José Bálsamo, Volume IV

Alexandre Dumas · Capítulo 3 de 29

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José Bálsamo, Volume IV

Capítulo IV

 

A MESA PARTICULAR DO

SENHOR DELFIM

Nesse mesmo dia, Andreia de Taverney

saiu do seu quarto pelas três horas da tarde para se dirigir ao quarto da delfina, que costumava ouvir uma leitura antes de jantar.

O abade, primeiro leitor de Sua Alteza

Real, não exercia já as suas funções. Dedicava-se todo à política transcendente de certas intrigas diplomáticas nas quais havia desenvolvido um sofrível talento de procurador de negócios.

A menina de Taverney saiu portanto já

ataviada para ir para o seu posto. Sofria, como todos os hóspedes do Trianon, as dificuldades de uma instalação um pouco repentina. Ainda não tinha organizado coisa alguma, nem o seu serviço, nem a mudança da sua pequena mobília, e havia sido provisoriamente vestida por uma das aias da senhora de Noailles, essa intratável dama de honor, que a delfina chamava a Srª. Etiqueta.

Andreia trazia um vestido de seda azul

com um corpo de cintura comprida e delgada como a de uma vespa. O vestido abria-se adiante, e deixava ver por baixo outro de cassa branca com três barras bordadas; mangas curtas, igualmente bordadas de cassa recortada e formando escada desde os ombros, acompanhavam o lenço de aldeã que ocultava pudicamente o seio da formosa donzela. Andreia tinha atado simplesmente os seus lindos cabelos com uma fita de seda azul semelhante ao vestido; os cabelos caindo em formosos anéis dos lados sobre o pescoço e sobre os ombros, davam muito maior realce do que as plumas, as rendas e enfeites que então se usavam, à fisionomia, soberba e modesta da encantadora rapariga cujo rosto pálido e puro não tinha sido ainda enxovalhado pelo carmim.

Caminhando para o seu destino, ia

Andreia calçando nas suas mãos delgadas, redondas e o mais delicadas possível, umas luvas de seda branca, enquanto que os saltos dos seus sapatos de cetim azul-claro imprimiam na areia do jardim o vestígio dos seus passos.

Ao chegar ao palácio do Trianon soube

que a senhora delfina tinha ido dar um passeio no jardim com o seu arquitecto e o chefe dos jardineiros. Entretanto ouvia-se no pavimento superior a bulha da roda de um torno, em que o senhor delfim trabalhava para fazer uma fechadura de segurança para um cofre que estimava muito.

Andreia, para ir ter com a delfina,

atravessou um tabuleiro, onde, apesar do rigor da estação, se viam flores, que cuidadosamente cobertas à noite, erguiam de manhã a cabeça pálida para aspirar os fugitivos raios de sol ainda mais pálidos que elas. E como já se aproximava a tarde, porque nesta estação anoitece às seis horas, estavam alguns jardineiros ocupados em pôr redomas de vidro sobre as plantas mais friorentas de cada tabuleiro.

Ao voltar de uma rua do jardim, cercada

de árvores verdes e de roseiras de Benguela, que ia dar a um belo quadrado de esparceto, viu Andreia um desses jardineiros que, apenas ela se aproximou, levantou-se cumprimentando-a com uma civilidade mais hábil e experiente que a costumada civilidade do povo.

Olhou, e nesse trabalhador reconheceu

Gilberto, cujas mãos, apesar do trabalho, eram ainda brancas bastante para causar o desespero do senhor de Taverney.

Andreia corou ainda mesmo a seu

despeito; parecia-lhe que a presença de Gilberto naquele lugar era o resultado de um singular jogo do acaso.

Gilberto renovou a sua cortesia à qual

Andreia correspondeu continuando a caminhar.

Mas era uma criatura muito leal e muito

corajosa para resistir a um movimento da alma e deixar sem resposta uma questão do seu espírito desassossegado.

Voltou atrás, e Gilberto, que já se tornara

pálido e tristemente a seguia com os olhos, voltou de novo à vida e deu um salto para se aproximar dela.

- Está aqui, Sr. Gilberto? - disse Andreia

friamente.

- Sim, minha senhora.

- Por que acaso?

- Minha senhora, é preciso viver

honradamente.

- Mas pelo que vejo é muito feliz? - Oh! Minha senhora, muito - respondeu

Gilberto.

- Como?

- Digo, minha senhora, que sou muito

feliz, como justamente o imagina.

- Quem o meteu aqui?

- O senhor de Jussieu, um dos meus

protectores.

- Ah! - disse Andreia admirada - conhece

o senhor de Jussieu?

- Era amigo do meu primeiro protector,

do meu mestre, do Sr. Rousseau.

- Ânimo, Sr. Gilberto - disse Andreia que

se dispunha para se retirar.

- Está já restabelecida, minha senhora? –

perguntou Gilberto com uma voz tão trémula e sumida que bem manifestava partir do coração, do qual representava cada uma das vibrações.

- Restabelecida? Como? - disse Andreia

friamente.

- Sim... O desastre?...

- Ah! Sim... Obrigada, Sr. Gilberto, estou

boa, foi pouca coisa.

- Oh! Escapou por pouco - disse Gilberto

no cúmulo da sua comoção - o perigo era terrível.

Neste momento Andreia pensou que era

tempo de abreviar essa conversa com um trabalhador, no meio de uma quinta real.

- Adeus, Sr. Gilberto - disse ela.

- Não quer aceitar uma rosa, minha

senhora? – disse Gilberto, estremecendo e coberto de suor.

- Mas, senhor - redargüiu Andreia -

oferece-me uma coisa que não lhe pertence.

Gilberto, surpreendido, aterrado, não

respondeu palavra. Baixou a cabeça, e como Andreia olhava para ele com uma certa alegria por ter manifestado a sua superioridade, Gilberto, endireitando-se, arrancou um ramo cheio de flores, da mais bela roseira, e começou a desfolhar as rosas com o maior sangue-frio e com uma nobreza que pasmou Andreia.

Era muito justa e muito boa para não

conhecer que acabava de ferir gratuitamente um inferior apanhado em flagrante delito de civilidade. Também, como toda a gente soberba que reconheceu haver cometido um erro, continuou o seu passeio sem acrescentar mais palavra, quando talvez a desculpa ou a reparação lhe estavam quase a sair da boca.

Gilberto também não acrescentou mais

palavra, atirou fora o ramo da roseira e continuou o seu trabalho; mas o seu carácter ligava a soberba à astúcia; baixou-se para trabalhar, sem dúvida, mas igualmente para sorrateiramente ver Andreia afastar-se, que, ao voltar para outra rua, não pôde impedir de fazer um movimento e olhar para trás. Era mulher!

Gilberto contentou-se com essa fraqueza

para dizer consigo que nessa nova luta tinha sido o vencedor.

- É menos forte do que eu - disse ele

consigo - hei-de dominá-la. Orgulhosa da sua formosura, do seu nome, da sua fortuna que cresce, insolente para o meu amor que talvez adivinha já, tudo isto a torna mais cobiçável ao pobre trabalhador, que treme só de a ver. Oh! Este tremor, este frémito indigno de um homem! Oh! As cobardias que me obriga a praticar... Tudo isto há-de ela algum dia pagar-me! Mas para hoje - acrescentou ele – trabalhei bastante; venci o inimigo... Eu que devia ter sido o mais fraco, fui dez vezes mais forte.

Repetiu ainda estas palavras com uma

alegria selvagem e levando uma mão convulsiva à fronte inteligente, de onde afastava os seus lindos cabelos pretos, enterrou vigorosamente a sua enxada na terra, correu como um ganso através das ruas de ciprestes e teixos, atravessou, ligeiro como a brisa, um tabuleiro coberto de plantas com redomas de vidro, sem tocar sequer numa única, apesar da furiosa rapidez com que correu, e foi postar-se na extremidade da diagonal que acabava de descrever, para se achar adiante do caminho que Andreia andava circularmente.

Ali, com efeito, ainda a viu avançar

pensativa e quase humilhada, com os olhos baixos, a mão pendente e inerte, balanceando docemente sobre o vestido; escondido por detrás dos arbustos, ouviu-a suspirar duas vezes, como se falasse consigo mesma. Enfim, passou tão perto das árvores que Gilberto teria podido, estendendo um pouco o braço, tocar no de Andreia, como a sua febre insensata, vertiginosa, lhe aconselhava de fazer.

Mas franziu as sobrancelhas com um

movimento de vontade semelhante a ódio, e pondo a mão sobre o coração, disse:

- Ainda, cobarde!

Depois acrescentou em voz alta: - É porque é tão formosa! Gilberto teria ficado muito tempo na sua

contemplação, porque a alameda era comprida, e o passo de Andreia vagaroso, mas nessa alameda vinham desembocar outras, pelas quais podia aparecer algum importuno, e o acaso favoreceu tão pouco Gilberto que efectivamente pela primeira rua lateral da esquerda, apareceu um, isto é, quase em frente do bosque de árvores verdes onde Gilberto estava oculto.

Esse importuno caminhava com um

passo metódico e compassado; ia de cabeça bem levantada, levava o chapéu debaixo do braço direito e a mão esquerda sobre a espada.

Trajava uma casaca de veludo debaixo

do gibão forrado de martas zibelinas, e andando, estendia a perna, que era bem feita, e o peito do pé, que era bem redondo, como uma pessoa de alta jerarquia.

Este fidalgo, caminhando sempre, viu

Andreia, e a figura da jovem senhora agradou-lhe certamente, porque dobrou o passo atravessando obliquamente, de modo a achar-se na linha que Andreia seguia e a cruzá-la o mais depressa possível.

Gilberto, tendo visto essa personagem,

soltou involuntariamente um pequeno grito e fugiu, como um melro espantado, por entre os sumagres.

A manobra do importuno teve bom

êxito; tinha decerto experiência para as executar, porque no espaço de três minutos já precedia Andreia, que três minutos antes seguia em bastante distância.

Andreia, ouvindo passos atrás de si,

retirou-se um pouco para o lado a fim de deixar passar o homem; quando ele passou, olhou para o lado de onde vinha.

O fidalgo também olhou e com toda a

sua atenção parou para ver melhor, e voltando-se depois de ter visto, disse com uma voz muito amável:

- Ah! Menina, para onde corre tão

depressa?

Ao som desta voz, Andreia ergueu a

cabeça e viu atrás de si, em distância de trinta passos, dois oficiais das guardas que caminhavam lentamente; viu debaixo do gibão de martas daquele que lhe dirigira a palavra, a grã-cruz azul, e pálida e trémula, por tão inesperado encontro, e por tão amável interrupção, inclinou-se quanto pôde, exclamando:

- El-rei!

- Minha senhora - redargüiu Luís XV

aproximando-se - desculpe-me, tenho tão má vista que me vejo obrigado a perguntar-lhe o seu nome.

- Andreia de Taverney - murmurou a

donzela, tão confusa e trémula, que apenas se lhe podia ouvir a fala.

- Ah! É uma fortuna este passeio que

veio dar no Trianon, menina - disse el-rei.

- Eu ia ter com Sua Alteza Real a Srª.

Delfina, que espera por mim - respondeu Andreia cada vez mais trémula.

- Minha senhora, eu a conduzirei para

junto dela - atalhou Luís XV - porque vou como vizinho do campo, fazer uma visita a minha filha; aceite o meu braço, já que seguimos o mesmo caminho.

Andreia sentiu como que uma nuvem

passar-lhe pela vista e descer em ondas com seu sangue até ao coração.

Com efeito, uma tal honra para a pobre

rapariga, o braço de el-rei, desse soberano senhor de todos, uma glória tão inesperada, tão incrível, um favor que uma corte toda inteira teria invejado, parecia-lhe um sonho.

E fez uma mesura tão profunda e tão

religiosamente temerosa, que el-rei julgou-se obrigado a cumprimentá-la novamente. Quando Luís XV queria lembrar-se de Luís XIV, era sempre em questões de cerimonial e de política, e demais, essas tradições de cortesia vinham de mais longe, vinham de Henrique IV.

Ofereceu portanto a sua mão a Andreia,

esta colocou a extremidade ardente dos seus dedos sobre a luva de el-rei, e ambos continuaram a andar para o pavilhão onde, como tinham dito a el-rei, ele encontraria a delfina com o seu arquitecto e o seu jardineiro.

Podemos assegurar que Luís XV, que

nem por isso gostava muito de andar a pé, se dirigiu pelo caminho mais comprido para conduzir Andreia ao pequeno Trianon.

O facto é que os dois oficiais, que

caminhavam atrás, conheceram o engano de Sua Majestade e queixaram-se disso entre si, porque vinham levemente vestidos e o tempo começava a esfriar.

Chegaram tarde, pois que já não

encontraram a delfina no ponto em que esperavam encontrá-la; Maria Antonieta tinha partido naquele instante para não fazer esperar o delfim que gostava de cear entre as seis e as sete horas.

Sua Alteza Real chegou portanto à hora

exacta, e como o delfim, sempre muito pontual, se achava já no limiar da sala para ficar mais perto da casa de jantar, quando o mordomo viesse dizer que estava servido, a delfina atirou com a sua manta a uma criada, foi alegremente travar do braço do delfim e levou-o consigo para a casa de jantar.

A mesa estava posta para os dois ilustres

anfitriões.

Sentaram-se ao centro da mesa,

deixando livres as cabeceiras, que, desde certas surpresas de el-rei, nunca ocupavam, mesmo quando eram muitos os convivas.

Numa das cabeceiras, o lugar de el-rei,

com o seu talher, ocupava um espaço considerável; mas o mordomo, que não contava com o hóspede real, fazia o serviço daquele lado.

Por detrás da cadeira da delfina, com o

espaço necessário para os criados poderem circular, estava a senhora de Noailles, muito direita, mas mostrando em seu semblante toda a amabilidade que se deve ter para uma ceia.

Ao pé da senhora de Noailles estavam

as outras senhoras, às quais a sua posição na corte constituía o direito ou lhes permitia merecerem o favor de assistir à ceia de Suas Altezas Reais.

Três vezes por semana, a senhora de

Noailles ceava na mesma mesa com o delfim e a delfina, mas nos dias em que ela não ceava, havia de assistir à ceia, porque isto era ao mesmo tempo um meio de protestar contra essa exclusão dos quatro dias restantes.

Em frente da duquesa de Noailles,

alcunhada pela delfina a Srª. Etiqueta, estava igualmente de pé o senhor duque de Richelieu.

Este também era um estrito observador

das conveniências, com a diferença que a sua etiqueta era invisível a todos os olhos, eternamente disfarçada como era pela mais perfeita elegância, e algumas vezes mesmo por uma zombaria muito delicada.

Resultava dessa antítese entre o

primeiro gentil-homem da câmara e a primeira dama de Sua Alteza Real a Srª. Delfina, que a conversa, incessantemente abandonada pela duquesa de Noailles, era incessantemente prolongada pelo senhor de Richelieu.

O marechal tinha estado em todas as

cortes da Europa, e em todas elas havia tomado o tom de elegância mais apropriado à sua natureza; de modo que, com um tacto e uma conveniência admiráveis, sabia ao mesmo tempo todas as anedotas que se podiam contar à mesa dos jovens príncipes, e nas ceias particulares da senhora du Barry.

Percebeu que nessa tarde a delfina

comia com apetite, e que o delfim devorava. Supôs que não estariam muito dispostos a entrarem em conversas, e que apenas se tratava de fazer padecer à senhora de Noailles uma hora de purgatório antecipado.

Começou a falar em filosofia e teatros;

dobrado assunto de conversa, duplamente antipático para a venerável duquesa.

Contou o assunto dos últimos escritos

filantrópicos do filósofo de Ferney, nome que já davam ao autor da Henríada, e, quando viu que a duquesa estava já em aflições, mudou de texto e descreveu todo o trabalho que tinha, para na qualidade de gentil-homem da câmara fazer representar com maior ou menor perfeição as habituais comediantes de el-rei.

A delfina prezava as artes, e

principalmente o teatro; tinha mandado um costume completo de Clymnestra à Srª. Raucourt; deu por isso ouvidos ao senhor de Richelieu, não só com indulgência, mas até com prazer.

Então viu-se a pobre duquesa, a

despeito da etiqueta, agitar-se sobre o seu estrado, assoar-se estrondosamente e abanar a sua venerável cabeça sem se lembrar da nuvem de pó que, a cada um dos seus movimentos, envolvia a sua fronte, como a cada sopro de vento uma nuvem de neve envolve o cume do Monte Branco.

Mas não era bastante divertir a senhora

delfina, era preciso também agradar ao senhor delfim. Richelieu portanto abandonou a questão do teatro, para o qual o herdeiro da coroa de França nunca tivera grande simpatia, para falar de filosofia humanitária. Falando dos Ingleses, empregou todo esse calor que Rousseau espalha como um fluido vivificador sobre a personagem de Eduardo Bomston.

Ora a senhora de Noailles odiava os

Ingleses tanto como os filósofos.

Uma idéia nova era para ela uma fadiga,

e uma fadiga desordenava a economia de toda a sua pessoa. A senhora de Noailles, essencialmente conservadora, uivava a todas as idéias novas como um cão uiva ao som de uma trombeta.

Neste jogo tinha Richelieu um duplo

fim; atormentava a Srª. Etiqueta, o que sensivelmente se conhecia agradar à senhora delfina, e achava de vez em quando alguns apotegmas virtuosos e alguns axiomas de matemáticas, alegremente admitidos pelo senhor delfim, príncipe muito amador das coisas exactas.

Fazia portanto maravilhosamente a sua

corte procurando ao mesmo tempo por todos os lados alguém que esperava aí ver e que não achava, quando um grito proferido no princípio da escada subiu até à abóbada sonora, repetido por duas outras vozes de pessoas colocadas no patamar dessa escada.

- El-rei!

A esta palavra mágica a senhora de

Noailles levantou-se como se uma mola de aço a fizera saltar para fora do seu banco. Richelieu levantou-se lentamente, o delfim limpou precipitadamente a boca com o guardanapo e ficou de pé com o rosto voltado para o lado da porta.

Quanto à senhora delfina, dirigiu-se

para a escada, para ir mais depressa ao encontro de el-rei e fazer as honras da sua casa.