Não Conte a Ninguém
Capítulo 7
7
TAÇAS DE CHAMPANHE TILINTAVAM em harm onia com a sonata de Mozart. Um a harpa sublinhava o som discreto do bate-papo na festa. Griffin Scope circulava em m eio a sm okings pretos e vestidos cintilantes. As pessoas usavam sem pre a m esm a palavra para descrevê-lo: bilionário. Podiam referir-se a ele com o hom em de negócios ou poderoso ou m encionar que ele era alto, casado, avô, ou que tinha 70 anos. Poderiam m encionar algum a característica da sua personalidade, sua árvore genealógica ou ética no trabalho. Mas a prim eira palavra – nos j ornais, na TV, nas colunas sociais – com eçava sem pre pela letra B. Bilionário. O bilionário Griffin Scope.
Griffin nascera rico. Seu avô fora um industrial nos velhos tem pos. O pai aum entara a fortuna. Griffin a m ultiplicara várias vezes. A m aioria dos im périos fam iliares desm orona na terceira geração. Mas não o dos Scope. Um dos m otivos fora a educação dos filhos. Griffin, por exem plo, não cursou um a daquelas prestigiosas escolas preparatórias com o Exeter ou Lawrenceville, com o m uitos de seus colegas. Seu pai fez questão de que ele frequentasse a escola pública e, m ais, que o fizesse na cidade grande m ais próxim a, Newark. Seu pai tinha escritórios lá, por isso im provisar um a m oradia não seria problem a.
A zona leste de Newark naquela época não era a barra pesada de hoj e. Atualm ente, um a pessoa sensata não tem nem coragem de passar de carro por lá. Era um a zona de operários – m ais rude do que perigosa.
Griffin adorou viver lá.
Seus m elhores am igos do tem po de curso secundário continuavam seus am igos 50 anos depois. A lealdade era um a qualidade rara. Quando Griffin a encontrava, fazia questão de recom pensá-la. Muitos dos convidados naquela noite eram daqueles tem pos de Newark. Alguns até trabalhavam para ele, em bora Griffin fizesse o possível para não ser chefe deles no dia a dia.
Aquela noite de gala celebrava a causa m ais cara ao coração de Griffin Scope: a Fundação Brandon Scope, em m em ória do filho assassinado. Griffin iniciara o fundo com um a doação de 100 m ilhões de dólares. Os am igos logo engrossaram o bolo. Griffin não era ingênuo. Sabia que m uitos doavam para puxar seu saco. Mas a coisa não se resum ia a isso. Durante sua breve existência, Brandon Scope tocara as pessoas. Um m enino nascido com tanta sorte e talento, Brandon possuía um carism a quase sobrenatural. As pessoas eram atraídas por ele.
Seu outro filho, Randall, era um bom m enino que havia sido educado para ser um bom hom em . Mas Brandon… Brandon tinha algo de m ágico.
A dor se fez sentir novam ente. Ela estava sem pre lá. Em m eio aos cum prim entos e tapinhas nas costas, a dor perm anecia ao seu lado, cutucando seu om bro, sussurrando em sua orelha, lem brando-lhe que seria sua parceira por toda a vida.
– Bonita festa, Griff.
Griffin agradeceu e continuou andando. As m ulheres estavam prim orosam ente penteadas e traj avam vestidos que realçavam seus adoráveis om bros nus. Elas com binavam bem com as várias esculturas de gelo – um a das predileções de Allison, esposa de Griffin – que derretiam lentam ente sobre toalhas de linho im portadas. A sonata de Mozart deu lugar à peça de Chopin. Garçons de luvas brancas circulavam com bandej as de prata repletas de cam arões da Malásia, filé-m ignon de Om aha e um a m iscelânea de canapés esquisitos que pareciam sem pre conter tom ates secos.
Ele se aproxim ou de Linda Beck, a j ovem que dirigia o fundo de caridade da Fundação Brandon. O pai de Linda fora um de seus velhos colegas de turm a em Newark, e ela, com o tantos outros, parecia fazer parte do im pério dos Scope. Linda com eçara a trabalhar para diversas em presas da fam ília durante o curso secundário. Ela e o irm ão puderam estudar graças às bolsas de estudo dos Scope.
– Você está divina – observou ele, em bora no fundo achasse que tinha um ar cansado.
Linda Beck sorriu para ele:
– Obrigada, Sr. Scope.
– Quantas vezes j á lhe disse para m e cham ar de Griff?
– Um as m il vezes – respondeu ela.
– Com o anda Shauna?
– Meio indisposta, infelizm ente.
– Diga que estim o sua m elhora.
– Direi sim , obrigada.
– Precisam os nos reunir na sem ana que vem .
– Telefonarei para sua secretária.
– Ótim o.
Griffin lhe deu um beij o na bochecha, e então viu Larry Gandle na saleta. Larry estava todo descabelado e parecia que tinha acabado de acordar, m as ele sem pre tinha aquela cara. Poderiam enfiá-lo num terno caríssim o feito sob m edida que, um a hora depois, ele continuaria parecendo ter acabado de sair de um a briga.
Larry Gandle não deveria estar ali; os olhos dos dois hom ens se encontraram . Larry fez um m ovim ento com a cabeça e se afastou. Griffin esperou um instante e, depois, seguiu o j ovem am igo pelo corredor.
O pai de Larry, Edward, tam bém fora um dos colegas de turm a de Griffin nos velhos tem pos de Newark. Edward Gandle m orrera de ataque cardíaco súbito havia 12 anos. Um a lástim a. Edward era um hom em nota 10. Desde então, o filho assum ira seu papel de hom em de confiança dos Scope.
Os dois hom ens entraram na biblioteca de Griffin. No passado, aquele local havia sido um a sala m aravilhosa de carvalho e m ogno, com prateleiras que iam do chão ao teto repletas de livros e globos antigos. Dois anos antes, Allison, num arroubo pós-m oderno, decidira que a sala precisava ser totalm ente redecorada.
O antigo piso e as prateleiras de m adeira foram arrancados e o aposento se tornara branco, luzidio e funcional, com tanto calor hum ano quanto um a estação de trabalho num escritório. Allison se orgulhara tanto da nova decoração que Griffin não teve coragem de revelar quão detestável lhe parecera.
– Algum problem a esta noite? – perguntou Griffin.
– Não – respondeu Larry .
Griffin ofereceu um a cadeira a Larry, m as ele recusou e se pôs a andar de um lado para outro.
– Foi difícil? – perguntou Griffin.
– Tivem os que nos assegurar de que não haveria nenhum furo.
– Claro.
Alguém atacara seu filho Randall. Portanto, Griffin contra-atacara. Era um a lição que ele nunca esquecia. Não se fica de braços cruzados quando você ou um ente querido está sendo atacado. E não se age com o o governo com suas “respostas-padrão” e toda aquela frescura. Se você é agredido, a com paixão e a piedade devem ser postas de lado. Você elim ina o inim igo. Você barbariza. Os que zom bavam dessa filosofia, achando-a desnecessariam ente m aquiavélica, geralm ente acabavam causando destruição m aior.
No fim , se você elim inar o m al pela raiz, m enos sangue será derram ado.
– Então o que há de errado? – perguntou Griffin.
Larry continuou andando de um lado para outro. Coçou a careca. Griffin não gostou daquilo. Larry não ficava nervoso facilm ente.
– Eu nunca m enti para você, Griff – respondeu Larry .
– Eu sei.
– Mas certos segredos profissionais precisam ser guardados.
– Segredos?
– Quem eu contrato, por exem plo. Eu nunca digo os nom es a você. Nem digo nom es a eles.
– Isso são detalhes.
– Sim .
– O que foi, Larry ?
Ele parou de andar.
– Oito anos atrás, você lem bra que contratam os dois hom ens para fazer um serviço?
O rosto de Griffin em palideceu. Ele engoliu em seco.
– E eles fizeram um serviço nota 10.
– Talvez.
– Não estou entendendo.
– Eles fizeram o serviço. Ou, pelo m enos, parte dele. A am eaça foi aparentem ente elim inada.
Em bora a casa passasse por um a varredura sem anal em busca de dispositivos de escuta, os dois hom ens nunca citavam nom es. Um a regra de Scope. Larry Gandle m uitas vezes se perguntava se a regra havia sido im posta por cautela ou pelo fato de aj udar a despersonalizar o que eles ocasionalm ente eram obrigados a fazer. Suspeitava que fosse a últim a hipótese.
Griffin desabou na cadeira, com o se alguém o tivesse em purrado. Sua voz era suave:
– Por que isso agora?
– Sei que deve ser doloroso para você.
Griffin não respondeu.
– Paguei bem aos dois hom ens – continuou Larry .
– Conform e eu esperava.
– Sim . – Ele pigarreou. – Bem , após o incidente, eles deveriam perm anecer na m oita por algum tem po. Por precaução.
– Continue.
– Nunca m ais ouvim os falar deles.
– Eles foram generosam ente pagos para isso, correto?
– Sim .
– Então o que há de surpreendente nisso? De repente, eles fugiram com a fortuna que ganharam . Vai ver se m udaram para o outro lado do país ou trocaram de identidade.
– Isso – disse Larry – foi o que sem pre im aginam os.
– Mas…
– Seus corpos foram encontrados na sem ana passada. Eles estão m ortos.
– Continuo não vendo nenhum problem a. Eles eram hom ens violentos. Devem ter tido um a m orte violenta.
– Os corpos j á estavam enterrados há anos.
– Quantos anos?
– Pelo m enos cinco. E foram encontrados perto do lago onde… onde ocorreu o incidente.
Griffin abriu a boca, fechou-a, abriu-a novam ente.
– Não estou entendendo.
– Para falar a verdade, eu tam bém não.
Aquilo era dem ais para ele. Griffin vinha lutando contra as lágrim as o tem po todo naquela noite de gala em hom enagem ao filho. Agora a tragédia do assassinato de Brandon ressurgia. Era preciso m uita força para não ter um colapso nervoso.
Griffin ergueu o olhar para seu hom em de confiança.
– Isso não pode voltar à tona.
– Eu sei, Griff.
– Tem os de descobrir o que aconteceu. Tudo.
– Eu tenho vigiado os hom ens da vida dela. Principalm ente o m arido. Por precaução. Agora estou concentrando todos os recursos nisso.
– Muito bem – disse Griffin. – Custe o que custar, isso tem de ser enterrado. Eu não m e im porto se alguém tiver de ser enterrado j unto.
– Entendo.
– E tem m ais, Larry .
Gandle esperou.
– Sei o nom e de um dos hom ens que você contrata. – Estava se referindo a Eric Wu. Griffin Scope esfregou os olhos e olhou de novo para os convidados.
– Use-o.