Não Conte a Ninguém
Capítulo 2
2
EM CASA, TIVE OUTRO CHOQUE do passado.
Moro do lado da Ponte George Washington, que liga Manhattan a Nova Jersey – no bairro residencial tipicam ente am ericano de Green River, o qual, apesar do nom e, não possui nenhum rio e vem perdendo cada vez m ais área verde. A casa é de m eu avô. Fui m orar com ele e um exército de enferm eiras desconhecidas quando Nana m orreu, há três anos.
Vovô sofre do m al de Alzheim er. Sua m ente assem elha-se a um a velha TV em preto e branco com antenas danificadas. Ele entra e sai do ar, e alguns dias são m elhores que outros. Você tem de deixar a antena em um a determ inada posição e não tirá-la de lá, e, ainda assim , a im agem faz um interm itente giro vertical. Pelo m enos, era esse o quadro. Mas ultim am ente – m antendo a m etáfora – a TV m al consegue ligar.
Jam ais gostei realm ente do vovô. Ele era um hom em dom inador, do tipo antiquado, que venceu na vida sozinho e cuj a afeição era repartida em proporção direta ao sucesso das pessoas. Era um hom em rude, de am or bruto e um m achism o ultrapassado. Um neto sensível e pouco atlético, m esm o com boas notas, era facilm ente desprezado.
O m otivo pelo qual aceitei m orar com ele foi saber que, se não o fizesse, m inha irm ã o teria acolhido. Linda era assim . Quando cantávam os na colônia de férias de Brooklake que “Ele tem o m undo inteiro em Suas m ãos”, ela tom ava aquilo ao pé da letra. Ela se sentiria na obrigação. Mas Linda tinha um filho, um a com panheira e responsabilidades. Eu não tinha nada disso; foi por isso que, por precaução, tinha ido m orar com ele. Acho que gostava de m orar ali. Era tranquilo.
Chloe, m inha cachorra, correu em m inha direção, abanando a cauda. Afaguei-a atrás de suas orelhas caídas. Ela ficou quieta por alguns instantes e depois com eçou a olhar para a guia.
– Espere um pouco – pedi.
Chloe não gostava dessa frase. Ela m e olhou – um a façanha nada fácil para quem tem os olhos totalm ente cobertos por pelos. Chloe é um a collie. Elizabeth e eu a com pram os logo depois que nos casam os. Elizabeth adorava cachorros. Eu não. Agora adoro.
Chloe se ergueu e foi andando em direção à entrada. Ela olhou para a porta, depois para m im , depois novam ente para a porta. Adivinhe o que ela queria…
Vovô estava parado diante de um program a de prêm ios na TV. Ele não se virou para m im , tam pouco parecia estar vendo o program a. Seu rosto estava congelado no que se tornara um a pálida e fixa m áscara m ortuária. As únicas vezes em que eu via a m áscara se desfazer era quando lhe trocavam a fralda. Quando isso acontecia, seus lábios se afinavam e seu rosto perdia a rigidez. Seus olhos se um edeciam e, às vezes, um a lágrim a escapava. Acho que ele ficava m ais lúcido quando m ais precisaria da senilidade.
Deus tem senso de hum or.
A enferm eira deixara um recado na m esa da cozinha: LIGAR PARA O XERIFE LOWELL.
Havia um núm ero de telefone rabiscado em baixo.
Minha cabeça com eçou a doer. Desde o ataque, sofro de enxaqueca. Os golpes racharam m eu crânio. Fiquei hospitalizado por cinco dias, em bora um especialista, m eu colega de turm a na faculdade de m edicina, ache que a enxaqueca tenha origem psicológica, e não fisiológica. Talvez tenha razão. De qualquer m odo, a dor e a culpa perm anecem . Eu deveria ter m e esquivado. Eu deveria ter pressentido o ataque. Eu não deveria ter caído na água. Acabei encontrando forças para m e salvar – m as não para salvar Elizabeth.
Águas passadas não m ovem m oinhos, eu sei.
Li o recado novam ente. Chloe com eçou a choram ingar. Levantei o dedo em sinal de repreensão. Ela parou, m as voltou a olhar sucessivam ente para m im e para a porta.
Eu não ouvia falar do xerife Lowell havia oito anos, m as ainda m e lem brava dele avultando sobre m eu leito no hospital, seu rosto m arcado pela dúvida e pelo ceticism o.
O que ele poderia querer depois de tanto tem po?
Peguei o telefone e liguei. Um a voz atendeu no prim eiro toque.
– Dr. Beck, obrigado por retornar a ligação.
Não sou um grande fã do identificador de cham adas – Big Brother dem ais para o m eu gosto. Pigarreei e fui direto ao assunto.
– Em que posso aj udá-lo, xerife?
– Estou nas redondezas – respondeu ele. – Gostaria de passar aí e vê-lo, se possível.
– É um a visita social? – indaguei.
– Confesso que não. – Ele esperou em vão que eu dissesse algum a coisa. – Pode ser agora? – perguntou Lowell.
– Pode m e dizer do que se trata?
– Prefiro esperar até…
– Prefiro que não espere.
Eu apertava o fone com m ais força.
– Tudo bem , Dr. Beck, com preendo. – Ele pigarreou de um a m aneira que indicava que estava tentando ganhar tem po. – Talvez você tenha visto no noticiário que dois corpos foram encontrados em Riley .
Eu não tinha visto.
– E daí?
– Eles estavam perto de sua propriedade.
– A propriedade não é m inha. É do m eu avô.
– Mas está sob sua custódia, certo?
– Não – respondi. – Da m inha irm ã.
– Talvez você possa cham á-la. Gostaria de falar com ela tam bém .
– Os corpos não foram encontrados no lago Charm aine, foram ?
– Não. Eles estavam no terreno vizinho, a oeste. Um a propriedade m unicipal, na verdade.
– Então o que você quer de nós?
Houve um a pausa.
– Olhe, estarei aí em um a hora. Vej a se consegue ligar para Linda, está bem ?
Ele desligou.
♦ ♦ ♦
Os anos não haviam poupado o xerife Lowell, m as pudera, ele nunca fora nenhum Mel Gibson. Era um suj eito m eio asqueroso, com um aspecto tão servil que faria Nixon parecer um vencedor. Tinha a ponta do nariz extrem am ente redonda e inchada. Vivia pegando um lenço surrado, desdobrando-o, assoando o nariz, dobrando-o cuidadosam ente de novo e enfiando-o no bolso de trás.
Linda chegou. Ela se inclinou para a frente no sofá, pronta a m e defender. Era assim que costum ava se sentar. Trata-se de um a daquelas pessoas que sem pre dão ao outro total e exclusiva atenção. Quando ela fitava alguém com aqueles grandes olhos castanhos, não se conseguia olhar para m ais ninguém . Sou suspeito para falar, m as Linda é a m elhor pessoa que conheço. Meio brega, sim , m as sua existência faz com que eu tenha esperança neste m undo. E o fato de ela m e am ar serve de consolo de tudo o que perdi.
Sentam o-nos na sala de estar de m eu avô, coisa que, sem pre que posso, evito. A sala era decadente, arrepiante e conservava o cheiro de gente velha. Difícil respirar ali. O xerife Lowell levou algum tem po até se adaptar. Assoou de novo o nariz, apanhou um bloco do bolso, um edeceu o dedo com saliva, procurou a página que queria. Ofereceu-nos o m ais am igável de seus sorrisos e com eçou:
– Vocês se incom odariam de dizer quando estiveram pela últim a vez no lago?
– Estive lá no m ês passado – disse Linda.
Mas os olhos do xerife estavam voltados para m im :
– E você, Dr. Beck?
– Há oito anos.
Ele balançou a cabeça com o se esperasse essa resposta.
– Conform e expliquei por telefone, encontram os dois corpos perto do lago Charm aine.
– Vocês j á os identificaram ? – perguntou Linda.
– Ainda não.
– Não é estranho?
Lowell refletiu a respeito por um m om ento, inclinando-se para a frente para apanhar o lenço outra vez.
– Sabem os que são am bos do sexo m asculino, adultos e brancos. Estam os exam inando agora os registros de pessoas desaparecidas para ver se descobrim os algum a coisa. Os corpos parecem m uito antigos.
– Quanto tem po? – perguntei.
O xerife Lowell olhou novam ente em m eus olhos.
– Difícil saber. O Instituto Médico-Legal ainda está fazendo os exam es, m as calculam os que estej am m ortos há pelo m enos cinco anos. Eles foram m uito bem enterrados. Nunca os teríam os achado se não fosse por um deslizam ento causado pela chuva e se um urso não tivesse aparecido com um braço.
Minha irm ã e eu nos entreolham os.
– Um urso? – perguntou Linda.
O xerife Lowell fez que sim com a cabeça:
– Um caçador abateu um urso e encontrou um osso perto do anim al m orto. O osso tinha estado na boca do urso. Descobriu-se que era um braço hum ano. Resolvem os investigar. Levou algum tem po. Ainda estam os escavando a área.
– Vocês acham que pode haver m ais corpos?
– Nunca se sabe.
Relaxei. Linda continuou concentrada.
– Então você veio aqui pedir nossa perm issão para escavar a propriedade do lago Charm aine?
– Tam bém .
Esperam os que ele continuasse. Ele pigarreou e voltou a m e fitar.
– Dr. Beck, seu tipo sanguíneo é B positivo, correto?
Abri a boca, m as Linda pôs a m ão sobre m eu j oelho.
– O que isso tem a ver com a história? – perguntou ela.
– Encontram os outras coisas no local onde os corpos estavam enterrados.
– Que outras coisas?
– Desculpe. Isso é confidencial.
– Então trate de dar o fora – ordenei.
Lowell não pareceu surpreso com m inha explosão.
– Só estou tentando conduzir…
– Eu disse para dar o fora!
O xerife Lowell não saiu do lugar.
– Sei que o assassino de sua esposa j á foi levado à j ustiça – disse ele. – E sei com o deve ser doloroso tocar novam ente nesse assunto.
– Não m e trate com o criança – reclam ei.
– Não é m inha intenção.
– Há oito anos você pensou que eu a tivesse m atado.
– Não é verdade. Você era o m arido. Nesses casos, as chances de envolvim ento de um m em bro da fam ília…
– Talvez, se você não tivesse perdido tem po com essa besteira, a tivesse encontrado antes… – Joguei-m e para trás, perturbado. Olhei para o outro lado. O xerife que fosse para o inferno. Linda estendeu o braço para m im , m as m e afastei.
– Minha função era explorar todas as possibilidades – ele continuou na sua fala m onótona. – Pedim os auxílio às autoridades federais. Até seu sogro e o irm ão dele foram inform ados de todo o andam ento do caso. Fizem os tudo o que pudem os.
Eu j á não aguentava ouvir m ais nenhum a palavra.
– Que diabo você quer aqui, Lowell?
Ele se levantou e puxou a calça. Acho que queria usar sua altura para m e intim idar.
– Um exam e de sangue – respondeu ele. – Seu.
– Por quê?
– Quando sua m ulher foi raptada, você foi atacado.
– E daí?
– Foi atingido por um instrum ento duro.
– Você está cansado de saber disso.
– Sim – respondeu Lowell. Ele assoou novam ente o nariz, voltou a guardar o lenço e com eçou a andar de um lado para outro. – Quando encontram os os corpos, acham os tam bém um taco de beisebol.
Minha dor de cabeça voltou.
– Um taco?
Lowell fez um sinal afirm ativo com a cabeça.
– Enterrado j unto com os corpos. Um taco de m adeira.
– Não entendo. O que isso tem a ver com m eu irm ão? – Linda interveio.
– Encontram os sangue ressecado nele. Tipo B positivo. – Ele olhou em m inha direção. – Seu tipo sanguíneo, não é m esm o?
♦ ♦ ♦
Recapitulam os tudo: o aniversário do prim eiro beij o, a m arcação na árvore, o nado no lago, o som da porta do carro, m inha frenética e patética tentativa de chegar até a m argem .
– Você se lem bra de ter caído de novo no lago? – perguntou Lowell.
– Sim .
– E ouviu sua m ulher gritar?
– Sim .
– Aí você perdeu os sentidos? Na água?
Confirm ei com a cabeça.
– Você diria que o lago tinha qual profundidade?
– Você não verificou isso há oito anos? – indaguei.
– Colabore com igo, Dr. Beck.
– Sei lá. Era bem fundo.
– Não dava pé?
– Não.
– Tudo bem . Depois disso, você se lem bra de quê?
– Do hospital – respondi.
– Nada entre o m om ento em que atingiu a água e o que acordou no hospital?
– Nada.
– Você não se lem bra de ter saído da água? Não se lem bra de ter cam inhado até a cabana ou cham ado um a am bulância? Você fez tudo isso, sabe? Encontram os você no chão da cabana. O telefone ainda estava fora do gancho.
– Eu sei, m as não m e lem bro.
Linda se m anifestou:
– Você acha que esses dois hom ens são novas vítim as de… – ela hesitou – KillRoy ?
Ela falou KillRoy rapidam ente. O sim ples ato de pronunciar seu nom e dava calafrios.
Lowell tossiu, tapando a boca com o pulso.
– Não sabem os direito. As únicas vítim as conhecidas de KillRoy foram m ulheres. Ele nunca escondeu um corpo antes… pelo m enos, nenhum que tenham os descoberto. E a pele dos dois hom ens apodreceu, de m odo que não podem os saber se foram m arcados.
Marcados. Senti a cabeça girar. Fechei os olhos e tentei não ouvir m ais nada.