôde tirar.
Veio a noite. Teresa, cansada de ter em
vão atormentado o seu cativo, dormia sentada na cadeira; Rousseau estudou um pouco diante do espelho a expressão dos seus olhos negros, achou-os vivos e expressivos, o que o encantou.
Encostou-se à sua bengala de junco, e,
sem despertar Teresa, esquivou-se do quarto.
Mas, chegando ao fim da escada, depois
de ter aberto a porta que dava para a rua, Rousseau começou a olhar para fora, a fim de se assegurar do estado da localidade.
Não passava carruagem alguma; a rua,
segundo o costume, estava cheia de ociosos, que olhavam uns para os outros, como também é costume, enquanto muitos paravam diante das vidraças das lojas para verem as raparigas dos balcões.
Portanto, um homem mais ou um
homem menos passava desapercebido naquele turbilhão. Rousseau precipitou-se nele; o caminho não era extenso.
Um cantor de ruas com uma desafinada
rabeca estava parado diante da porta que tinha sido designada a Rousseau. Essa música, a que são sensíveis os ouvidos de todo o verdadeiro parisiense, enchia as ruas de ecos que iam repetindo os últimos compassos da música tocada pela rabeca ou cantada pelo artista-filarmónico.
Nada portanto era mais desfavorável ao
movimento circulador que o pejamento formado naquele lugar pelo círculo dos auditores. Era preciso necessariamente que todo o passeante voltasse para a direita ou esquerda do grupo; os que voltavam à esquerda tomavam o centro da rua, os que voltavam à direita seguiam por pé da casa designada.
Rousseau notou que vários daqueles
passeantes se sumiam no caminho, como se caíssem por algum alçapão. Supôs que aqueles tinham vindo para o mesmo fim que ele vinha, e resolveu imitar as suas manobras; era coisa fácil.
Tendo passado por detrás do grupo dos
auditores, como se quisera também parar, pôs-se à espreita da primeira pessoa que visse entrar no corredor, cuja porta estava aberta. Mais timorato do que aqueles, porque sem dúvida, tinha mais que arriscar, esperou que a ocasião se apresentasse algumas dez vezes.
Não esperou muito mais. Um carrinho
que vinha pela rua cortou ao meio o círculo e operou um recalcamento dos dois hemisférios contra as casas. Rousseau achou-se colocado mesmo no limiar do corredor; e não faltava senão continuar... O nosso filósofo observou que todos os curiosos, dando só atenção ao carro, voltavam as costas para a casa; aproveitou o seu isolamento e desapareceu nas profunduras do corredor escuro.
Passados alguns segundos, viu uma luz
junto da qual estava um homem, sentado com muito sossego, como um vendilhão descansando dos trabalhos do dia, lendo ou fingindo ler um periódico.
Ao rumor dos passos de Rousseau,
aquele homem levantou a cabeça e colocou visivelmente um dedo sobre o peito, alumiado pela luz da lâmpada.
Rousseau respondeu àquele gesto
simbólico pondo um dedo sobre os lábios.
O homem ergueu-se imediatamente, e
empurrando uma porta que lhe ficava da direita, porta invisível pela perfeição artística com que era talhada no tabique de madeira a que ele estava encostado, mostrou a Rousseau uma escada muito íngreme que levava para debaixo da terra.
Rousseau entrou; a porta fechou-se sem
bulha, mas com rapidez.
Rousseau, auxiliando-se com a bengala,
desceu os degraus. Achava mau que para primeira prova lhe impusessem os associados o perigo de partir a cabeça e as pernas.
Mas a escada, se era íngreme não era
muito grande. Rousseau contou dezessete degraus, e logo foi invadido por um calor fortíssimo que lhe bafejou os olhos e o rosto.
Esse calor úmido era o sopro de um
certo número de homens reunidos naquele subterrâneo.
Rousseau notou que as paredes eram
forradas de panos vermelhos e brancos, sobre os quais estavam figurados vários instrumentos de trabalho, certamente mais simbólicos do que reais. Uma única lâmpada, pendida da abóbada, lançava um reflexo sinistro sobre os rostos, aliás muito honrados, das pessoas que conversavam entre si em voz baixa sentadas em bancos de pau.
Não havia no chão nem tapete nem
soalho de luxo, mas sim uma esteira muito grossa que abafava o ruído dos passos.
Rousseau, portanto, não produziu
sensação alguma entrando.
Ninguém pareceu ter reparado que ele
tinha entrado.
Cinco minutos antes, Rousseau teria
desejado uma semelhante recepção, e contudo, uma vez entrado, sentiu não ter merecido mais atenção.
Viu um lugar vazio num dos últimos
bancos; instalou-se nele e com a maior modéstia por detrás de todos os mais.
Contou trinta e três cabeças na
assembléia. Uma mesa de escritório, elevada sobre um estrado, esperava um presidente.
XVI
A LOJA DA RUA PLATRIÈRE
Rousseau notou que a conversação dos
assistentes era muito discreta e restrita. Muitos nem moviam os lábios. Apenas meia dúzia deles diziam algumas palavras.
Outros não só não falavam senão que
procuravam ocultar o rosto, o que não era difícil, graças à grande sombra projectada pelo estrado do presidente que se esperava.
O refúgio desses, que pareciam ser os
tímidos, era por detrás daquele estrado.
Mas, em compensação, dois ou três
membros da corporação procuravam de mil modos reconhecer os colegas. Iam, vinham, falavam entre si, e muitas vezes desapareciam, cada qual por sua vez, por uma porta encoberta por um reposteiro preto com chamas vermelhas.
Pouco depois ouviu-se uma campainha.
Um homem afastou-se pura e simplesmente do canto do banco onde se achava confundido com os outros pedreiros, e tomou o seu lugar no estrado.
Depois de ter feito alguns sinais com as
mãos e os dedos, sinais que foram repetidos por todos os assistentes, e aos quais ajuntou um mais explícito que os outros, declarou que estava aberta a sessão.
Aquele homem era absolutamente
desconhecido a Rousseau: sob a aparência de um artífice abastado, ocultava muita presença de espírito, auxiliada por uma elocução tão fácil quanto se poderia desejar num orador.
O seu discurso foi claro e breve.
Declarava que a loja se reunia para proceder à recepção de um novo irmão.
- Não vos admireis - disse ele - que vos
tenhamos reunido num local onde não podem ter lugar as provas ordinárias; os chefes julgaram inúteis as provas. O irmão que se trata de receber é um dos fachos da filosofia contemporânea, é um espírito profundo, que nos será dedicado por convicção, e não por temor. O que sondou todos os mistérios da natureza e do coração humano não poderia ser impressionado do mesmo modo que o simples mortal a quem pedimos o auxílio dos braços, da vontade e do dinheiro. Para termos a cooperação desse espírito distinto, desse carácter honrado e enérgico, basta-nos a sua promessa, a sua aquiescência.
O orador acabou assim a sua proposta e
olhou em redor de si para examinar o efeito que produzira.
Sobre Rousseau o efeito fora mágico: o
genebrês conhecia os mistérios preparatórios da maçonaria; tinha-os visto com uma espécie de repugnância naturalíssima nos espíritos esclarecidos; essas concessões, todas absurdas, visto que eram inúteis, que os chefes exigiam dos candidatos para simular o medo, quando se sabe que nada há que temer, pareciam-lhe o cúmulo da puerilidade e da superstição frívola.
Mais ainda: ao tímido filósofo, inimigo
das manifestações e exibições individuais, havia de desagradar-lhe o ter que dar a sua pessoa em pábulo a gente que não conhecia, e que, isso era certíssimo, o mistificavam com mais ou menos boa fé.
Portanto, ver-se dispensado das provas,
foi para ele mais do que uma satisfação. Conhecia o rigor da igualdade na presença dos princípios maçónicos; ora, uma excepção em seu favor constituía um triunfo.
Aprontava-se para responder nalgumas
palavras à facúndia do presidente, quando no auditório se levantou uma voz.
- Pelo menos - disse essa voz, que era
aguda e vibrante - já que vos julgais obrigado a tratar como príncipe um homem como nós, pelo menos, já que o dispensais das angústias físicas, como se não fosse um dos nossos símbolos alcançar a liberdade por meio do padecimento do corpo, esperamos que não ireis conferir um título precioso a um desconhecido sem lhe ter feito as perguntas do rito, e sem ter recebido a sua profissão de fé.
Rousseau voltou-se para ver o rosto do
agressor que batia tão bruscamente no carro do triunfador.
Reconheceu então, com a mais viva
surpresa, o moço cirurgião que, naquela mesma manhã ainda, encontrara no Cais das Flores.
O sentimento da sua boa fé, um
sentimento de desdém talvez pelo título precioso, cortou-lhe a resposta.
- Ouvistes? - disse o presidente,
dirigindo-se a Rousseau.
- Perfeitamente - respondeu o filósofo, a
quem a própria voz fez estremecer quando soou debaixo das abóbadas do sombrio subterrâneo. - Ora, muito mais me admiram as interpelações quando vejo por quem foram feitas. Pois quê! Um homem tem por ofício combater o que se chama o padecimento físico, e acudir aos seus irmãos, que o são tanto os homens ordinários como os Maçãos; um tal homem vem aqui pregar a utilidade dos padecimentos físicos!... Escolhe um singular caminho para conduzir a criatura à felicidade, o enfermo à saúde!
- Aqui não se trata deste ou daquele -
redargüiu apressadamente o mancebo; - sou desconhecido ao candidato, assim como ele me é desconhecido. Sou lógico, e sustento que o venerável fez mal em fazer distinção de pessoas. Desconheço este homem (e apontou para Rousseau, o filósofo), queira ele não ver em mim o praticante de cirurgia. Assim, devemos talvez andar toda a vida ao lado um do outro, sem que nunca um olhar, um gesto denuncie a nossa intimidade, mais estreita contudo, graças ao nó da associação, de que todas as amizades vulgares. Repito, portanto, que se julgaram dever dispensar o candidato das provas, há lugar contudo para se lhe fazerem ao menos as perguntas.
Rousseau não deu resposta. O
presidente leu-lhe no rosto o desgosto da discussão e o arrependimento de se ter envolvido em semelhante empresa.
- Irmão - disse ele com autoridade ao
mancebo - espero que guardareis silêncio quando o chefe fala, e que não tornareis a censurar levianamente os seus actos, que são soberanos.
- Tenho direito para interpelar -
respondeu mais brandamente o mancebo.
- Para interpelar, sim, para censurar,
não. O irmão que vai entrar na associação é conhecido bastante para que procuremos meter nas nossas relações maçónicas um ridículo e inútil mistério. Todos os irmãos presentes lhe sabem o nome, e esse nome é uma garantia. Mas como estou certo de que ele mesmo preza a igualdade, rogo-lhe que responda à pergunta que lhe dirijo unicamente pró-forma: Que buscais na associação?
Rousseau deu dois passos, e isolando-se
da multidão, percorreu a assembléia com um olhar pensativo e melancólico.
- Busco - disse ele - o que não posso
achar: verdades e não sofismas. Por que motivo me cercareis de punhais que não ferem, de venenos que são água pura, e de alçapões por baixo dos quais estão dispostos colchões?! Conheço o recurso das forças humanas. Conheço o vigor da minha mola física: se a despedaçais, não vale a pena eleger-me vosso irmão; morto, de nada vos serviria; portanto não me quereis matar, e ainda menos ferir-me, e todos os praticantes de cirurgia do mundo não me fariam achar boa a iniciação em que me quebrassem um membro.
“Mais do que todos vós tenho eu
experimentado as dores humanas; sondei o corpo e examinei a alma. Se aceitei vir unir-me a vós quando mo pediram (e acentuou esta palavra), é que julgava poder ser útil. Portanto, dou, não recebo.
Ai! antes que tenhais algum poder para
me defender, antes que por vossos próprios meios me deis a liberdade se me prenderem, pão, se me esfaimarem, consolações, se me afligirem; antes, digo eu, que sejais alguma coisa, este irmão que hoje admitis, se aquele senhor der licença - acrescentou voltando-se para Marat - terá pago o seu tributo à natureza, porque o progresso é coxo, porque a luz é lenta, e do lugar onde ele tiver caído nenhum de vós o poderá tirar...”
- Estais enganado, ilustre irmão - disse
uma voz suave e penetrante, que atraiu gratamente a atenção de Rousseau - na associação que vos dignais aceitar há mais do que pensais; há todo o futuro do mundo; o futuro, bem o sabeis, é a esperança, é a ciência; o futuro é Deus, que deve dar a luz ao mundo, visto que prometeu que a daria. Ora, Deus não sabe mentir.
Rousseau, admirado de tão elevada
linguagem, olhou e conheceu o homem ainda moço que ao sair da sessão real se despedira dele até à noite.
Aquele homem, vestido de preto, com
certa elegância e principalmente com grande distinção, estava encostado a um dos lados do estrado, e o seu rosto, alumiado por uma luz pálida, brilhava com toda a graça, toda a expressão natural.
- Ah! - disse Rousseau - a ciência, abismo
sem fundo! Falais-me em ciência, vós! consolação, futuro, promessa; outro fala-me na matéria, em rigor e violência; a qual devo dar crédito? Será então a assembléia dos irmãos como os lobos devoradores do mundo que acima das nossas cabeças se agita? Lobos e ovelhas! Escutai a minha profissão de fé, já que não a lestes nos meus livros.
- Vossos livros! - bradou Marat - são
sublimes, concordo; mas são utopias; sois útil sob o mesmo ponto de vista que Pitágoras, que Sólon e que Cícero, o sofista. Indicais o bem, mas um bem artificial, impalpável, inacessível; pareceis-vos com aquele que queria nutrir uma chusma de esfaimados com bolhas de ar mais ou menos iriadas pelo Sol.
-Vistes já - disse Rousseau franzindo o
sobrolho - operarem-se as grandes comoções da natureza sem preparação? Vistes nascer o homem, esse acontecimento vulgar e contudo sublime? Viste-lo nascer sem que tenha adquirido durante nove meses a substância e a vida nas entranhas da mãe? Ah! Quereis que eu regenere o mundo com actos. Isso não se chama regenerar, senhor, chama-se revolucionar!
- Então - redargüiu violentamente o
moço cirurgião - então não quereis a independência! Então não quereis a liberdade!
- Pelo contrário - respondeu Rousseau -
porque a independência é o meu ídolo; porque a liberdade é a minha deusa. Só o que pretendo é uma liberdade suave e radiosa, que aqueça e vivifique. Quero uma liberdade que aproxime os homens pela amizade, e não pelo temor. Quero a educação, a instrução de cada elemento do corpo social, como o mecânico quer a harmonia, como o marceneiro quer a samblagem, isto é, o concurso perfeito, o ajustamento absoluto de cada peça do seu trabalho. Repito, quero o que escrevi: o progresso, a concórdia, a dedicação.
Marat mostrou nos lábios um sorriso de
desprezo.
- Sim, os rios de leite e de mel - disse ele
– os Campos Elísios de Virgílio, sonhos de um poeta que a filosofia quisera tornar realidade.
Rousseau não disse palavra. Parecia-lhe
árduo ter que defender a sua moderação, ele a quem a Europa toda chamara violento inovador.
Tornou a sentar-se silenciosamente,
depois de ter, para satisfação da sua alma lhana e tímida, consultado com o olhar a personagem que pouco antes o defendera e cuja aprovação tácita alcançou.
O presidente levantou-se.
- Ouvistes? - disse ele a todos. - Sim - respondeu a assembléia. - O candidato parece-vos digno de
entrar na associação? Compreende ele os seus deveres?
- Sim - respondeu a assembléia, mas com
certa reserva, que indicava falta de unanimidade.
- Prestai o juramento - disse o presidente
a Rousseau.
- Ser-me-ia desagradável - respondeu o
filósofo com certo orgulho - causar desprazer a alguns membros desta associação, e devo novamente repetir as palavras que há pouco proferi, e que são a expressão da minha convicção. Se eu fosse orador, poderia desenvolvê-las de maneira convincente; mas a minha língua é rebelde e trai sempre o meu pensamento, quando lhe peço uma tradução imediata. Quero dizer que faço mais para o mundo e para vós longe desta assembléia do que faria, praticando assiduamente os vossos costumes; portanto, deixai-me com os meus trabalhos, a minha fraqueza e o meu isolamento. Já o disse, estou inclinado para o sepulcro: cuidados, enfermidades, misérias, tudo me impele fortemente para o túmulo; não tendes poder para retardar esta grande obra da natureza; abandonai-me, não sou feito para caminhar com os homens, odeio-os e fujo deles; contudo sirvo-os porque também sou homem, e servindo-os imagino que são melhores do que são na realidade. Agora, tendes todo o meu pensamento; não direi mais palavra.
- Recusais então prestar o juramento? -
disse Marat com certa comoção.
- Recuso positivamente; não quero fazer
parte da associação: demasiadas provas me estão indicando que seria inútil.
- Irmão - disse o desconhecido da voz
conciliadora - permiti-me que assim vos chame, porque realmente somos irmãos fora de toda a combinação do espírito humano; irmão! Não cedais a um movimento de despeito, aliás bem natural; sacrificai uma parte do vosso legítimo orgulho; fazei por nós o que vos repugna. Os vossos conselhos, as vossas idéias, a vossa presença, são a luz! Não nos mergulheis na dupla noite da vossa ausência e da vossa recusa.
- Estais enganado - disse Rousseau -
nada vos tiro, pois que nunca vos darei mais do que tenho dado a toda a gente, ao primeiro leitor que aparece, à primeira interpretação das gazetas; se quereis o nome e a essência de Rousseau...
- Queremos! - disseram com civilidade
várias vozes.
- Então, pegai numa colecção das
minhas obras, ponde os volumes sobre a mesa do vosso presidente, e quando chegardes às opiniões e que me toque a vez de emitir a minha, abri o meu livro, achareis o meu parecer, a minha sentença.
Rousseau deu um passo para sair. - Esperai um momento! - bradou o
cirurgião – as vontades são livres, e a do ilustre filósofo tanto como as outras; mas seria pouco regular ter dado acesso no nosso santuário a um profano que, não estando ligado por cláusula alguma, nem sequer tácita, poderia, sem por isso deixar de ser homem de bem, revelar os nossos mistérios.
Rousseau sorriu-se para ele em ar de
compaixão.
- Nesse caso é um juramento de
discrição que me pedis? - disse ele.
- Vós o dissestes.
- Estou pronto.
- Lede a fórmula, irmão venerável - disse
Marat.
O irmão venerável leu com efeito esta
fórmula:
- “Juro em presença do grande Deus
eterno, arquitecto do Universo, dos meus superiores e da respeitável assembléia que me cerca, nunca revelar, nem dar a conhecer, nem escrever coisa alguma do que debaixo das minhas vistas se passa, condenando-me a mim mesmo, em caso de imprudência, a ser castigado segundo as leis do grande fundador, de todos os meus superiores, e a cólera de meus irmãos.”
Já Rousseau estendia a mão para prestar
o juramento, quando o desconhecido, que tinha escutado e seguido os debates com uma espécie de autoridade que ninguém lhe contestava, conquanto se achasse perdido por entre a multidão, quando o desconhecido, dizemos nós, se aproximou do presidente e lhe disse algumas palavras ao ouvido.
- É verdade - redargüiu o venerável. E acrescentou:
- Sois um homem e não um irmão, sois
um homem honrado colocado diante de nós unicamente na posição de um semelhante. Portanto aqui abjuramos a nossa qualidade para vos pedir uma simples palavra de honra em como esquecereis quanto entre nós se passou.
- Como pela manhã se esquece o sonho,
assim o juro pela minha honra - respondeu Rousseau comovido.
- E com estas palavras saiu, e logo atrás
dele saíram muitos outros membros da associação.