Não Conte a Ninguém

Harlan Coben · Capítulo 37 de 50

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Não Conte a Ninguém

Capítulo 36

36

LARRY GANDLE ESTAVA SENTADO DIANTE de Griffin Scope. Estavam ao ar livre, no pórtico do j ardim atrás da m ansão dos Scope. A noite j á caía, cobrindo de som bras os gram ados bem cuidados. Grilos cantavam um a m elodia quase bonita, com o se os ricos pudessem m anipular até aquilo. Um a tilintante m úsica de piano escapava pelas portas de vidro corrediças. As lâm padas de dentro da casa proporcionavam um grau rigorosam ente calculado de ilum inação, proj etando agradáveis som bras verm elhas e am arelas.

Am bos os hom ens vestiam calças cáqui. Larry usava um a cam isa polo. Griffin ostentava um a bata de seda de seu alfaiate de Hong Kong. Larry aguardava com um copo de cervej a na m ão. Ele observava o hom em m ais velho, cuj a silhueta lem brava a figura na m oeda de cobre de 1 centavo de dólar, sentado de frente para seu vasto quintal, o nariz ligeiram ente inclinado para cim a, as pernas cruzadas. Sua m ão direita pendia do braço da cadeira, um a bebida m arrom -am arelada rodopiando na taça de conhaque.

– Você não tem nenhum a ideia de onde ele estej a? – perguntou Griffin.

– Nenhum a.

– E esses dois negões que o salvaram ?

– Não tenho a m enor ideia de com o eles se envolveram . Mas Wu está investigando.

Griffin bebericou um gole de seu drinque. Fazia um calor opressivo.

– Você realm ente acredita que ela ainda estej a viva?

Larry estava pronto para com eçar um a longa narrativa, fornecendo provas a favor e contra, m ostrando todas as opções e possibilidades. Mas sim plesm ente disse:

– Acredito.

Griffin cerrou os olhos:

– Lem bra-se do dia em que seu prim eiro filho nasceu?

– Lem bro.

– Você ficou na sala de parto?

– Fiquei, sim .

– No m eu tem po a gente não tinha esse costum e – disse Griffin. – O pai ficava andando de um lado para outro em um a sala de espera cheia de revistas velhas. Lem bro quando a enferm eira veio m e cham ar. Ela m e conduziu por um corredor e ainda m e recordo que, ao virar no final, vi Allison segurando Brandon. Foi a sensação m ais estranha que j á tive, Larry. Algo brotou dentro de m im dando a im pressão de que eu ia explodir. Foi um a sensação intensa dem ais, esm agadora dem ais. Não dava para analisar ou com preender. Suponho que todos os pais experim entem algo sem elhante.

Ele parou. Larry olhou para ele. Lágrim as desciam pela face do velho hom em , brilhando à luz tênue. Larry perm aneceu calado.

– Talvez os sentim entos m ais óbvios naquele dia tenham sido alegria e apreensão. Apreensão no sentido de que eu passara a ser responsável por aquele pequeno ser. Mas havia algo m ais. Eu não conseguia definir exatam ente. Não naquele m om ento. Não até Brandon ir pela prim eira vez para a escola.

Algo queim ou na garganta de Griffin. Ele tossiu um pouco, e Larry pôde ver m ais lágrim as. A m úsica do piano soava m ais suave agora. Os grilos se aquietaram , com o se tam bém escutassem .

– Esperam os j untos pelo ônibus escolar. Eu segurava a m ão dele. Brandon tinha 5 anos. Ele olhou para m im , com o as crianças costum am fazer nessa idade. Ele vestia um a calça m arrom que j á estava m anchada de gram a no j oelho. Lem bro-m e do ônibus am arelo parando e do som da porta ao se abrir. Então, Brandon largou m inha m ão e com eçou a subir os degraus. Senti vontade de ir lá, pegá-lo de volta e levá-lo para casa, m as fiquei ali, parado, congelado. Ele entrou no ônibus, eu ouvi aquele barulho de novo e a porta se fechou. Brandon sentou perto da j anela. Dava para ver seu rostinho. Ele deu tchau para m im . Eu tam bém dei tchau e, quando o ônibus se afastou, disse a m im m esm o: ‘‘Ali vai todo o m eu m undo.” Aquele ônibus am arelo com suas frágeis laterais de m etal e um m otorista que eu nunca vira m ais gordo transportavam aquilo que era tudo para m im . Naquele m om ento, com preendi o que eu havia sentido no dia que ele nasceu. Terror. Não apenas apreensão. Puro terror. Você pode ter m edo da doença, da velhice ou da m orte. Mas não havia nada com o aquela pontinha de terror nas m inhas entranhas enquanto eu observava o ônibus se afastar. Dá para entender?

Larry concordou com a cabeça.

– Acho que sim .

– Naquele m om ento, eu soube que, por m ais que m e desdobrasse, algo ruim podia acontecer com ele. Nem sem pre eu estaria ao seu lado para aparar os golpes. Eu pensava nisso constantem ente. Acho que todos nós pensam os. Mas quando aquilo aconteceu, quando… – Ele parou e, enfim , encarou Larry Gandle. – Continuo tentando trazê-lo de volta. Tento negociar com Deus, oferecendo m undos e fundos se Ele concordar em trazer Brandon de volta. Claro que isso não vai acontecer. Eu entendo. Mas agora você vem aqui e diz para m im que, enquanto m eu filho, todo o m eu m undo, apodrece na terra… ela está viva. – Ele balançou vigorosam ente a cabeça. – Não posso aceitar isso, Larry . Entende o que eu digo?

– Entendo – ele respondeu.

– Não consegui protegê-lo um a vez. Não vou falhar de novo.

Griffin Scope voltou-se novam ente para seu j ardim . Tom ou outro gole do drinque. Larry Gandle entendeu. Ele se levantou e foi andando em direção às som bras.

♦ ♦ ♦

Às 10 horas da noite, Carlson chegou à porta da frente do nº. 28 da Goodhart Road. Apesar da hora avançada, ele não se preocupou. Tinha visto luzes no térreo e a lum inosidade trêm ula de um a televisão. Mas, m esm o que não tivesse visto, Carlson tinha preocupações m ais im portantes do que o sono tranquilo dos outros.

Estava prestes a tocar a cam painha quando a porta se abriu. Hoy t Parker surgiu. Por um m om ento, os dois hom ens ficaram parados, dois boxeadores encarando-se no centro do ringue, enquanto o j uiz reiterava instruções inúteis sobre golpes baixos e socos nos intervalos.

Carlson foi direto ao assunto:

– Por acaso sua filha usava drogas?

Hoy t Parker não pareceu m uito abalado com a pergunta.

– Por que você quer saber?

– Posso entrar?

– Minha m ulher está dorm indo – inform ou Hoy t, saindo para a rua e fechando a porta. – Im porta-se de conversar aqui fora?

– Tudo bem .

Hoy t cruzou os braços e ficou balançando o corpo para a frente e para trás por um m om ento. Tratava-se de um suj eito robusto, de calça j eans e com um a cam iseta que devia ter sido bem m ais confortável quando ele pesava cinco quilos m enos. Carlson sabia que Hoy t Parker era um tira veterano. Arm adilhas e sutilezas não funcionariam com ele.

– Você vai responder à m inha pergunta? – indagou Carlson.

– Você vai m e dizer por que quer saber? – replicou Hoy t.

Carlson decidiu m udar de tática.

– Por que você retirou as fotos do relatório da autópsia de sua filha?

– O que leva você a pensar que eu as retirei? – Não havia nele nenhum tom de indignação ou hipocrisia.

– Vi o laudo da autópsia hoj e – revelou Carlson.

– Por quê?

– Com o assim por quê?

– Minha filha está m orta há oito anos. O assassino está na cadeia. E você resolve exam inar o laudo da autópsia j usto hoj e. Gostaria de saber por quê.

Aquela conversa não estava levando a lugar nenhum , então Carlson decidiu ceder um pouquinho, baixar a guarda, deixar o oponente m ais à vontade e ver no que ia dar.

– Seu genro visitou ontem o m édico-legista de Sussex. Ele pediu para ver a ficha da esposa. Eu estava tentando descobrir por quê.

– Ele viu o laudo da autópsia?

– Não – respondeu Carlson. – Você sabe por que ele está tão ansioso para ver isso?

– Não tenho a m enor ideia.

– Mas você pareceu preocupado.

– Com o você, acho a conduta suspeita.

– Mais do que isso – disse Carlson. – Você queria saber se ele chegou a ter acesso ao laudo. Por quê?

Hoy t não respondeu.

– Vai m e dizer o que fez com as fotografias da autópsia?

– Não sei do que você está falando – respondeu Hoy t em tom seco.

– Você foi a única pessoa que solicitou o laudo.

– E o que isso prova?

– As fotografias estavam lá quando você exam inou a ficha?

Os olhos de Hoy t trem ularam , m as ele não dem orou.

– Sim – ele disse. – Estavam lá.

Carlson não pôde conter o sorriso.

– Boa resposta. – Hoy t não caíra na arm adilha. – Porque, se você respondesse que não, eu estranharia o fato de você não ter dado queixa naquela ocasião, não é m esm o?

– Você é desconfiado, agente Carlson.

– Pois é. Algum a ideia de onde essas fotos estão agora?

– Provavelm ente na ficha errada.

– É possível. Você não parece m uito perturbado com isso.

– Minha filha está m orta. O caso está encerrado. O que poderia m e perturbar agora?

Aquilo era um a perda de tem po. Ou talvez não fosse. Carlson não estava obtendo m uitas inform ações, m as a conduta de Hoy t era eloquente.

– Então você ainda acha que KillRoy m atou sua filha?

– Sem dúvida.

Carlson exibiu o laudo da autópsia.

– Mesm o depois de ter lido isto?

– Sim .

– O fato de tantos ferim entos serem post mortem não o preocupa?

– Pelo contrário, m e conforta. Significa que m inha filha sofreu m enos.

– Não é isso o que quero dizer. Estou falando em term os das provas contra Kellerton.

– Não vej o nada nessa ficha que contradiga aquela conclusão.

– O laudo não é com patível com os outros assassinatos.

– Discordo – afirm ou Hoy t. – O que não pareceu com patível foi a força de m inha filha.

– Não sei se estou entendendo.

– Sei que Kellerton gostava de torturar suas vítim as – disse Hoy t. – E sei que ele costum ava m arcá-las com ferro em brasa enquanto ainda estavam vivas. Mas nossa teoria é que Elizabeth tentou escapar ou, pelo m enos, reagiu. Acham os que ela prendeu a m ão dele. Ele teve de subj ugá-la e, com isso, acabou m atando-a. Isso explica os ferim entos de faca nas m ãos dela e por que ela foi m arcada post mortem.

– Entendo. – Um gancho de esquerda inesperado. Carlson tentou m anter o dom ínio. Fazia sentido. Mesm o as m enores vítim as podem dar um trabalhão. Essa explicação tornava m aravilhosam ente coerentes todas as aparentes incoerências. Mas ainda havia problem as. – Então, com o é que você explica o exam e toxicológico?

– Irrelevante – respondeu Hoy t. – É com o perguntar a um a vítim a de estupro sobre seu histórico sexual. Não im porta se m inha filha era ou não viciada em crack.

– Ela era o quê?

– É irrelevante – ele repetiu.

– Nada é irrelevante num a investigação de hom icídio. Você sabe disso.

Hoy t tornou-se m ais agressivo.

– Tom e cuidado – disse.

– Está m e am eaçando?

– De form a algum a. Só estou avisando que, depois de tudo pelo que m inha filha passou, você não tem o direito de denegri-la.

Os dois ficaram ali, parados. O últim o sino havia soado. Eles agora aguardavam um a decisão que seria insatisfatória qualquer que fosse a inclinação dos j uízes.

– Assunto encerrado? – disse Hoy t.

Carlson concordou com a cabeça e deu um passo para trás. Parker fez m enção de abrir a porta.

– Hoy t?

Hoy t olhou para trás.

– Para que não haj a nenhum m al-entendido – disse Carlson. – Não acredito num a única palavra que você disse. Está claro?

– Com o água – respondeu Hoy t.