Não Conte a Ninguém
Capítulo 34
34
NADA DE BAGAGEM. UM TÍQUETE ELETRÔNICO para que ela pudesse fazer o check-in por m eio de um a m áquina, e não com um a pessoa. Elizabeth ficou em um term inal vizinho, de olho no quadro de partidas, esperando que o sinal de Confirm ado no letreiro ao lado de seu voo m udasse para Em barque.
Sentou-se num a cadeira de plástico e olhou para a pista de decolagem . Um a TV barulhenta transm itia a program ação da CNN: ‘‘A seguir, Headline Sports.” Ela esvaziou a m ente. Cinco anos antes, passara um período em um a aldeia próxim a a Goa, na Índia. Em bora fosse um verdadeiro fim de m undo, o lugar tinha certa fam a por causa de um iogue centenário que vivia lá. Ela passara algum tem po com o iogue. Ele tentara lhe ensinar técnicas de m editação, respiração pranayama e purificação m ental. Mas nada daquilo realm ente funcionara. Havia m om entos em que ela conseguia afundar na escuridão. Na m aior parte das vezes, porém , onde quer que ela m ergulhasse, lá estava Beck.
Refletiu sobre o próxim o lance. Realm ente não havia escolha. Sua sobrevivência estava em j ogo. Sobreviver significava fugir. Havia feito um a grande bobagem e agora estava fugindo de novo, deixando que os outros a desfizessem . Mas que outra opção havia? Eles estavam em sua cola. Em bora ela tivesse tom ado o m aior cuidado, eles ainda a observavam . Oito anos depois.
Um a criancinha abriu cam inho até a j anela e, com a palm a das m ãos, bateu alegrem ente no vidro lam inado, provocando um ruído surdo. O pai, contrariado, foi atrás dela e a agarrou com um sorriso am arelo.
Ela observou a cena, e sua m ente m ergulhou naquelas inúteis suposições do tipo o-que-poderia-ter-acontecido-se… Um casal de velhinhos estava sentado à direita, conversando am igavelm ente sobre trivialidades. Na adolescência, ela e Beck observavam o Sr. e a Sra. Steinberg passearem de braços dados por Downing Place, todas as noites sem falta, m uitos anos depois de seus filhos terem crescido e deixado o ninho. A vida deles seria assim , Beck prom etera. A Sra. Steinberg m orreu aos 82 anos. O Sr. Steinberg, que surpreendentem ente gozava de perfeita saúde, acom panhou-a quatro m eses depois. Dizem que isso é com um entre os velhinhos, quando – parafraseando Bruce Springsteen – dois corações se tornam um . Quando um m orre, o outro vai atrás. Seria assim com ela e David? Eles não haviam convivido por 61 anos com o os Steinberg, m as, pensando em term os relativos – levando em conta que nossa m em ória praticam ente só com eça aos 5 anos, lem brando que ela e Beck haviam sido inseparáveis desde os 7 anos, que cada um deles m al conseguia ter algum a recordação que não incluísse o outro, pensando no tem po que passaram j untos não apenas em term os de anos, m as de porcentagem da vida –, eles tinham ultrapassado os Steinberg.
Ela se voltou novam ente para o quadro de partidas. Ao lado do voo 174 da British Airway s, a palavra Em barque com eçou a piscar.
Estava na hora…
♦ ♦ ♦
Carlson e Stone, j unto com seus colegas Dim onte e Krinsky, consultavam a gerente de reservas da British Airway s.
– Ele não apareceu – inform ou a gerente de reservas, um a m ulher de uniform e azul e branco, lenço no pescoço, um a bela pronúncia e um crachá escrito Em ily .
Dim onte praguej ou. Krinsky não ligou. Aquilo não era nenhum a surpresa. Beck havia conseguido se esquivar de um a caçada hum ana o dia inteiro. Ele não seria burro de tentar em barcar num voo usando seu nom e verdadeiro.
– Beco sem saída – disse Dim onte.
Carlson, que ainda estava com a ficha da autópsia, perguntou a Em ily :
– Qual dos funcionários entende m ais de com putador?
– Eu – respondeu ela, com um sorriso confiante.
– Por favor, m ostre-m e a reserva – pediu Carlson. Em ily atendeu ao pedido.
– É possível saber quando ele reservou a passagem ?
– Três dias atrás.
Dim onte não se conteve:
– Beck planej ou a fuga. Filho da m ãe.
Carlson negou com a cabeça.
– Não é verdade.
– Com o é que você sabe?
– Nossa hipótese foi que ele m atou Rebecca Schay es com o queim a de arquivo – explicou Carlson. – Mas, se você vai fugir do país, por que se preocupar? Por que se arriscar a esperar três dias e ainda por cim a com eter outro assassinato?
Dessa vez foi Stone quem fez um sinal negativo com a cabeça.
– Você está im aginando coisas, Nick.
– Está faltando um a peça no quebra-cabeça – insistiu Carlson. – Por que ele decidiria fugir de um a hora para outra?
– Porque estávam os atrás dele, ora.
– Não estávam os atrás dele há três dias.
– Talvez ele soubesse que era um a questão de tem po.
Carlson franziu ainda m ais o cenho.
Dim onte se voltou para Krinsky :
– Isto é um a perda de tem po. Vam os cair fora daqui.
Ele olhou para Carlson.
– Então vam os deixar uns guardas aqui, por precaução.
Carlson concordou com um gesto m ecânico da cabeça. Quando Dim onte e Krinsky partiram , ele perguntou a Em ily :
– Ele ia viaj ar com m ais alguém ?
Em ily apertou algum as teclas.
– Foi um a reserva individual.
– Com o foi que ele reservou? Pessoalm ente? Pelo telefone? Através de um a agência de viagens?
Ela apertou as teclas novam ente.
– Não foi por um a agência de viagens, com certeza. Senão a reserva estaria indicando o pagam ento de um a com issão. A reserva foi feita diretam ente com a British Airway s.
Aquilo não aj udava em nada.
– Com o foi que ele pagou?
– Cartão de crédito.
– Pode m e dizer o núm ero?
Ela forneceu o núm ero a Carlson, que o repassou para Stone. Este negou com a cabeça.
– Não é nenhum dos cartões dele. Pelo m enos, nenhum dos que conhecem os.
– Confira – pediu Carlson.
Stone j á estava com o celular na m ão. Ele concordou com a cabeça e discou.
Carlson coçou o queixo.
– Você disse que ele reservou a passagem três dias atrás.
– Isso m esm o.
– Sabe a que horas ele fez a reserva?
– É fácil. Está aqui no com putador. 18h14.
Carlson balançou a cabeça.
– Ótim o, m aravilha! Pode m e dizer se algum a outra pessoa fez um a reserva m ais ou m enos na m esm a hora?
Em ily pensou a respeito.
– Nunca tentei fazer isso – respondeu ela. – Um m om ento, deixe-m e ver um a coisa. – Ela digitou algo e aguardou. Depois digitou m ais um pouco e aguardou. – O com putador não classifica por data de reserva.
– Mas as inform ações estão aí?
– Sim . Só um m inuto! – Seus dedos com eçaram a digitar novam ente. – Posso colocar as inform ações num a planilha. Podem os colocar 50 reservas por tela. Assim fica m ais rápido.
O prim eiro grupo de 50 m ostrava um casal que fizera as reservas no m esm o dia, m as horas antes. O segundo grupo não tinha ninguém . No terceiro grupo, porém , bingo!
– Lisa Sherm an – anunciou Em ily. – O bilhete foi reservado no m esm o dia, oito m inutos m ais tarde.
Aquilo em si não significava nada, é claro, m as Carlson sentiu os pelos da nuca se eriçarem .
– Que interessante! – acrescentou Em ily .
– O quê?
– O lugar.
– O que tem ?
– Ela reservou o lugar ao lado de David Beck. Fila 16, assentos E e F.
Ele sentiu um choque.
– Ela passou pelo check-in?
Nova digitação. A tela sum iu. Outra apareceu.
– Sim . Já deve estar em barcando.
♦ ♦ ♦
Elizabeth aj ustou a alça da bolsa e se levantou. Seu passo era apressado, sua cabeça estava erguida. Ainda tinha os óculos, a peruca e a prótese, para parecer com a foto de Lisa Sherm an no passaporte.
Faltavam ainda quatro portões quando ela ouviu um fragm ento do noticiário da CNN. Parou bruscam ente. Um hom em m anobrando um a enorm e m ala com rodinhas chocou-se com ela. Ele fez um gesto agressivo, com o se tivesse sido fechado no trânsito. Ela o ignorou e m anteve os olhos na tela.
A âncora estava dando a notícia. No canto direito da tela, um a fotografia de sua velha am iga Rebecca Schay es lado a lado com um a im agem de… Beck!
Ela se aproxim ou rapidam ente da TV. Sob as im agens, em letras cor de sangue, as palavras Morte na câmara escura.
– David Beck é suspeito do assassinato. Mas será este o único crim e que ele com eteu? Jack Turner, da CNN, tem m ais inform ações.
A âncora desapareceu. Em seu lugar, dois hom ens com j aquetas da polícia de Nova York transportavam um a m aca com um corpo dentro de um saco preto. Ela reconheceu im ediatam ente o prédio e quase suspirou. Oito anos. Oito anos haviam se passado, m as o estúdio de Rebecca continuava no m esm o local.
Um a voz m asculina, presum ivelm ente de Jack Turner, com eçou o relato:
– O assassinato de um a das m ais badaladas fotógrafas de m oda de Nova York é um caso sinistro. Rebecca Schay es foi encontrada m orta, em sua câm ara escura, com dois tiros na cabeça dados à queim a-roupa. – Por alguns instantes, a tela exibiu um a fotografia de Rebecca sorridente. – O suspeito é um velho am igo, Dr. David Beck, pediatra em um a clínica da cidade. – A im agem de Beck, sem sorriso, encheu a tela. Ela quase desabou. – O Dr. Beck quase foi preso hoj e de m anhã após atacar um policial. Ele continua foragido e supõe-se que estej a arm ado. Quem tiver algum a inform ação sobre seu paradeiro… – Um núm ero de telefone apareceu em letras am arelas. Jack Turner leu o núm ero antes de continuar. – Mas o que torna este caso ainda m ais sinistro são as inform ações de nossa fonte no FBI. Supostam ente, o Dr. Beck está ligado ao assassinato de dois hom ens cuj os corpos foram recentem ente descobertos na Pensilvânia, não longe de onde a fam ília dele tinha um a casa de veraneio. E o pior de tudo: o Dr. David Beck tam bém é suspeito da m orte, oito anos atrás, de sua esposa, Elizabeth.
Um a fotografia de m ulher que ela m al reconhecia apareceu. De repente se sentiu indefesa, encurralada. Sua im agem desapareceu e a âncora retornou:
– Jack, não se acreditava que Elizabeth Beck tinha sido vítim a do serial killer Elroy “KillRoy ” Kellerton?
– Correto, Terese. As autoridades evitam com entar o caso e negam que haj a um a nova versão para o crim e. Mas os relatos que estam os recebendo vêm de fontes inteiram ente confiáveis.
– A polícia j á sabe o m otivo dos crim es, Jack?
– Ainda não sabem os. Tem -se especulado que pode ter havido um triângulo am oroso. A senhora Schay es era casada com Gary Lam ont, que prefere não dar entrevistas. Mas, por enquanto, isso não passa de conj ectura.
Ainda de olho na tela da TV, ela sentiu as lágrim as com eçarem a brotar.
– O Dr. Beck continua foragido?
– Sim , Terese. A polícia está pedindo a colaboração do público, m as adverte que ninguém deve se aproxim ar do crim inoso por conta própria.
Seguiu-se um a conversa fiada.
Ela se afastou da TV. Rebecca. Meu Deus, não era possível! E ainda por cim a havia se casado. Provavelm ente havia escolhido vestido e louça e feito todas aquelas frescuras de que elas costum avam debochar. Com o? Com o foi que Rebecca se envolvera com aquilo tudo? Ela não sabia de nada. E por que a m ataram ?
Depois o pensam ento voltou a m artelar em sua cabeça: “O que foi que eu fiz?”
Ela havia voltado. Eles haviam com eçado a procurar por ela.
Com o é que eles poderiam descobri-la? Sim ples. Observando as pessoas m ais próxim as a ela. Loucura ela voltar e pôr em risco todos aqueles com quem se im portava. Ela havia feito um a grande besteira. E agora sua am iga estava m orta.
– Voo 174 da British Airway s partindo para Londres. Últim a cham ada.
Não havia tem po para se m artirizar. Pense. O que fazer? As pessoas queridas estão em perigo. Beck – de repente ela se lem brou do seu disfarce idiota – estava fugindo. Havia gente poderosa contra ele. Se estavam tentando enquadrá-lo por assassinato – e isso parecia bem óbvio àquela altura –, ele não teria nenhum a chance.
Ela não podia sim plesm ente se m andar. Ainda não. Não enquanto não tivesse certeza de que Beck estava em segurança.
Deu m eia-volta e procurou um a porta de saída.
♦ ♦ ♦
Quando Peter Flannery finalm ente viu o noticiário sobre a caçada a David Beck, pegou o telefone e ligou para um am igo na prom otoria pública.
– Quem está à frente do caso de Beck? – perguntou Flannery .
– Fein.
“Um a besta quadrada”, pensou Flannery .
– Eu vi o cara hoj e.
– David Beck?
– Sim – respondeu Flannery . – Ele m e fez um a visita.
– Por quê?
Flannery cortou o barato do am igo.
– Acho m elhor você m e pôr em contato com Fein.