Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 34 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 33

33

CARLSON ESTAVA SENTADO NO CARRO. Sua gravata perm anecia m eticulosam ente aj eitada. O paletó estava em um cabide de m adeira, pendurado no gancho do assento traseiro. O ar-condicionado estava no m áxim o. Carlson leu o envelope da autópsia: Elizabeth Beck, Ficha 94-87002. Seus dedos desataram o cordão. O envelope se abriu. Carlson espalhou o conteúdo no banco do carona.

O que o Dr. Beck queria ver?

Stone j á dera a resposta óbvia: Beck queria saber se havia algo que pudesse incrim iná-lo. Isso se enquadrava em suas teorias iniciais, e foi Carlson, afinal, quem com eçou a questionar o cenário oficialm ente aceito sobre a m orte de Elizabeth Beck. Ele foi o prim eiro a acreditar que o assassinato não fora o que parecera ser – que, na verdade, fora o Dr. David Beck, o m arido, quem planej ara a m orte da esposa.

Por que ele teria deixado de aceitar essa versão?

Carlson havia exam inado cuidadosam ente os furos que surgiram nessa teoria, m as Stone tam bém conseguira contorná-los de m odo convincente. Todo caso tem seus furos. Carlson sabia disso. Todo caso tem incoerências. Se não tivesse, ele seria capaz de apostar 10 contra 1 que a polícia deixara escapar algum detalhe.

Por que ele agora duvidava da culpa de Beck?

A razão talvez fosse o fato de o caso estar se tornando óbvio dem ais, com todas as provas subitam ente se alinhando e cooperando com sua teoria. Ou talvez suas dúvidas se baseassem em algo duvidoso com o a “intuição”, em bora Carlson nunca tivesse sido defensor ardoroso desse aspecto do trabalho investigativo. A intuição era m uitas vezes um m eio de aparar arestas, um a técnica atraente de substituir provas e fatos concretos por algo m ais evasivo e volúvel. Os piores investigadores que Carlson conhecia baseavam -se na intuição.

Ele pegou a prim eira folha. Inform ações gerais. Elizabeth Parker Beck. Seu endereço, data de nascim ento (tinha 25 anos quando m orreu), do sexo fem inino, cor branca, 1,70m de altura, 45 quilos. Magra. O exam e externo revelara que o rigor mortis tinha se instalado. Havia bolhas na pele e secreção de líquidos nos orifícios. Isso indicava que a m orte ocorrera m ais de três dias antes. A causa mortis fora um a facada no peito. O m ecanism o da m orte fora a perda de sangue e um a forte hem orragia na aorta direita. Havia tam bém cortes nas m ãos e nos dedos, teoricam ente porque ela tentara se defender do ataque.

Carlson pegou o caderno e a caneta e escreveu: Ferimentos defensivos?!?! Depois sublinhou várias vezes essas palavras. Ferim entos defensivos. Aquele não era o estilo de KillRoy. Ele torturava suas vítim as. Ele as am arrava com um a corda, fazia o que bem entendesse e, quando se cansava, as m atava.

Por que haveria ferim entos de faca em suas m ãos?

Carlson continuou lendo. Ele exam inou a cor dos cabelos e dos olhos e, depois, na m etade da segunda folha, encontrou outro fato chocante.

Elizabeth Beck havia sido m arcada a ferro post mortem. Carlson releu aquilo. Depois anotou em seu caderno a expressão post mortem. Aquilo não fazia sentido. KillRoy sem pre m arcava suas vítim as enquanto estavam vivas. No j ulgam ento com entou-se m uito sobre com o ele gostava do cheiro de carne cham uscada, com o ele vibrava com os gritos das vítim as enquanto as queim ava.

Prim eiro os ferim entos defensivos. Agora aquele fato. Algum a coisa estava errada.

Carlson tirou os óculos e fechou os olhos. Que confusão, pensou. Isso o incom odava. Furos lógicos eram esperados, m as aqueles j á estavam virando rom bos. Por um lado, a autópsia confirm ava sua hipótese original, de que a m orte de Elizabeth Beck havia sido encenada para parecer que fora obra de KillRoy .

Mas, m esm o que isso fosse verdade, a teoria estava desvinculada da outra parte.

Ele tentou analisar os fatos passo a passo. Prim eiro, por que a ânsia de Beck em ver aquela ficha? À prim eira vista, a resposta agora parecia óbvia. Quem quer que exam inasse aqueles resultados perceberia que havia um a grande chance de KillRoy não ter m atado Elizabeth Beck. Mas aquilo não era um a certeza. Serial killers, apesar do que costum am os ler, não são pessoas m etódicas. KillRoy poderia ter m udado seu modus operandi ou buscado diversificá-lo. Mesm o assim , o que Carlson leu ali era suficiente para fazer alguém refletir.

Mas tudo aquilo apontava apenas para um a grande pergunta: por que ninguém percebera aquelas incoerências antes?

Carlson exam inou as possibilidades. KillRoy nunca fora processado pelo assassinato de Elizabeth Beck. As razões agora estavam bem claras. Talvez os investigadores suspeitassem da verdade. Talvez eles percebessem que o assassinato de Elizabeth Beck não se enquadrava, m as revelar esse fato apenas aj udaria a defesa de KillRoy. O problem a de processar um serial killer é que você atira um a rede tão grande que algo acaba escapando. Tudo o que a defesa precisa fazer é selecionar um caso, encontrar discrepâncias em um dos assassinatos e, pronto, os outros casos são contam inados por associação. Portanto, sem um a confissão, raram ente se processa alguém por todos os crim es de um a só vez. Isso se faz passo a passo. Os investigadores, percebendo esse risco, provavelm ente preferiram deixar para lá a m orte de Elizabeth Beck.

Mas havia grandes problem as com esse cenário tam bém .

O pai e o tio de Elizabeth Beck – dois hom ens que trabalhavam com o agentes da lei – haviam visto o corpo. Era quase certo que tivessem lido aquele laudo de autópsia. Eles não teriam percebido as inconsistências? Teriam deixado que o verdadeiro assassino ficasse à solta som ente para assegurar a condenação de KillRoy ? Carlson duvidava.

Continuou exam inando a ficha e topou com outro fato estarrecedor. O ar-condicionado do carro agora o estava incom odando, o frio chegando aos ossos. Carlson abriu um a j anela e tirou a chave da ignição. No alto da folha, lia-se: Exam e Toxicológico. De acordo com os exam es, haviam sido encontradas cocaína e heroína na corrente sanguínea de Elizabeth Beck. Além disso, foram detectados vestígios dessas drogas no cabelo e nos tecidos, indicando que seu consum o era m ais do que ocasional.

Aquilo se encaixava?

Estava pensando a respeito quando o celular tocou. Ele atendeu.

– Carlson.

– Encontram os um a coisa – disse Stone.

Carlson pousou a ficha.

– O quê?

– Beck. Ele com prou um a passagem para Londres com em barque no Aeroporto JFK. O voo partirá em duas horas.

– Estou a cam inho.

♦ ♦ ♦

Ty rese pôs a m ão no m eu om bro enquanto cam inhávam os.

– Bandidos – ele disse pela enésim a vez. – Não se pode confiar neles.

Nem m e dei o trabalho de responder.

De início, surpreendi-m e com a rapidez com que Ty rese conseguira localizar Helio Gonzalez, m as logo m e dei conta de que a rede de com unicação dos m arginais era tão desenvolvida com o qualquer outra. Peça a um corretor da Morgan Stanley que localize um colega da Goldm an Sachs, e ele fará isso em m inutos. Peça-m e para encam inhar um paciente a qualquer outro m édico do estado, e bastará um telefonem a. Por que com os bandidos haveria de ser diferente?

Helio acabara de cum prir um a pena de quatro anos no norte do estado por assalto à m ão arm ada. Ele tinha ar de quem acabara de sair da prisão. Óculos escuros, lenço na cabeça, um a cam iseta branca sob um a cam isa de flanela apenas com o botão superior abotoado para parecer um a capa ou asas de m orcego. As m angas estavam arregaçadas, revelando toscas tatuagens de prisão, gravadas no antebraço, e os m úsculos de prisioneiro. Há algo de inconfundível nos m úsculos de um presidiário, um a qualidade contida, m arm órea, diferente daqueles m ais inflados das academ ias de ginástica.

Sentam os em uns degraus no corredor de algum prédio do Queens. Não sei exatam ente onde. Um ritm o latino ribom bava, penetrando em m eu peito. Mulheres de cabelos escuros saracoteavam com vestidos tom ara que caia excessivam ente j ustos e curtos. Ty rese fez um sinal com a cabeça. Voltei-m e para Helio. Ele deu um sorriso forçado. Olhei-o de cim a a baixo, e um a palavra não parava de pipocar no m eu cérebro: escória. Um a escória inatingível, insensível. Bastava olhar para ele para saber que continuaria deixando um rastro de destruição atrás de si. A pergunta era: quanta? Percebi que aquela visão não era caridosa. Percebi tam bém que, a j ulgar pelas aparências, o m esm o se poderia dizer de Ty rese. Não im portava. Elizabeth pode ter acreditado na redenção dos que haviam sido em brutecidos ou m oralm ente anestesiados pelas ruas. Eu continuava tentando acreditar.

– Há oito anos, você foi preso pelo assassinato de Brandon Scope – falei. – Sei que você foi solto, e não quero causar problem a. Mas preciso da verdade.

Helio retirou os óculos escuros e lançou um olhar para Ty rese.

– Você trouxe um tira?

– Não sou tira – esclareci. – Sou o m arido de Elizabeth Beck.

Queria obter algum a reação, m as não consegui.

– A m ulher que arrum ou o álibi para você.

– Eu sei quem ela é.

– Ela esteve com você naquela noite?

Helio não teve pressa.

– Sim – ele respondeu calm am ente, sorrindo para m im com dentes am arelados. – Ela esteve com igo a noite inteira.

– Você está m entindo – reagi.

– Que é isso, m ano? – Helio olhou para trás, para Ty rese.

– Preciso saber a verdade – falei.

– Você acha que eu m atei o tal Scope?

– Sei que não foi você.

Aquilo o surpreendeu.

– Que diabo está acontecendo aqui? – perguntou ele.

– Preciso que você confirm e um a coisa para m im .

Helio aguardou.

– Você esteve com a m inha m ulher naquela noite, sim ou não?

– O que você quer que eu diga, cara?

– A verdade.

– E se a verdade for que ela esteve com igo a noite toda?

– Esta não é a verdade – falei.

– Por que você tem tanta certeza?

Ty rese interveio.

– Diga ao cara o que ele quer saber.

Helio continuou sem pressa nenhum a.

– Ela falou a verdade quando disse que esteve com igo. Eu transei com ela, certo? Sinto m uito, m ano, m as foi o que aconteceu. A gente vinha transando todas as noites.

Olhei para Ty rese.

– Deixe-nos a sós por alguns segundos, o.k.?

Ty rese assentiu com a cabeça, levantou-se e foi até o carro. Apoiou-se na porta, os braços cruzados, Brutus do lado. Voltei a olhar para Helio.

– Onde foi que você conheceu m inha m ulher?

– No centro de recuperação.

– Ela tentou aj udar você?

Ele deu de om bros, m as sem olhar para m im .

– Você conhecia Brandon Scope?

Um a centelha do que poderia ter sido m edo cruzou seu rosto.

– Estou indo, cara.

– A conversa é só entre a gente, Helio. Não tem erro.

– Você quer que eu fique sem m eu álibi?

– Positivo.

– Por que eu faria isso?

– Porque alguém está m atando todas as pessoas ligadas ao caso de Brandon Scope. Na noite passada, a m elhor am iga de m inha m ulher foi m orta em seu estúdio. Eles m e agarraram hoj e, m as Ty rese m e salvou. Tam bém querem m atar m inha m ulher.

– Pensei que ela j á estivesse m orta.

– É um a longa história, Helio. Mas está tudo vindo à tona novam ente. Se eu não descobrir o que aconteceu de verdade, vam os todos virar presunto.

Eu não sabia se aquilo era verdade ou exagero. Nem m e im portava.

– Onde você esteve naquela noite? – pressionei.

– Com ela.

– Posso provar que vocês não estiveram j untos – argum entei.

– O quê?

– Minha m ulher estava em Atlantic City. Tenho guardadas as antigas contas do seu cartão de crédito. Posso provar. Posso detonar seu álibi, Helio. E é o que farei. Sei que você não m atou Brandon Scope. Mas m e aj ude. Deixarei que eles executem você pelo crim e se não m e contar a verdade.

Um blefe. Um enorm e blefe. Mas percebi que tinha acertado no alvo.

– Diga a verdade e você continuará livre – prom eti.

– Eu não m atei aquele suj eito, cara, j uro.

– Sei disso – repeti.

Ele refletiu por um instante.

– Não sei por que ela fez aquilo, certo?

Concordei com a cabeça, tentando encoraj á-lo a continuar falando.

– Eu assaltei um a casa em Fort Lee naquela noite. Portanto, eu não tinha álibi. Pensei que seria preso por isso. Ela livrou a m inha cara.

– Você perguntou a ela por que fez isso?

Ele negou com a cabeça.

– Deixei o barco correr. Meu advogado contou o que ela tinha dito no depoim ento. Eu confirm ei tudo. Só sei que, logo depois, fui solto.

– Você chegou a ver m inha esposa de novo?

– Não. – Ele ergueu o olhar para m im . – Com o é que você tem tanta certeza de que sua m ulher não estava transando com igo?

– Conheço m inha m ulher.

Ele sorriu.

– Você acha que ela j am ais o trairia?

Eu não respondi.

Helio se levantou.

– Diga a Ty rese que ele está m e devendo essa.

Ele deu um a risada, virou-se e foi em bora.