Não Conte a Ninguém
Capítulo 16
16
SHAUNA ME ENCONTROU NO TÉRREO de um arranha-céu no nº. 462 da Park Avenue, em Manhattan.
– Venha – disse ela sem m aiores preâm bulos. – Tenho algo para lhe m ostrar lá em cim a.
Olhei o relógio. Faltavam pouco m enos de duas horas para a m ensagem de Bat Street. Entram os num elevador. Shauna apertou o botão do 23º. andar. Os núm eros no m ostrador lum inoso foram aum entando rapidam ente, enquanto um a m ensagem gravada indicava os andares aos deficientes visuais.
– Hester m e deixou preocupada – disse Shauna.
– Por quê?
– Ela diz que os agentes federais estão desesperados atrás de você.
– E daí?
O elevador parou em nosso andar.
– Saia. Você vai ver.
A porta se abriu, dando para um salão dividido em um sem -núm ero de estações de trabalho. É o que m ais se vê na cidade atualm ente. Se você arrancar o teto e olhar de cim a, não verá nenhum a diferença entre esses escritórios e um labirinto de ratos. Aliás, aqui de baixo a im pressão j á é essa.
Shauna m archou entre inúm eras divisórias forradas de pano. Fui andando atrás dela. No m eio do cam inho, ela dobrou à esquerda, depois à direita, depois à esquerda novam ente.
– Talvez fosse m elhor eu j ogar m igalhas de pão – brinquei.
Sua voz soou m onótona:
– Ótim a piada.
– Obrigado. Dou show aqui todas as sem anas.
Ela não estava rindo.
– Que lugar é este, afinal? – perguntei.
– Um a em presa cham ada DigiCom . Nossa agência trabalha com ela às vezes.
– Fazendo o quê?
– Você vai ver.
Fizem os um a últim a curva e entram os em um a estação de trabalho atulhada, ocupada por um j ovem de cabeça com prida e dedos esguios de pianista.
– Este é Farrell Ly nch. Farrell, este é David Beck.
Apertei rapidam ente sua m ão.
– Oi – cum prim entou Farrell.
Retribuí com um aceno de cabeça.
– O.k. – disse Shauna. – Pode ligar.
Farrell Ly nch girou a cadeira para ficar de frente para o com putador. Shauna e eu observam os por sobre os om bros dele. Ele com eçou a digitar.
– Está ligado – disse ele.
– Pode rodar.
Ele apertou a tecla Enter. A tela ficou preta e, em seguida, apareceu Hum phrey Bogart, com chapéu de feltro e sobretudo. Reconheci a cena im ediatam ente. O nevoeiro, o avião ao fundo. O final de Casablanca.
Olhei para Shauna.
– Espere – ela disse.
A câm era focalizava Bogart. Ele dizia a Ingrid Bergm an que ela entraria no avião com Laszlo e que os problem as de três m íseras pessoas eram insignificantes diante dos problem as do m undo. Depois, a câm era se voltou para Ingrid Bergm an…
… m as não era Ingrid Bergm an.
Pisquei. Ali, sob o fam oso chapéu, olhando para Bogart e banhada num a luz prateada, estava Shauna.
– Não posso ir com você, Rick – disse dram aticam ente a Shauna do com putador –, porque estou apaixonada pela Ava Gardner.
Voltei-m e para Shauna. Meus olhos fizeram a pergunta. Ela respondeu que sim com a cabeça. Mesm o assim , eu disse:
– Você acha… – gaguej ei – que fui enganado por um truque fotográfico?
Farrell entrou na conversa.
– Fotografia digital – ele m e corrigiu. – Bem m ais fácil de m anipular. – Ele girou a cadeira na m inha direção. – Vej a bem , im agens de com putador não são com o um film e. Elas não passam de pixels arm azenados em arquivos. Com o os docum entos de um processador de textos. Você sabe com o é fácil m udar um docum ento no processador de textos, certo? Alterar o conteúdo, a fonte, o espaçam ento.
Concordei.
– Quem tem algum conhecim ento, ainda que rudim entar, de tratam ento digital de im agens consegue m anipular facilm ente os fluxos de im agens no com putador. Aquilo não são fotos, film es nem fitas. Os fluxos de vídeo no com putador não passam de um m onte de pixels. Qualquer um consegue m anipulá-los. É só cortar e colar e depois executar um program a de edição.
Olhei para Shauna.
– Mas ela parecia m ais velha no vídeo – insisti. – Diferente.
Shauna disse:
– Mostre a ele, Farrell.
Ele apertou outra tecla. Bogart surgiu novam ente na tela. Só que, desta vez, na cena de Ingrid Bergm an, Shauna parecia ter 70 anos.
– Software de progressão da idade – explicou Farrell. – Este recurso costum a ser usado nos casos de crianças desaparecidas, m as atualm ente vendem em qualquer loj a de inform ática um a versão para uso dom éstico. Posso tam bém m udar qualquer parte da im agem de Shauna: corte de cabelo, cor dos olhos, tam anho do nariz. Posso tornar seus lábios m ais finos ou m ais grossos, acrescentar um a tatuagem , o que eu quiser.
– Obrigada, Farrell – agradeceu Shauna.
Ela lhe lançou um olhar que até um cego conseguiria interpretar com o um a dispensa.
– Com licença – disse Farrell antes de se afastar.
Eu não conseguia nem pensar.
Quando Farrell estava fora de alcance, Shauna disse:
– Lem brei-m e de um a série de fotografias que tirei no m ês passado. Um a das fotos saiu perfeita, o patrocinador adorou, m as o brinco estava m eio fora do lugar. Trouxem os a im agem para cá. Farrell fez um a de suas m ágicas e o brinco voltou para o lugar certo.
Fiz um gesto de espanto. Ela continuou:
– Pense nisso, Beck. Os agentes federais acham que você m atou Elizabeth, m as não têm com o provar. Hester explicou quão desesperados eles estão. Com ecei a pensar: talvez eles queiram torturá-lo m entalm ente para ver se confessa. Haverá form a m elhor de tortura m ental do que esses e-m ails?
– Mas e a “hora do beij o”…?
– O que tem a ver?
– Com o é que eles poderiam saber da “hora do beij o”?
– Eu sei. Linda sabe. Aposto que Rebecca tam bém sabe, e talvez até os pais de Elizabeth saibam . Eles podem ter descoberto.
Senti as lágrim as aflorarem . Fiz força e consegui sussurrar:
– É um a farsa?
– Não sei, Beck. Realm ente não sei. Mas sej am os racionais. Se Elizabeth estivesse viva, onde se escondeu durante oito anos? Por que resolveu voltar do túm ulo j ustam ente agora, quando o FBI com eça a suspeitar de que você a m atou? Você acredita m esm o que ela estej a viva? Eu sei que você quer isso. Poxa, eu tam bém quero. Mas vam os encarar os fatos de form a racional. Se você pensar friam ente, o que faz m ais sentido?
Cam baleei para trás e caí na cadeira. Meu coração com eçou a desm oronar. Senti a esperança m e abandonar.
Um a farsa. Tudo aquilo não passara de um a farsa?